quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Código de Honra

Chris Evans combate o corrosivo cartel dos insumos hospitalares em Código de Honra.
Está ficando cada vez mais difícil para as distribuidoras lançarem seus filmes nos cinemas. Só em 2011, produções importantes como Reino Animal, Toda Forma de Amor e Hanna chegaram direto em DVD e Blu-Ray. Os motivos estão diretamente relacionados à pirataria, ao desinteresse das plateias, mas principalmente à febre dos cinemas pelo 3D, algo que contraditoriamente salvou a indústria com a mesma rapidez que anda exaurindo com a disponibilidade de mais e mais espaços para produções medíocres como Terror na Água, que certamente não teria a mesma atenção anos atrás, época em que as projeções em 3D ainda não tinham chegado ao Brasil. 2011 confirmou o prognóstico de que a popularização do 3D foi um verdadeiro entrave para a chegada de muitos lançamentos. Código de Honra foi um deles.

Mais uma vez os meandros da indústria da saúde nos EUA é discutido no cinema, desta vez a atenção volta-se para a arriscada utilização em hospitais de insumos reaproveitáveis, prática responsável pela proliferação de epidemias como a AIDS. No longa, uma enfermeira acidentalmente é perfurada por uma seringa utilizada por um paciente. O fato desencadeia um processo movido por um escritório de advocacia gerido por dois jovens advogados. A intenção é implementar a utilização obrigatória de seringas descartáveis nos hospitais norte-americanos de modo que mais mortes envolvendo profissionais da saúde que lidam diretamente com estas situações sejam evitadas. Em meio a todo este litígio, que envolve teorias conspiratórias - muitas delas procedentes, na verdade, a maioria -, um dos advogados do caso, Mike Weiss, lida com seu vício por drogas pesadas como cocaína.

Código de Honra (certamente uma das traduções mais estúpidas que já vi) é certeiro e pertinente na discussão do tema e na exposição de fatos e de seus argumentos. Baseado em fatos reais, o longa, infelizmente (digo infelizmente porque é inevitável), tropeça quando tenta conciliar sua abordagem política e social com o drama pessoal do protagonista. Não é que o longa não consiga dimensionar estas linhas narrativas, mas torna-se complicado para seus realizadores estabelecer um paralelo, uma interseção entre os fantasmas de Weiss e o caso dos cartéis. No entanto, é admirável a maturidade dos irmãos Kassen, um deles está no elenco como o sócio de Weiss, e a interpretação de Chris Evans.

 Carregando uma mácula que certamente terá que conviver por mais alguns anos, Evans comprova em Código de Honra que é um ator dedicado e tem a sensibilidade necessária para interpretar personagens densos e complicados. Como Mike Weiss, Chris Evans trafega por terrenos pantanosos e obscuros, o personagem lida com fantasmas pessoais - a solidão, o vício e a posterior abstinência por substâncias químicas -  de maneira visceral. Em determinado momento, a perspicácia e inteligência de Weiss é colocada à prova, a ponto do advogado perder-se ao constatar que tudo aquilo que lhe dava suporte e aparentemente o ajudava a enfrentar situações mais complicadas já não consegue suprir suas necessidades instantâneas.




Puncture, 2011. Dir.: Adam Kassen e Mark Kassen. Roteiro: Chirs Lopata. Elenco: Chris Evans, Mark Kassen, Vinessa Shaw, Marshall Bell, Brett Cullen, Jesse L.Martin, Roxanna Hope, Michael Biehn, Kate Burton, Erinn Allison, Tess Parker. 100 min. Focus.

Um comentário:

Tania Araújo disse...

Texto perfeito. Muita vontade de ver o filme. Parabéns pela crítica.