sábado, 24 de março de 2012

Jogos Vorazes

Jennifer Lawrence e Josh Hutcherson em Jogos Vorazes.
Jogos Vorazes é tudo aquilo que meia dúzia de pretensas franquias cinematográficas querem ser e não conseguem. O mais evidente paralelo que podemos traçar é com a famigerada "saga" Crepúsculo. O longa vibra em metáforas sociais, urgência no tratamento de sua trama e de seus desdobamentos e conta com um elenco afiadíssimo para encabeçar personagens que transbordam empatia. Simplificando, tudo o que o a franquia de Edward e Bella poderia ter, mas passa longe pela ineficiência coletiva, incluindo no balaio diretores, roteirista e atores. Jogos Vorazes, se continuar com a carreira bem sucedida que anda tendo em sua estreia, pode ser considerada como a potencial "substituta" de Harry Potter nos corações e mentes das plateias mais jovens. Sem feitiços, criaturas mitológicas e outros elementos da narrativa fantástica, Jogos Vorazes imagina os EUA em um futuro marcado por um governo autoritário que subjuga seu povo através de uma violenta disputa entre jovens de diferentes distritos. Os jogadores são oferecidos ao governo, representado pelo que eles chamam de "Capital", como uma espécie de tributo simbólico para a manutenção de uma paz que foi ameaçada com sucessivas guerras no passado.

Os eventos de Jogos Vorazes têm início definitivo quando Katniss Everdeen se oferece para a disputa no lugar de sua irmã mais nova. O eixo central do filme é Katniss, interpretada lindamente por Jennifer Lawrence. É bem verdade que a personagem é uma espécie de extensão da personagem da atriz em Inverno da Alma, mas Lawrence tem tanta segurança em cena que o público compra sua heroína desde o primeiro momento, vibrando com sua jornada e temendo pelo seu destino. O mesmo pode ser dito de Josh Hutcherson, outro grande talento dessa nova geração, que já despertou curiosidade desde criança quando protagonizou o delicioso ABC do Amor e mais recentemente viveu o filho de Annette Bening e Julianne Moore em Minhas Mães e Meu Pai. Hutcherson vive Peeta Mellark, representante masculino do distrito de Katniss na disputa. Enquanto, as habilidades de Katniss são mais físicas, Peeta se destaca pelo seu carisma e inteligência. Com todas as ações dos jogos televisionadas, os jogadores ainda têm que lidar com outra variante na disputa. A empatia com o espectador, o que pode lhes garantir uma ajuda em momentos críticos de vida ou morte. Assim, enquanto Katniss consegue se desvencilhar dos obstáculos físicos, Peeta é seu sustentáculo no jogo de cena que todos os jogadores devem fazer - no Brasil, certamente o público fará um paralelo imediato com reality shows.

 Jogos Vorazes também impressiona por sua violência e por não tratar seus personagens com maniqueísmo. O longa não poupa seus protagonistas e está sempre testando-os em momentos cruciais, evidenciando o caráter polivalente de cada um deles. Claro que o êxito nesses aspectos estão ligados a Gary Ross, um excelente diretor que não comandava um estúdio desde Seabiscuit, de 2003. Ross não brinca em serviço e consegue amarrar muito bem todos os pontos de tensão de seu filme, transformando sabiamente Jogos Vorazes em um excelente entretenimento ambientado em um futuro hipotético com pinceladas metafóricas sobre a estrutura de poderes de um Estado, uma máquina que se administrada por péssimas mãos traz desigualdade e opressão. Por não deixar o escopo social engolir sua própria trama, transformando o projeto em um filme pretensioso e oco - um equívoco já assumido por outras franquias -, Gary Ross acerta em cada detalhe de Jogos Vorazes.

O longa é um alento e uma lição para alguns executivos de Hollywood que aceitam produzir uma adaptação cinematográfica de qualquer sucesso editorial recente: por mais efêmero que seja e por mais jovem que seja seu público alvo, não subestime o espectador. Ainda que a gente ouça aqui e ali que o filme de Gary Ross não é tão fiel ao livro - uma discussão que chega a dar sono quando levantada, afinal, parece que as pessoas ainda não aprenderam que são duas plataformas distintas e que certas modificações podem ser feitas -, o que é visto em cena é um trabalho bem resolvido, um conjunto de elementos artíticos e técnicos que garantem um resultado satisfatório.

  


The Hunger Games, 2012. Dir.: Gary Ross. Roteiro: Gary Ross, Suzanne Collins e Billy Ray. Elenco: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Elizabeth Banks, Stanley Tucci, Woody Harelson, Wes Bentley, Donald Sutherland, Toby Jones, Willow Shields, Paula Malcolmson. 142 min. Paris Filmes.

Uma Vida Melhor

Demián Bichir e José Julián em Uma Vida Melhor.
Antes de dirigir as adaptações de A Bússola de Ouro e Lua Nova, Chris Weitz tinha sido responsável, ao lado de seu irmão Paul Weitz, por Um Grande Garoto, ótima adaptação do romance de Nick Hornby. Eis que o diretor retorna a suas origens com um drama com menor orçamento e visibilidade, flertando escancaradamente com o melodrama, trata-se de Uma Vida Melhor, trabalho que surpreendentemente rendeu uma indicação ao Oscar de melhor ator, na última edição da premiação, para o mexicano Demián Bichir. Não foi uma lembrança merecida da Academia. Não porque Bichir esteja ruim, muito pelo contrário. Na pele do jardineiro imigrante Carlos Galindo, Bichir consegue ser uma das melhores coisas de Uma Vida Melhor, um filme que passa bem longe da comoção que tenta inspirar. No entanto, comparar o trabalho de Bichir com outros tantos trabalhos da temporada que sequer mereceram uma menção da Academia - cito Leonardo DiCaprio em J.Edgar, Michael Fassbender em Shame e Ryan Gosling em Drive - chega a ser covardia.

Uma Vida Melhor conta a história do imigrante mexicano Carlos Galindo e de seu filho Luís. Em Los Angeles, Carlos vive ilegalmente e cuida sozinho de seu filho, ganhando a vida como jardineiro das lendárias mansões hollywoodianas. Um dia, Galindo tem seu material de trabalho roubado por um colega de trabalho e uma série de eventos começam a colocar em risco a permanência de Carlos no país. Apesar da tentativa de aproximar o espectador de seus personagens, adotando uma abordagem mais simples e humana de seus protagonistas, fica evidente desde o primeiro instante que esta narrativa é uma narrativa difícil para Chris Weitz. Temas como os levantados por Uma Vida Melhor ficam bem mais sinceros e espontâneos nas mãos de diretores que tenham uma proximidade, a mínima que seja, com o assunto. Só para citar como exemplo, Alejandro González Iñarritú lidou muito bem com isso em Babel. Por mais que Weitz compreenda e que seja louvável sua disposição em retratar a vida de imigrantes latinos ilegais nos EUA, sob sua ótica tudo fica muito pasteurizado.

Como já destaquei no início, Demián Bichir é a única razão para dedicar um tempo de seu dia a esta obra. O ator entrega dignidade e simplicidade a este homem intrincado com suas origens. Talvez Bichir seja o elo que Weitz precise para dar consistência e verdade a Uma Vida Melhor, um filme que anda na linha limítrofe o tempo todo. A iniciativa é louvável, poucos americanos se dispõem a contar esse tipo de história. No entanto, fica claro que trata-se do típico caso da natural falta de harmonia entre um diretor e seu filme. Weitz foi o profissional errado para um filme que, talvez, nas mãos de outro alcançasse suas aspirações.



A Better Life, 2011. Dir.: Chris Weitz. Roteiro: Eric Eason. Elenco. Demián Bichir, Dolores Heredia, José Julián, Joaquín Cosio, Carlos Linares, Nancy Lenehan, Gabriel Chavarria, Bobby Soto, Chelsea Rendon, Isabella Rae Thomas. 98 min. Paris Filmes.

sábado, 17 de março de 2012

Shame

Michael Fassbender e Carey Mulligan em Shame: indivíduos dilacerados.
O sexo continua sendo um tema tabu. Não é à toa que Steve McQueen e Abi Morgan escolheram o tema para ser fio condutor deste drama centrado na vida de um executivo viciado em sexo cuja rotina é sacudida com a chegada e sua irmã. McQueen e Morgan escolhem um caminho cheio de pedregulhos e propício à incompreensão das plateias, além de ser inegavelmente expositivo a seus atores. Shame é a via crucis do personagem de Michael Fassbender, ator alemão que chega ao ápice de sua carreira cinematográfica com uma interpretação intensa neste filme, uma interpretação que rendeu o prêmio de melhor ator no Festival de Veneza e quase o indicou ao Oscar. Shame tornou-se o retrato de uma sociedade cheia de inquietaçõs e neuroses, mas que prefere silenciá-las através da blindagem da auto suficiência.

Fassbender interpreta Brandon, o típico yuppie nova-iorquino. Saído da Irlanda, onde tev uma infância difícil, como assim insinua sua irmã Sissy, chegou à Grande Mação com uma mão na frente e construiu uma vida confortável. Conseguiu um bom emprego, tem seu próprio apartamento, enfim, conseguiu a custa de muito esforço o que poucos conseguem: independência. No entanto, traumas do passado o transformaram em um homem que evita o contato social, provavelmente para não sofrer com situações semelhantes a que sofreu no passado, e buscar o contato humano na artificialidade. Ao invés do amor, de uma relação mais profunda, o personagem prefere o sexo casual, ou melhor, só consegue satisfazer-se sexualmente através da casualidade já que nas relações humanas, apesar dos esforços, prefere mostrar-se como uma concha. A chegada de sua irmã em seu apartamento obriga Brandon a compartilhar o mesmo ar com alguém e lidar com sentimentos que sempre desejou evitar. A partir daí, o personagem entra em frangalhos e cai em si a respeito de sua existência vazia, a vergonha torna-se um grande algoz.

O roteiro de McQueen e Morgan é extremamente sábio em suas escolhas. Ambienta a história em Nova York, uma grande metrópole que praticamente impõe a solidão e a "falta de tempo" para o contato humano; retrata-o como um ninfomaníaco para evidenciar o contraste entre as relações que ele mantém com aquelas que ele prefere evitar; transforma Brandon em um executivo com vida estável, um tipo de "personagem" que acaba se tornando isca fácil para esse tipo de dependência. Também é um trabalho complicado nesse departamento por ser um roteiro que inevitavelmente prioriza o interno. Aqui, as batalhas são travadas na mente de Brandon e essa abordagem é muito mais complicada de ser retratada. Enfim, os roteiristas controem todo um cenário propício para o desenvolvimento de seus personagens, especialmente Brandon. Já a direção de Steve McQueen é primorosa, transformando cenas de sexo, que vez ou outra assumem um tom fetichista no cinema, em sequências de dor e degradação para o personagem. Assim, é angustiante acompanhar Brandon em sua odisséia particular, levando-o a níveis inimagináveis de sofrimento e auto destruição.

O desempenho de Michael Fassbender é arrasador. Ao mesmo tempo em que o ator consegue transformar Brandon e uma figura introspectiva - não fria, pois a todo momento demonstra secretamente o desejo de estreitar laços com pessoas, porém não consegue -, o ator se desnuda, em todos os sentidos, para a câmera, conseguindo evidenciar a batalha que trava consigo mesmo para o espectador. Trata-se de um daqueles tipos de composição que por priorizar a riqueza de cada gesto e entonação na fala pode passar em branco, mas que revela-se extremamente rica em dois momentos cruciais. O primeiro seria quando Sissy canta "New York, New York" para o irmão, fazendo-o relembrar de seu passado, relembrando de sua história de vida; o segundo é protagonizado somente por Brandon, uma cena de sexo entre ele e duas garotas em um "inferninho", ao final o personagem chora compulsivamente por vergonha e frustração por sua vida vazia. Carey Mulligan está igualmente espetacular. Vivendo a irmã do personagem, um incômodo revelador, já que é sua presença e sua constante requisição de afeto que impulsiona toda a inquietação de Brandon com a maneira com que conduz sua vida, Carey Mulligan tem o desempenho de sua carreira. Sissy é intempestiva, doce e, assim como seu irmão, auto destrutiva. A garota é o oposto de Brandon, mas seus atos a levam exatamente para o mesmo lugar do protagonista. Mulligan está esplêndida como esta personagem, bem diferente daquelas que interpretou em filmes como Educação, Não Me Abandone Jamais e, recentemente, Drive, todas personagens bem mais suaves e contidas que Sissy. Definitivamente, um marco na carreira da inglesa.

Shame é o retrato flamejante das neuroses criadas pela vida nas grandes metrópoles. Rotinas que impõem, a cada ano que passa, um estilo de vida que evidencia a auto suficiência financeira como a solução para as feridas da alma, a promessa do conforto que se confunde com a promessa de cicatrizar todas as feridas da vida. No entanto, o que acontece é o oposto. O conforto financeiro apenas amortece as dores internas. Basta a chegada de uma Sissy da vida para todos os monstros saírem do armário e, assim como ocorre com Brandon, a vergonha de uma vida artificial e solitária vir à tona. Uma pena que pode ser tarde demais.



Shame, 2011. Dir.: Steve McQueen. Roteiro: Steve McQueen e Abi Morgan. Elenco: Michael Fassbender, Carey Mulligan, James Badge Dale, Mari-Ange Ramirez, Lucy Walters, Nicole Beharie, Alex Manette, Hannah Ware, Eizabeth Masucci. 101 min. Paris Filmes.

sábado, 10 de março de 2012

16 Filmes para a Temporada de Prêmios 2013


#1. Django Unchained - Se Quentin Tarantino fez de Bastardos Inglórios a vingança do povo judeu contra Hitler, Django Unchained promete ser uma resposta dos negros ao regime escravocrata. O longa será um western protagonizado por um escravo que parte em uma jornada para resgatar sua esposa das garras de um perverso fazendeiro. O personagem será vivido por Jamie Foxx e o vilão ficará à cargo de Leonardo DiCaprio - que, desde já torna-se um dos grandes candidatos ao Oscar (coadjuvante?). O filme ainda traz Christoph Waltz, Kerry Washington, Joseph Gordon-Levitt, Sacha Baron Cohen, Kurt Russell e Samuel L.Jackson. Enfim, aquele tipo de elenco que só Tarantino consegue dar liga. O diretor já prometeu muita linguagem chula e um duelo imperdível de interpretações entre DiCaprio e Foxx. Estreia dia 25 de dezembro de 2012 nos EUA. Ainda não há data no Brasil.



# 2. The Master - Paul Thomas Anderson já foi mais esnobado pela Academia. Sangue Negro, de 2007, sacramentou os laços entre um dos mais cultuados cineastas da nova geração e o Oscar. The Master pode ser o trabalho o trabalho que o diretor precisava para ter o reconhecimento popular que merece. O filme, que promete fazer seu debut na próxima edição de Cannes em maio, contará o surgimento de uma seita religiosa nos moldes da cientologia. Philip Seymour Hoffman interpreta um intelectual carismático que lidera o grupo de religiosos e Joaquin Phoenix será um ex-presidiário convertido que instantaneamente torna-se seu assistente. Completam o elenco Amy Adams (será que finalmente vencerá um Oscar de atriz coadjuvante após bater na trave por três vezes?) e Laura Dern. Estreia em outubro de 2012 nos EUA. Ainda não há data no Brasil.


#3. Lincoln - Dá para encontrar atrativo maior em Lincoln do que ver Daniel Day-Lewis dando vida ao ex-presidente norte-americano Abraham Lincoln? Sim, ainda mais quando sabemos que o filme foi dirigido por Steven Spielberg. A cinebiografia contará os últimos anos da vida de Lincoln, especialmente sua relação com sua esposa Mary Todd, vivida por Sally Field, retornando às telonas em grande estilo após anos no seriado Brothers & Sisters, e seu filho, interpretado por Joseph Gordon-Levitt. Completam o elenco Tommy Lee Jones, Jackie Earle Haley e John Hawkes. Quem sabe longe das tentações do melodrama, Spielberg volte aos tempos de A Lista de Schindler, O Resgate do Soldado Ryan e Munique? Lincoln estreia em dezembro de 2012 nos EUA. Ainda não há data no Brasil.

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#4. Os Miseráveis - Após o fiasco de Nine, 2012 promete fazer a festa dos fãs de musicais. Rock of Ages, que trará Tom Cruise como um astro de rock dos anos 80, estreia em junho nos EUA  e Brasil e será dirigido por Adam Shankman, de Hairspray, e ainda traz Catherine Zeta-Jones de volta ao gênero. Mas as grandes expectativas estão mesmo depositadas e Les Misérables adaptação homônima da obra de Victor Hugo. O filme terá a batuta de Tom Hooper, vencedor do Oscar por O Discurso do Rei, e é protagonizado por Hugh Jackman, Russell Crowe e Anne Hathaway. A inovação? Os atores não cantarão em playback no estúdio. Eles interpretarão seus números musicais ao vivo para as câmeras. Um risco e uma inovação para elenco e diretor. O musical ainda terá Helena Bonham Carter, Amanda Seyfried e Sacha Baron Cohen. Estreia 7 de dezembro de 2012 nos EUA. Ainda não há data no Brasil.


#5. O Hobbit - Uma Jornada Inesperada - Enfim, Peter Jackson volta à Terra Média. Após confusões com estúdio e incertezas na escolha do diretor, O Hobbit finalmente sai do papel e nos trará de volta ao universo de Frodo,Gandalf e cia. A produção contará os eventos que antecedem O Senhor dos Anéis e trará de volta membros antigos do elenco como Ian McKellen, Cate Banchett, Elijah Wood e Orlando Bloom. No entanto, o filme será protagonizado por Martin Freeman, que dará vida ao hobbit Bilbo, tio de Frodo interpretado por Ian Holm em A Sociedade do Anel. Conhecedores de Tolkien dizem que O Hobbit não tem o mesmo escopo de O Senhor dos Anéis, o que não nos impede de esperar ansiosamente pelo filme que coloca Jackson no comando de um universo que conhece como ninguém. O projeto foi dividido em duas partes, a primeira chegará em 2012 e a segunda em 2013. Uma Jornada Inesperada, o primeiro filme, chega em 14 de dezembro de 2012 nos EUA e no Brasil.


# 6. O Grande Gatsby - Baz Luhrmann se refez da péssima recepção de Austrália e retorna ao páreo com uma obra não menos ambiciosa, desta vez sem Nicole Kidman (#todoschora). O diretor de Moulin Rouge! filmou a adaptação cinematográfica de O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald em 3D. O romance traz DiCaprio como Jay Gatsby um homem rico que passa a cortejar uma antiga paixão, Daisy, interpretada por Carey Mulligan, hoje casada. A história do casal é acompanhada de perto pelo primo de Daisy e amigo de Jay, Nick Carraway, papel de Tobey Maguire. O filme ainda traz os australianos Isla Fisher e Joel Edgerton. Luhrmann retorna aos romances trágicos que o consagraram (Moulin Rouge! e Romeu + Julieta), como não resistir? A estreia está prevista para 25 de dezembro de 2012 nos EUA. Ainda não há previsão para lançamento no Brasil.


# 7. Anna Karenina - Depois de Desejo e Reparação, Joe Wright se dedicou a projetos diferentes em sua carreira. O Solista e Hanna flertavam com gêneros e linguagens que não eram familiares até então ao diretor. Anna Karenina será o retorno de Wright ao que ele sabe fazer melhor, adaptações de grandes romances de época. Após Jane Austen e Ian McEwan, Wright aposta no russo Leon Tolstoy, fazendo mais uma parceria com sua musa Keira Knightley. A inglesa dará vida à heroína que vive a desgraça de um casamento sem amor, mas encontra complicações ainda maiores para sua vida quando resolve trair seu marido. O esposo traído será interpretado por Jude Law e o elenco ainda traz Aaron Johnson, Emily Mortimer, Kelly Macdonald e Matthew Macfayen. O longa foi filmado a portas fechadas, sem externas, em um teatro. O diretor promte trazer uma abordagem mais experimental ao filme nos moldes de Dogville. Estreia em setembro de 2012 nos EUA e em países da Europa. Não há pevisão de lançamento no Brasil.


#8. Life of Pi - 2012 também promete ser o retorno de Ang Lee (já perceberam que o ano terá tudo para ser um ano de comebacks). Depois de vencer o Oscar de melhor direção em 2005 por O Segredo de Brokeback Mountain, Lee até venceu o prêmio de melhor filme em Veneza com Desejo e Perigo. No entanto, o diretor teve péssimas críticas em seu projeto seguinte, Aconteceu em Woodstock. Life of Pi é um projeto que há anos circula nos estúdios e enfim ganhou vida nas mãos do diretor. O longa contará a história de um garoto indiano que se muda para o Canadá em um navio de carga que naufraga e o deixa à deriva em alto mar com um tigre, uma zebra, uma hiena e um orangotango. O longa será protagonizado por Suraj Sharma e contará com participações pontuais de Tobey Maguire e Gérard Depardieu. A estreia está prevista para 21 de dezembro de 2012 nos EUA. Ainda não há data para o Brasil.


#9. Valente - Depois de investir em continuações, uma bem-sucedida (Toy Story 3) e outra não (Carros 2), a Pixar volta para as obras originais. Valente também será lembrado como o primeiro filme do estúdio de animação que traz uma protagonista feminina. O filme conta a história de Merida, princesa escocesa que desafia o reino de seu pai ao contestar tradições. A rebeldia de Merida acaba trazendo uma maldição para seu reino e a princesa parte em uma jornada para libertar seu povo do caos que ela mesma instalou. Todo mundo está careca de saber do que a Pixar é capaz, não importa o material que tem em mãos. Filmes como Up - Altas Aventuras, Toy Story 3, Ratatouille, Os Incríveis e Wall-E conseguiram indicações que vão muito além da categoria melhor animação. Estreia dia 22 de junho nos EUA e no Brasil.


# 10. The Paperboy - Nicole Kidman, Zac Efron, Matthew McConaughey e John Cusack. Já viu um elenco tão variado e inusitado como o do thriller The Paperboy? Lee Daniels, diretor de Preciosa, reuniu esse grupo de atores, que talvez nunca tivessem a oportunidade de trabalhar juntos, para uma história enervante baseada no premiado livro de Pete Dexter. Efron e McConaughey interpretam dois jornalistas que investigam um estranho assassinato em uma cidadezinha da Califórnia. Os dois encontram pelo caminho Charlotte Bless (ironia?), interpretada por Nicole Kidman, uma mulher misteriosa que cultiva o hábito de escrever cartas para presos no corredor da morte. O filme é produzido por Pedro Almodóvar (ainda mais inusitado!). Rumores já apontam os holofotes para Kidman. Da última vez que ela interpretou uma mulher com sérios desvios de caráter e com uma sexualidade de derreter um iceberg ela saiu da condição de Sra. Tom Cruise e definiu os rumos de sua carreira. Estreia em novembro de 2012 nos EUA. Ainda não há data no Brasil.


# 11. Argo - Ben Affleck conseguiu uma filmografia madura como diretor. Seus dois únicos projetos por trás das câmeras, Medo da Verdade e Atração Perigosa, receberam elogios da crítica e foram bem recebidos pelo público. No entanto, não foi o suficiente para cair nas graças da Academia. Argo pode ser a sua chance. De volta ao drama policial, um gênero que está praticamente virando um especialidade em sua carreira, Affleck nos contará a história real dos eventos que antecederam o resgate de seis americanos mantidos reféns no Irã na década de 1970, um fato que permaneceu guardado nos arquivos da CIA por décadas. Affleck também atuará no filme, será um especialista da CIA que arquiteta um plano para manter os sequestrados em segurança fora dos EUA. O elenco ainda conta com Bryan Cranston, Taylor Schilling, John Goodman e Alan Arkin. Estreia em 14 de setembro de 2012 nos EUA. Não há data para o Brasil ainda.


# 12. Lovelace - Lovelace promete ser um novo Boogie Nights. Certo, não vamos ser levianos, mas o filme de Rob Epstein e Jeffrey Friedman (a dupla responsável pelo ainda inédito no Brasil Howl) trará a biografia da atriz pornô Linda Lovelace para o público. Interpretada por Amanda Seyfried (Oscar de melhor atriz?), Linda Lovelace foi sucesso na década de 70 ao estrelar Garganta Profunda, fita de pornô que virou febre internacional. Logo, Lovelace entrou para o mundo das drogas e da prostituição, Anos mais tarde, a verdadeira história de Linda foi revelada por uma jornalista em um artigo e a estrela pornô veio a público denunciar os abusos de seu ex-marido, o produtor Chuck Traynor. O elenco ainda conta com James Franco, interpretando o jovem Hugh Hefner, da Playboy; Peter Sarsgaard, que viverá o marido de Lovelace; Sarah Jessica Parker e Sharon Stone. Seyfried promete entregar uma interpretação dedicada no filme. Ainda não há data de estreia definida, sabe-se apenas que será lançado no final do ano nos EUA. No Brasil, ainda não há definição de datas também.

# 13. Romance sem título de Terrence Malick - Terrence Malick virou workaholic. É o que mais se ouv na comunidade. Após A Árvore da Vida, vencedor da Palma de Ouro em Cannes e indicado a 3 Oscars, o cineastas vem com um novo projeto em 2012, um romance experimental - para variar - protagonizado por Ben Affleck e Rachel McAdams. Quem viu exibições teste afirma que é um projeto ainda mais ambicioso e difícil que A Árvore da Vida (como assim?). Pouco se sabe sobre a sinopse, apenas que contará a história de um homem que reencontra uma mulher de sua cidade-natal após um fracassado casamento. O elenco de coadjuvantes é de cair o queixo: Javier Bardem, Jessica Chastain, Rachel Weisz, Amanda Peet, Michael Sheen... Em 2013, o cineasta prepara dois filmes (!!!!), ambos protagonizados por gente como Natalie Portman, Ryan Gosling, Cate Blanchett e Christian Bale. No entanto, este romance estreia no final de 2012, ainda não há data definida para os EUA e para o Brasil.


# 14. Nero Fidled - Depois de Londres, Barcelona e Paris, Woody Allen vai à Roma! E ainda leva Penélope Cruz de novo na bagagem! Nero Fidled também marcará o retorno do cineasta na atuação. O filme contará a história de quatro núcleos de personagens em Roma. Pouco se sabe sobre a sinopse, apenas que será uma comédia romântica e que a personagem de Cruz será um furacão! O longa ainda traz Alec Baldwin, Roberto Begnini,Jesse Eisenberg e Ellen Page no elenco. Especula-se que seja uma adaptação livre do clássico Decamerão, de Boccaccio. Allen já desmentiu e afirmou que se trata de da história de um homem que viaja para a Itália para conhecer a família do noivo de sua filha. O filme promete estrear em 20 de abril deste ano na Itália, provavelmente passará por Cannes e chagará nos EUA e no Brasil entre junho e agosto de 2012.


# 15. The Surrogate - O filme mais comentado de Sundance desponta como um dos possíveis indies abraçados pela próxima edição do Oscar, prometendo ainda um retorno de Helen Hunt na categoria melho atriz. The Surrogate contará a história de um homem maduro que conta com a ajuda de sua terapeuta e de um padre para perder a virgindade com uma profissional do sexo. Seria uma versão Juno de O Virgem de 40 Anos. Além de Hunt, o filme traz John Hawkes (indicado a coiadjuvante em Inverno da Alma e que aqui vive o protagonista)e William H. Macy. A direção é de Ben Lewin, que também escreveu o roteiro e é veterano na TV, já dirigindo episódios de Ally McBeal e alguns telefilmes. Ainda não há data prevista para estreia.


# 16. Projeto sem título de Kathryn Bigelow sobre morte de Osama Bin Laden - Após fazer história ao consagrar-se como a primeira, e única, mulher a vencer um Oscar de melhor direção por Guerra ao Terror, filme vencedor de 6 Oscars, o mundo voltou os olhos para os próximos passos de Kathryn Bigelow. A diretora escolheu como seu próximo trabalho um thriller que acompanha um grupo enviado ao Oriente para caçar Osama Bin Laden. No elenco, Joel Edgerton, Jessica Chastain, Esgr Ramirez, Chris Pratt, Mark Strong, Kyle Chandler e Jennifer Ehle. O filme estreia no dia 12 de dezembro de 2012 nos EUA. No Brasil, ainda não há data divulgada.

John Carter - Entre Dois Mundos

Taylor Kitsch como o personagem-título de John Carter: uma das péssimas escolhas de Andrew Stanton em seu filme.
Quem conheceu Andrew Stanton na Pixar, dirigindo animações que já se tornaram clássicos contemporâneos como Wall-E e Procurando Nemo, praticamente não reconhece o diretor em sua primeira empreitada com atores de carne e osso, John Carter. Toda a inventividade, pungência e sensibilidade de Stanton dão lugar a um diretor inseguro e perdido em sua própria história em John Carter. Enfim, uma grande decepção para quem esperava com expectativas a estreia do diretor no live action. John Carter tem uma trama abordada com pouca clareza, seu elenco está péssimo em cena, tem sequências de ação enfadonhas e ainda conta com um péssimo desfecho, desses que na tentativa de tornar as amarras da trama originais acabam colocando os pés pelas mãos. Stanton torna John Carter uma espécie de Avatar e Planeta dos Macacos, o longa de 1968, que sofre do mesmo mal de Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo, de 2010. Um verdadeiro desarranjo cinematográfico.

John Carter é um soldado rebelde da Guerra Civil norte-americana que encontra-se perdido em Marte após ser teletransportado através de um amuleto. Carter é feito prisioneiro por uma tribo de nativos do planeta e acaba se envolvendo com a Princesa Dejah Thoris, que encontra-se às voltas com as decisões políticas de seu pai que podem lhe custar sua liberdade e a de seu povo. Stanton transforma a obra de Edgar Rice Burroughs em um grande clichê com aspirações de matinê. Como fantasia, o filme jamais consegue transportar o espectador para seu universo, torná-lo interessante, muito menos cativá-lo com seus personagens, uma compilação casuística de tantos outros tipos que já vimos em filmes muito mais bem resolvidos que John Carter.

Para completar ainda mais a desgraça de Stanton no universo live action, o diretor conta com dois protagonistas fraquíssimos. Taylor Kitsch é monocórdico como John Carter e jamais consegue trazer o peso dramático que o personagem exige - e olhe que momentos não faltaram para o ator explorar esse lado do personagem. Já Lynn Collins exagera nas expressões e no tom da voz, soando irritante na maior parte das vezes, uma performance que consegue ofuscar até mesmo sua inegável beleza. Nem atores interessantes como Ciáran Hinds, Mark Strong ou James Purefoy conseguem desempenhos marcantes. Samantha Morton, Thomas Haden Church e Willem Dafoe são outras adições que não fazem a menor diferença, interpretam o povo nativo de Marte e foram substituídos por personagens digitais através da técnica de captura de movimentos e expressões, um trabalho bem inferior ao que já vimos em Planeta dos Macacos - A Origem, Avatar, King Kong e O Senhor dos Anéis.

Ao final de John Carter fica a dúvida: onde está Andrew Stanton no filme? O diretor praticamente se anula em meio a efeitos digitais e a uma narrativa de aventura pouco interessante. Seu colega de Pixar, Brad Bird, foi mais sábio em sua escolha para estreia em live action. Ao optar por Missão Impossível - Protocolo Fantasma, Bird preferiu um projeto mais seguro e que lhe permitisse fazer uma espécie de teste nessa nova abordagem. Já Stanton, ao radicalizar com o ambicioso John Carter nos ofereceu um filme que está anos luz do virtuosismo de obras como Procurando Nemo e Wall-E.



John Carter, 2012. Dir.: Andrew Stanton. Roteiro: Andrew Stanton, Mark Andrews e Michael Chabon. Elenco: Taylor Kitsch, Lynn Collins, Samantha Morton, Willem Dafoe, Dominic West, Ciáran Hinds, Mark Strong, Bryan Cranston, Thomas Haden Church, James Purefoy, Polly Walker. 132 min. Buena Vista. 

sexta-feira, 9 de março de 2012

W.E. - O Romance do Século

Andrea Riseborough e James D'Arcy em W.E..
W.E. - O Romance do Século conta uma passagem na biografia da corte britânica que O Discurso do Rei apenas mencionou. O longa metragem escrito e dirigido por Madonna conta o romance entre o Rei Edward VIII da Inglaterra e a americana Wallis Simpson. Na ocasião em que começaram o affair, por assim dizer, Wallis ainda estava casada, seu segundo casamento, já que Simpson tinha se divorciado do primeiro marido. A história dos dois foi um escândalo e Edward abdicou o trono para viver com sua amada, sendo banido da Inglaterra por isso. O trono foi ocupado por seu irmão, George VI, um homem inseguro em sua nova função por ser gago e ter pouco traquejo em público, este personagem foi vivido por Colin Firth em O Discurso do Rei, trabalho que lhe rendeu o Oscar de melhor ator. Com W.E., Madonna quer resgatar essa história, sobretudo pela perspectiva de Wallis, pouco lembrada em sua abdicação quando a biografia do casal é contada. Para isso, a diretora e roteirista utiliza uma personagem fictícia, uma homônima de Wallis, chamada de Wally, vivida por Abbie Cornish, uma mulher que sofre com as agressões do seu marido e passa a se relacionar com um segurança de uma galeria.

Os esforços de Madonna são reconhecidos pela sofisticação visual de W.E. e por algumas opções originais de sua narrativa. No entanto, o longa cai em desgraça pelo excessivo zelo que sua roteirista e diretora tem com a biografada. Retratos humanos de figuras históricas como esse jamais devem colocar seus protagonistas em um pedestal. Isso acontece em W.E.. Madonna evita qualquer perspectiva mais humana quando aborda a relação de Edward e Wallis, tanto que não exita em estigmatizar o retrato de outros personagens, como o próprio George VI, aqui mostrado como um homem pateticamente inseguro e subjulgado às opiniões de sua esposa Elizabeth, bem diferente do casal afetuoso do longa de Tom Hooper. Para completar o desastre, Madonna não consegue tornar a trama paralela a de Wallis atraente o suficiente para realizar uma conexão entre a personagem contemporânea e a homenageada, o que torna-se ainda pior quando decide intercalar certas sequências com diálogos constrangedoramente tolos entre as personagens.

No entanto, W.E. ao menos conta com atores interessantes, sobretudo Andrea Riseborough, excelente como Wallis Simpson, retratando a personagem como uma figura libertária e trágica. James D'Arcy também se destaca como Edward VIII, trazendo-o como um ponto destoante de uma corte afeita ao protocolo. Infelizmente o mesmo não pode ser dito da talentosa Abbie Cornish, que já nos encantou com o belíssimo desempenho em Brilho de uma Paixão, de Jane Campion, mas não por culpa da atriz. A construção de sua personagem é o "calcanhar de Aquiles" do filme, o que acaba prejudicando o trabalho de composição de Cornish, uma pena.

Plasticamente irretocável, talvez W.E. tenha sido uma proposta pesada demais para uma cineasta com um currículo tão modesto quanto Madonna. Conduzir e roteirizar um romance de época baseado em figuras históricas sem recorrer aos equívocos de W.E. seria um princípio básico. O longa não tem consistência e tropeça ao tentar contar uma trama verídica com uma outra fictícia que revela-se completamente capenga. Se tivesse optado pelo convencional, talvez o desastre não fosse tão grande.




W.E., 2011. Dir.: Madonna. Roteiro: Madonna e Alex Keshishian. Elenco: Abbie Cornish, Andrea Riseborough, James D'Arcy, Oscar Isaac, Richardo Coyle, David Harbour, Jams Fox, Judy Parfitt, Haluk Bilginer, Geoffrey Palmer, Natalie Dormer, Lauence Fox. 119 min. Playarte. 


domingo, 4 de março de 2012

Drive

Ryan Gosling em interpretação avassaladora em Drive.
Sem nome, o personagem de Ryan Gosling em Drive parece saído de uma fita dos anos 60 ou 70 - com trilha sonora dos anos 80 - , um longa que provavelmente seria protagonizado por Clint Eastwood, com ecos de Robert DeNiro em Taxi Driver, na época do cinema de ação hollywoodiano protagonizado por um justiceiro qualquer que caminhava na linha tênue entre a violência nata e a sensibilidade inspirada pelo amor de uma mulher. O filme de Nicolas Winding Refn, que ganhou o prêmio de melhor direção no Festival de Cannes, dialoga com essa escola em um exercício narrativo interessantíssimo que não seria o mesmo sem suas intervenções e sem a presença de Ryan Gosling no papel título, um dos desempenhos mais notáveis e complicados de sua carreira. O ator interpreta um dublê de filmes de ação especializado em manobras perigosas em automóveis. Nas horas vagas, o personagem dirige para grupos criminosos, sem se envolver diretamente com suas ações. Ele conhece Irene, sua vizinha de porta que acaba despertando seus melhores sentimentos e revela-se como sua única possibilidade de redenção.

A estrutura de Drive é relativamente simples. O roteiro de Hossein Amini não rebusca o texto, nem cria situações complexas demais para seus personagens. No entanto, Nicolas Winding Refn entrega introspecção e cria camadas e mais camadas de leituras interessantes, destacando seu primeiro grande trabalho como o início de uma carreira promissora. O filme dialoga, inicialmente, com seu protagonista. O personagem de Gosling é extremamente introspectivo, praticamente uma concha que sufoca e esconde qualquer sorte de sentimentos. No entanto, o silêncio ofusca a natureza paradoxalmente violenta e sensível do personagem, um sujeito que é capaz de gestos de profunda delicadeza e de pura raiva, exteriorizada através da força bruta. Isso é nítido na sequência em que ele tenta revelar a Irene o destino de seu marido após uma ação mal sucedida, momentos antes ele se declara para ela - "Deixe que eu cuide de você" -  e a toma de assalto com um beijo, segundos depois mata impiedosamente um sujeito contratado para investigá-los.

Ryan Gosling pode tornar-se ícone com este trabalho - isso, definitivamente, só o tempo dirá. O que não dá para negar é que é um dos desempenhos mais comprometidos e intressantes de sua carreira. O ator dá vida a um homem com evidentes traços de psicopatia e dificuldades de demonstrar sentimentos, mesmo quando eles estão borbulhando, quando só vemos os farrapos do personagens após tantas perdas. Salientando o temperamento linear do personagem, com pistas aqui e ali de picos emocionais, Gosling sustenta uma composição complicadíssima que prioriza o interno e, consequentemente, abre pouca possibilidade de arroubos dramáticos. O ator é acompanhado por uma doce Carey Mulligan e por Albert Brooks, que aqui interpreta um vilão bem interessante. Ainda assim, não há outra razão para o filme ser o que é sem o comprometimento de Ryan Gosling. Não é exagero dizer que ele está simplesmente brilhante. Uma daquelas interpretações em que o ator entrega muito pouco, despe o personagem aos poucos para o espectador.

Drive é o aval que Nicolas Winding Refn precisava para trabalhar em Hollywood. O filme também é o papel que Ryan Gosling precisava para sair da condição de jovem promessa do cinema indie para firmar-se como ícone. A violência gráfica, as referências implícitas e o clima nostálgico tornam o filme um excelente exercício de direção pra seu cineasta e ainda nos presenteia com um grande desempenho de Ryan Gosling. Drive é tudo o que o cinema independente dos EUA precisa no momento, renovação. Chega de câmeras na mão, ambição de menos e pernosticidade. O filme chega com uma interessante nova safra que evita maneirismos de linguagem e priorizam a história da maneira que ela merece ser contada.



Drive, 2011. Dir.: Nicolas Winding Refn. Roteiro: Hossein Amini. Elenco: Ryan Gosling, Carey Mulligan, Albert Brooks, Ron Perlman, Christina Hendricks, Bryan Cranston, Oscar Isaac, Kaden Leos, James Biberi, Russ Tamblyn. 100 min. Imagem Filmes.