segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Sag Awards 2012 - História Cruzadas vence o prêmio de melhor elenco


A entrega do prêmio do Sindicato dos Atores, o SAG, ocorreu no último domingo (29) e seguiu algumas previsões. Histórias Cruzadas, o filme com mais indicações na noite, sai como o grande vencedor na categoria melhor elenco. Pode parecer uma premiação insignificante e inexpressiva para a categoria melhor filme do Oscar, mas ocasionalmente os filmes premiados com a estatueta de melhor elenco no SAG chegam com larga vantagem no Oscar (alguém dúvida que um dos critérios para a escolha de O Discurso do Rei no ano passado tenha sido o ótimo trabalho do trio central Colin Firth, Helena Bonham-Carter e Geoffrey Rush?). No entanto, Histórias Cruzadas tem contra si o fato de que no Oscar não recebeu indicações em direção, roteiro adaptado ou edição, um fator que pesa e muito na decisão final e beneficia O Artista, A Invenção de Hugo Cabret e Os Descendentes.
De qualquer maneira, foi muito bonito ver todo o elenco de Histórias Cruzadas subir no palco para receber a glória máxima do Sindicato dos Atores. Viola Davis, Octavia Spencer, Emma Stone, Bryce Dallas Howard, Jessica Chastain, Allison Janney e Sissy Spaceck são algumas das minhas atrizes favoritas, vê-las reunidas e vibrar com a vitória do filme foi um dos momentos genuínos desta edição do SAG.


Nos prêmios específicos, Octavia Spencer e Christopher Plummer, de Histórias Cruzadas e Toda Forma de Amor, respectivamente, confirmaram um favoritismo que se repetiu por toda a temporada. O SAG era a certeza que faltava de que eles vão levar o Oscar nas categorias de interpretação coadjuvante.
Já nas categorias principais, o SAG deu algumas certezas, mas nada é 100%. Viola Davis venceu a disputa com Meryl Streep (A Dama de Ferro) e Michelle Williams (Sete Dias com Marilyn) na categoria melhor atriz, por seu trabalho em Histórias Cruzadas. Será inédito para a Academia premiar duas negras na mesma noite, praticamente irresistível! Por mais que as demais concorrentes mereçam reverência - vale destacar que ainda não vi o trabalho de nenhuma delas (somente Precisamos Falar sobre Kevin) -, a vitória de Viola é simbólica não apenas por ser negra, mas por ser uma atriz madura que somente agora conseguiu destaque na indústria, após anos penando em testes e mais testes. A premiação de Viola seria uma conquista para todas as atrizes.
No entanto, a grande surpresa da noite foi Jean Dujardin receber o prêmio de melhor ator por O Artista. O francês passou uma rasteira bem dada em dois dos maiores astros de Hollywood, George Clooney (Os Descendentes) e Brad Pitt (O Homem que Mudou o Jogo). O favoritismo de Clooney começa a ruir e, bem possível, junto com ele a possibilidade de Os Descendentes vencer O Artista no Oscar.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Os Descendentes

George Clooney entre os adolescentes de Os Descendentes, aguardado retorno de Alexander Payne.
Quando Alexander Payne surgiu com Eleição vislumbrou-se um novo talento no cinema autoral norte-americano. As Confissões de Schimidt  e Sideways - Entre umas e outras confirmaram isso e definiram o estilo do diretor e roteirista. Payne estava mais interessado na dor humana e em tramas familiares, filmes cheios de sentimento que flertavam com a comédia e com o drama sem necessariamente ir para o extremo dos dois gêneros. Os Descendentes é mais um exemplar do cineasta a seguir esta cartilha. Desta vez ele traz uma história sobre um viúvo e sua tentativa de lidar com seu próprio luto e com o luto de suas filhas. Não é um tema fácil e, por descuido de muitos diretores, rotineiramente cai no melodrama, na manipulação das plateias. Payne abre mão de tudo isso e confere naturalidade e humanidade àquela situação. O diretor parte do princípio de que nos momentos mais difíceis de nossa vida, não há porque fazer um espetáculo da própria dor.

Filmado no Havaí, Os Descendentes é uma jornada comovente da família King. Payne oferece a tragédia, mas não deixa de adoçar o olhar da plateia com momentos genuinamente cômicos. Rodado como uma espécie de road movie, O Descendentes sofre com alguns maneirismos do cineasta, resquícios de uma escola do cinema independente norte-americano do qual fez parte em um de seus picos, no início dos anos 2000, mas que hoje já foi superado. No entanto, o olhar de Payne para o luto daquela família é tão sincero e singular que qualquer repetição narrativa pode ser perdoada até mesmo pelo mais implacável e experiente espectador.

Contando com um dos desempenhos mais entregues da carreira de George Clooney, Payne garante as lágrimas e o sorriso da plateia sem "forçação de barra". Esforçado na figura de um homem cheio de virtudes, uma delas é assumir suas próprias falhas como marido e pai, Clooney estabelece uma dinâmica singular com os jovens Shailene Woodley, Amara Miller e Nick Krause. As meninas, em especial, são os dois grandes achados do filme. Amara Miller é uma preciosidade em cena e consegue lidar de maneira muito espontânea com os diálogos rápidos e sutilmente cômicos do roteirista. Já Shailene Woodley está formidável como a adolescente rebelde que no fundo esconde uma grande admiração e amor por seu pai. Woodley foi fundamental para Clooney conseguir o desempenho que conseguiu, a garota provoca e testa a todo momento as reações do ator, o que é ótimo para um intérprete que aparentemente não gosta de sair da zona de conforto como o astro de Os Descendentes.

Somente Alexander Payne seria capaz de transformar uma trama sobre perdas em um filme leve e espontâneo. Pode não ser um favorito pessoal de muitos na temporada, mas não tem como torcer o nariz para as emoções sinceras que o longa evoca. Descobrir que no fim de nossa existência o único legado que deixaremos para nossos entes e amigos queridos é o amor, ainda que este venha repleto de rancor e mágoa, revela-se como uma verdade incontestável diante da morte. Afinal, tudo torna-se menor diante do surpreendente e poderoso legado que é a família. 



The Descendants, 2011. Dir.: Alexander Payne. Roteiro: Alexander Payne, Nat Faxon e Jim Rash. Elenco: George Clooney, Shailene Woodley, Judy Greer, Amara Miller, Nick Krause, Matthew Lillard, Patricia Haste, Beau Bridges, Matt Corboy, Matt Esecson. 115 min. Fox.

Precisamos falar sobre Kevin

Tilda Swinton e o retrato da culpa materna em Precisamos Falar sobre Kevin.
Ao longo de nossa existência aprendemos a identificar a maternidade como um estado de graça, uma aptidão natural de toda mulher. Sempre suspeitei que toda esta construção fosse emaranhada de superficialidade, hipocrisia e machismo. Enfim, um determinismo que o mundo em que vivemos já não suporta mais. No entanto, esta mesma construção superficial proporciona um aspecto, este sim, inescapável da maternidade: a culpa. As matriarcas estão sempre se sentindo culpadas pelos atos e destino de seus filhos. Quando suas crias metem os pés pelas mãos, a primeira pergunta que lhes vêm à mente é: "Onde eu errei?". Esta culpa advém da frustração que as mães têm ao não corresponder à figura idealizada de matriarca. O quadro se complica ainda mais se pensarmos que a maioria das mulheres embarcam nessa jornada sem ao menos parar para pensar se deseja colocar uma criança no mundo. Por descuido ou por pressão das convenções sociais algumas dessas mulheres tonam-se mães, mas nem por isso são as únicas responsáveis pelo que seus filhos se tornam. Muitas vezes o mau não se origina da criação.

Precisamos Falar sobre Kevin, baseado no livro homônimo escrito por Lionel Shriver, trata sobre uma dessas mulheres. Personificada magistralmente por Tilda Swinton, Eva jamais pensou em ser mãe, engravidou por um acaso e agora tem que criar seu primogênito, Kevin. A relação dos dois sempre foi conturbada desde o início já que, desde os primeiros anos, Kevin se mostra uma criança indisciplinada e disposta a testar o nervos de sua mãe. Na adolescência, o garoto começa a revelar uma índole perversa, o que aterrorizar Eva, que nunca consegue estreitar os laços com o garoto. Assim, ela passa a cultivar uma frustração por não ter conseguido estabelecer vínculos com Kevin e por não tê-lo transformado em uma pessoa melhor. A culpa de Eva cresce ainda mais quando Kevin se envolve em um massacre escolar em seu colégio, nos moldes do ocorrido em Columbine.

O mais interessante no roteiro de Lynne Ramsay, também diretora, e Rory Kinnear é estabelecer gradualmente para o espectador que Eva não tem culpa alguma pelos caminhos tortuosos escolhidos pelo seu filho. Talvez a maior culpa da personagem tenha sido se tornar mãe, algo que nunca esteve em seus planos. A culpa materna pela tragédia causada por Kevin existe somente para Eva e para os demais personagens da trama. Ramsay nos revela o retrato de um garoto com evidentes distúrbios psiquiátricos que fogem aos domínios de Eva. No entanto, Eva cria uma relação obsessiva que a torna refém do destino daquele menino. A personagem carrega as obrigações da maternidade e de suportar os julgamentos pelo comportamento do filho como uma penitência por sua inabilidade com Kevin desde a infância.

Além do roteiro psicologicamente maduro e interessante em suas escolhas narrativas, Lynne Ramsay é responsável por um trabalho notável na direção deste filme, oferecendo-nos a perspectiva de Eva para os acontecimentos, seja em closes nos gestos dos personagens ou em elementos da cena (como o destaque que dá às atitudes de Kevin que mais irritam sua mãe ou às cores vermelhas em cena, por exemplo), seja pela estrutura não linear do filme, fragmentos passados da personagem que a torturam constantemente. A diretora também conta com excelentes atores, a começar por Tilda Swinton, intérprete da protagonista. A atriz consegue dimensionar o pesadelo diário de Eva, uma mulher que surge sempre apática e alerta no ambiente doméstico. No segundo momento, após a tragédia, Eva mostra-se cansada e imersa em solidão, distante e envergonhada. Ezra Miller, por sua vez, ator que dá vida a Kevin quando adolescente, vive um garoto completamente psicótico, provocador e ameaçador, uma cabeça doentia. Também pontua o filme com uma ótima performance o garoto Jasper Newell, que interpreta Kevin quando criança.

Precisamos Falar sobre Kevin é uma alegoria de um outro lado da maternidade, um aspecto oculto, silenciado pelo temor que a sociedade tem de desmistificar os estereótipos moldados para a mulher. À sua maneira, Eva tornou-se refém não do filho, mas da culpa que lhe foi atribuída pelo monstro que Kevin se tornou. Lynne Ramsay faz um filme assustador que oferece uma perspectiva pertinente e pouco explorada do universo materno. Esta perspectiva é ampliada através dos desempenhos arrasadores de Tilda Swinton e Ezra Miller. Precisamos Falar sobre Kevin é provocador e devastador em seus efeitos como obra cinematográfica e como testemunho de que nem sempre os caminhos da maternidade são repletos de alegrias e sentimentos nobres. E não há embaraço algum para a plateia quando se chega a esta conclusão.



We need to talk about Kevin, 2011. Dir.: Lynne Ramsay. Roteiro: Lynne Ramsay e Rory Kinnear. Elenco: Tilda Swinton, John C.Reilly, Ezra Miller, Jasper Newell, Rock Duer, Ashley Gerasimovich, Siobhan Fallon, Alex Manette, Kenneth Franklin. 112 min. Paris Filmes. 

Os Homens que não Amavam as Mulheres

Daniel Craig e Rooney Mara em Os Homens que não Amavam as Mulheres, versão fincheriana.
Desde o primeiro momento em que soube que o nome de David Fincher estava vinculado à adaptação cinematográfica norte-americana do primeiro livro do sueco Stieg Larsson para a série Millenium, Os Homens que não Amavam as Mulheres, desconfiei que não se trataria de um caça-níqueis qualquer. Os Homens que não Amavam as Mulheres já tinha se transformado em filme na Suécia em 2009, tendo suas sequências garantidas no mesmo ano. O primeiro foi dirigido por Niels Arden Oplev, ganhou ótimas resenhas e o boca-a-boca rendeu os primeiros contratos estrangeiros da atriz Noomi Rapace, intérprete de Lisbeth Salander. As demais continuações - desta vez a série esteve sob o comando de Daniel Alfredson -, seguiram o mesmo êxito financeiro, no entanto não foram muito bem quistas pela imprensa especializada.

Comparando as obras, Os Homens que não Amavam as Mulheres de  Niels Arden Oplev era um excelente filme no gênero. Bom, mas burocrático em suas opções artísticas e técnicas. Já David Fincher tranformou o universo policial de Larsson em uma autêntica e inventiva experiência cinematográfica. O diretor vai além das páginas do livro e do roteiro de Steven Zaillian e compõe um cenário pessoal, apropria-se da história, conta a sua versão dos fatos e dos personagens como se ele mesmo tivesse criado Lisbeth Salander e Mikael Blomkvist. Na verdade, ele os criou, o que se vê na tela é a versão de Fincher daqueles personagens, daquela história. Assim as adaptações devem ser.

Após uma pequena pausa no gênero que o consagrou com filmes como Seven, Vidas em Jogo e Zodíaco, Fincher dedicou tempo de sua carreira com O Curioso Caso de Benjamin Button e A Rede Social, filmes que lhe trouxeram prestígio e o tornaram finalmente aceito pela Academia de Hollywood. Com Os Homens que não Amavam as Mulheres, o diretor retorna ao seu "parque de diversões" na melhor forma. O longa é frenético, incessante, sombrio e pop desde o começo dos créditos iniciais a som de Immigrant Song, uma releitura de Trent Reznor e Atticus Ross para a canção de Led Zeppelin - até seu final em aberto e que deixa bem claro que o grande interesse do policial é em Lisbeth Salander. Ainda sobre os compositores, Ross e Reznor são responsáveis por uma das melhores trilhas da temporada, uma grande injustiça não terem sido agraciados com uma indicação ao Oscar (a vitória no ano passado pela composição em A Rede Social até atenua esta grande falta da Academia com os dois). Ross e Reznor praticamente redefinem as composições pra o gênero.

Sobre a protagonista, por mais que tenhamos nos apaixonado pela Lisbeth de Noomi Rapace, fui um dos grandes defensores de seu trabalho em 2010, não há como negar que a escalação de Rooney Mara tenha sido uma das decisões mais acertadas de Fincher. Mara tem 26 anos e aparenta fragilidade com sua baixa estatura e suas feições delicadas. Enfim, o tipo físico ideal para tranformá-la em uma punk de 23 anos, com andar de um muleque de 14, cheia de piercings e tatuagens e que ganha vida como hacker e usa seu físico para repelir qualquer tentativa de aproximação de outras pessoas, um recurso que aprendeu a usar para evitar que acontecimentos de seu passado traumático se repitam. Como se não bastasse todo o trabalho corporal (aparência e postura) que a atriz se submeteu, Mara consegue lidar brilhantemente com os recursos internos de Lisbeth: sua dificuldade de socialização, sua agilidade de raciocínio, sua inicial repulsa pelo sexo oposto e a  agressividade da personagem.

Daniel Craig também é uma escolha certeira para interpretar Mikael Blomkvist. Bem distante do tipo que costuma representar nas telas, ou seja, o homem que sempre tem a última palavra e consegue se safar das situações mais complicadas possíveis, Blomkvist é um homem comum, guiado pelo ego e curiosidade, e Craig consegue compreender  e executar isso muito bem. Há também que se ressaltar os desempenhos de Stellan Skarsgaard, Robin Wright - cujo personagem, a editora da revista Millenium, foi sabiamente extendido por Zaillian - e Christopher Plummer.

Habituado e mais habilidoso com tramas mais racionais, David Fincher encontra o meio termo com Os Homens que não Amavam as Mulheres, cuja narrativa engenhosa encontra espaço para revelar os meandros de seus personagens, especialmente Lisbeth Salander, conduzida com técnica e dedicação pela jovem Rooney Mara. A adaptação de David Fincher para a obra homônima de Stieg Larsson é ousada por suas decisões sobre a trama, já que determinadas mudanças necessárias certamente jamais serão compreendidas por fãs irritantemente xiitas. Uma ousadia e coragem que poucos teriam em Hollywood. Fincher não teve medo de arriscar e remodelou um material já pronto em seus próprios termos. Só mesmo um diretor habilidoso como ele poderia fazer isso sem resultar em um grande desastre à sombra das produções de 2009. Os Homens que não Amavam as Mulheres, de Fincher, provocam um efeito contrário: colocam a trilogia sueca à sua sombra.  



The Girl with the Dragon Tattoo, 2011. Dir.: David Fincher. Elenco: Daniel Craig, Rooney Mara, Chritopher Plummer, Robin Wright, Stellan Skarsgaard, Joely Richardson, Steven Berkoff, Goran Vinsjic, Geraldine James, Tony Way. 158 min. Sony.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

J. Edgar

Leonardo DiCaprio interpreta conservador diretor do FBI em J.Edgar, filme de Clint Eastwood.
John Edgar Hoover era uma figura controversa, muita gente torcia o nariz para suas ideias reacionárias e um longa-metragem baseado em sua vida não poderia deixar de ter seus detratores. A verdade é que Clint Eastwood (diretor), Dustin Lance Black (roteirista) e Leonardo DiCaprio (ator) tornaram J.Edgar um filme corajoso não apenas por sua mera existência, mas na maneira com que o trio conduz as emoções e o olhar da plateia para uma figura pública tão complicada e complexa quanto o lendário diretor do FBI. Hoover praticamente instituiu o FBI que conhecemos hoje. Metódico e dedicado exclusivamente a seu trabalho, um traço que escondia a vergonha que sentia de sua própria homossexualidade, Edgar repaginou o sistema investigativo norte-americano, ainda que em meio à sua progressista influência tenha se transformado em um homem que cultivou a ideia obsessiva da praga comunista, resquício do início dos anos 1920 nos EUA e de sua criação castradora e super-protetora.

Hoover detinha em seu domínio um arquivo secreto cheio de podres das figuras mais notórias da sociedade norte-americana. Apesar de ter instaurado esse clima de vigilância eterna e falta de privacidade, uma herança que ficou para os EUA até os dias atuais, Hoover conseguiu modificar a imagem da polícia norte-americana que, na ocasião de sua entrada no FBI, era comumente associada à corrupção. Edgar foi responsável por inverter os arquétipos de herói e vilão, muito bem retratada no filme através do cinema (quando Hollywood tirou os holofotes dos gângsters para trazer os policiais como os grandes mocinhos de suas tramas). Enfim, Hoover era um grande paradoxo. Conservador e progressista. Preconceituoso e homossexual.

Lance Black, que já se aventurou por esse universo só que de maneira mais panfletária em Milk, de Gus Van Sant, acerta ao trazer como norte de sua narrativa a vida pessoal de Edgar e sua relação com a homossexualidade, ponto chave para entender porque era um homem tão obsessivo, centralizador e perfeccionista em seu cargo. Para tanto, o roteirista e seu diretor, Eastwood, contam com Leonardo DiCaprio impecável em sua composição. DiCaprio retrata Hoover como um homem que a todo momento sente-se incomodado e envergonhado com a própria pele, não admitindo ser o que é e buscando refúgio em seu próprio conservadorismo e na rotina de seu trabalho. O ator transmite toda a inquietação de Hoover, uma luta interna que ele travou por toda a sua vida (Hoover nunca assumiu sua homossexualidade).

Na direção, como de praxe, Eastwood opta pela elegância e por interferir o mínimo possível no trabalho de seus atores, o que acaba sendo muito prudente para a biografia. O restante do elenco também está correto. Naomi Watts entrega dignidade à Helen Gandy, fiel secretária de Hoover, uma personagem que merecia até mesmo ser mais explorada, talvez um dos pontos fracos do filme (acredito que todos tenham ficado instigados por aquela mulher, por que tamanha devoção a Hoover durante tantos anos?). Judi Dench também está impecável como a mãe de Edgar, protagonizando uma das cenas mais emblemáticas do longa, aquela em que Edgar tenta revelar a sua mãe que não sente atração por mulheres e é interrompido com uma clara reprovação, o que nos leva à origem da dificuldade do personagem em assumir sua própria condição. Infelizmente, Armie Hammer é prejudicado pelo péssimo trabalho da equipe de maquiagem do longa ao retratar Clyde, companheiro de Edgar, na fase madura, um trabalho que berra em artificialismo e prejudica as expressões do ator. Uma pena porque Hammer certamente poeria render mais, prova disso é que ele segura muito bem as pontas quando surge sem o artifício.

Com J. Edgar, graças a Dustin Lance Black e Leonardo DiCaprio, Clint Eastwood passa longe da pieguice habitual e entrega um retrato complexo e humano de seu biografado. Antes de julgar seu protagonista, Eastwood compreendeu a origem de sua personalidade, chafurdou sua história, suas relações e seus dilemas em busca retrato mais próximo e honesto possível da realidade. J.Edgar tem suas falhas técnicas - só para nos lembrarmos quanto um recurso como maquiagem é importante para a imersão na narrativa -, mas o filme tem méritos que saltam os olhos. Um trabalho bem melhor do que os que Eastwood estava entregando nos últimos anos.



J. Edgar, 2011. Dir.: Clint Eastwood. Roteiro: Dustin Lance Black. Elenco: Leonardo DiCaprio, Naomi Watts, Judi Dench, Armie Hammer, Josh Lucas, Jeffrey Donovan, Josh Hamilton, Geoff Pierson, David A. Cooper, Gunner Wright. 137 min. Warner.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Oscar 2012 - O Artista e A Invenção de Hugo Cabret lideram lista de indicados


Os indicados da 84ª edição do Oscar foram anunciados na manhã desta terça-feira (24) pela atriz Jennifer Lawrence (indicada ao Oscar de melhor atriz no ano passado por Inverno da Alma) e por Tom Sherak, presidente da Academia.

A Invenção de Hugo Cabret foi o longa com o maior número de indicações desta edição, 11 no total. O filme de Martin Scorsese, sua estreia no terreno da fantasia infanto-juvenil, foi seguido de O Artista, do francês Michel Hazanavicius, franco favorito na disputa pela estatueta de melhor filme com 10 indicações.  O concorrente direto de O Artista na temporada, Os Descendentes, recebeu 5 indicações apenas. Além deles, confirmaram presença na categoria principal O Homem que Mudou o Jogo (6 indicações), Histórias Cruzadas (4 indicações), Cavalo de Guerra (6 indicações) e Meia-Noite em Paris (4 indicações).

Para não cair no lugar comum, vamos comentar as grandes surpresas e ausências. Conseguiram “comer pelas beiradas”, A Árvore da Vida e , ainda mais surpreendente, Tão Forte e Tão Perto. A Árvore da Vida já era de se esperar, ainda que fosse uma aposta perigosa. Mas Tão Forte e Tão Perto foi o grande “chute no saco” que a Academia deu nas bolsas de apostas este ano. O mais curioso na indicação do filme de Stephen Daldry é que ele conseguiu estar entre os melhores filmes do ano pelo Oscar com apenas duas menções na premiação (melhor filme e melhor ator coadjuvante). Isso já aconteceu antes com Um Sonho Possível , mas este contava com a lógica vantagem de ser protagonizado por Sandra Bullock, franca favorita ao prêmio de melhor atriz na ocasião. Como um longa pode ser indicado a melhor filme, se nem chega a ser mencionado em categorias chave como direção, roteiro, edição ou as principais de atuação? O mesmo pode ser dito de Cavalo de Guerra que, apesar de ter em seu benefício 6 indicações, só foi indicado em categorias técnicas e artísticas. Seria mais coerente ver Os Homens que não Amavam as Mulheres, O Espião que Sabia Demais ou mesmo Albert Nobbs. Vai entender...  As coisas eram bem mais claras quando a lista de indicados a melhor filme era formada por cinco nomes.

Entre os indicados nas categorias de interpretação, as surpresas foram ainda maiores. Todos esperavam ver os nomes de Meryl Streep, George Clooney, Viola Davis, Christopher Plummer, Octavia Spencer e Michelle Williams. Mas quem apostava em ouvir o nome do mexicano Demián Bichir? Ou o de Gary Oldman? Mais, Rooney Mara? Esta última conseguiu convencer mais os membros da Academia com sua performance em Os Homens que não Amavam as Mulheres do que Tilda Swinton em Precisamos Falar sobre Kevin, certamente uma das ausências mais sentidas. Assim como também foi sentida a ausência de Michael Fassbender em uma das interpretações mais comentadas do ano no longa Shame e Leonardo DiCaprio na criticada cinebiografia do ex-diretor do FBI, J.Edgar, dirigida por Clint Eastwood. Entre os coadjuvantes, Max Von Sydow foi a presença mais comentada, o que certamente garantiu a presença de Tão Forte e Tão Perto em melhor filme. O que nos leva à ausência de Albert Brooks e seu vilão em Drive, por sinal, um filme completamente ignorado pela Academia, só lembrado pela sua edição de som (!!!!). Agora, o que Melissa McCarthy faz entre as candidatas a melhor atriz coadjuvante? Uma indicação que certamente fará a Academia se envergonhar daqui há alguns anos. McCarthy entrou no lugar que seria de Shaileen Woodley, a jovem atriz que interpreta a filha de Clooney em Os Descendentes.

Margin Call: O Dia Antes do Fim garantiu uma indicação como melhor roteiro original, assim como o iraniano A Separação, duas gratas surpresas.  As Aventuras de Tintim deve ter sido ignorado como melhor animação pelo uso do motion capture.

Para os brasileiros há um único representante, Carlinhos Brown e Sérgio Mendes foram indicados por “Real in Rio”, canção de Rio. Na categoria foi indicada apenas uma rival, “Man or Muppet” de Os Muppets. Mas não se enganem, não será fácil.

A cerimônia do Oscar acontecerá no dia 26 de fevereiro e será exibida pela TNT e pela Globo (quer dizer, na Globo será exibida apenas uma parte da cerimônia em função do BBB, rs).
Indicados a Melhor Filme
O Artista - 10 Indicações
Melhor Filme
Melhor Diretor (Michel Hazanavicius)
Melhor Roteiro Original
Melhor Ator (Jean Dujardin)
Melhor Atriz Coadjuvante (Bérénice Bejo)
Melhor Direção de Arte
Melhor Fotografia
Melhor Figurino
Melhor Edição
Melhor Trilha Sonora Original

Os Descendentes - 5 Indicações
Melhor Filme
Melhor Diretor (Alexander Payne)
Melhor Roteiro Adaptado
Melhor Ator (George Clooney)
Melhor Edição


A Invenção de Hugo Cabret - 11 Indicações
Melhor Filme
Melhor Diretor (Martin Scorsese)
Melhor Roteiro Adaptado
Melhor Direção de Arte
Melhor Fotografia
Melhor Figurino
Melhor Edição
Melhor Trilha Sonora Original
Melhor Edição de Som
Melhor Mixagem de Som
Melhores Efeitos Visuais ou Especiais

Histórias Cruzadas - 4 Indicações
Melhor Filme
Melhor Atriz (Viola Davis)
Melhor Atriz Coadjuvante (Octavia Spencer)
Melhor Atriz Coadjuvante (Jessica Chastain)


Meia-Noite em Paris - 4 Indicações
Melhor Filme
Melhor Diretor (Woody Allen)
Melhor Roteiro Original
Melhor Direção de Arte

O Homem que Mudou o Jogo - 6 Indicações
Melhor Filme
Melhor Roteiro Adaptado
Melhor Ator (Brad Pitt)
Melhor Ator Coadjuvante (Jonah Hill)
Melhor Edição
Melhor Mixagem de Som

Cavalo de Guerra - 6 Indicações
Melhor Filme
Melhor Fotografia
Melhor Direção de Arte
Melhor Trilha Sonora Original
Melhor Edição de Som
Melhor Mixagem de Som

A Árvore da Vida - 3 Indicações
Melhor Filme
Melhor Diretor (Terrence Malick)
Melhor Fotografia


Tão Forte e Tão Perto - 2 Indicações
Melhor Filme
Melhor Ator Coadjuvante (Max Von  Sydow)

Os demais...

Os Homens que não Amavam as Mulheres -  5 Indicações
Melhor Atriz (Rooney Mara)
Melhor Fotografia
Melhor Edição
Melhor Edição de Som
Melhor Mixagem de Som

O Espião que Sabia Demais - 3 Indicações
Melhor Roteiro Adaptado
Melhor Ator (Gary Oldman)
Melhor Trilha Sonora Original

Albert Nobbs - 3 Indicações
Melhor Atriz (Glenn Close)
Melhor Atriz Coadjuvante (Janet McTeer)
Melhor Maquiagem

Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 2 - 3 Indicações
Melhor Direção de Arte
Melhor Maquiagem
Melhores Efeitos Visuais e Especiais

Transformers: O Lado Oculto da Lua - 3 Indicações
Melhores Efeitos Visuais ou Especiais
Melhor Edição de Som
Melhor Mixagem de Som

A Separação - 2 Indicações
Melhor Roteiro Original
Melhor Filme Estrangeiro (Irã)

Missão Madrinha de Casamento - 2 Indicações
Melhor Roteiro Original
Melhor Atriz Coadjuvante (Melissa McCarthy)

Sete Dias com Marilyn - 2 Indicações
Melhor Atriz (Michelle Williams)
Melhor Ator Coadjuvante (Kenneth Branagh)

A Dama de Ferro - 2 Indicações
Melhor Atriz (Meryl Streep)
Melhor Maquiagem

Tudo pelo Poder - 1 Indicação
Melhor Roteiro Adaptado

Margin Call: O Dia antes do Fim - 1 Indicação
Melhor Roteiro Original

A Better Life (sem tradução) - 1 Indicação
Melhor Ator (Demián Bichir)

Toda Forma de Amor - 1 Indicação
Melhor Ator Coadjuvante (Christopher Plummer)

Guerreiro - 1 Indicação
Melhor Ator Coadjuvante (Nick Nolte)

As Aventuras de Tintim - 1 Indicação
Melhor Trilha Sonora Original

Um Gato em Paris - 1 Indicação
Melhor Longa de Animação

Chico e Rita - 1 Indicação
Melhor Longa de Animação

Kung Fu Panda 2 - 1 Indicação
Melhor Longa de Animação

Gato de Botas - 1 Indicação
Melhor Longa de Animação

Rango - 1 Indicação
Melhor Longa de Animação

Anônimo - 1 Indicação
Melhor Figurino

W.E. - 1 Indicação
Melhor Figurino

Jane Eyre - 1 Indicação
Melhor Figurino

Os Muppets - 1 Indicação
Melhor Canção Original - "Man or Muppet"

Rio - 1 Indicação
Melhor Canção Original - "Real in Rio"

Drive - 1 Indicação
Melhor Edição de Som

Planeta dos Macacos: A Origem - 1 Indicação
Melhores Efeitos Visuais ou Especiais

Gigantes de Aço - 1 Indicação
Melhores Efeitos Visuais ou Especiais

domingo, 22 de janeiro de 2012

Bolsa de Apostas - Indicados ao Oscar 2012


A esta altura do "campeonato", a disputa parece um pouco óbvia. Bom, parece. A verdade é que a premiação do Globo de Ouro serviu mais para confundir que para esclarecer determinadas interrogações da temporada. O Artista é o tipo de filme que a Academia premiaria sem maiores restrições? Em caso de resposta negativa, quem seria seu concorrente direto? Os Descendentes ou A Invenção de Hugo Cabret? Histórias Cruzadas pode atrapalhar a festa dos três favoritos? O melhor diretor será Michel Hazanavicius ou Martin Scorsese? E a melhor atriz? Meryl Streep, Viola Davis ou a azarona Michelle Williams? O prêmio de melhor ator vai para George Clooney ou Jean Dujardin?

Bem, são alguns pontos de interrogação que durarão (acredito) até o anúncio das vitórias pelas listas dos sindicatos. A primeira delas sairá no próximo domingo (28), quando Los Angeles será palco de mais uma transmissão da cerimônia do sindicato dos atores, o SAG Awards. Meus palpites vão para Histórias Cruzadas como melhor elenco, os demais premiados serão Clooney, Davis, Plummer e Spencer.

Voltando às indicações ao Oscar, que sairão na terça-feira (24) pela manhã, O Artista, A Invenção de Hugo Cabret, Os Descendentes e Histórias Cruzadas têm suas indicações praticamente garantidas na lista de melhor filme. Como a lista de dez provavelmente será reduzida para oito indicados (neste ano a Academia mudou as regras e poderão ser indicados a melhor filme até dez longas), restarão mais quatro vagas. Uma delas será ocupada por Meia-Noite em Paris, as demais arrisco dizer que vão para Os Homens que não Amavam as Mulheres (as indicações para o sindicato dos roteiristas e para o sindicato dos diretores não foram por acaso, sinal de que o filme não é tão repulsivo assim para o quadro de votantes do Oscar) e O Homem que Mudou o Jogo.  O último nome pode ser Cavalo de Guerra, Drive, A Árvore da VidaTudo pelo Poder O Espião que Sabia Demais. Como DriveA Árvore da Vida e O Espião que Sabia Demais foram citados pouquíssimas vezes durante a temporada e Tudo pelo Poder parece vencido pelo fator tempo (o que pode ser uma percepção equivocada já que a ótima posição ocupada por Os Descendentes e o favortismo de Clooney podem reacender o interesse em indicar o filme), meu palpita vai para o decepcionante Cavalo de Guerra, de Steven Spielberg.

No geral, para as categorias principais, os palpites são:

Melhor Filme
1)O Artista
 2) Os Descendentes
3) A Invenção de Hugo Cabret
4) Histórias Cruzadas
 5) Meia-Noite em Paris
6) O Homem que Mudou o Jogo
7) Os Homens que não Amavam as Mulheres
 8) Cavalo de Guerra
9) A Árvore da Vida
10)Tudo pelo Poder

Melhor Direção
Michel Hazanavicius (O Artista)
Alexander Payne (Os Descendentes)
 Martin Scorsese (A Invenção de Hugo Cabret)
Woody  Allen (Meia-Noite em Paris)
Bennett Miller (O Homem que Mudou o Jogo)

Melhor Atriz
Meryl Streep (A Dama de Ferro)
Viola Davis (Histórias Cruzadas)
 Michelle Williams (Sete Dias com Marilyn)
Tilda Swinton (Precisamos Falar sobre Kevin)
 Glenn Close (Albert Nobbs)

Melhor Ator
 George Clooney (Os Descendentes)
Jean Dujardin (O Artista)
 Michael Fassbender (Shame)
 Leonardo DiCaprio (J.Edgar)
Brad Pitt (O Homem que Mudou o Jogo)

Melhor Atriz Coadjuvante
Octavia Spencer (Histórias Cruzadas)
 Jessica Chastain (por Histórias Cruzadas)
Janet McTeer (Albert Nobbs)
Shaileen Woodley (Os Descendentes)
 Berenice Bejo (O Artista)

Melhor Ator Coadjuvante
Christopher Plummer (Toda Forma de Amor)
Albert Brooks (Drive)
 Kenneth Branagh (Sete Dias com Marilyn)
 Jonah Hill (O Homem que Mudou o Jogo)
 Nick Nolte (Guerreiro)

Melhor Roteiro Original
Meia-Noite em Paris
O Artista
Toda Forma de Amor
50%
 Missão Madrinha de Casamento

Melhor Roteiro Adaptado
Os Descendentes
O Homem que Mudou o Jogo
 A Invenção de Hugo Cabret
Tudo pelo Poder
Os Homens que não Amavam as Mulheres

A lista de indicados ao Oscar 2012 sairá na terça-feira (24) e será publicada na íntegra no Raining Frogs.

sábado, 21 de janeiro de 2012

As Aventuras de Tintim

Spielberg resgata icônico personagem de Hergé em As Aventuras de Tintim.
Cavalo de Guerra foi um pouco decepcionante para quem esperou por quase quatro anos o retorno de Steven Spielberg no comando de um filme. Felizmente, no mesmo ano, Spielberg nos oferece As Aventuras de TinTim um primor técnico e artístico do diretor que nos faz voltar aos seus tempos de Os Caçadores da Arca Perdida. Dinâmica, inteligente e visualmente deslumbrante, As Aventuras de Tintim resgata toda a porção lúdica que não víamos há alguns anos de Steven Spielberg. Para quem ainda não conhece, As Aventuras de Tintim se baseia na clássica série dos quadrinhos do belga Hergé. Nela um intrépido repórter investigativo que casualmente envolve-se em tramas policiais misteriosas. Aqui, Tintim investiga um segredo envolvendo uma antiga embarcação chamada Licorne, a chave para o mistério está em três réplicas que guardam três enigmáticas mensagens. Para solucionar o caso, Tintim conta com a ajuda de seu fiel parceiro, o cãozinho Snowy (adorável!), traduzido aqui para Milú, e o Capitão Hadoche, um beberrão veterano dos mares.

Para começo de conversa, é inadmissível que qualquer pessoa tenha a primeira experiência com As Aventuras de Tintim  nas limitadas proporções de um televisor com imagens capturadas precariamente de salas de cinema, ainda que seu televisor tenha o máximo de polegadas possível. As Aventuras de Tintim tem as proporções da telona e Spielberg distribui a ação minunciosamente por todos os cantos da tela. Lindamente fotografado, a animação em motion capture é um deleite para os olhos e oferece o que Spielberg sabe fazer de melhor, uma satisfatória e empolgante aventura. Sem grandes rapapés ou pretensões de querer ser mais do que é, As Aventuras de Tintim é objetivo e direto na definição de seus propósitos e de seus personagens. Trata-se da veia escapista de Spielberg em sua máxima potencialidade, como só ele sabe fazer.

As Aventuras de Tintim é inquestionavelmente um marco técnico na animação. A captura de movimento de atores nunca foi tão bem aplicada em prol das expressões e composição de seus personagens, assim como a confecção dos ambientes pelos quais eles circulam. Já tínhamos comentado como 2011 foi importante para resgatar a vybe das matinés dos anos 1980 com Capitão América - O Primeiro Vingador e, de certa maneira, ainda que um pouquinho frustrante, com Super 8. As Aventuras de Tintim firma em definitivo este subgênero do cinema americano com seu mestre: Steven Spielberg.




The Adventures of Tintin, 2011. Dir.: Steven Spielberg. Roteiro: Edgar Wright, Steven Moffat e Joe Cornish. Performances capturadas de: Jamie Bell, Daniel Craig, Andy Serkis, Nick Frost, Simon Pegg, Toby Jones, Mackenzie Crook, Tony Curran. 107 min. Paramount.





terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Sherlock Holmes - O Jogo das Sombras

Robert Downey Jr. e Jude Law em Sherlock Holmes - O Jogo das Sombras.
Quando escrevi sobre Sherlock Holmes em 2010, disse que faltava ao filme ser mais Guy Ritchie. O diretor praticamente se anulou por trás do gênero. Claro que não era obrigação de Ritchie inserir suas extravagâncias narrativas de Snatch ou Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes mas faltava um algo a mais em Sherlock Holmes para torná-lo um filme imperdível dentro do gênero. Talvez esse algo a mais poderia vir do próprio Ritchie, enfim, queríamos assistir a versão dele para Holmes e não um cineasta podado por autocensura ou limitações impostas pelo estúdio. Como foi este Sherlock Holmes que Ritchie nos apresentou, Sherlock Holmes - O Jogo das Sombras dá continuidade ao filme lançado internacionalmente em 2009. Mantém o que funcionou e não funcionou no primeiro longa.

O que tornou Sherlock Holmes uma franquia em potencial foi a dinâmica criada por Robert Downey Jr. e Jude Law em cena. Salta aos olhos a cumplicidade e a sinergia entre os dois atores na pele de Holmes e Watson. Em Sherlock Holmes - O Jogo das Sombras a parceria funciona tão bem quanto no primeiro filme, conseguindo camuflar os tropeços narrativos e equívocos do roteiro, da edição e da direção do longa. A dupla é tão boa que consegue ser mais essencial ao filme que o grande vilão da história, o esperado Dr. Moriarty de Jared Harris. No entanto, há que se lamentar a rápida passagem de Rachel McAdams, cuja personagem é abruptamente descartada para dar lugar à irregular Noomi Rapace, bem menos eficiente que na triloga sueca Millenium.

Os flashbacks continuam e eles parecem arrastar o filme por diversos momentos. Aliás, a trama que envolve Moriarty e seus planos nos conflitos internacionais na Europa é desenvolvida com tanto desleixo e pouco viço pela equipe de roteiristas que ao final do filme o espectador não consegue assimilar ou dimensionar as consequências e a ponte que o longa faz com o conflito histórico verídico. No fim, Sherlock Holmes - O Jogo das Sombras apresenta-se da mesma maneira que seu predecessor. Guy Ritchie fez uma franquia nula em personalidade, mas que ganha o espectador pelo trabalho de Robert Downey Jr. e Jude Law, uma dupla sem precedentes.



Sherlock Holmes - A Game of Shadows, 2011. Dir.: Guy Ritchie. Elenco: Robert Downey Jr., Jude Law, Jared Harris, Noomi Rapace, Rachel McAdams, Stephen Fry, Kelly Reilly, Eddie Marsan, Geraldine James, William Houston, Wolf Kahler. 129 min. Warner.

Globo de Ouro 2012 - Comentários sobre a cerimônia

Melhor Filme Drama
Os Descendentes
Dir.: Alexander Payne

Como esperado, a 69ª edição do Globo de Ouro distribuiu prêmios a torto e a direito e ofereceu um panorama da disputa pelo cobiçado título de melhor filme no próximo Oscar. A imprensa estrangeira  premiou Os Descendentes como melhor filme na categoria drama e O Artista como melhor filme comédia/musical. Como previsto, o Oscar promete polarizar esta disputa até fevereiro.
No entanto, caso a Academia ache que Os Descendentes é muito Alexander Payne e que premiar O Artista, um filme mudo, não é a melhor decisão, há duas alternativas possíveis: Histórias Cruzadas e A Invenção de Hugo Cabret.
Históras Cruzadas pode ser uma opção política. De longe, o filme mais popular entre os possíveis indicados e pode ser a cereja no bolo caso a Academia escolha pelo ineditismo da premiação de duas negras na mesma noite, Vila Davis (atriz) e Octavia Spencer (atriz coadjuvante), por um filme que trata sobre o racismo nos EUA.
A Invenção de Hugo Cabret volta à posição de destaque com a premiação de Martin Scorsese no Globo de Ouro, a imprensa estrangeira colocou o filme de volta nas rodas (este é o poder de influência do Globo de Ouro no Oscar).
Assim, como balanço do Globo de Ouro e da divisão de prêmios na noite, Os Descendentes, O Artista, A Invenção de Hugo Cabret e Histórias Cruzadas são as certezas que ficam para a lista de indicados ao Oscar de melhor filme na manhã da próxima terça-feira (24). 

Melhor Direção
Martin Scorsese
A Invenção de Hugo Cabret

No Globo, Scorsese correu por fora na disputa entre Hazanavicius e Payne e surpreendeu com sua vitória por A Invenção de Hugo Cabret. Não foi a minha aposta, sequer cheguei a cogitar. Mas não deixou de ser um grande momento da noite ver o cineasta receber um prêmio em um momento de sua carreira completamente diferente de 2006.
Scorsese exercita seu lado lúdico e presta uma homenagem ao cinema com A Inveção de Hugo Cabret. Uma reinvenção do cineasta que ficou conhecido por dramas sobre a violência urbana como Os Bons Companheiros e Taxi Driver.
O roteiro vencedor foi o de Meia-Noite em Paris e, como sempre, Woody Allen não estava presente para receber o seu prêmio. Nunca pensei em reconsiderar isso, mas começo a pensar que Alexander Payne pode não ser tão favorito assim a roteiro original quanto se pensava, Allen pode vencer o Oscar, o que tira as vantagens de Os Descendentes como melhor filme pela Academia. Ah, já ia esquecendo, Meia-Noite em Paris será indiado ao Oscar de melhor filme. Podem anotar!

Melhor Atriz Drama
Meryl Streep
A Dama de Ferro

Ainda me pergunto como consigo me surpreender com as vitórias de Streep ano após ano. O prêmio por A Dama de Ferro, um filme que não recebeu críticas favoráveis, é surpreendente porque Streep sempre chega a essa altura do campeonato como o "feijão com arroz" da temporada. Qualquer trabalho da atriz é lembrado. Todos sabem que ela se dedica ao máximo em suas composições e o resultado é sempre soberbo. Filmes como A Dama de Ferro, Julie e Julia Dúvida, só para citar os mais recentes como exemplo, já nascem com alta probabilidade de render indicações para a atriz. A surpresa e a expectativa pelas vitórias de Meryl partem desta percepção.
E o discurso dela foi incrível, como de praxe. Não deixa de ser impressionante e louvável que uma atriz com seu currículo participe ativamente da temporada de prêmios e vibre com a mesma empolgação de uma atriz iniciante (ou até mais, que diria Rooney Mara de Os Homens que não Amavam as Mulheres). Streep evita o ar blasé de uma Angelina Jolie, por exemplo, conhece e reverencia o valor que prêmios dão para seus filmes. Ela faz parte da engrenagem e por isso é sempre bom vê-la vencer por mais que tenhamos predileções pelos trabalhos de suas rivais.
A derrota de Viola Davis por Histórias Cruzadas, no entanto, não é um sinal derradeiro de que o Oscar será de Streep. Sem falar que Williams corre muito bem por fora. Vai ser uma disputa de gigantes até o último momento.


Melhor Ator Drama
George Clooney
Os Descendentes

Tão simpático quanto Streep é George Clooney. Não é um ator fantástico (ainda não vi seu desempenho em Os Descendentes), gosto de performances isoladas dele como em Amor sem Escalas, mas não tem como não ceder à simpatia de George Clooney. Sempre bem humorado (começo a pensar que daqui há alguns anos seria uma boa a Academia começar a pensar em convidá-lo para apresentar uma edição do Oscar), o ator começa a ficar perto de seu primeiro Oscar na categoria principal (antes havia levado o prêmio de melhor ator coadjuvante por Syriana). O favoritismo se confirmou no Globo.
O óbvio também aconteceu com o prêmio de melhor trilha sonora original. Ludovic Bource teve sua composição para O Artista escolhida. O mais curioso aqui é que até o Oscar o favoritismo pode ser abalado. Não sei bem como os membros viram os comentários raivosos da atriz Kim Novak acusando o compositor de utilizar indevidamente a trilha de Um Corpo que Cai. Como esse tipo de boato não atrapalhou as vitórias de Melissa Leo no ano passado e de Guerra ao Terror em 2009, o favoritismo em trilha ainda é de O Artista.


Melhor Comédia/Musical
O Artista

Não teve para Missão Madrinha de Casamento ou Meia-Noite em Paris. O Artista levou o Globo de Ouro de comédia/musical confirmando as expectativas, assim como aconteceu com Os Descendentes em drama.
Aliás, esta edição da premiação nos lembrou do poder e da lábia de Harvey Weinstein, "chefão" da antiga Miramax conhecido por seus métodos nada suaves de convencer membros de associações a dar vitórias a seus filmes. Produzidos por ele, O Artista, A Dama de Ferro, Sete Dias com Marilyn e W.E. faturaram prêmios na noite. Aliás, foi um retorno ensaiado desde o ano passado com a vitória de O Discurso do Rei em boa parte dos prêmios. Para o bem ou para o mal, ele está de volta e com toda a força. Medo só de lembrar do tempo em que Shakespeare Apaixonado levou o Oscar de O Resgate do Soldado Ryan e Chicago derrotou O Pianista e As Horas sem dó ou piedade...
Como disse Streep, tods os agradecimentos da noite foram para Deus, leia-se Harvey Weinstein.

Melhor Atriz Comédia/Musical
Michelle Williams
Sete Dias com Marilyn

O poder de influência de Weinstein é tão grande que a vitória de Williams foi graças a suas estratégias. Sete Dias com Marilyn é um drama, mas comenta-se que em sua fase de produção, Weinstein pediu para Simon Curtis inserir alguns números musicais já visando a possibilidade de sugerir indicações no Globo de Ouro na categoria musical/comédia. Não deu outra! Na semana em que todos discutiam a polarização entre Viola Davis e Meryl Streep pelo prêmio de melhor atriz no Oscar, Michelle vence o Globo de Ouro musical/comédia e Sete Dias com Marilyn ganha a publicidade que precisava. Jogada de mestre!
Não duvido dos méritos de Williams. Ela é uma atriz excepcional como já mostrou em O Segredo de Brokeback Mountain, Ilha do Medo e Namorados para Sempre. Também não duvio que ela tenha rendido uma ótima Marilyn Monroe. Não acho que para interpretar ícones em cinebiografias o ator precise ser extremamente parecido com o biografado, ele precisa ser um bom ator e isso Williams é. Agora, que sua indicação aqui foi fruto das jogadas de Weinstein não há como negar.


Melhor Ator Comédia/Musical
Jean Dujardin
O Artista

Na constelação de astros que pode ser a lista de indicados ao Oscar de melhor ator, eis o cara que pode tirar com muita facilidade o prêmio das mãos de George Clooney, o francês Jean Dujardin. E olha que aqui ele nem enfrentará a árdua batalha que Marion Cotillard teve que travar para vencer o prêmio por Piaf - Um Hino ao Amor. O Artista é um filme mudo e a falta de familiaridade do americano com o inglês não será problema. Ponto para Dujardin!
Na categoria de filme em língua estrangeira, o iraniano A Separação, aposta certa para vencer o Oscar de melhor filme estrangeiro - que provavelmente não trará Tropa de Elite 2 entre os indicados -, conseguiu conter a vontade de eleger In the Land of Blood and Honey , dirigido por Angelina Jolie,  uma escolha praticamente irresistível quando falamos nos membros votantes do Globo de Ouro. A vergonha pelas três indicações de O Turista no Globo do ano passado deve ter surtido algum efeito.
Em contrapartida, o Globo tinha que pisar na lama ao entregar a Madonna o prêmio de melhor canção original em W.E., filme dirigido pela própria Madonna, um dos maiores fiascos em termos de campanha em festivais e premiações do ano. Mas como querer mais de uma comissão que escolheu a risível canção de Cher em Burlesque como a melhor canção original no ano pssado. Melhor esperar o Oscar, eles são mais sensatos nessa categoria.


Melhor Atriz Coadjuvante
Octavia Spencer
Histórias Cruzadas

Tanto hype para Histórias Cruzadas e o filme só faturou o prêmio de melhor atriz coadjuvante para Octavia Spencer, indicutível favorita. No entanto, acredito que será praticamente irresistível para a Academia premiar duas negras na mesma noite por um filme que se propões falar sobre o preconceito racial nos EUA.
Há quem ache duvidosa a escolha de Spencer e prefira Jessica Chastain pelo mesmo filme. Mas é muito provável que o ano atrbulado de Chastain tenha contribuído para não existir um favoritismo em torno do seu nome. Parece uma contradição, mas é verdade. Fica difícil escolher um trabalho de Jessica.


Melhor Ator Coadjuvante
Christopher Plummer
Toda Forma de Amor

Plummer também foi uma das escolhas óbvias do Globo e venceu merecidamente por um filme delicioso que todos têm a obrigação de ver: Toda Forma de Amor. Por falta de sensibilidade ou faro da distribuidora foi lançado precocemente no Brasil diretamente em DVD e já pode ser visto pelo público.
A premiação de Plummer é certa em um ano fraco para a categoria. O prêmio finalmente chegou para Plummer, tarde, mas chegou.
Para finalizar, o prêmio de melhor animação foi para As Aventuras de Tintin, de Steven Spielberg. Não sei como a Academia irá encarar o filme (animação ou captura de movimentos), mas o longa passa a ser o grande rival de Rango.

Os 5 melhores momentos do Globo de Ouro
#1. Sofia Vergara. Va-va-va-voom!

Tem coisa mais engraçada que o sotaque de Sofia Vergara? Latina, curvilínea, engraçada e sua figura nos red carpets é praticamente uma extensão da personagem que criou para si: o protótipo da mulher objeto que não percebe quando é desejada ou quando o público ri de seus tropeços. De burra, Sofia Vergara não tem nada e, em meio a uma festa com tantos nomes tarimbados do cinema, roubou a cena.
Ao discursar com os colegas do seriado Modern Family para agradecer o prêmio de melhor série em comédia, Sofia, com seu sotaque indefectível, fez as vezes de tradutora e protagonizou o momento mais hilário da cerimônia. "Gracias, Antonio!Gracias, Salma!"


#2. Farpas entre Madonna e Ricky Gervais

Apesar de ter dito que tudo não passou de uma grande brincadeira e de que não teria ficado irritada com as piadas de Ricky Gervais, Madonna não exitou em responder o apresentador quando teve a oportunidade. Ricky tirou de letra mas todo mundo notou uma nuvem negra sob a mal humorada cantora. Mesmo após ter vencido a categoria melhor canção original, Madonna parecia estar na festa por livre e espontânea pressão ou fui o único que notei isso? Não sabe brincar, não desce pro play!


#3. Uggie

Uggie fez bem mais efeito no tapete vermelho que George Clooney, Brad Pitt e Leonardo DiCaprio juntos em uma mesma categoria! Uma das grandes atrações de O Artista esteve presente no Globo de Ouro e fez a festa. O melhor momento de Uggie ocorreu quando subiu ao palco para receber o prêmio de melhor filme em musical/comédia para O Artista, levado por e obedecendo aos comandos de Jean Dujardin.


#4. Jodie Foster e a piada de Ricky Gervais sobre Mel Gibson e Um Novo Despertar

Quem esperava que Jodie Foster fosse ficar constrangida ou demonstrar insatisfação com as piadas de Gervais sobre Um Novo Despertar, filme que dirigiu em 2011 e que fracassou em virtude dos problemas passados de seu protagonista Mel Gibson, se enganou. A atriz tirou de letra a alfinetada e fez parte do número do ator. Foster ainda protagonizou um momento muito bonito da festa ao surgir abraçada aos seus dois filhos no momento em que seu nome foi citada como uma das atrizes indicadas na categoria comédia/musical por seu trabalho em Carnage, de Roman Polanski.



#5. Julianne Moore e o teleprompter

Ela não foi indicada, mas Julianne Moore foi espirituosa ao ser sabotada pelo teleprompter. A atriz então teve que improvisar com uma folha A4 e não perdeu a compostura. Julie, você é graciosa até no improviso! Mesmo do lado do Rob Lowe!