sábado, 18 de fevereiro de 2012

Reis e Ratos

Rafaela Mandelli e Rodrigo Santoro em Reis e Ratos: humor deslocado.
O novo filme de Mauro Lima, que antes havia entregue o ótimo Meu Nome não é Johnny, é um projeto ambicioso em sua proposta. Com Reis e Ratos, o cineasta pretende fazer uma paródia de filmes B policiais hollywoodianos da metade do século, transportando tipos e recursos narrativos para o Brasil, mais especificamente o Rio de Janeiro, de 1963. Tudo é muito original e interessante, contudo esse tipo de proposta tende a ser um desastre quando dá errado. Não se pode dizer que a iniciativa de Lima não é interessante, mas tudo em Reis e Ratos parece um automóvel desgovernado. O formato não chega a tornar sua história refém, mas irrita e soa excessivo e deslocado em meio a tantas tramas conspiratórias reimaginadas para o Golpe de 1964. No fim, o filme parece servir muito mais ao seu elenco que ao espectador. Na camaradagem, Lima conseguiu um elenco de amigos e todos parecem bem à vontade na pele de seus personagens, brincando o quanto podem com seus tipos e terrenos ilimitados para composição.

A trama de Reis e Ratos segue as investigações empreendidas por um agente da CIA disfarçado de dono de uma loja de calçados e um major da aeronáutica (Selton Mello e Otávio Muller, respectivamente) a uma cantora de boate (Mandelli). A missão os leva a personagens ainda mais estranhos como um locutor afeminado com dons mediúnicos (Cauã Reymond) e um vendedor de livros perrapado (Rodrigo Santoro). Lima realiza um trabalho interessante no roteiro da produção, adequando seus diálogos ao american way of life. E como na época o Brasil espelhava-se na cultura norte-americana, Lima não perde tempo para dar uma "abrasileirada" nos diálogos e expressões americanas utilizadas por seus atores, especialmente Mello e Muller.

Selton Mello, por sinal, parece estar em um parque de diversões. O ator mostra-se à vontade para improvisar e brincar com os trejeitos e a personalidade estapafúrdia de Troy Sommerset. Mello incorpora o olhar auto-suficiente e as entonações canastronas das dublagens brasileiras para produções policiais de Hollywood. Otávio Muller o acompanha muito bem personificando o típico caso do brasileiro que tenta se espelhar no parceiro de investigação, como se aquilo lhe fosse conferir alguma credibilidade. A dupla está ótima, mas quem está irreconhecível e acaba chamando o filme para si, seja pela sua asquerosa aparência ou por sua acertada composição, é Rodrigo Santoro. O ator interpreta um cafetão vigarista, ocasionalmente vendedor de livros, com dentes podres e rosto marcado por queimaduras e feridas. Santoro utiliza a caracterização a favor da composição interna de seu personagem e se destaca no elenco de coadjuvantes.

Falta consistências às ideias e ao formato de Reis e Ratos. Contudo, não há como negar que não faltou ousadia a Mauro Lima. O projeto derrapa, mas seu elenco está entrosado e tem uma ótima dinâmica cênica. Talvez o grande erro do longa tenha sido a busca pela satisfação de seus realizadores unicamente. Assim, Reis e Ratos, para o público, acaba se tornando uma grande e inconsistente piada interna com lampejos de originalidade.




Reis e Ratos, 2012. Dir.: Mauro Lima. Roteiro: Mauro Lima. Elenco: Selton Mello, Otávio Muller, Rafaela Mandelli, Cauã Reymond, Rodrigo Santoro, Seu Jorge, Paula Burlamaqui, Bel Kutner, Kiko Mascarenhas, Orã Figueiredo. 111 min. Warner.

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