terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Globo de Ouro 2012 - Comentários sobre a cerimônia

Melhor Filme Drama
Os Descendentes
Dir.: Alexander Payne

Como esperado, a 69ª edição do Globo de Ouro distribuiu prêmios a torto e a direito e ofereceu um panorama da disputa pelo cobiçado título de melhor filme no próximo Oscar. A imprensa estrangeira  premiou Os Descendentes como melhor filme na categoria drama e O Artista como melhor filme comédia/musical. Como previsto, o Oscar promete polarizar esta disputa até fevereiro.
No entanto, caso a Academia ache que Os Descendentes é muito Alexander Payne e que premiar O Artista, um filme mudo, não é a melhor decisão, há duas alternativas possíveis: Histórias Cruzadas e A Invenção de Hugo Cabret.
Históras Cruzadas pode ser uma opção política. De longe, o filme mais popular entre os possíveis indicados e pode ser a cereja no bolo caso a Academia escolha pelo ineditismo da premiação de duas negras na mesma noite, Vila Davis (atriz) e Octavia Spencer (atriz coadjuvante), por um filme que trata sobre o racismo nos EUA.
A Invenção de Hugo Cabret volta à posição de destaque com a premiação de Martin Scorsese no Globo de Ouro, a imprensa estrangeira colocou o filme de volta nas rodas (este é o poder de influência do Globo de Ouro no Oscar).
Assim, como balanço do Globo de Ouro e da divisão de prêmios na noite, Os Descendentes, O Artista, A Invenção de Hugo Cabret e Histórias Cruzadas são as certezas que ficam para a lista de indicados ao Oscar de melhor filme na manhã da próxima terça-feira (24). 

Melhor Direção
Martin Scorsese
A Invenção de Hugo Cabret

No Globo, Scorsese correu por fora na disputa entre Hazanavicius e Payne e surpreendeu com sua vitória por A Invenção de Hugo Cabret. Não foi a minha aposta, sequer cheguei a cogitar. Mas não deixou de ser um grande momento da noite ver o cineasta receber um prêmio em um momento de sua carreira completamente diferente de 2006.
Scorsese exercita seu lado lúdico e presta uma homenagem ao cinema com A Inveção de Hugo Cabret. Uma reinvenção do cineasta que ficou conhecido por dramas sobre a violência urbana como Os Bons Companheiros e Taxi Driver.
O roteiro vencedor foi o de Meia-Noite em Paris e, como sempre, Woody Allen não estava presente para receber o seu prêmio. Nunca pensei em reconsiderar isso, mas começo a pensar que Alexander Payne pode não ser tão favorito assim a roteiro original quanto se pensava, Allen pode vencer o Oscar, o que tira as vantagens de Os Descendentes como melhor filme pela Academia. Ah, já ia esquecendo, Meia-Noite em Paris será indiado ao Oscar de melhor filme. Podem anotar!

Melhor Atriz Drama
Meryl Streep
A Dama de Ferro

Ainda me pergunto como consigo me surpreender com as vitórias de Streep ano após ano. O prêmio por A Dama de Ferro, um filme que não recebeu críticas favoráveis, é surpreendente porque Streep sempre chega a essa altura do campeonato como o "feijão com arroz" da temporada. Qualquer trabalho da atriz é lembrado. Todos sabem que ela se dedica ao máximo em suas composições e o resultado é sempre soberbo. Filmes como A Dama de Ferro, Julie e Julia Dúvida, só para citar os mais recentes como exemplo, já nascem com alta probabilidade de render indicações para a atriz. A surpresa e a expectativa pelas vitórias de Meryl partem desta percepção.
E o discurso dela foi incrível, como de praxe. Não deixa de ser impressionante e louvável que uma atriz com seu currículo participe ativamente da temporada de prêmios e vibre com a mesma empolgação de uma atriz iniciante (ou até mais, que diria Rooney Mara de Os Homens que não Amavam as Mulheres). Streep evita o ar blasé de uma Angelina Jolie, por exemplo, conhece e reverencia o valor que prêmios dão para seus filmes. Ela faz parte da engrenagem e por isso é sempre bom vê-la vencer por mais que tenhamos predileções pelos trabalhos de suas rivais.
A derrota de Viola Davis por Histórias Cruzadas, no entanto, não é um sinal derradeiro de que o Oscar será de Streep. Sem falar que Williams corre muito bem por fora. Vai ser uma disputa de gigantes até o último momento.


Melhor Ator Drama
George Clooney
Os Descendentes

Tão simpático quanto Streep é George Clooney. Não é um ator fantástico (ainda não vi seu desempenho em Os Descendentes), gosto de performances isoladas dele como em Amor sem Escalas, mas não tem como não ceder à simpatia de George Clooney. Sempre bem humorado (começo a pensar que daqui há alguns anos seria uma boa a Academia começar a pensar em convidá-lo para apresentar uma edição do Oscar), o ator começa a ficar perto de seu primeiro Oscar na categoria principal (antes havia levado o prêmio de melhor ator coadjuvante por Syriana). O favoritismo se confirmou no Globo.
O óbvio também aconteceu com o prêmio de melhor trilha sonora original. Ludovic Bource teve sua composição para O Artista escolhida. O mais curioso aqui é que até o Oscar o favoritismo pode ser abalado. Não sei bem como os membros viram os comentários raivosos da atriz Kim Novak acusando o compositor de utilizar indevidamente a trilha de Um Corpo que Cai. Como esse tipo de boato não atrapalhou as vitórias de Melissa Leo no ano passado e de Guerra ao Terror em 2009, o favoritismo em trilha ainda é de O Artista.


Melhor Comédia/Musical
O Artista

Não teve para Missão Madrinha de Casamento ou Meia-Noite em Paris. O Artista levou o Globo de Ouro de comédia/musical confirmando as expectativas, assim como aconteceu com Os Descendentes em drama.
Aliás, esta edição da premiação nos lembrou do poder e da lábia de Harvey Weinstein, "chefão" da antiga Miramax conhecido por seus métodos nada suaves de convencer membros de associações a dar vitórias a seus filmes. Produzidos por ele, O Artista, A Dama de Ferro, Sete Dias com Marilyn e W.E. faturaram prêmios na noite. Aliás, foi um retorno ensaiado desde o ano passado com a vitória de O Discurso do Rei em boa parte dos prêmios. Para o bem ou para o mal, ele está de volta e com toda a força. Medo só de lembrar do tempo em que Shakespeare Apaixonado levou o Oscar de O Resgate do Soldado Ryan e Chicago derrotou O Pianista e As Horas sem dó ou piedade...
Como disse Streep, tods os agradecimentos da noite foram para Deus, leia-se Harvey Weinstein.

Melhor Atriz Comédia/Musical
Michelle Williams
Sete Dias com Marilyn

O poder de influência de Weinstein é tão grande que a vitória de Williams foi graças a suas estratégias. Sete Dias com Marilyn é um drama, mas comenta-se que em sua fase de produção, Weinstein pediu para Simon Curtis inserir alguns números musicais já visando a possibilidade de sugerir indicações no Globo de Ouro na categoria musical/comédia. Não deu outra! Na semana em que todos discutiam a polarização entre Viola Davis e Meryl Streep pelo prêmio de melhor atriz no Oscar, Michelle vence o Globo de Ouro musical/comédia e Sete Dias com Marilyn ganha a publicidade que precisava. Jogada de mestre!
Não duvido dos méritos de Williams. Ela é uma atriz excepcional como já mostrou em O Segredo de Brokeback Mountain, Ilha do Medo e Namorados para Sempre. Também não duvio que ela tenha rendido uma ótima Marilyn Monroe. Não acho que para interpretar ícones em cinebiografias o ator precise ser extremamente parecido com o biografado, ele precisa ser um bom ator e isso Williams é. Agora, que sua indicação aqui foi fruto das jogadas de Weinstein não há como negar.


Melhor Ator Comédia/Musical
Jean Dujardin
O Artista

Na constelação de astros que pode ser a lista de indicados ao Oscar de melhor ator, eis o cara que pode tirar com muita facilidade o prêmio das mãos de George Clooney, o francês Jean Dujardin. E olha que aqui ele nem enfrentará a árdua batalha que Marion Cotillard teve que travar para vencer o prêmio por Piaf - Um Hino ao Amor. O Artista é um filme mudo e a falta de familiaridade do americano com o inglês não será problema. Ponto para Dujardin!
Na categoria de filme em língua estrangeira, o iraniano A Separação, aposta certa para vencer o Oscar de melhor filme estrangeiro - que provavelmente não trará Tropa de Elite 2 entre os indicados -, conseguiu conter a vontade de eleger In the Land of Blood and Honey , dirigido por Angelina Jolie,  uma escolha praticamente irresistível quando falamos nos membros votantes do Globo de Ouro. A vergonha pelas três indicações de O Turista no Globo do ano passado deve ter surtido algum efeito.
Em contrapartida, o Globo tinha que pisar na lama ao entregar a Madonna o prêmio de melhor canção original em W.E., filme dirigido pela própria Madonna, um dos maiores fiascos em termos de campanha em festivais e premiações do ano. Mas como querer mais de uma comissão que escolheu a risível canção de Cher em Burlesque como a melhor canção original no ano pssado. Melhor esperar o Oscar, eles são mais sensatos nessa categoria.


Melhor Atriz Coadjuvante
Octavia Spencer
Histórias Cruzadas

Tanto hype para Histórias Cruzadas e o filme só faturou o prêmio de melhor atriz coadjuvante para Octavia Spencer, indicutível favorita. No entanto, acredito que será praticamente irresistível para a Academia premiar duas negras na mesma noite por um filme que se propões falar sobre o preconceito racial nos EUA.
Há quem ache duvidosa a escolha de Spencer e prefira Jessica Chastain pelo mesmo filme. Mas é muito provável que o ano atrbulado de Chastain tenha contribuído para não existir um favoritismo em torno do seu nome. Parece uma contradição, mas é verdade. Fica difícil escolher um trabalho de Jessica.


Melhor Ator Coadjuvante
Christopher Plummer
Toda Forma de Amor

Plummer também foi uma das escolhas óbvias do Globo e venceu merecidamente por um filme delicioso que todos têm a obrigação de ver: Toda Forma de Amor. Por falta de sensibilidade ou faro da distribuidora foi lançado precocemente no Brasil diretamente em DVD e já pode ser visto pelo público.
A premiação de Plummer é certa em um ano fraco para a categoria. O prêmio finalmente chegou para Plummer, tarde, mas chegou.
Para finalizar, o prêmio de melhor animação foi para As Aventuras de Tintin, de Steven Spielberg. Não sei como a Academia irá encarar o filme (animação ou captura de movimentos), mas o longa passa a ser o grande rival de Rango.

Os 5 melhores momentos do Globo de Ouro
#1. Sofia Vergara. Va-va-va-voom!

Tem coisa mais engraçada que o sotaque de Sofia Vergara? Latina, curvilínea, engraçada e sua figura nos red carpets é praticamente uma extensão da personagem que criou para si: o protótipo da mulher objeto que não percebe quando é desejada ou quando o público ri de seus tropeços. De burra, Sofia Vergara não tem nada e, em meio a uma festa com tantos nomes tarimbados do cinema, roubou a cena.
Ao discursar com os colegas do seriado Modern Family para agradecer o prêmio de melhor série em comédia, Sofia, com seu sotaque indefectível, fez as vezes de tradutora e protagonizou o momento mais hilário da cerimônia. "Gracias, Antonio!Gracias, Salma!"


#2. Farpas entre Madonna e Ricky Gervais

Apesar de ter dito que tudo não passou de uma grande brincadeira e de que não teria ficado irritada com as piadas de Ricky Gervais, Madonna não exitou em responder o apresentador quando teve a oportunidade. Ricky tirou de letra mas todo mundo notou uma nuvem negra sob a mal humorada cantora. Mesmo após ter vencido a categoria melhor canção original, Madonna parecia estar na festa por livre e espontânea pressão ou fui o único que notei isso? Não sabe brincar, não desce pro play!


#3. Uggie

Uggie fez bem mais efeito no tapete vermelho que George Clooney, Brad Pitt e Leonardo DiCaprio juntos em uma mesma categoria! Uma das grandes atrações de O Artista esteve presente no Globo de Ouro e fez a festa. O melhor momento de Uggie ocorreu quando subiu ao palco para receber o prêmio de melhor filme em musical/comédia para O Artista, levado por e obedecendo aos comandos de Jean Dujardin.


#4. Jodie Foster e a piada de Ricky Gervais sobre Mel Gibson e Um Novo Despertar

Quem esperava que Jodie Foster fosse ficar constrangida ou demonstrar insatisfação com as piadas de Gervais sobre Um Novo Despertar, filme que dirigiu em 2011 e que fracassou em virtude dos problemas passados de seu protagonista Mel Gibson, se enganou. A atriz tirou de letra a alfinetada e fez parte do número do ator. Foster ainda protagonizou um momento muito bonito da festa ao surgir abraçada aos seus dois filhos no momento em que seu nome foi citada como uma das atrizes indicadas na categoria comédia/musical por seu trabalho em Carnage, de Roman Polanski.



#5. Julianne Moore e o teleprompter

Ela não foi indicada, mas Julianne Moore foi espirituosa ao ser sabotada pelo teleprompter. A atriz então teve que improvisar com uma folha A4 e não perdeu a compostura. Julie, você é graciosa até no improviso! Mesmo do lado do Rob Lowe!

4 comentários:

Película Criativa disse...

Acho que o Oscar de melhor filme deve ir para "The Artist".

Mas não descartaria "Hugo" da jogada, pois o Scorsese é o favorito na categoria de melhor direção e a Academia adora premiar o mesmo filme.

Vamos aguardar, quero só ver se Alexander Payne será tão bem recebido.

Maxwell Soares disse...

Olá,Wanderley.Excelente blogger esse o seu. Gosto de filmes, livros, cultura e, por isso, estou aqui. Seu espaço é digno de ser seguido. Uma excelente composição. Um abraço... Seguindo.

gustavo disse...

Só não foi perfeita a premiação pelo prêmio dado a Octavia... prefiro bem mais a Jessica Chastain, e isso por que ela está ainda melhor em "A Árvore da Vida"!

Clara disse...

Wan, amei esse post principalmente o que vc escreveu sobre Meryl e Os 5 melhores momentos do Globo de Ouro.Eu citaria também a parte em que Ricky Gervais fala que a rainha do pop é a próxima a apresentar um prêmio e aí solta, " Não, não é vc Elton John. Ela é toda mulher." heheheehe