domingo, 4 de março de 2012

Drive

Ryan Gosling em interpretação avassaladora em Drive.
Sem nome, o personagem de Ryan Gosling em Drive parece saído de uma fita dos anos 60 ou 70 - com trilha sonora dos anos 80 - , um longa que provavelmente seria protagonizado por Clint Eastwood, com ecos de Robert DeNiro em Taxi Driver, na época do cinema de ação hollywoodiano protagonizado por um justiceiro qualquer que caminhava na linha tênue entre a violência nata e a sensibilidade inspirada pelo amor de uma mulher. O filme de Nicolas Winding Refn, que ganhou o prêmio de melhor direção no Festival de Cannes, dialoga com essa escola em um exercício narrativo interessantíssimo que não seria o mesmo sem suas intervenções e sem a presença de Ryan Gosling no papel título, um dos desempenhos mais notáveis e complicados de sua carreira. O ator interpreta um dublê de filmes de ação especializado em manobras perigosas em automóveis. Nas horas vagas, o personagem dirige para grupos criminosos, sem se envolver diretamente com suas ações. Ele conhece Irene, sua vizinha de porta que acaba despertando seus melhores sentimentos e revela-se como sua única possibilidade de redenção.

A estrutura de Drive é relativamente simples. O roteiro de Hossein Amini não rebusca o texto, nem cria situações complexas demais para seus personagens. No entanto, Nicolas Winding Refn entrega introspecção e cria camadas e mais camadas de leituras interessantes, destacando seu primeiro grande trabalho como o início de uma carreira promissora. O filme dialoga, inicialmente, com seu protagonista. O personagem de Gosling é extremamente introspectivo, praticamente uma concha que sufoca e esconde qualquer sorte de sentimentos. No entanto, o silêncio ofusca a natureza paradoxalmente violenta e sensível do personagem, um sujeito que é capaz de gestos de profunda delicadeza e de pura raiva, exteriorizada através da força bruta. Isso é nítido na sequência em que ele tenta revelar a Irene o destino de seu marido após uma ação mal sucedida, momentos antes ele se declara para ela - "Deixe que eu cuide de você" -  e a toma de assalto com um beijo, segundos depois mata impiedosamente um sujeito contratado para investigá-los.

Ryan Gosling pode tornar-se ícone com este trabalho - isso, definitivamente, só o tempo dirá. O que não dá para negar é que é um dos desempenhos mais comprometidos e intressantes de sua carreira. O ator dá vida a um homem com evidentes traços de psicopatia e dificuldades de demonstrar sentimentos, mesmo quando eles estão borbulhando, quando só vemos os farrapos do personagens após tantas perdas. Salientando o temperamento linear do personagem, com pistas aqui e ali de picos emocionais, Gosling sustenta uma composição complicadíssima que prioriza o interno e, consequentemente, abre pouca possibilidade de arroubos dramáticos. O ator é acompanhado por uma doce Carey Mulligan e por Albert Brooks, que aqui interpreta um vilão bem interessante. Ainda assim, não há outra razão para o filme ser o que é sem o comprometimento de Ryan Gosling. Não é exagero dizer que ele está simplesmente brilhante. Uma daquelas interpretações em que o ator entrega muito pouco, despe o personagem aos poucos para o espectador.

Drive é o aval que Nicolas Winding Refn precisava para trabalhar em Hollywood. O filme também é o papel que Ryan Gosling precisava para sair da condição de jovem promessa do cinema indie para firmar-se como ícone. A violência gráfica, as referências implícitas e o clima nostálgico tornam o filme um excelente exercício de direção pra seu cineasta e ainda nos presenteia com um grande desempenho de Ryan Gosling. Drive é tudo o que o cinema independente dos EUA precisa no momento, renovação. Chega de câmeras na mão, ambição de menos e pernosticidade. O filme chega com uma interessante nova safra que evita maneirismos de linguagem e priorizam a história da maneira que ela merece ser contada.



Drive, 2011. Dir.: Nicolas Winding Refn. Roteiro: Hossein Amini. Elenco: Ryan Gosling, Carey Mulligan, Albert Brooks, Ron Perlman, Christina Hendricks, Bryan Cranston, Oscar Isaac, Kaden Leos, James Biberi, Russ Tamblyn. 100 min. Imagem Filmes.

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