domingo, 29 de janeiro de 2012

Precisamos falar sobre Kevin

Tilda Swinton e o retrato da culpa materna em Precisamos Falar sobre Kevin.
Ao longo de nossa existência aprendemos a identificar a maternidade como um estado de graça, uma aptidão natural de toda mulher. Sempre suspeitei que toda esta construção fosse emaranhada de superficialidade, hipocrisia e machismo. Enfim, um determinismo que o mundo em que vivemos já não suporta mais. No entanto, esta mesma construção superficial proporciona um aspecto, este sim, inescapável da maternidade: a culpa. As matriarcas estão sempre se sentindo culpadas pelos atos e destino de seus filhos. Quando suas crias metem os pés pelas mãos, a primeira pergunta que lhes vêm à mente é: "Onde eu errei?". Esta culpa advém da frustração que as mães têm ao não corresponder à figura idealizada de matriarca. O quadro se complica ainda mais se pensarmos que a maioria das mulheres embarcam nessa jornada sem ao menos parar para pensar se deseja colocar uma criança no mundo. Por descuido ou por pressão das convenções sociais algumas dessas mulheres tonam-se mães, mas nem por isso são as únicas responsáveis pelo que seus filhos se tornam. Muitas vezes o mau não se origina da criação.

Precisamos Falar sobre Kevin, baseado no livro homônimo escrito por Lionel Shriver, trata sobre uma dessas mulheres. Personificada magistralmente por Tilda Swinton, Eva jamais pensou em ser mãe, engravidou por um acaso e agora tem que criar seu primogênito, Kevin. A relação dos dois sempre foi conturbada desde o início já que, desde os primeiros anos, Kevin se mostra uma criança indisciplinada e disposta a testar o nervos de sua mãe. Na adolescência, o garoto começa a revelar uma índole perversa, o que aterrorizar Eva, que nunca consegue estreitar os laços com o garoto. Assim, ela passa a cultivar uma frustração por não ter conseguido estabelecer vínculos com Kevin e por não tê-lo transformado em uma pessoa melhor. A culpa de Eva cresce ainda mais quando Kevin se envolve em um massacre escolar em seu colégio, nos moldes do ocorrido em Columbine.

O mais interessante no roteiro de Lynne Ramsay, também diretora, e Rory Kinnear é estabelecer gradualmente para o espectador que Eva não tem culpa alguma pelos caminhos tortuosos escolhidos pelo seu filho. Talvez a maior culpa da personagem tenha sido se tornar mãe, algo que nunca esteve em seus planos. A culpa materna pela tragédia causada por Kevin existe somente para Eva e para os demais personagens da trama. Ramsay nos revela o retrato de um garoto com evidentes distúrbios psiquiátricos que fogem aos domínios de Eva. No entanto, Eva cria uma relação obsessiva que a torna refém do destino daquele menino. A personagem carrega as obrigações da maternidade e de suportar os julgamentos pelo comportamento do filho como uma penitência por sua inabilidade com Kevin desde a infância.

Além do roteiro psicologicamente maduro e interessante em suas escolhas narrativas, Lynne Ramsay é responsável por um trabalho notável na direção deste filme, oferecendo-nos a perspectiva de Eva para os acontecimentos, seja em closes nos gestos dos personagens ou em elementos da cena (como o destaque que dá às atitudes de Kevin que mais irritam sua mãe ou às cores vermelhas em cena, por exemplo), seja pela estrutura não linear do filme, fragmentos passados da personagem que a torturam constantemente. A diretora também conta com excelentes atores, a começar por Tilda Swinton, intérprete da protagonista. A atriz consegue dimensionar o pesadelo diário de Eva, uma mulher que surge sempre apática e alerta no ambiente doméstico. No segundo momento, após a tragédia, Eva mostra-se cansada e imersa em solidão, distante e envergonhada. Ezra Miller, por sua vez, ator que dá vida a Kevin quando adolescente, vive um garoto completamente psicótico, provocador e ameaçador, uma cabeça doentia. Também pontua o filme com uma ótima performance o garoto Jasper Newell, que interpreta Kevin quando criança.

Precisamos Falar sobre Kevin é uma alegoria de um outro lado da maternidade, um aspecto oculto, silenciado pelo temor que a sociedade tem de desmistificar os estereótipos moldados para a mulher. À sua maneira, Eva tornou-se refém não do filho, mas da culpa que lhe foi atribuída pelo monstro que Kevin se tornou. Lynne Ramsay faz um filme assustador que oferece uma perspectiva pertinente e pouco explorada do universo materno. Esta perspectiva é ampliada através dos desempenhos arrasadores de Tilda Swinton e Ezra Miller. Precisamos Falar sobre Kevin é provocador e devastador em seus efeitos como obra cinematográfica e como testemunho de que nem sempre os caminhos da maternidade são repletos de alegrias e sentimentos nobres. E não há embaraço algum para a plateia quando se chega a esta conclusão.



We need to talk about Kevin, 2011. Dir.: Lynne Ramsay. Roteiro: Lynne Ramsay e Rory Kinnear. Elenco: Tilda Swinton, John C.Reilly, Ezra Miller, Jasper Newell, Rock Duer, Ashley Gerasimovich, Siobhan Fallon, Alex Manette, Kenneth Franklin. 112 min. Paris Filmes. 

Um comentário:

Alan Raspante disse...

Nossa, o seu texto me animou mais ainda. Meu deus, tenho que ver este filme o quanto antes! Sem contar que, Tilda deve mesmo estar incrível!