sábado, 31 de dezembro de 2011

Os 10 Melhores Filmes de 2011

Melhor Filme
Terrence Malick











Veja os trailers dos filmes aqui.

2011 no Cinema: Terrence Malick

Melhor Direção
Terrence Malick
A Árvore da Vida

Ambição não pode ser confundida com pretensão, especialmente no mundo das artes onde tudo é tão subjetivo e os mais variados estímulos humanos são acionados. Não dá para compreender porque a crítica brasileira foi tão raivosa com A Árvore da Vida, de Terrence Malick. É um filme difícil de ser digerido, é, mas nada justifica o estigma que impuseram ao novo trabalho do diretor nas salas brasileiras. A impressão que ficou é a de que todos simplesmente fizeram birra com a vitória de Mallick em Cannes e se empenharam na missão de mostrar por "A" mais "B" que A Árvore da Vida é um filme inacessível, pedante e arrastado. Terrence Malick subverteu expectativas e criou uma obra sensorial. A Árvore da Vida não é um filme para ser entendido com a racionalidade. Perfecionista, o diretor levou anos na edição do filme, construiu o roteiro gradualmente durante as filmagens e realizou um projeto corajoso. Filmado como fragmentos de memória, percepções e sentimentos de Jack, vivido por Sean Penn na fase adulta, A Árvore da Vida não obedece linearidade ou qualquer lógica narrativa. Referências familiares, infância, amadurecimento e os desígnios de Deus estão entre as principais preocupações de um cineasta que quis buscar em imagens e emoções caminhos para tentar entender as inquietações que carregamos por toda a nossa vida. Quer melhor legado para um diretor nos deixar que este?

Em anos anteriores: Martin Scorsese por Ilha do Medo (2010), James Cameron por Avatar (2009), Christopher Nolan por Batman - O Cavaleiro das Trevas (2008), Todd Field por Pecados Íntimos (2007) e Alfonso Cuarón por Filhos da Esperança (2006).

Veja a lista de indicados aqui.

2011 no Cinema: Melancolia e Tudo pelo Poder

Melhor Roteiro Original
Melancolia
Lars Von Trier

Dividido em atos, como acontece normalmente com os filmes de Lars Von Trier, Melancolia é um dos melhores trabalhos da carreira do dinamarquês que utiliza o fim dos dias na Terra como mote para a construção de duas incríveis personagens, interpretadas por Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg. O diretor e roteirista desenvolve seu filme em teorias e construções psicológicas sólidas ao oferecer um outro lado da moeda e sugerir que, invariavelmente, abraçar a melancolia, tomarmos consciência de nossa própria tristeza e não forjar sentimentos e seguranças, é o melhor caminho. Enquanto Justine toma consciência de suas próprias escolhas e da realidade pasteurizada ao seu redor, Claire prefere mascarar suas próprias inseguranças com um controle e uma particidade claramente forjados para esconder sua fragilidade emocional. Com a proximidade do fim, Claire se desespera diante de uma situação que foge aos seus domínios e Justine revela-se serena e ciente de que não há nada mais que possa ser feito. Melancolia é a redenção do próprio Lars Von Trier, que sai do pessimismo com a humanidade, demonstrado em filmes como Anticristo e Dogville, para a crença de que a única salvação para a mesma é o afeto, nossa única herança na Terra, nada mais importa.

Em anos anteriores: Christopher Nolan por A Origem (2010), James Gray e Ric Menello por Amantes (2009), Woody Allen por Vicky Cristina Barcelona (2008), Peter Morgan por A Rainha (2007) e Michael Arndt por Pequena Miss Sunshine (2006).

Melhor Roteiro Adaptado
Tudo pelo Poder
George Clooney, Grant Heslov e Beau Willimon

Somente um homem tão politizado quanto George Clooney poderia dar a Tudo pelo Poder o escopo que o filme tem. Inclinado ao Partido Democrata, Clooney foi corajoso ao adquirir os direitos da peça de Beau Willimon e traduzir o real sentimento do povo norte-americano com seu atual governo, desmistificando a ideia de que o quadro político é polarizado por partidos extremos que representam os arquétipos de bom e mau. A idealização do governo Obama se arrefeceu e o que restou foi a imagem de que, infelizmente, os meandros da democracia estão corrompidos. Não tem para onde correr, o que menos interessa aqui é o bem estar da nação. Clooney, Willimon e Heslov, habitual parceiro nos filmes de Clooney, como Boa Noite e Boa Sorte, criam uma trama engenhosa, repleta de reviravoltas. O longa é pertinente e dialoga diretamente com o atual momento dos EUA. Em um ano marcado pelo cinema autoral (muitos diretores e roteiristas como em Terrence Malick, Darren Aronofsky, Abbas Kiarostami, Lars Von Trier e David Michôd), Clooney é mais um representante com Tudo pelo Poder.

Em anos anteriores: Aaron Sorkin por A Rede Social (2010), Peter Morgan por Frost/Nixon (2009), Christopher Nolan e Jonathan Nolan por Batman - O Cavaleiro das Trevas (2008), Todd Field e Tom Perrotta por Pecados Íntimos (2007).

Veja lista de indicados aqui.

2011 no Cinema: Juliette Binoche

Melhor Atriz
Juliette Binoche
Cópia Fiel

Aos 47 anos, a francesa Juliette Binoche é dona de um currículo variado, flexível. Já trabalhou com Jean-Luc Godard em Eu vos Saúdo Maria; protagonizou a trilogia das cores do polonês Krzysztof Kieslowski (A Liberdade é Azul, A Igualdade é Branca e A Fraternidade é Vermelha); e ganhou um Oscar de melhor atriz coadjuvante por O Paciente Inglês, do falecido Anthony Minghella. Assim, trabalhando com diretores dos mais diferentes nichos e nacionalidades, Binoche conseguiu diversidade e versatilidade em sua filmografia. No filme que lhe rendeu a Palma de Ouro no Festival de Cannes, Cópia Fiel, do iraniano Abbas Kiarostami, Binoche interpreta Elle, dona de uma galeria de arte na Toscana que é fascinada por um escritor britânico chamado James Miller. Quando Miller vai à Toscana para divulgar seu último livro, Elle não esconde a alegria e a expectativa do encontro com o escritor. Ao longo do filme a relação de ambos vai mostrando-se mais estreita que a aparência e Elle serve como fio condutor para Kiarostami dissecar o relacionamento entre homem e mulher, até que ponto forjamos sentimentos e relações, a troco de que? Binoche retrata Elle como uma mulher insegura, crédula e submissa a uma figura que estava apenas em seus sonhos e suas expectativas. A atriz vai gradualmente desnudando sua personagem para a plateia em uma composição que exigiu técnica e timing da atriz para saber a hora certa de entregar e expor Elle ao público e ao personagem de William Shimell. Um desafio para o público e ainda maior para a atriz.

Em anos anteriores: Giovanna Mezzogiorno em Vincere (2010), Kate Winslet em Foi Apenas um Sonho (2009), Nicole Kidman em Margot e o Casamento (2008), Marion Cotillard em Piaf - Um Hino ao Amor (2007) e Meryl Streep em O Diabo veste Prada (2006).

Veja a lista de indicadas aqui.

2011 no Cinema: Brad Pitt

Melhor Ator
Brad Pitt
A Árvore da Vida

Brad Pitt carregou por muitos anos o estigma de canastrão. O primeiro grande trabalho de William Bradley Pitt nas telonas foi em Thelma e Louise, de Ridley Scott, e ele não fazia muito no filme, a não ser conquistar a personagem de Geena Davis com seu abdômen. Desde então, Brad Pitt foi o galã máximo de Hollywood com outros tantos filmes, como Lendas da Paixão e Encontro Marcado. Seus desempenhos eram sofríveis, Brad Pitt não é o caso de talento nato, mas dilapidado com o tempo. Com muita persistência, dedicação e escolhas certas, Pitt começou a mostrar que é um grande ator. Se David Fincher foi um verdadeiro ás na manga com filmes cruciais como Seven, Clube da Luta e O Curioso Caso de Benjamin Button; Alejandro González Iñarritú com Babel arrancou um de seus desempenhos mais cortantes; e Andrew Dominik lhe rendeu o prêmio de melhor ator no Festival de Veneza com O Assassinato de Jesse James, Terrence Malick foi responsável pela interpretação mais comovente do ator em A Árvore da Vida. No filme, Pitt interpreta o Sr. O'Brien um pai rigoroso e, por esta razão, temido por seus filhos, mas amoroso e dedicado à família. Em sua composição, Pitt traz um homem ríspido e com concepções duras e amargas sobre a vida, um contraponto bem claro à Sra. O'Brien de Jessica Chastain. O ator acerta ao evitar sobrepor a inflexibilidade de O'Brien aos sentimentos que ele nutre por seus filhos e sua esposa, há sensibilidade naquele homem, porém ele a manifesta de uma maneira diferente. Apesar de toda a agressividade e o temor que provoca nos meninos, Pitt deixa claro que é apenas uma forma que O'Brien encontrou de prepará-los para vida. Trata-se de um daqueles casos em que se conjugam na carreira de um ator o momento apropriado e o filme certo para realizar um trabalho simplesmente brilhante.

Em anos anteriores: Lenardo DiCaprio em Ilha do Medo (2010), Ryan Gosling em A Garota Ideal (2009), Daniel Day-Lewis em Sangue Negro (2008), Gerard Butler em 300 (2007) e Philip Seymour Hoffman em Capote (2006).

Veja lista de indicados aqui.

2011 no Cinema: Jacki Weaver

Melhor Atriz Coadjuvante
Jacki Weaver
Reino Animal

Veterana na Austrália, Jacki Weaver está na estrada desde a década de 1960, entre trabalhos no cinema, teatro e televisão em seu país de origem. Ela já esteve em Picnic na Montanha Misteriosa, de Peter Weir; Caddie, de Donald Crambie; e Stork, de Tim Burstall. A atriz também já se aventurou como cantora e foi um dos maiores sex symbols do país na década de 1970. No entanto, precisou chegar em 2011 para conquistar o mundo e ganhar prêmios com sua performance em Reino Animal, primeira indicação ao Oscar de Weaver. Roger Friedman, crítico de cinema, estava inspirado quando escreveu sobre Reino Animal e descreveu a personagem de Jacki Weaver no filme como "uma das mães mais diabólicas da história do cinema". Alguém esperava que Janine Cody fosse tomar a atitude que tomou no final do longa? Com fala mansa e representando o que poderia ser um contraponto em uma família de crimonosos, Weaver desconstrói a imagem de mãe zelosa e a utiliza como subsídio para construir as neuroses e obsessividade de Janine Cody. Centralizadora, a personagem de Weaver é o extremo oposto de Pope de Ben Mendelsohn, o aspecto sombrio de Janine está em sua frieza, aparentemente nada a abala e ela se revela como o grande esteio dos Cody. Assustador. 

Em anos anteriores: Kristin Scott Thomas em O Garoto de Liverpool (2010), Zoe Saldana em Avatar (2009), Vanessa Redgrave em Desejo e Reparação (2008), Michelle Pfeiffer em Hairspray (2007) e Mia Kirschner em Dália Negra (2006). 

Veja lista de indicados aqui.

2011 no Cinema: Ben Mendelsohn

Melhor Ator Coadjuvante
Ben Mendelsohn
Reino Animal

O australiano Ben Mendelsohn está na estrada desde a década de 1980. O ator já recebeu oito indicações no AFI Awards, prêmio máximo do cinema australiano, mas só conseguiu catapultar sua carreira no ano passado com Reino Animal. Interpretando o elo mais psicótico da família Cody, uma verdadeira quadrilha de criminosos, Ben Mendelsohn dá vida a Pope, um sujeito instável e extremamente agressivo. Mendelsohn é uma verdadeira bomba relógio em cena, imprevisível e devastador em seus efeitos, deixando um clima de insegurança constante na narrativa, o que é muito bom. O ator é o elemento tenso e paranóico de todo o filme, conduzindo a tensão que David Michôd quis imprimir neste grande filme australiano que infelizmente o público brasileiro só pôde conferir diretamente em DVD. A composição do australiano é calculada, extrema, sombria e dimensiona a sensação de perigo iminente. Aqui, segue a tradição do manicômio já formado pelos pelos vencedores anteriores desta categoria (veja abaixo). Um brilhante desempenho que merecia mais reconhecimento.

Em anos anteriores: Luke Ford em Sei que vou te amar (2010), Christoph Waltz em Bastardos Inglórios (2009), Heath Ledger em Batman - O Cavaleiro das Trevas (2008), Jackie Earle Haley em Pecados Íntimos (2007) e Jack Nicholson em Os Infiltrados (2006).

Veja lista de indicados aqui.

Imortais

Henry Cavill lidera o elenco de Imortais, épico grego do indiano Tarsem Singh.
Realizar um épico que se apoie na mitologia grega não é tarefa fácil. Lidar com tantos elementos, personagens e símbolos, torna o projeto arriscado para a maioria dos roteiristas, diretores e todos os demais profissionais envolvidos. Com Imortais, a coisa não é diferente. O indiano Tarsem Singh é um diretor extremamente visual e sua estética é dúbia, agrada em alguns momentos e desagrada em outros, como já comprovado em A Cela, filme de 2000 estrelado por Jennifer Lopez. Entre acertos e desacertos de figurino e design de produção, Imortais surpreendentemente se apoiano ritmo e na tensão entre seus atores principais, o herói Teseu, vivido por Henry Cavill, e o vilão Hyperion, de Mickey Rourke.

Buscando inspiração na clássica história grega, Teseu é um ateniense que não acredita nos deuses mas que foi escolhido pelo próprio Zeus - liberdades, liberdades - para liderar um exército contra o Rei Hyperion, que cruz o deserto em busca de uma relíquia que pode destruir a humanidade a partir da libertação dos Titãs. Assim, o filme segue a tradição dos épicos, alicerçando-se na simplicidade narrativa. É certo que a construção do Olimpo desagrada, Kellan Lutz e Isabel Lucas, por exemplo, não são os atores mais indicados para viver Poseidon e Athenas. Por um lado é compreensível a escalação - Deuses não pareceriam velhos, mas sim jovens e bonitos -, mas por outro, Singh poderia ter escaldo gente melhor, com o mínimo de potencialidade dramática. Para o alívio de todos, Luke Evans está ótimo como Zeus.

E se, no núcleo dos humanos, Freida Pinto não cumpre as expectativas, na verdade é sua personagem quem não cumpre, Henry Cavill e Mickey Rourke estão ótimos. Cavill em seu primeiro grande trabalho nas telonas - antes já havia feito Tudo pode dar certo, do Woody Allen - segura as pontas muito bem como heróis de um épico com as proporções de Imortais, dando sinais de que pode vir a ser um ótimo Superman/Clark Kent no retorno do personagem às telonas em 2013. Já Mickey Rourke, apesar do rosto praticamente inexpressível, cria um vilão assustadoramente implacável. Entre o dourado Sapucaí do Olimpo e a riqueza do figurino do oráculo e de suas "irmãs", Imortais é um épico satisfatório. Tem seus erros, sim, mas nada que merecesse tanto alarde.



Immortals, 2011. Dir.: Tarsem Singh. Roteiro: Charley Parlapanides e Vlas Parlaplanides. Elenco: Henry Cavill, Mickey Rourke, Freida Pinto, Luke Evans, John Hurt, Stephen Dorff, Joseph Morgan, Isabel Lucas, Kellan Lutz, Greg Bryk, Daniel Sharman. 110 min. Imagem Filmes.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Missão Impossível - Protocolo Fantasma


Tom Cruise encara mais peripérsias na pele do agente Ethan Hunt em Missão Impossível - Protocolo Fantasma.

Missão Impossível - Protocolo Fantasma tem três funções: preparar o terreno para a carreira de Brad Bird (diretor das animações da Pixar Os Incríveis e Ratatouille) em filmes live action, reacender o interesse por Tom Cruise no que ele sabe fazer melhor (filmes de ação) e divertir as plateias sem maiores ambições. Pois bem, todas as três metas são alcançadas com êxito pela quarta e melhor (!) produção da franquia. Se o filme de 1997 de Brian DePalma era pretensioso demais, se John Woo carregou na tinta em 2000 e se J.J. Abrams frustrou muitos com a decisão de envolver o protagonista da franquia em um casamento em 2006, Brad Bird desata todos estes nós, sem descartar os filmes anteriores, realizando um espetacular trabalho no gênero. Missão Impossível - Protocolo Fantasma é um filme que acerta por ter o timing perfeito, sabe que expectativas deve cumprir e respeita os limites do bom senso, evitando prolongamentos e tentativas de tornar complexo ou dramático demais um universo que essencialmente não o é. Sem demérito algum, pelo contrário. O quarto filme da franquia Missão Impossível é diversão garantida.

Duas sequências dominam praticamente todo o filme, uma ocorrida em Dubai e outra em Bombaim, ambas espetaculares. Bird conduz tudo com muito humor e com um nível de tensão que deixa o espectador envolvido em cada desdobramento da trama. Outra decisão acertada do diretor é fortalecer a ideia de equipe, ressaltar que Ethan Hunt não é autosuficiente e que seus parceiros não são peças descartáveis, como erroneamente os diretores anteriores fizeram. A equipe formada por Simon Pegg, Paula Patton e Jeremy Renner detém uma sinergia incrível do início ao final do longa. Pegg é hilário sem cair nos exageros e nas piadas impertinentes; Paula Patton pode gabar-se, sem o menor constrangimento, de ser a nova heroína dos filmes de ação, feminina e dominatrix na dose certa; e Jeremy Renner traz humanidade e destreza ao seu personagem, demonstrando que tem potencial no gênero e pode assumir tranquilamente a coroa de Matt Damon na nova franquia Bourne.

Mas é claro que o grande regente desta orquestra de peripérsias ivestigativas é Tom Cruise. Se redimindo de filmes ruins como Encontro Explosivo e Leões e Cordeiros, sem falar da sua constrangedora e excessivamente exposta vida pessoal desde o seu casamento com Katie Holmes, o ator tem um desempenho vibrante e mostra que é um dos grandes astros do cinema de ação, um gênero que, definitivamente, domina como ninguém. Missão Impossível - Protocolo Fantasma é apenas um aperitivo, uma amostra do que Brad Bird pode fazer com gente de carne e osso. Para Tom Cruise é a grande oportunidade de voltar aos trilhos do sucesso com um filme muito bem resolvido e que redime fracassos anteriores.



Mission Impossible - Ghost Protocol, 2011. Dir.: Brad Bird. Roteiro: Josh Appelbaum e André Nemec. Elenco: Tom Cruise, Jeremy Renner, Paula Patton, Simon Pegg, Michael Nyqvist, Léa Seydoux, Anil Kapoor, Vladimir Mashkov, Josh Holloway, Tom Wilkinson. 133 min. Paramount.

2011 no Cinema: A Árvore da Vida, Capitão América e Meia-Noite em Paris

Melhor Fotografia
A Árvore da Vida
Emmanuel Lubezki

Conhecido venenosamente nas rodinhas como a maior apresentação em Power Point já feita, A Árvore da Vida contava com a perspectiva do garoto Jack O'Brien sobre os acontecimentos, o que, surpreendetemente, poucos levaram em conta. Sequências turvas, capturadas de baixo para cima (perspectiva infantil), sem falar na oposição das cenas protagonizadas por Jessica Chastain (paz e serenidade da figura materna) e àquelas em que Brad Pitt é mostrado (medo da figura paterna),  destacando bem a dicotomia feita pelos meninos da imagem que tinham do pai e da mãe, A Árvore da Vida merece, inescapavelmente, um prêmio pela sua fotografia. Filmado como uma sequência descordenada e não linear de acontecimentos - porque assim são nossas lembranças na infância - e, muitas vezes, materializando os sentimentos do protagonista, a fotografia de A Árvore da Vida é um departamento essencial e harmônico com os propósitos do filme. Emmanuel Lubezki teve uma fundamental participação na construção da grande obra, até o momento, da carreira de Terremce Malick. Tão sensorial quanto o próprio longa.

Em anos anteriores: A Rede Social de Jeff Cronenweth (2010), O Curioso Caso de Benjamin Button de Claudio Miranda (2009), Não Estou Lá de Edward Lachman (2008), Zodíaco de Harris Savides (2007) e Dion Beebe de Memórias de uma Gueixa (2006).


Melhor Direção de Arte
Capitão América - O Primeiro Vingador
Rick Heinrichs

Contrariando a leva de super-heróis que surgiram nos últimos anos no cinema - até mesmo Thor, onde todos esperavam um pouco menos de realismo - Capitão América - O Primeiro Vingador foi uma grande surpresa. Recuperando o clima das matinês com uma estética retrô-futurista, o filme de Joe Johnston é uma história em quadrinho filmada sem tornar-se refém do material referencial, ou seja, ele não confunde as linguagens e compreende que acima de qualquer coisa, Capitão América - O Primeiro Vingador é um filme (não é, Sr. Zack Snyder?). Quando a tendência pelo realismo e pelos heróis sombrios se instalaram com Christopher Nolan e sua trilogia Batman - o que funciona muito bem com o personagem -, todos quiseram ser Nolan. No entanto, Capitão América preserva-se e diferencia-se por não se envergonhar de suas origens: sim, somos um filme de super-heróis, contamos uma história fantástica e não nos envergonhamos disso! O longa da Marvel tem uma qualidade artística impressionante, dentre estes aspectos se destaca a direção de arte. Alguém se lembra da cena em que Steve Rogers aparece pela primeira vez com o uniforme se apresentando ao som de "Star Spangled Man", da feira de tecnologias que Bucky leva Steven no início do filme ou mesmo da riqueza de detalhes dos bunkers militares?

Em anos anteriores: Alice no País das Maravilhas de Robert Stromberg (2010), Austrália de Catherine Martin (2009), Desejo e Reparação de Sarah Greenwood (2008), A Pele de Nick Rabolvsky (2007) e Filhos da Esperança de Jim Clay e Geoffrey Kirkland (2006).

Melhor Figurino
Meia-Noite em Paris
Sonia Grande

Os filmes de Woody Allen não chamam atenção para si. Não são seus aspectos externos que contam na narrativa (figurinos, direção de arte, nada disso), mas sim seus personagens. No entanto, Meia-Noite em Paris surpreendeu com um guarda-roupa que reproduziu com fidelidade, elegância e sem as rotineiras histrionices que afetam produções de época. Discreta, Sonia Grande realizou um trabalho muito bonito ao idealizar as vestimentas dos célebres personagens da Paris dos anos 20 e ainda encontra tempo para realçar Adriana, personagem de Marion Cotillard, sem distoá-la de todo o filme, sem falar no desafio de, no mesmo filme, retratar os trajes da Belle Époque, período que fascina Adriana e que, involuntariamente, transporta acaba sendo visitado também pelo personagem de Owen Wilson . Mais uma vez, um trabalho que acerta ao não se sobrepor a sua própria narrativa, porque assim é o seu próprio realizador.

Em anos anteriores: A Jovem Rainha Vitória de Sandy Powell (2010), Austrália de Catherine Martin (2009), Desejo e Reparação de Jacqueline Durran (2008), A Maldição da Flor Dourada de Yee Chung Man (2007) e Memórias de uma Gueixa de Colleen Atwood (2006).

Melhor Maquiagem
Cisne Negro

Apesar de recorrer à clássica montagem do Lago dos Cisnes como inspiração, a maquiagem de Cisne Negro é muito bem aplicada, servindo como amparo estético para as alucinações da própria Nina Sayers de Natalie Portman. O trabalho da equipe do cineasta Darren Aronofsky ainda é melhor no momento da apresentação final, onde deve dar conta da criação o Cisne Negro e do Cisne Branco. Arcando com poquíssimos efeitos digitais, grande parte dos fantasmas de Nina são gerados por efeitos visuais (os bons e sempre pertinentes "truques") ou sua maquiagem, já icônica em nove e cada dez festas de Halloween pelos próximo anos.

Em anos anteriores: Alice no País das Maravilhas (2010), O Curioso Caso de Benjamin Button (2009), Batman - O Cavaleiro das Trevas (2008), Apocalypto (2007) e Memórias de uma Gueixa (2006). 

Veja lista completa de indicados aqui.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

2011 no Cinema: Cisne Negro, Planeta dos Macacos e Harry Potter

Melhor Edição
Cisne Negro
Andrew Weisblum

À sua maneira, Darren Aronofsky transformou Cisne Negro no filme de horror de sua filmografia. Neste departamento, a edição de Andrew Weisblum é essencial para o longa. Conferindo um ritmo vertiginoso e alucinógeno à montagem, Weisblum administra com destreza toda a percepção que Nina Sayers tem de sua realidade, bem como a conturbada e sombria realidade paralela que a bailarina constrói alicerçada em seus medos e frustrações. Tão importante quanto a interpretação de Natalie Portman para dimensionar os conflitos de Nina e oferecer ao espectador a percepção da personagem, em prol da proposta lançada por Darren Aronofsky, a edição de Weisblum consegue ser instável, frenética e angustiante. Sinergia pura entre diretor, atriz e edição.

Em anos anteriores: Kirk Baxter e Angus Wall por A Rede Social (2010), Chris Innis e Bob Murawski por Guerra ao Terror (2009), Lee Smith por Batman - O Cavaleiro das Trevas (2008), Richard Crew por Bobby (2007).

Melhores Efeitos Visuais ou Especiais
Planeta dos Macacos - A Origem

O que mais se ouviu em 2011 nas rodas de conversa sobre cinema foram elogios ao empenho de Andy Serkis na captura de movimentos para o símio Cesar, personagem central de Planeta dos Macacos - A Origem. No entanto, há que se ponderar as avaliações neste departamento. Por mais que Serkis tenha contribuído na construção e evolução de Cesar ao longo do filme, é difícil avaliar com precisão até onde vai o ator e quando chega efetivamente a utilização de recursos digitais. Ainda é um terreno complicado. O que não dá para negar é que Planeta dos Macacos - A Origem foi a grande surpresa entre os blockbusters do ano (quem botava fé?) e a aplicação de efeitos visuais e especiais no filme é feita de maneira irrepreensível. A transformação de atores em símios, culminando com a grandiosa sequência na Golden Gate, fica registrada como a melhor utilização de efeitos digitais em prol de um enredo em 2011. Um filme que se impõe como narrativa, mas jamais causaria o mesmo efeito sem a equipe por trás de cada traço de Cesar.

Em anos anteriores: A Origem (2010), Avatar (2009), Batman - O Cavaleiro das Trevas (2008) e X-Men - O Confronto Final (2006).

Melhor Som
Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 2

Como grande evento cinematográfico que foi, Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 2 fez tremer as salas exibidoras. A fuga do banco Gringotes, a destruição de Hogwarts e o embate entre Harry e Voldemort estão entre os melhores momentos do filme e também os momentos nos quais o som é melhor aplicado. A prova de que assistir ao filme em uma boa sala de cinema faz toda a diferença, ainda que você possua um home theater equipado com os melhores aparelhos.

Em anos anteriores: A Origem (2010), Avatar (2009) e Batman - O Cavaleiro das Trevas (2008).


Melhor Mixagem de Som
Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 2

Tecnicamente, Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 2 é um dos filmes mais bem resolvidos do ano. Na verdade, tecnicamente e artisticamente, como já discutido à exaustão aqui no blog no mês de julho, quando o último filme da franquia chegou aos cinemas. No entanto, nas categorias artísticas a disputa é mais ferrenha e como este aqui é, na verdade, um prolongamento dos anteriores acaba perdendo força na disputa. Mas não há como negar que os trabalhos da equipe de som do filme são  excepcionais, coesos e, mais importante, sabem dosar efeitos e diálogos, proporcionando, na junção dos diversos elementos sonoros, a emoção no adeus a Hogwarts.

Em anos anteriores: Como treinar o seu Dragão (2010), Avatar (2009) e Wall-E (2008).

Para acessar a lista de indicados, clique aqui.

2011 no Cinema: Hans Zimmer, Dido e A.R. Rahman

Melhor Trilha Sonora Original
Hans Zimmer
Rango

Rango permitiu a Hans Zimmer ser Ennio Morricone da animação. Não que a trilha de Rango tenha grandes pretensões, mas Zimmer buscou claramente suas referências musicais nas composições feitas por Morricone como se estivesse em um filme de Sergio Leone porém animado. Para quem dizia que Zimmer andava repetitivo (um pecado), a trilha de Rango é uma ótima resposta. Inventiva, adaptável aos sabores e à dinâmica do filme e cheia de referências em sua partitura, este é um dos trabalhos mais interessantes de Hans Zimmer, de um valor inestimável para o filme. A trilha de Rango se camufla na animação, não se sobrepõe, nem se põe à margem de sua história, anda no mesmo compasso da trama e dos personagens de Gore Verbinski.

Em anos anteriores: Hans Zimmer por A Origem (2010), Michael Giacchino por Up - Altas Aventuras (2009), Dario Marianelli por Desejo e Reparação (2008), Alexandre Desplat por A Rainha (2007) e Gustavo Santaolalla por O Segredo de Brokeback Mountain (2006).



Melhor Canção Original
"If I Rise" - Dido e A.R. Rahman
127 Horas

A surpreendente parceria entre Dido e o indiano A.R. Rahman, sugerida por Danny Boyle, diretor de 127 Horas, resultou em uma canção que fala sobre ascensão. "If I Rise" dialoga com a trajetória de Arol Ralston, personagem de James Franco. A canção não consegue existir por si só, ela e 127 Horas estão conectadas, atadas. Surge como uma espécie de coro sacro que leva o protagonista ao limite na luta pela sobrevivência. A mensagem positiva é universal e já foi explorada inúmeras vezes em outros filmes, que por sua vez também se utilizaram de alguma canção com propósito semelhante. No entanto, Dido e A.R. Rahman trouxeram e mesma e velha mensagem com uma nova roupagem, uma roupagem que se funde com o trabalho de Boyle e a interpretação de James Franco.

Em anos anteriores: "We belong together" de Randy Newman em Toy Story 3 (2010), "Down in New Orleans" de Randy Newman em A Princesa e o Sapo (2009) e "Down to Earth" de Peter Gabriel e Thomas Newman em Wall-E (2008).

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Código de Honra

Chris Evans combate o corrosivo cartel dos insumos hospitalares em Código de Honra.
Está ficando cada vez mais difícil para as distribuidoras lançarem seus filmes nos cinemas. Só em 2011, produções importantes como Reino Animal, Toda Forma de Amor e Hanna chegaram direto em DVD e Blu-Ray. Os motivos estão diretamente relacionados à pirataria, ao desinteresse das plateias, mas principalmente à febre dos cinemas pelo 3D, algo que contraditoriamente salvou a indústria com a mesma rapidez que anda exaurindo com a disponibilidade de mais e mais espaços para produções medíocres como Terror na Água, que certamente não teria a mesma atenção anos atrás, época em que as projeções em 3D ainda não tinham chegado ao Brasil. 2011 confirmou o prognóstico de que a popularização do 3D foi um verdadeiro entrave para a chegada de muitos lançamentos. Código de Honra foi um deles.

Mais uma vez os meandros da indústria da saúde nos EUA é discutido no cinema, desta vez a atenção volta-se para a arriscada utilização em hospitais de insumos reaproveitáveis, prática responsável pela proliferação de epidemias como a AIDS. No longa, uma enfermeira acidentalmente é perfurada por uma seringa utilizada por um paciente. O fato desencadeia um processo movido por um escritório de advocacia gerido por dois jovens advogados. A intenção é implementar a utilização obrigatória de seringas descartáveis nos hospitais norte-americanos de modo que mais mortes envolvendo profissionais da saúde que lidam diretamente com estas situações sejam evitadas. Em meio a todo este litígio, que envolve teorias conspiratórias - muitas delas procedentes, na verdade, a maioria -, um dos advogados do caso, Mike Weiss, lida com seu vício por drogas pesadas como cocaína.

Código de Honra (certamente uma das traduções mais estúpidas que já vi) é certeiro e pertinente na discussão do tema e na exposição de fatos e de seus argumentos. Baseado em fatos reais, o longa, infelizmente (digo infelizmente porque é inevitável), tropeça quando tenta conciliar sua abordagem política e social com o drama pessoal do protagonista. Não é que o longa não consiga dimensionar estas linhas narrativas, mas torna-se complicado para seus realizadores estabelecer um paralelo, uma interseção entre os fantasmas de Weiss e o caso dos cartéis. No entanto, é admirável a maturidade dos irmãos Kassen, um deles está no elenco como o sócio de Weiss, e a interpretação de Chris Evans.

 Carregando uma mácula que certamente terá que conviver por mais alguns anos, Evans comprova em Código de Honra que é um ator dedicado e tem a sensibilidade necessária para interpretar personagens densos e complicados. Como Mike Weiss, Chris Evans trafega por terrenos pantanosos e obscuros, o personagem lida com fantasmas pessoais - a solidão, o vício e a posterior abstinência por substâncias químicas -  de maneira visceral. Em determinado momento, a perspicácia e inteligência de Weiss é colocada à prova, a ponto do advogado perder-se ao constatar que tudo aquilo que lhe dava suporte e aparentemente o ajudava a enfrentar situações mais complicadas já não consegue suprir suas necessidades instantâneas.




Puncture, 2011. Dir.: Adam Kassen e Mark Kassen. Roteiro: Chirs Lopata. Elenco: Chris Evans, Mark Kassen, Vinessa Shaw, Marshall Bell, Brett Cullen, Jesse L.Martin, Roxanna Hope, Michael Biehn, Kate Burton, Erinn Allison, Tess Parker. 100 min. Focus.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

2011 no Cinema: Super 8, Hanna e Namorados para Sempre

Jovem Ator ou Atriz do Ano
Saoirse Ronan
Hanna

Revelada em Desejo e Reparação, Saoirse Ronan retorna sob a batuta de Joe Wright em sua primeira incursão no cinema de ação e o resultado não poderia ser melhor. Ronan interpreta a personagem título de Hanna, uma garota treinada por seu pai, um agente da CIA em fuga, para se tornar uma verdadeira máquina de matar. Após anos isolada, Hanna tem a oportunidade de conviver com pessoas e começa a perceber que, ao contrário do que seu pai sempre lhe passou, não foi preparada para todas as situações da vida. Ronan consegue retratar esta personagem com tanta delicadeza e profissionalismo que mesmo contracenando com uma atriz tão visceral quanto Cate Blanchett a garota consegue tomar o filme para si, conduzindo gradualmente o espectador às novas descobertas de Hanna. O ritmo frenético do filme se contrapõe ao drama da personagem e suas modificações internas, uma contribuição exclusiva de Ronan e que torna o trabalho de Wright mais que um simples filme de ação.

Em anos anteriores: Max Records em Onde vivem os Monstros (2010), Isabelle Fuhrman em A Órfã (2009) e Kodi Smit-McPhee em Romulus, Meu Pai (2008).



Melhor Elenco
Super 8
Joel Courtney
Elle Faning
Riley Griffiths
Ryan Lee
Gabriel Basso
Zach Mills
Kyle Chandler 
Ron Eldard

Super 8 não foi dirigido por Steven Spielberg, foi produzido por ele, mas é uma clara homenagem de J.J. Abrams ao mestre. E, ainda que ele não tenha sido o que muitos esperavam, o filme segue uma tradição que Spielberg manteve durante toda sua filmografia: a sensibilidade na escolha de seu elenco infantil. Já disse que Super 8 vale o ingresso pelo "bônus" dos créditos, onde acompanhamos o filme caseiro desenvolvido pelo grupo de crianças que protagoniza a produção durante os eventos do filme? Pois é, o grupo de garotos e a única menina, a encantadora Elle Faning (bem mais eficaz e talentosa que sua irmã), por si só justifica o filme. Ainda que ele peque justamente no desenvolvimento de seus dramas, em especial do protagonista, cuja influência da história de seus pais é sempre lembrada na trama, mas não ganha o aprofundamento que sugere,  não dá para ficar restrito a eventuais falhas do filme, fiquemos com a ótima lembrança de Courtney, Faning e cia..

Em anos anteriores: O Garoto de Liverpool (2010), Bastardos Inglórios (2009) e Batman - O Cavaleiro das Trevas (2008).
Melhor Dupla em Cena
Ryan Gosling e Michelle Williams
Namorados para Sempre

Antes de começarem a filmar as sequências em que seus personagens estão casados em Namorados para Sempre, Ryan Gosling e Michelle Williams passaram pela experiência de morarem juntos por alguns dias. O cineasta Derek Cianfrance queria criar a intimidade necessária entre os atores para passar o máximo de naturalidade à história. O resultado é excelente, Gosling e Williams tornam-se cúmplices e compartilham as frustrações de Dean e Cindy, dois jovens apaixonados que perdem-se em meio às exigências e aspereza da vida a dois. Além do trabalho da dupla, a menção vale para o diretor Derek Cianfrance que contribuiu para que Namorados para Sempre contornasse as obviedades técnicas repetidas à exaustão pelo cinema indie norte-americano.

Em anos anteriores: Annette Bening e Julianne Moore em Minhas Mães e Meu Pai (2010) e Leonardo DiCaprio e Kate Winslet em Foi Apenas um Sonho (2009).

Veja lista de indicados aqui.

2011 no Cinema: Rango

Melhor Longa de Animação
Rango
Gore Verbinski

Com a Pixar oferecendo um de seus filmes mais fracos para o público, Carros 2, foi a vez dos demais estúdios de animação fazerem a festa. Bem, quase. O ano não reservou trabalhos inesquecíveis em animação, mas Rango fincou seu nome como uma das produções mais notáveis do gênero. Gore Verbinski realiza sua primeira animação e nos transporta para o clássico Velho Oeste através do camaleão de estimação Rango. Após um acidente, ele acaba parando na cidade de Poeira, onde a água está em escassez e por isso mesmo é a maior riqueza da região. Verbinski flerta com o gênero, inserindo referências e preenchendo a tela com ironia e com personagens deliciosos. Mas Rango não seria o que é se fosse um amontoado de referências, sustenta-se por si só, tem identidade como animação e ainda é um trabalho extremamente autoral. Quem dira que, após tantas promessas de revigoração do gênero, uma animação protagonizada por um lagarto se tornaria um dos principais expoentes do western no cinema?
Em anos anteriores: Toy Story 3 (2010).

Melhor Design de Produção em Animação
Rango

A equipe de Rango foi capaz de reproduzir uma estética à la Sergio Leone nos cenários da animação, principalmente na cidade de Poeira. Os responsáveis pelo longa de animação também acertaram na criação de seus personagens, realizando uma pesquisa meticulosa que durou meses no deserto norte-americano em busca de espécies que pudessem representar com propriedade personagens clássicos do gênero.

Veja lista de indicados aqui.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

2011 no Cinema: O Palhaço, Meu País e Bruna Surfistinha

Melhor Filme Nacional
O Palhaço
Selton Mello

Colocando em uma balança, o ano não foi bom para o cinema nacional. No circuito comercial surgiram filmes embaraçosos como Cilada.com e Assalto ao Banco Central, já entre os lançamentos autorais a pasmaceira foi generalizada. Eis que surge Selton Mello, em seu segundo longa-metragem, e realiza uma das produções mais importantes de nossa filmografi recente. Autoral e comercial, a história do palhaço Benjamin é comovente e reverencia a arte como ofício. Mello demonstra maturidade e sensibilidade em pouco tempo de estrada atrás da câmera, mas o suficiente para deixar muito veterano constrangido pelo que já fez e pelo que ainda pretende fazer. A jornada existencial de Benjamin promove risos e lágrimas na mesma proporção, retomando a figura clássica de Mazzaropi e Didi Mocó - em seus áureos tempos - que por muitos anos protagonizaram e ajudaram a alavancar a produção nacinal, adicionou a pertinência sutil de Charles Chaplin e a estética e o lirismo de Federico Fellini. Querem referências melhores?

Em anos anteriores: As Melhores Coisas do Mundo (2010), À Deriva (2009), Meu Nome não é Johnny (2008) e Saneamento Básico (2007).

Melhor Atriz Nacional
Débora Falabella
Meu País

Toda a narrativa de Meu País, filme de André Ristum, acompanha a transformação de Marcos, personagem de Rodrigo Santoro, que passa a se abrir para o mundo e combater antigos fantasmas após a repentina morte de seu pai, depois de anos sem vê-lo em função de antigas e não cicatrizadas desavenças. No entanto, a personagem de Débora Falabella, Manuela, a meia-irmã do protagonista que é vítima de deficiência mental, quem deflagra todos os processos de transformação dele ao longo do filme. Através de Manuela, todas as mágoas de Marcos se dissolvem em prol de algo maior, o resgate de sua própria identidade, negada em função da tumultuada relação que o primogênito tinha com seu pai. A composição de Falabella é delicadíssima e expõe a atriz a riscos e armadilhas, algo que ela contorna com muita sensibilidade. Débora evita transformar Manuela em um clichê ambulante da deficiente mental, conseguindo colocar recursos externos como gestos e falas à serviço das emoções de sua personagem e não o contrário, como comumente vemos e que resultam em interpretações no mínimo constrangedoras.

Em anos anteriores: Glória Pires em Lula - O Filho do Brasil (2010), Laura Neiva em À Deriva (2009), Letícia Sabatella em Romance (2008) e Fernanda Torres em Saneamento Básico (2007).

Melhor Ator Nacional
Selton Mello
O Palhaço

Selton Mello é o nosso Charles Chaplin em O Palhaço. Aquele que com tão pouco conseguiu transmitir um universo rico e complexo de emoções, percepções e ideias. A simplicidade à serviço do olhar perspicaz sobre a condição humana. O Palhaço é um trabalho ainda mais complexo já que além de atuar, Mello teve que se multiplicar nas funções de diretor e roteirista. O mais incrível é que ele conseguiu fazer tudo muito bem, um trabalho acima da média. O ator já esteve aqui por três vezes, seus trabalhos em Meu Nome não é Johnny, Jean Charles e Os Desafinados, não há como esconder que é um dos favoritos do blog. Mas O Palhaço é um caso particular já que, ao mesmo tempo, é uma interpretação tão complexa e simples em sua composição. Mello transmite tristeza, ironia, doçura, ingenuidade, enfim, toda sorte de elementos cognitivos que enriquecem o personagem, engrandece o trabalho de outros atores (um elenco uníssono, inusitado e afiadíssimo) e dá corpo ao filme. Não menos que memorável.

Em anos anteriores: Francisco Miguez em As Melhores Coisas do Mundo (2010), Selton Mello em Jean Charles (2009), Selton Mello em Meu Nome não é Johnny (2008) e Wagner Moura em Tropa de Elite (2007).

Melhor Atriz Coadjuvante Nacional
Fabíula Nascimento
Bruna Surfistinha

Bruna Surfistinha não poderia faltar na lista. Um dos trabalhos mais surpreendentes do nosso cinema em 2011 - em expectativas e resultado final, afinal ninguém esperava que um filme sobre a garota do veneno do escorpião fosse ser tão interessante e bem resolvido - deu projeção ao nome de Fabíula Nascimento, curitibana que interpretou Janine, uma das prostitutas da casa da cafetina Larissa, personagem de Drica Moraes. Inicialmente impondo-se como antagonista natural de Raquel Pacheco, a Bruna Surfistinha de Deborah Secco, Nascimento vai gradualmente revelando as camadas de sua personagem, mostrando que existe muito por trás da vida de Janine, uma fragilidade que ela naturalmente evita demonstrar, utilizando como armadura uma espécie de casca impermeável e arredia a momentos de fragilidade. A atriz protagoniza uma das melhores cenas do film, em um salão de cabeleireiro, só por ela já merecia menção honrosa. 

Em anos anteriores: Áurea Baptista em Os Famosos e os Duendes da Morte (2010), Débora Bloch em À Deriva (2009), Darlene Glória em Feliz Natal (2008) e Dira Paes em Baixio das Bestas (2007).

Melhor Ator Coadjuvante Nacional
Paulo José
O Palhaço

Incrível como Paulo José, lutando contra todas as adversidades que o Parkinson certamente lhe traz, consegue interpretações riquíssimas como a que ele apresenta em O Palhaço. O próprio ator já declarou que quando chega para trabalhar nos sets de filmagens, a doença praticamente desaparece e isto é visível aos olhos de qualquer um. Como Valdemar ou Puro Sangue, quando realiza sua parceria na arena do circo com Pangaré, o Benjamin de Selton Mello, seu filho, Paulo José consegue extrair a maturidade e a paciência exata para compreender as angústias de seu filho. Na cena mais emocionante de todo o longa, Puro Sangue se surpreende com o retorno de Pangaré e, naquele momento, Valdemar se faz presente, emocionado pelo retorno do filho. Um momento singelo e pontuado com muita naturalidade e a discrição apropriada.

Em anos anteriores: Irandhir Santos em Tropa de Elite 2 (2010), Luís Miranda em Jean Charles (2009), Selton Mello em Os Desafinados (2008) e Caio Blat em Baixio das Bestas (2007).

Veja lista de indicados aqui.