terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O Artista

Jean Dujardin entregando-se ao melancólico declínio do astro do cinema mudo George Valentin em O Artista.
Mesclando nostalgia e metalinguagem, O Artista é um impecável exercício de estilo do diretor Michel Hazanavicius. No entanto, o longa não cai no equívoco de empregar uma técnica narrativa e esquecer de arrebatar o público com uma história emocionalmente completa. Utilizando uma fotografia em preto e branco e a ausênia do diálogo - o filme é mudo -, características marcantes do cinema na Hollywood dos anos de 1920, O Artista conta a história de George Valentin, um ator consagrado na era de ouro dos filmes sem som que entra em desgraça ao constatar que já não serve mais a uma indústria que começa a conhecer as produções cinematográficas faladas. Nesta transição, ocorrida por volta de 1929, Valentin conhece Peppy Miller, uma aspirante a atriz que tem uma ascensão em sua carreira graças a George. Ela se torna a nova cara da Hollywood dos novos tempos, a queridinha de um dos grandes estúdios da época. Ele, o decadente astro de filmes mudos.

Antes de se mostrar como uma apaixonante carta de amor ao cinema, O Artista é um filme que fala sobre transições, os entraves que marcam uma disputa equivocada entre a tradição e a modernidade. A união entre os dois universos acaba mostrando-se como a alternativa pacificadora de um processo que quase leva Valentin à desgraça. Hazanavicius conduz com segurança as trajetórias descompassadas de Valentin e Miller. Toda a narrativa de O Artista  é fluida, atestando o que mestres da ausência de som como John Gilbert, Charlie Chaplin e Douglas Fairbanks já tinham mais que comprovado com obras que permanecem relevantes pela pertinência de suas histórias e pela carga emocional que transmitem: muitas vezes, a mágica da tela grande não está na voz, pode se esconder em um simples olhar, gesto ou mesmo em um número de sapateado.

O Artista ganha a plateia por não ser meramente metalinguístico ou estar à serviço da nostalgia de um grupo restrito de cinéfilos, mas por transmitir variadas emoções com uma sinceridade que conquista desde o primeiro momento em que Jean Dujardin entra em cena. Falando nele, o ator é reponsável pela alma do filme. Apropriando-se da linguagem e das técnicas de interpretação da época como ninguém, Dujardin compõe em George Valentin uma figura charmosa, trágica e apaixonante em cena. Praticamente não estabelecendo distinções entre o homem Valentin e suas aparições na telona, Dujardin compõe os traços da típica estrela de Hollywood da época, quando era difícil vislumbrar a cortina que dividia o espetáculo da amargura e secura da vida pessoal. Um trabalho absolutamente fascinante. Assim como Berenice Bejo, que assume características semelhantes de técnica de interpretação para transformar Peppy Miller em um interessante contraponto a George Valentin.

Contando com a participação de um elenco de peso em participações pontuais, como John Goodman, Penelope Ann Miller, James Cromwell e Malcolm MacDowell, O Artista nos faz lembrar porque somos apaixonados há tantos anos pelo cinema. Hazanavicius pode até não atingir o sublime para alguns, nem acredito que as pretensões sejam estas, mas ao tornar este longa um tiro certeiro no coração dos apaixonados pela sétima arte, o diretor conquista a todos com muita simplicidade e talento resgatando signos técnicos e artísticos do passado em prol de um irresistível resgate cinematográfico. Irresistível.




The Artist, 2011. Dir.: Michel Hazanavicius. Roteiro: Michel Hazanavicius. Elenco: Jean Dujardin, Berenice Bejo, John Goodman, James Cromwell, Penelope Ann Miller,  Missi Pyle, Malcolm MacDowell, Ken Davitian, Beth Grant. 100 min. Paris Filmes.

2 comentários:

gustavo disse...

Belíssimo!! Emocionante!!! Inesquecível!
Que vença em todas as categorias que está concorrendo!


(apesar do meu preferido ainda ser "A Árvore da Vida" que não tem chance alguma.)

gustavo disse...

ah... E Jean Dujardin consegiu tirar George Clooney da minha preferência pro oscar de ator!!
Tá sensacional!