sábado, 28 de abril de 2012

Sete Dias com Marilyn

Michelle Williams e Eddie Redmayne em Sete Dias com Marilyn: tentando compreender a mulher e o ícone.
Escalar protagonistas para cinebiografias não é tarefa das mais fáceis. Há que se combinar dois fatores importantíssimos: a semelhança física com o biografado, sobretudo se este representar um ícone para gerações, e a capacidade do intérprete de retratar a alma deste personagem. Optar por uma das duas vias e esquecer a outra é um grande risco, este foi o caso de Sete Dias com Marilyn. Escalar Michelle Williams, a loirinha baixinha e tímida de filmes como Namorados para Sempre e O Segredo de Brokeback Mountain (indicada ao Oscar por estes dois trabalhos), para interpretar o ícone hollywoodiano e símbolo sexual Marilyn Monroe foi o risco assumido por Simon Curtis. Michelle em nada lembra Monroe e por vezes isso fica gritando para o espectador na telona. No entanto, a atriz agarrou esta oportunidade com tanta delicadeza e foi tão aplicada na composição de Marilyn Monroe que todos os "pecados" da produção em sua escolha são perdoados.

Sete Dias com Marilyn traz uma passagem da vida de Marilyn Monroe, quando ela parte para a Inglaterra para filmar O Príncipe Encantado, co-estrelado e dirigido por Sir Laurence Olivier. Esta passagem na vida da estrela de Hollywood é contada pelos olhos de Colin Clark, um jovem assistente de direção do filme. Clark instantaneamente virou confidente de Marilyn e teve um rápido romance com a musa. Sete Dias com Marilyn é uma visão claramente romanceada dos eventos, certos personagens são retratados com uma certa complacência outros implacavelmente criticados em sua conduta. O que importa é que Simon Curtis soube revelar muito de sua personagem principal, sem deixar de ocultar determinados elementos, o que neste caso é sempre bom, afinal até hoje pouco se sabe sobre os fantasmas que tanto atormentavam Marilyn Monroe, que sempre preferiu esconder-se através da personagem que levava das telas para a vida real.

Monroe era uma atriz completamente insegura. Queria ser uma grande atriz de múltiplas facetas quando na verdade o segredo do seu sucesso estava nas variações que aplicava ao ar paradoxalmente inocente e malicioso de suas personagens. Monroe era uma mulher desesperada por afeto e tinha a incerteza da veracidade do mesmo por aqueles que estavam ao seu redor. A atriz passou parte de sua vida usando medicamentos fortíssimos para controlar sua depressão, insegurança e ansiedade nos sets. Em Sete Dias com Marilyn vemos a atriz duelar seus anseios com os de Laurence Olivier. Lenda do teatro britânico, Olivier queria ter sua carreira nos cinemas catapultada, em contrapartida, Monroe já tinha isso, o que queria mesmo era ser reconhecida como uma grande intérprete. Os sets de O Príncipe Encantado foram responsáveis pelas maiores dores de cabeça da carreira de Olivier, que em sua dupla função teve que lidar com o temperamento instável de Monroe.

Michelle Williams está ótima não só na assimilação de gestos e no trabalho vocal de Marilyn. A atriz está ainda melhor na interpretação da mulher por trás do mito, retratando Monroe como uma mulher frágil e tímida que brilhava diante das câmeras e que queria desesperadamente se encontrar em meio ao conflito que vivia entre a personagem que criou para o público e a mulher que realmente era. Kenneth Branagh também está excelente como Sir. Laurence Olivier, sendo responsável pelo ponto forte do longa: a tensão entre Olivier e Monroe. Branagh soube se opor a protagonista sem transformar Olivier em um carrasco, o que de fato ele não era. Além dele, há a participação imperdível de Judi Dench como Dame Sybil Thorndike.

Alicerçado no interesse crescente do público pelos bastidores do cinema em seus primórdios e pelo retrato de figuras reais e simbólicas como Marilyn Monroe, Sete Dias com Marilyn é uma maneira de compreender quem foi realmente Marilyn Monroe. O mais interessante neste processo é não ter conclusões sobre as causas das angústias de Marilyn, há suposições... Na verdade, um longa de cerca de duas horas é muito pouco para traçar um olhar sobre a atormentada e complexa personalidade de Monroe. Sete Dias com Marilyn traz indícios sobre Norma Jean e sobre Monroe com a ajuda do dedicado trabalho de Michelle Williams. O filme é marcado pelo êxito de se fazer um filme que lance uma perspectiva humana sobre uma das figuras mais misteriosas do século passado.



My Week with Marilyn, 2011. Dir.: Simon Curtis. Roteiro: Adrian Hodges. Elenco: Michelle Williams, Eddie Redmayne, Kenneth Branagh, Judi Dench, Emma Watson, Dominic Cooper, Julia Ormond, Geraldine Somerville, Toby Jones, Miranda Raison. 99 min. Imagem Filmes.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Os Vingadores

Chris Hemsworth e Chris Evans integram a equipe de Os Vingadores.
Os últimos filmes da Marvel, hoje já um estúdio cinematográfico, se empenharam em traçar a rota que levaria todos os seus personagens a um destino, o tão sonhado longa metragem que reuniria os principais personagens da editora de quadrinhos em uma equipe pronta para lutar contra um mal irrefreável contra a Terra. Este foi o "calcanhar de Aquiles" de algumas de suas produções, Thor e Homem de Ferro, entre outros problemas, trazem uma necessidade, por vezes impertinente, de estabelecer conexões múltiplas com outros universos da Marvel, o que para leigos, venhamos e convenhamos é irritante e confuso. Particularmente, Capitão América e O Incrível Hulk, apesar do último ter algumas falhas, são mais bem resolvidos e funcionam como obras únicas, o primeiro, por exemplo, é o mais interessante da Marvel e um dos únicos do estúdio que teve autonomia o suficiente para carregar um conceito e uma proposta narrativa. O dia que todos esperavam e comentavam chegou e a equipe batizada de Os Vingadores surge pela primeira vez nos cinemas para delírio de fãs de todo o mundo que aguardavam este momento.

O motivo para a reunião de personagens como Tony Stark, Steve Rogers, Dr. Bruce Banner e Thor não convence. O perigo iminente aqui não é diferente do que já tenhamos visto em tantos outros filmes similares. O que não dá para negar é que Os Vingadores tem seu charme, uma grife. O filme corresponde a todos os fetiches dos fãs da Marvel. Certamente ouvirá gritos eufóricos nas sessões de exibição em meio aos confrontos de Capitão América contra Homem de Ferro, Hulk contra Thor e até Viúva Negra contra Gavião Arqueiro. Foi para isso que Os Vingadores foi feito, satisfazer seus fãs ardorosos, desde os mais antigos que acompanham os personagens nas HQs, até os mais recentes que iniciaram seus passos no universo através dos filmes. Joss Whedon preenche o longa de sequências de ação desenfreadas, confrontos épicos, e ainda consegue aliviar as frustrações de quem esperava mais de Viúva Negra em Homem de Ferro 2  e Hulk em seus dois primeiros filmes. De longe, os personagens têm os melhores momentos do longa, seguidos do icônico Tony Stark e do valoroso Capitão Steve Rogers. Entre os asgardianos, o Loki de Tom Hiddleston se sobressai e finalmente diz a que veio, fazendo juz a alcunha de vilão. Mais uma vez, é para os fãs que o filme é feito e Os Vingadores corresponde a estas expectativas.

Em poucas palavras: Os Vingadores sacia a vontade dos fãs da Marvel e de qualquer forma é um alento para quem não teve paciência com a quantidade de easter eggs nos últimos longas do estúdio, que mais pareciam estar a serviço deste longa do que a satisfazer seus próprios objetivos. Os Vingadores é entretenimento puro e escancarado, salta aos olhos. No geral, satisfaz, mas talvez me empolgasse mais na adolescência. Em todo caso, não dá para dizer que o longa não cumpriu sua proposta, ele é aquilo que todos esperavam dele. Fetiche para marvelianos.



The Avengers, 2012. Dir.: Joss Whedon. Roteiro: Joss Whedon. Elenco: Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo, Scarlett Johansson, Chris Hemsworth, Jeremy Renner, Samuel L. Jackson, Tom Hiddleston, Clark Gregg, Gwyneth Paltrow, Cobie Smulders, Stellan Skarsgaard. 142 min. Paramount.

domingo, 22 de abril de 2012

2 Coelhos

Fernando Alves Pinto e Caco Ciocler em 2 Coelhos.
2 Coelhos é um daqueles casos que me leva à indefinição. Se por um lado a trama do filme é engenhosa, salientando uma articulação interessante do roteiro ao tornar coerente a junção de tantas tramas, por outro, o longa peca por inovações desnecessárias na abundância de sequências que utilizam recursos digitais. Algumas ficaram muito boas e estão à serviço da sua história, outras, parecem deslocadas e se utilizam de recursos batidos como o slow motion. Semelhante ao que diretores como Baz Luhrmann e Zack Snyder tentaram imprimir em algumas de suas obras mais icônicas, para ser mais claro Moulin Rouge e 300, respectivamente, Afonso Poyart traz a linguagem clipeira, que não necessariamente preza pela logicidade ou conexão entre seus artifícios e os eventos que estão acontecendo no filme. No caso de 2 Coelhos, há um descompasso, o que não prejudica a narrativa central do filme, mas passa a impressão, em momentos localizados, de que estamos diante de um diretor que quer sublinhar, insistentemente, o seu caráter visionário para o espectador.

2 Coelhos traz a história de Edgar, um rapaz que cria um plano mirabolante para atingir duas metas centrais em sua vida, reveladas no desenrolar dos acontecimentos do longa. O que se sabe em um primeiro momento é que o protagonista tenta sabotar a teia de corrupção que assola nosso país há anos, a ligação entre o crime organizado e as altas esferas de poder, o judiciário e o legislativo.

Pela  exposição da sua premissa, não há como negar que 2 Coelhos é um filme inteligente e repleto de insights interessantes. Pena que Poyart acredita demais nas suas interferências imagéticas mirabolantes e que pouco  dialogam com os acontecimentos do filme. Os efeitos digitais tão propagados  servem mais à dispersão do que como suporte narrativo, o que é uma pena.

Há ótimas interpretações do seu elenco como é o caso do protagonista Fernando Alves Pinto e Caco Ciocler, que tem em mãos um dos personagens mais interessantes e emocionalmente bem construídos do longa. O filme ainda conta com Alessandra Negrini, apenas correta em suas funções, e o ex-VJ da MTV Thaíde, que estabelece uma parceria  cômica com o ator Robson Nunes. Contudo, o destaque de 2 Coelhos vai mesmo para seu realizador. Na verdade, para a ousadia do mesmo. Goste ou não goste de suas interferências, há que se reconhecer que Afonso Poyart realizou o filme que quis com os recursos que tinha e imprimiu uma linguagem própria à obra. Uma linguagem que esperamos ser melhor administrada em trabalhos futuros, é verdade, mas que mostra a personalidade do realizador.

 


2 Coelhos, 2012. Dir.: Afonso Poyart. Roteiro: Afonso Poyart. Elenco: Fernando Alves Pinto, Alessandra Negrini, Caco Ciocler, Marat Descartes, Neco Vila Lobos, Roberto Marchese, Thaíde, Robson Nunes, Norival Rizzo, Aldine Muller. 101 min. Imagem Filmes.

sábado, 21 de abril de 2012

A Perseguição

Liam Neeson em A Perseguição: sobrevivência no Alasca.
Joe Carnahan surgiu em 2001 com um dos filmes mais badalados daquele ano, Narc. Logo começou a se falar que o diretor era uma das promessas no cinema de ação. Uma promessa que até o momento não se confirmou com A Última Cartada e Esquadrão Classe A. Pode-se dizer que A Perseguição é o modesto retorno de Carnahan ao eixo. Estruturado como um thriller sobre a sobrevivência de um grupo de trabalhadores do petróleo no frio cortante do Alasca após um acidente com o avião que os transportava, A Perseguição acaba extrapolando as marcações daquilo que se espera de um filme do seu gênero e oferece um ponto de vista sensível sobre seus personagens. O longa ganha ainda mais força por contar com a interpretação de Liam Neeson na pele do protagonista da história. O ator está excelente como o líder do grupo do filme, um homem consumido pela dor de suas próprias recordações e que redescobre a humanidade no convívio com os demais que sobrevivem ao acidente aéreo.

A Perseguição é dirigido com eficiência e possui um ritmo frenético, mas não deixa de abrir espaço para seus personagens, os conflitos que os movem e a assimilação que os mesmos fazem dos eventos que protagonizam. O filme ganha uma crescente tensão especialmente quando o grupo comandado por Neeson tenta sobreviver em meio a quieta e brutal natureza que os cerca, cujo risco não vem não apenas pela temperatura local, mas também da constante ameaça de um grupo de coiotes famintos. O realizador Joe Carnahan lida muito bem com todas estas fontes de tensão para seus protagonistas e confere agilidade à narrativa. 

Claro que seria mais interessante se Carnahan extrapolasse as expectivas e assumisse com sem muitas amarras a amargura e o passado de seu protagonista, levando-o de fato até as últimas consequências. No entanto, A Perseguição é um trabalho bem satisfatório que consegue atender às duas demandas principais do seu público, que: a) espera um filme de ação competente e b) deseja um filme surpreendente em suas construções e conflitos dramáticos. 



The Grey, 2012. Dir.: Joe Carnahan. Roteiro: Joe Carnahan e Ian Mackenzie Jeffers. Elenco: Liam Neeson, Dallas Roberts, Dermot Mulroney, Frank Grillo, Joe Anderson, Nonso Anozie, James Badge Dale, Ben Bray, Anne Openshaw, Jacob Blair. 117 min. Imagem Filmes.

Assista ao trailer: 

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Diário de um Jornalista Bêbado

Johnny Depp em Diário de um Jornalista Bêbado.
Diário de um Jornalista Bêbado é o tipo de equívoco cinematográfico que o próprio diretor não se dá conta que está produzindo. Aliás, nem ele nem seu ator principal e produtor, Johnny Depp, que anda sustentando escolhas duvidosas como esta levantando a bandeira de que a plateia é intelectualmente incapaz de acompanhar os passos do jornalista Paul Kemp, seu personagem aqui, em sua passagem por Porto Rico. O grande problema do longa é não conseguir sustentar por um só momento uma de suas inúmeras tramas, pecando evidentemente por ser disperso como narrativa e por não conseguir amadurecer nenhuma de suas propostas traçadas.

Johnny Depp interpreta um jornalista que acaba de chegar em Porto Rico e passa a trabalhar em um jornal praticamente falido. No meio da história, Paul Kemp - este é o nome do sujeito - começa a estabelecer negócios com um ambicioso empresário disposto a explorar a região e se apaixona pela namorada do mesmo. Sem chegar a uma definição sobre os meios que o fazem chegar à finalidade de Diário de um Jornalista Bêbado, Bruce Robinson se acovarda diante do receio de fazer com que sua obra, caso abraçasse assumidamente a anarquia, ganhasse a repulsa do público. Assim, o diretor e roteirista se perde em meio a uma trama tola e repleta de artifícios maniqueístas que não condizem com os anseios da obra. Temos o playboy com evidentes traços de vilania, a mocinha que alterna sensualidade e fragilidade e Johnny Depp cansando a retina e os ouvidos de todos ao interpretar pela milésima vez uma de suas variações de... Johnny Depp.

Diário de um Jornalista Bêbado ganharia mais se levantasse a bandeira da ironia e da crítica política e social. O que vemos na obra é um caminho cheio de rotas e atalhos que não chegam a lugar algum. O longa é puro entrenimento? Irônico? Anárquico? Talvez uma mistura de tudo isso. A certeza é que com essa diversidade de caminhos e tonalidades, o longa não deixa claro suas próprias regras e propósitos ao espectador que fica à mercê das excentricidades sem maiores justificativas de seu protagonista, interpretado por um Johnny Depp que a cada ano que passa se torna enfadonho por tentar se reinventar. O que o ator faz é se reciclar da pior maneira possível.



The Rum Diary, 2011. Dir.: Bruce Robinson. Roteiro: Bruce Robinson e Hunter S. Thompson. Elenco: Johnny Depp, Aaron Eckhart, Amber Heard, Richard Jenkins, Michael Rispoli, Giovani Ribisi, Amaury Nolasco, Marshall Bell, Bill Smitrovich. 120 min. Vinny Filmes.

sábado, 14 de abril de 2012

Dublê do Diabo

Dominic Cooper em dupla função em Dublê do Diabo.
Filho mais velho de Saddam Hussein, Uday Hussein era um inconsequente. Viciado em drogas, violento e temperamental, Uday passou boa parte do mandato de seu pai se metendo em toda sorte de confusões que davam dor de cabeça até ao também explosivo Saddam Hussein, seu pai. Dublê do Diabo traz parte da biografia desse sujeito repugnante pela perspectiva de seu sósia Latif Yahia. O roteiro do filme foi baseado em um livro de autoria do próprio Yahia, que foi sequestrado pelo filho do ditador quando ainda servia o Exército do Iraque na guerra contra o Irã na década de 1980. Segundo, Yahia era um calvário acompanhar as barbaridades do filho de Hussein, reconhecido por todos como um herdeiro mimado, voluntarioso e cruel. A direção do longa coube ao neozelandês Lee Tamahori, diretor conhecido por filmes de ação escapista, e o papel duplo coube ao inglês Dominic Cooper, de Mamma Mia! e A Duquesa.

O resultado não é decepcionante, apesar de alguns excessos. Tamahori se policia o máximo que pode e nem traz vestígios do diretor desleixado e confuso de O Vidente e 007 - Um Novo Dia para Morrer. Ainda há excessos, como sequências grotescas como o assassinato de um dos convidados de um banquete oferecido por Uday ou a destoante cena de sexo entre Latif e uma das prostitutas do filho de Hussein, vivida por Ludivine Sagnier. Ainda assim é curioso relativizar essa observação pois em determinados momentos os excessos de Tamahori convergem no teor doentio dos atos do protagonista, dimensionando relativamente bem a psicopatia do primogênito de Hussein. No mais, Tamahori acerta mais do que erra e se redime de seu último filme, a tragédia sem precedentes O Vidente, com Nicolas Cage e Julianne Moore.

A composição de Dominic Cooper oscila. Em determinados momentos, o ator é capaz de sacadas incríveis para ambos personagens, em outras vacila no tom, especialmente Uday que vez ou outra cai no risível. Os demais atores também não têm muito a oferecer, especialmente Ludivine Sagnier que interpreta uma personagem completamente indiferente à narrativa. O destaque maior fica por conta do tom que Tamahori encontrou para o filme. Dublê de Corpo traz o retrato sombrio de um homem obcecado pela falta de limites do poder que tinha em mãos. Nas sequências mais marcantes do longa vemos Uday sequestrando menores na rua para transformá-las em suas prostitutas exclusivas e estuprando uma noiva em pleno dia da cerimônia de seu casamento. O filme toma certas liberdades, nada que incomode muito, e consegue oferecer o que exatamente propõe, ainda que falte um certo polimento na performance de seus atores. Mas isso o tempo resolve, ao menos Dublê de Diabo nos dá esperança de que Lee Tamahori tem potencial para projetos mais bem resolvidos que seus exemplares anteriores. Há salvação para tudo.



The Devil's Double, 2011. Dir.: Lee Tamahori. Roteiro: Michael Thomas. Elenco: Dominic Cooper, Ludivine Sagnier, Raad Rawi, Philip Quast, Mimoun Oaissa. Khalid Laith, Dar Salim, Nasser Memarzia, Mem Ferda, Pano Masti, Akin Gazi. 108 min. Califórnia Filmes.

A Toda Prova

Gina Carano finaliza Michael Fassbender em A Toda Prova, novo longa de Steven Soderbergh.
A Toda Prova comprova (dã!) o que já suspeitava há um certo tempo. Steven Soderbergh funciona quando se propõe contar narrativas mais despojadas, livre de qualquer amarra burocrática, longas excessivamente racionais. Claro que há exceções como Sexo, Mentiras e Videotape ou Traffic, mas, na maioria das vezes, quando Soderbergh resolve falar sério é capaz de trabalhos enfadonhos como as duas partes de Che ou O Segredo de Berlim, trabalhos igualmente pedantes, ou o razoável Contágio, que ainda conta com alguns pontos positivos. Soderbergh é mais interessante em filmes despretensiosos como a trilogia iniciada com Onze Homens e Um Segredo e nesse A Toda Prova. Aqui, Soderbergh "brinca" com personagens e com o próprio público com um filme de ação que flerta com os anos 70 e nos brinda com uma protagonista que é a encarnação de Jason Bourne e Ethan Hunt com saias.

A plot de A Toda Prova é bem simples, e não poderia deixar de ser para a proposta de Soderbergh. O filme segue a história de uma super agente de uma organização secreta é traída pelo seu grupo e se vê perseguida como uma criminosa de alta periculosidade. Para a protagonista, Soderbergh fez uma escalação semelhante a de Confissões de uma Garota de Programa, só que, no caso, ao invés da atriz pornô Sasha Grey contratou a lutadora de MMA Gina Carano, um típico caso onde atriz e personagem se confundem tanto que uma passa a ser reflexo da outra. O mais impressionante na escalação é que Carano consegue engolir todos os seus parceiros de cena, gente do calibre de Michael Douglas, Ewan McGregor, Michael Fassbender, Mathieu Kassovitz, Antonio Banderas e, bem, Channing Tatum e Bill Paxton. Não que Carano seja uma revelação dramatúrgica para a sétima arte, mas sua presença em A Toda Prova é magnética e fundamental para que o espectador compre a inverossimilhança da trama e da personagem. A novata domina a cena de tal forma que seus parceiros são praticamente anulados, uma consequência proposital, diga-se de passagem.

Bem mais direto e econômico que a trilogia do Ocean liderada por George Clooney, Brad Pitt e Matt Damon, A Toda Prova é o melhor de Soderbergh em anos. Aqui o diretor não está refém de suas pretensões burocráticas e se aproxima das plateias com um jogo de câmeras certeiro que utiliza poucos cortes. O cineasta também acerta em sua escolha incomum, Gina Carano é a melhor protagonista de filmes de ação em anos. Carano sabe ser feminina e enérgica, quando necessário. A maior qualidade da novata é saber camuflar muito bem suas falhas como intérprete, tendo a noção exata de até onde pode e deve ir.



Haywire, 2011. Dir.: Steven Soderbergh. Roteiro: Lem Dobbs. Elenco: Gina Carano, Ewan McGregor, Michael Douglas, Antonio Banderas, Chaning Tatum, Michael Fassbender, Bill Paxton, Eddie J. Fernandez, Michael Angarano, Anthony Brandon Wong. 93 min. Imagem Filmes.

sábado, 7 de abril de 2012

Albert Nobbs

Glenn Close perdida em sua própria identidade em Albert Nobbs: desempenho indicado ao Oscar.
Albert Nobbs é um daqueles filmes que a gente lamenta dar um retorno negativo aos leitores, mas é inevitável. O novo filme de Rodrigo Garcia é, na verdade, mais um trabalho da autoria da atriz Glenn Close que do diretor. A função de Garcia certamente passou pelo aval de Close que encenou Albert Nobbs nos palcos na década de 1980 e há anos guardava o sonho de levar a história para as telonas. Close produz, roteiriza e protagoniza este drama de época e ainda encontra tempo para compor a canção que encerra o longa em seus créditos finais, "Lay Your Head Down", uma parceria com Sinnead O'Connor. As expectativas eram grandes desde o anúncio das filmagens, Close, uma das atrizes mais queridas de sua geração, finalmente retornaria em grande estilo para as telonas e com um personagem complexo o suficiente para lhe render seu tão esperado Oscar de melhor atriz - a atriz já havia sido indicada cinco vezes ao prêmio antes de Albert Nobbs. O resultado de tanta expectativa é um verdadeiro fiasco, uma derrota que todos lamentam, não há dúvidas.

Albert Nobbs conta a história de um mordomo de um hotel que esconde um segredo: ele é na verdade uma mulher. Nobbs assumiu a identidade masculina desde a sua adolescência para poder sobreviver. Em pleno século XIX, as coisas não eram nada fáceis para mulheres e para completar Nobbs passou por experiências traumáticas na juventude que fortaleceram sua vontade de assumir uma identidade masculina. Toda a história é tratada, como de hábito, com bastante delicadeza por Rodrigo Garcia, um diretor que não costuma falhar mesmo quando lhe incumbem de materiais duvidosos como Passageiros, filme protagonizado por Anne Hathaway. Mas lembremos de Destinos Ligados e Coisas que eu poderia dizer só de olhar para ela. Garcia sempre emprega uma direção elegante e respeitosa com seus atores e aqui não é diferente.

No entanto, os esforços de Garcia são sabotados por um roteiro desastroso escrito a seis mãos, duas delas são as de Glenn Close. Em meio ao eixo dramático que de fato interessa, Nobbs e sua busca por uma identidade própria, os roteiristas inserem subtramas descartáveis (como a que envolve o enlace entre dois jovens empregados do hotel), desdobramentos que em nada servem à trama (o alastramento da Febre Tifóide na Europa) e mudanças súbitas de comportamento dos personagens (o caso do personagem de Aaron Johnson, que acaba sendo reduzido a um vilão que não assume sua própria vilania). Destas inserções, somente uma vale realmente a pena, a ligação entre Nobbs e o pintor Hubert Page, vivido por Janet McTeer, que logo se revela um igual para o novo "amigo". Page também é uma mulher assumindo socialmente a identidade de um homem. Em meio a tantos conflitos para resolver, Albert Nobbs se esquece de resolver uma questão crucial: o que se passa de fato na cabeça de Nobbs? Homem? Mulher? O longa não deixa claro a solução para esse enlace, nem mesmo deixa claro se a solução é deixar todos na dúvida. 

O que não deixa dúvidas é que Glenn Close tem um desempenho impecável, ainda que a atriz tenha sido responsável por uma auto sabotagem em virtude das péssimas soluções e desenvolvimento de personagens do roteiro. Close personifica a falta de traquejo de Nobbs e o olhar de quem está acostumado aos gestos e reações comedidas para esconder seu grande segredo. Ao mesmo tempo em que há uma ingenuidade, que beira a infantilidade, de Nobbs na descoberta das imperfeições dos indivíduos a seu redor, Close deixa clara a natureza arredia e introspectiva do personagem. Sem maiores danos, Janet McTeer acaba se beneficiando pelos tropeços que o roteiro proporciona à composição de Close. Bem mais resolvido que Nobbs, o Sr.Page da atriz, também indicada ao Oscar pelo filme (coadjuvante), é o melhor personagem de todo o longa.

Curioso notar que Albert Nobbs é tão, ou mais, desastroso que A Dama de Ferro, longa que rendeu o tão aguardado terceiro Oscar da carreira de Meryl Streep, prova de que suas protagonistas passaram por uma grande prova de fogo em suas carreiras. Se Close e Streep sobreviveram aos terrenos movediços de seus próprios projetos é uma prova cabal de que nada mais pode abalar a carreira das veteranas. Em compensação, as duas produções terem chegado onde chegaram é prova de que não há dúvidas que o cinema continua com uma dívida enorme com suas atrizes. Albert Nobbs é uma promessa não realizada, mas o mais curioso é perceber que não havia ninguém ao lado de Close para alertá-la do péssimo roteiro em desenvolvimento. Um roteiro tão confuso e perdido no caminho a seguir quanto o próprio Albert Nobbs e seu dilema quanto a sua própria identidade sexual. Pena. Queria que fosse arrebatador, mas não é.

 


Albert Nobbs, 2011. Dir.: Rodrigo Garcia. Roteiro: Glenn Close, John Banville e Gabriella Prekop. Elenco: Glenn Close, Mia Wasikowska, Aaron Johnson, Janet McTeer, Brendan Gleeson, Jonathan Rhys Meyers, Pauline Collins, Maria Doyle Kennedy, Mark Williams, James Greene. 113 min. Paris Filmes.

Jovens Adultos

Charlize Theron e as frustrações da vida adulta em Jovens Adultos: os gloriosos tempos que não voltam mais.
Jovens Adultos, novo filme de Jason Reitman, diretor de Amor sem Escalas e Juno, me fez lembrar de Margot e o Casamento, filme de Noah Baumbach, estrelado por Nicole Kidman, Jennifer Jason Leigh e Jack Black em 2007. Ambas produções são protagonizadas por mulheres absolutamente detestáveis, mas que servem para colocar uma lente de aumento nas ranhuras de nosso próprio caráter. A semelhança da Margot de Kidman, Mavis Gary é uma escritora que se julga melhor que os outros, repelindo todos a sua volta com seu ar de superioridade. A diferença é que Mavis é uma mulher absolutamente medíocre e que é atormentada pelo fantasma da solidão que ela mesma arranjou como companhia nos últimos anos. Na verdade, o que Jason Reitman e a roteirista Diablo Cody querem é fazer um retrato de uma fase peculiar na vida de todos nós, o início da fase adulta, onde somos assombrados pelas expectativas geradas na adolescência e os efeitos da não concretização dessas mesmas expectativas. Será que estamos todos prontos para constatar que o mundo lá fora é uma selva e que não somos únicos e especiais como pensávamos?

Jovens Adultos começa quando Mavis Gary recebe um e-mail de um ex-namorado, que ainda vive na cidadezinha natal de Gary, para comemorar a chegada de sua primeira filha. Gary, já ciente do vazio completo de sua vida, entende aquilo como um chamado: deve resgatar seu grande amor da mediocridade da vida suburbana no interior do país e, de quebra, arrematar novamente o gostinho da felicidade plena que tinha ao seu lado nos tempos de colegial. Marvis vai se reaproximando do ex e começa a traçar estratégias para destruir seu casamento dele. Aos poucos, as investidas de Marvis revelam sua profunda frustração com os rumos de sua vida e a máscara social de escritora bem sucedida começa a dar lugar a uma mulher triste e sozinha assombrada pela própria imagem que criou de si. Assim, Diablo Cody recupera a pungência e a ironia de seu trabalho depois do sorrateiro Garota Infernal. Além de criar uma protagonista que por si só é um risco para o longa - Mavis não é uma figura que inspira admiração ou mesmo simpatia nas plateias -, Cody constroi um ciclo de relacionamentos que gradualmente deflagram todo o sentido de sua obra.

Jovens Adultos traz à tona um fenômeno comum no início da idade adulta: a frustração pela não realização de sonhos e projeções cultivados na adolescência. Não é comum encontrar pessoas como Mavis, a Rainha do Baile, que saem da adolescência  com altas expectativas sobre a vida e o mundo e caem em desespero ao constatar que é apenas mais uma no competitivo universo da vida adulta. Se conformar com a realidade de que somos indivíduos comuns e que temos, como qualquer pessoa, nossas limitações e até mediocridades é o primeiro passo para a aceitação e a redenção, o que não é o caso de Mavis. A personagem de Charlize Theron provavelmente cresceu em um ambiente no qual seu ego era constantemente massageado e levou para sua vida uma imagem que construiu de si mesma. A protagonista de Jovens Adultos está encastelada no mundo de paparicos e glórias do início da década de 1990, quando todos a seu redor eram meros mortais, medíocres e ela e seu namorado Buddy literalmente reinavam. A verdade é que Mavis cresce com essa projeção de si mesma e se dá conta tarde demais que tornou-se uma profissional medíocre e um ser humano pior ainda. 

Em Jovens Adultos, Jason Reitman retorna a sua abordagem mais simples, abandonada propositalmente em Amor sem Escalas pela proporção do projeto. A direção de Reitman até compõe um interessante contraste com sua protagonista já que o que se vê em cena não é nem um terço do que a mente de Mavis Gary ambiciona para ela mesma. O diretor conta com um desempenho formidável de Charlize Theron que nos faz detestar Mavis em cada olhar destrutivo que lança para os outros personagens para aos poucos nos fazer perceber que tudo o que mais detestamos nela em algum momento se manifesta em nós mesmo. O que norteia as ações da personagem é basicamente a inveja, em nossas cabeças cristãs, o pior e mais negado dos pecados que podemos ter. O longa está nas mãos de Mavis Gary e Charlize Theron não decepciona ao entrar de cabeça na composição da pior das criaturas na Terra, a própria Mavis Gary. A atriz também conta com um ótimo elenco de coadjuvantes que incluem Patrick Wilson e, com grande destaque, Patton Oswalt, intérprete daquele que acaba se tornando a consciência da personagem.

No caso de Oswalt, a parceria é ainda mais genial já que ele e Charlize representam os estereótipos mais comuns do colegial: o nerd vítima de bullying e a garota mais desejada do colégio. No final das contas, todos acabam se igualando em frustrações e realizações na vida adulta. Jovens Adultos não é um filme de fácil apreciação ou de qualidades instantaneamente detectáveis, talvez algunns nunca as encontrem, é, definitivamente, um gosto particular. Cody, Reitman e Theron se lançam nessa aventura ao trazer um longa protagonizado por uma personagem que não faz questão de esconder sua ironia, inveja, soberba e toda sorte de sentimentos nada nobres, que retrata a fase adulta, abordada poquíssimas vezes no cinema, ao menos não com a maturidade e o teor provocativo e mordaz de Jovens Adultos. Não há como não sair com uma pulguinha atrás da orelha diante das loucuras de Mavis Gary. Para quem achava que a adolescência era o último estágio do inferno na Terra, bem-vindo à "adultescência". 




Young Adult, 2011. Dir.: Jason Reitman. Roteiro: Diablo Cody. Elenco: Charlize Theron, Patrick Wilson, Patton Oswalt, Elizabeth Reaser, Collette Wolfe, Jill Eikenberry, Hettienne Park, Richard Bekins, Mary Beth Hurt, Kate Nowlin. 94 min. Paramount.

Xingu

João Miguel, Felipe Camargo e Caio Blat são os irmãos Villas Bôas em Xingu: a formação do Parque Nacional do Xingu.
A formação do Parque Nacional do Xingu, área verde e isolada  para preservação dos povos e da cultura indígena no Brasil, em 1961, foi fruto do trabalho de três irmãos: Cláudio, Osvaldo e Leonardo Villas Bôas. Três aventureiros que largaram suas vidas em São Paulo e partiram para o norte do país em busca de algo que nem eles mesmos faziam ideia. Encontraram povos indígenas em perfeita harmonia com a natureza, mas massacrados pelo contato com os brancos que lhes passavam uma série de enfermidades das quais nunca tiveram acesso e pela ambição dos mesmos por novos pedaços de terra. Os Villas Bôas, já integrados à cultura dos povos, decidiram se empenhar na criação de uma reserva que pudesse abrigar as diferentes tribos indígenas do local, preservando esses povos e tentando tornar o contato deles com os brancos mais harmônico e pacífico possível. O resultado não foi o esperado, afinal eles passaram por uma série de percalços e frustrações ao longo do caminho, mas o legado e as intenções podem ser consideradas como mais positivas que negativas. Muita coisa inevitavelmente não puderam transformar ou evitar, afinal, como o próprio Cláudio Villas Bôas, interpretado por João Miguel em Xingu, constata, qualquer tipo de contato do branco com o índio, por mais bem intencionado que seja, acaba contribuindo para destruí-la aos poucos.

O mais interessante em Xingu é acompanhar esta conclusão pela perspectiva do próprio Cláudio Villas Bôas, dos irmãos o que mais teve contato com os índios e, consequentemente, o que mais percebeu os reflexos do contato dos povos brancos com eles. Xingu traz a história da fundação do Parque Nacional e, apesar de entrar em detalhes da vida dos Villas Bôas, traz um pouco da trajetória e dos esforços do trio. Ainda assim, Cao Hamburger deixa bem claro que os Villas Bôas são utilizados como uma porta de acesso para a compreensão dos eventos que deseja narrar. O que importa aqui, e isso o diretor deixa bem claro desde o primeiro instante, é resgatar esse lado do Brasil que continua relegado ao acaso e à incompreensão. Hamburger traça uma análise com teor de urgência, ainda que em momentos venhamos sentir que seja uma urgência tardia, sobre a irracionalidade e insensibilidade humana diante do universo e das questões alheias. 

O trio central é irretocável. João Miguel, na pele de Cláudio, seja talvez quem tenha a trajetória mais transformadora. No entanto, é louvável que o ator evite atalhos para tornar Cláudio Villas Bôas uma figura heróica, seria um equívoco. Na composição do ator, Cláudio não deixa de ser uma figura admirável por seus feitos, mas é humano e apresenta falhas, falhas que o próprio personagem percebe e que desenrola uma série de conflitos internos nele. Felipe Camargo dá vida a Osvaldo, o responsável pelos acordos políticos com as esferas do governo para a concretização da reserva, e Caio Blat é Leonardo, o irmão mais novo que acabou sendo expulso do projeto por Osvaldo por engravidar uma índia. 

Xingu traz características evidentes da narrativa de Cao Hamburger, algo que detectamos no belíssimo O Ano em que meus Pais saíram de Férias. O cineasta é capaz de oferecer um novo olhar para temas mais do que discutidos nas diversas instâncias da sociedade brasileira. O mérito de Hamburger em Xingu está em trazer para o foco questões mal resolvidas e responsáveis por feridas mal cicatrizadas em nosso país. Xingu tem raízes fortes nessa proposta e não abandona a compreensão de que para dialogar e sensibilizar a plateia para o tema é preciso um olhar atento para seus personagens, nesse caso, os povos indígenas e não os Villas Bôas. Cao, Cláudio, Osvaldo e Leonardo são apenas intermediadores deste processo.

 


Xingu, 2012. Dir.: Cao Hamburger. Roteiro: Cao Hamburger, Ana Muylaert e Elena Soarez. Elenco: João Miguel, Felipe Camargo, Caio Blat, Maria Flor, Maiarim Kaiabi, Awakari Tumã Kaiabi, Adana Kambeba, Taparé Waurá, Augusto Madeira, Fábio Lago. 102 min. Sony.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Espelho, Espelho Meu

Lily Collins dá vida a Branca de Neve em Espelho, Espelho Meu.
Em tempos de cinismo e descrença generalizada, parece que os contos de fadas estão fadados à descrença. Não é incomum ver narizes torcidos diante de iniciativas como estas do indiano Tarsem Singh de render-se aos apelos irresistíveis dos sonhos e da inocência de um belo conto sobre uma princesa encantada. Talvez o desejo de ver Espelho, Espelho Meu sagrar-se como uma grande obra seja maior do que o bom senso, mas a adaptação, que tem inúmeros percalços, garante a linearidade e o frescor em boa parte de sua narrativa, um frescor que, ironicamente, vem  de seu irresistível apelo aos antigos padrões estabelecidos em uma narrativa como esta. O grande equívoco do filme é desejar a ruptura dos contos de fadas quando seus melhores momentos estão justamente na manutenção da aura de ingenuidade típica dessas histórias que sobrevivem por gerações.

A plot de Espelho, Espelho Meu não é novidade para ninguém. Branca de Neve se vê orfã e sob os domínios da Rainha Má, sua perversa madrasta que a mantém prisioneira no castelo. Quando a vilã dá ordens para dar fim na vida da enteada, Branca de Neve conta com a piedade de seu algoz e acaba escapando do seu cruel destino. A princesa acaba sendo acolhida por um grupo de sete anões, que acabam se tornando seus grandes amigos e aliados. Esta trama inicial que nos é contada há anos sofre livres adaptações dos roteiristas, algumas bem-vindas outras não. O que mais incomoda em Espelho, Espelho Meu é sua evidente indecisão pelo tom que deve dar à sua narrativa. A impressão que dá é que o filme de Tarsem Singh vive na eterna encruzilhada: devo me render ao conto de fadas ou tentar subvertê-lo. O que é uma pena pois está mais que claro que Espelho, Espelho Meu brilha quando se rende à magia e ao romantismo e perde consideravelmente quando tenta realizar algumas modificações tolas na clássica história da Branca de Neve.

Nesse eterno impasse do filme, Julia Roberts se sai deliciosamente bem. Perversa e entregue à completa diversão, a atriz parece ter sido feita para interpretar a Rainha Má, uma personagem que não esconde a simplicidade de seus propósitos: destruir sua rival a qualquer custo. Roberts entrega-se ao espírito da obra e faz uma vilã que, para nosso deleite, oscila entre a loucura e o humor, o que é ótimo pois a atriz tem um inegável timing para a comédia e aqui o aplica muito bem. O mesmo pode ser dito de Armie Hammer, o príncipe, e Nathan Lane, o mordomo da Rainha, ótimos em suas parcerias com a estrela. No entanto, Lily Collins é visivelmente prejudicada pela inconstância do roteiro, já que sua Branca de Neve é alvo das mudanças do teor da narrativa do filme. O que não dá para negar é que Collins está magnética, linda, fisicamente ela é a Branca de Neve.

 
Espelho, Espelho Meu sofre do mesmo mal que toda a filmografia do indiano Tarsem Singh. É perfeitamente compreensível que o diretor queira imprimir suas marcas em sua carreira. No entanto, é preciso compreender como inserí-las em cada um dos contextos que lhes são propostos. Sendo seu trabalho mais regular, Espelho, Espelho Meu seria mais interessante caso se jogasse no universo repleto de possibilidades de um doce e mágico conto de fadas. O teor subversivo que Singh tenta impor a seu filme é redundante e não apresenta nenhuma subversão. Ainda assim, o filme merece créditos por tentar colocar um pouco de inocência e simplicidade narrativa na cada vez mais cínica e realista Hollywood. Bons e divertidos sonhos! 

 


Mirror Mirror, 2012. Dir.: Tarsem Singh. Roteiro: Melisa Wallack e Jason Keller. Elenco: Lily Collins, Julia Roberts, Armie Hammer, Nathan Lane, Jordan Prentice, Mark Povinelli, Joe Gnoffo, Danny Woodburn, Sebastian Saraceno, Martin Klebba, Ronald Lee Clark, Mare Winningham. 106 min. Imagem Filmes.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Jane Eyre

Mia Wasikowska em Jane Eyre: comendo o pão que o diabo amassou.
Não, Jane Eyre não foi escrito por Jane Austen, autora inglesa consagrada por Orgulho e Preconceito e Razão e Sensibilidade. O clássico foi escrito pela também inglesa Charlotte Brontë e vai completamente na contramão do que se espera de uma heroína romântica do século XVII. Nesse sentido, a escritora rejeita ideias tratadas com particular devoção na literatura de Austen. Com Jane Eyre, Brontë trata da emancipação feminina e norteia a trajetória de Eyre com a noção de que a realização amorosa não está associada necessariamente a projeções femininas, frutos do ideário romântico que insiste em criar na na figura masculina um ser isento de imperfeições. Brontë quebra os signos do romantismo com os próprios signos do romantismo em Jane Eyre. Assim, na medida em que o universo dos sonhos românticos de Eyre vai se esfacelando diante de seus olhos, o mesmo acontece com o espectador. No entanto, a trama deixa uma fresta de esperança ao concluir que o amor deve ser buscado, o que não significa necessariamente que ele virá da forma com que foi idealizado. Assim diz Rochester a Jane: "Isso é um sonho". Ciente de que o relacionamento dos dois não pode ser vivido nessa esfera, Eyre prontamente responde: "Então acorde".

Jane Eyre conta a história da personagem-título. Quando ainda era criança, Jane perde os pais e vai morar na casa de seus tios. Rejeitada pela tia, Jane é levada a um internato para meninas onde vive toda sua infância e adolescência. Lá, a garota passa a conviver com os maus tratos das supervisoras. Quando completa a maioridade, Jane começa a viver sua própria vida e arranja um emprego como empregada doméstica de um homem rico e misterioso que passa a maior parte do tempo ausente em virtude de viagens, o sr. Rochester. Temperamental, o patrão de Jane acaba se afeiçoando à garota e os dois acabam se apaixonando. No entanto, Jane descobre fatos do passado de Rochester que podem comprometer, mais uma vez, a felicidade dela.

Sabiamente, a nova adaptação do clássico é concebida com pouquíssimos rapapés, dando lugar a uma beleza incomparável em figurinos e direção de arte fruto da junção de detalhes discretos, suaves. A atmosfera em Jane Eyre é silenciosa e bucólica, não há espaço para afetações, mesmo nos momentos de maior intensidade dramática. Assim, o tom da obra adota o tom da personagem. O respeito ao espírito e à proposta de Brontë vem ainda mais à tona nos momentos em que, no universo de Jane Austen, naturalmente haveria espaço para o lirismo. O romantismo em Jane Eyre soa deslocado e improvável quando surge e assim é nesta adaptação. Por dialogar intensamente com a autora e com a personagem, sendo um reflexo direto da personalidade e das pretensões de ambas, esta versão cinematográfica de Jane Eyre alcança um inquestionável êxito.

Quando Mia Wasikowska surge em cena como a protagonista, então, já não restam dúvidas que o filme ao menos merece respeito pela sua concepção. Trata-se da melhor interpretação de Wasikowska, que começou capenga nas telonas com a performance apática em Alice no País das Maravilhas. Wasikowska entrega dignidade e uma natural relutância na entrega amorosa a Jane Eyre, uma relutância de quem tem medo de sofrer ainda mais com a vida. Já Michael Fassbender acerta mais uma vez ao retratar o comportamento explosivo, instável, inquieto e misterioso de Rochester, a figura masculina que Brontë utiliza para desmistificar o universo dos sonhos românticos das mulheres. Rochester acaba revelando-se como um rótulo atraente que se visto mais de perto revela suas ranhuras e imperfeições. O elenco ainda conta com interessantes desempenhos de Sally Hawkins, Jamie Bell e Judi Dench.



Jane Eyre, 2011. Dir.: Cary Fukunaga. Roteiro: Moira Buffini. Elenco: Mia Wasikowska, Michael Fassbender, Judi Dench, Jamie Bell, Sally Hawkins, Amelia Clarkson, Su Elliot, Holliday Grainger, Tamzin Merchant, Craig Roberts, Lizzie Hopley, Jayne Wisener. 120 min. Universal.

domingo, 1 de abril de 2012

Heleno

Rodrigo Santoro vive protagonista de Heleno: biografia do primeiro astro-problema do futebol.
Antes de Adriano e Edmundo, a trajetória de Heleno de Freitas, principal atração do Botafogo na década de 1940, deu o que falar na imprensa brasileira. Heleno era um verdadeiro trator, passava por cima de qualquer um com sua arrogância, temperamento explosivo e muito, mas muito domínio no campo. Usuário de éter e lança-perfume, substâncias que corroeram o organismo do atleta e o transformaram em apenas um rascunho do que foi em seus tempor áureos, Heleno também era mulherengo e não conseguiu manter seu casamento com Sílvia, com quem teve seu único filho. Saiu do Botafogo brigando com jogadores e com parte da dirigência do time, arranjou problemas na Argentina, onde jogou por alguns anos, e não conseguiu entrar no eixo durante suas temporadas no Vasco e no América. Freitas terminou seus dias demente, internado em uma clínica e completamente inconsciente. Um triste desfecho para aquele que foi considerado como uma das primeiras grandes promessas do futebol brasileiro.

Escancaradamente inspirado em Touro Indomável, filme de 1980 do cineasta norte-americano Martin Scorsese, José Henrique Fonseca, que já havia dirigido o ótimo O Homem do Ano, protagonizado por Murilo Benício e Cláudia Abreu, retorna às telonas para contar a riquíssima trajetória de Heleno de Freitas, um homem cujo talento era tão grande quanto sua capacidade de auto-destruição. Com uma fotografia em preto e branco - e as semelhanças com o filme de Scorsese não é só nesse aspecto -, Fonseca leva seu protagonista ao extremo, navegando pelos caminhos mais obscuros de sua personalidade. Acompanhando Fonseca nesse processo, o ator Rodrigo Santoro entrega-se a um dos desempenhos mais complicados de sua carreira, dedicando-se por inteiro a um personagem dilacerante que desperta no espectador reações ambíguas como admiração, incompreensão, paixão e ódio.

O mais admirável nessa cinebiografia de José Henrique Fonseca é que o diretor não é guiado por uma irracional e cega paixão pelo seu biografado. Fonseca não omite o mais sórdido e excessivo episódio da vida de Heleno de Freitas e por esse mesmo motivo acaba conseguindo o retrato mais intenso e apaixonante possível do jogador. Heleno é um reflexo de seu próprio protagonista, resgatando a natureza transgressora e conturbada do personagem. Não há dúvidas de que nesse processo Rodrigo Santoro foi peça fundamental. Envolvido no projeto desde a sua concepção, Santoro mergulha de cabeça e sem equipamentos de segurança nos demônios internos de Heleno de Freitas. O ator se submete a mudanças físicas ao longo do filme e compõe com muito afinco as motivações e a personalidade do protagonista. Mais uma vez recorrendo às comparações, Fonseca como nosso Scorsese encontra seu Robert DeNiro em Rodrigo Santoro. Heleno de Freitas é o nosso Jake LaMotta, um homem em eterno ponto de ebulição, consumido pelas cobranças pessoais e por um amor incondicional pela vida e pela liberdade, um amor tão grande que lhe escapou pelas mãos e assumiu seu lado mais obscuro. 

 Encerrando a trágica estória de nosso Príncipe Maldito, como assim era chamado, Fonseca, na voz de Santoro como Freitas, sintetiza o biografado dando a entender que qualquer tentativa de definí-lo seria em vão. Heleno simplesmente era Heleno. Uma pena que sua vida tenha terminado de forma tão melancólica e que seu nome, até então, tenha sido pouco lembrado na história do futebol nacional. Heleno foi consumido por sua própria gana de viver e de abraçar o mundo, uma pena. Heleno, de José Henrique Fonseca, faz jus ao hiperbólico personagem e abraça os excessos e a poesia de Freitas em campo com a mesma intensidade. Registro mais do que merecido.



Heleno, 2012. Dir.: José Henrique Fonseca. Roteiro: José Henrique Fonseca, Felipe Bragança e Fernando Castets. Elenco: Rodrigo Santoro, Alinne Moraes, Angie Cepeda, Erom Cordeiro, Othon Bastos, Orã Figueiredo, Herson Capri, Gregório Duvivier. 106 min. Downtown Filmes.

Um Método Perigoso

Keira Knightley e Michael Fassbender exploram as correntes da psicanálise em Um Método Perigoso.
Em determinado momento de suas trajetórias, Jung e Freud mantiveram um relacionamento de amizade e ajudaram um ao outro na construção de conceitos e teorias basilares para a Psicologia. Freud acreditava que todos os conflitos dos indivíduos, direta ou indiretamente, tinham estreita ligação com sua relação com  a sexualidade, além disso, acreditava o professor que não há cura completa para os problemas com a mente humana. Já Jung não conseguia perceber esta conexão e acreditava que, com seu trabalho poderia, poderia reinventar o indivíduo, curando-o do aprisionamento causado por traumas. Os dois posicionamentos colidem quando Jung se aproxima de uma de suas pacientes, a russa Sabina Spielrein, se envolvendo amorosamente com ela. Assim, Um Método Perigoso confronta esses dois personagens e suas ideias em um filme que pode ser interessante para o grande público, mas certamente será mais proveitoso para os já iniciados no assunto.

O filme é dirigido por David Cronenberg, cineasta adepto da violência gráfica e de temáticas bizarras -  são dele A Mosca, Marcas da Violência e Senhores do Crime. Este talvez seja o choque inicial para quem já conhece sua filmografia, não há relação direta alguma entre Um Método Perigoso e o passado do cineasta, a não ser, é claro, a presença de Viggo Mortensen no elenco. Não há vestígio de David Cronenberg em todo o longa, nem mesmo nas cenas de sexo, algo que já foi explorado das maneiras mis inusitadas possíveis em seus outros filmes. Um dos méritos do longa talvez seja esse: Cronenberg soube reconhecer que, neste caso, o melhor a fazer era evitar excessos e sobreposições de sua personalidade, evidenciando o roteiro levemente instigante de Christopher Hampton.

No entanto, o diretor conta com uma interpretação excessiva de Keira Knightley que compromete por completo o resultado de Um Método Perigoso. Knightley não poupa esforços ao cair em todas as armadilhas habituais na construção de uma personagem como Sabina Spielrein. Na primeira parte do longa, Knightley não poupa gestos, bocas e gritos para deixar bem claro ao espectador que Sabina é uma enferma mental. Precisava tanto? Contudo, o diretor conta com o aplicado e econômico Michael Fassbender que faz um instigante e contraditório retrato de Jung, que acaba se desconstruindo gradualmente aos seus próprios olhos e aos olhos do espectador, na medida em que vez ou outra se inclina e indaga-se se seu colega Freud não estava certo o tempo todo. Mas a melhor interpretação do filme é de Viggo Mortensen que praticamente anula sua personagem para viver um Freud inabalável.

Um Método Perigoso acaba sendo prejudicado por interpretaçõs equivocadas, mas principalmente pela especificidade de seu tema, admnistrado com não muito bem pelo roteiro de Christopher Hampton. No entanto, mostra-se como um interessante exemplar de como David Cronenberg conseguiu se adaptar a um novo contexto e lançar-se a novos desafios. Uma mudança estimulante e animadora para um cineasta com uma carreira tão bem definida em assinaturas.



A Dangerous Method, 2011. Dir.: David Cronenberg. Roteiro: Christopher Hampton. Elenco: Michael Fassbender, Keira Knightley, Viggo Mortensen, Sarah Gadon, Vincent Cassel, André Henicke, Arndt Schwering-Sohnrey, Wladimir Matuchin. 99 min. Imagem Filmes.

Fúria de Titãs 2

Sam Worthington volta ao papel do semideus Perseu em Fúria de Titãs 2.
A excelente bilheteria de Fúria de Titãs em 2010 teve como justificativa o frissom causado pela tecnologia 3D na época. O filme estreou no Brasil e nos EUA poucos meses depois de Avatar, precurssor do recurso que justificava a experiência, afinal, todo o longa de James Cameron foi filmado com câmeras especiais desenvolvidas pelo próprio Cameron que proporcionavam a reprodução de ambientes e personagens emtrês dimensões. Com isso, diversas produções quiseram pegar carona e conseguiram. Produções como Fúria de Titãs e Alice no País das Maravilhas foram filmados convencionalmente e preparavam-se para um lançamento em 2D, com o advento Avatar, subitamente os envolvidos mudaram suas estratégias e converteram o formato original para o 3D. Este tipo de procedimento é muito mais comum do que a maior parte do público possa imaginar. A quantidade de produções que são convertidas em 3D é muito maior do que os filmes que são pensados e filmados no formato. O resultado é que o público compra gato por lebre e acaba tendo uma experiência em 3D camuflada, maquiada.

Mas vamos aos fatos. Fúria de Titãs recebeu péssimas críticas, mas a gorda bilheteria garantiu um segundo filme e a promessa de seus realizadores de que a continuação consertaria todos os tropeços da primeira. A primeira decisão foi tirar Louis Leterrier da direção, trocaram o francês por Jonathan Liebesman, do famigerado Invasão do Mundo: Batalha de Los Angeles. Mudaram também os roteiristas, entraram Dan Mazeau e David Johnson. Além dessas mudanças no corpo criativo da continuação, foi feita uma promessa ao público: a participação de Liam Neeson e Ralph Fiennes, intérpretes e Zeus e Hades, seria consideravelmente aumentada. Particularmente, nenhuma dessas decisões serviram para evitar que Fúria de Titãs 2 siga a mesma, ou pior, sorte que o seu antecessor. O filme exagera na ação - caindo no equívoco de 9 em cada 10 blockbusters ao acreditar que preencher o filme de sequências de ação garante algum êxito - tem uma plot constrangedoramente superficial e continua relegando espaço reduzido a personagens e conflitos que poderiam render ótimos momentos ao filme.

O primeiro problema de Fúria de Titãs 2 está em acreditar que convence ao usar como justificativa para todos os eventos que ocorrem na tela o antigo clichê que hoje em dia nem mais em séries animadas vemos: Perseu volta à arena de combate para evitar a destruição do mundo. Enquanto o primeiro longa explorava a descoberta do personagem como semideus e o enfrentamento de um novo universo, aqui, as motivações dele e de seus amigos estão limitadas a isso. Claro que, paralelamente, os roteiristas tentam inserir subtramas mais interessantes como a paternidade do personagem, seu receio pela morte do pai Zeus e a inveja de seu irmão, o deus Ares. No entanto, nenhuma dessas situações é explorada com clareza e entrega pelo filme, demonstrando que os responsáveis pela continuação perderam uma grande oportunidade ao não conseguirem vislumbrar a ótima oportunidade que estava na frente de cada um deles de tirar Fúria de Titãs 2 da completa banalidade.

Como se não bastasse tudo isso, Fúria de Titãs 2 relega peças e passagens fundamentais da mitologia grega a segundo plano. Além de não cumprir a promessa de dar o merecido destaque a Zeus e Hades - o destino de Zeus é uma das piores soluções que o filme pôde encontrar e toda a ambiguidade de Hades vai para o ralo quando o personagem subitamente se arrepende de todas as suas ações e junta-se aos "bons" -, o longa injeta novos e riquíssimos personagens de maneira aleatória, o caso de Ares. Outro equívoco do longa foi o tratamento dado a Andrômeda, vivida  aqui pela linda e talentosa - que aqui não faz absolutamente nada - Rosamund Pike, e interpretada no primeiro por Alexa Davalos, que lá fora oferecida ao Kraken em sacrifício sendo salva por Perseu nos eventos finais do longa de 2010. O soneto é ainda mais desastroso quando surge Agenor, personagem de Toby Kebbell, semideus filho de Poseidon, um daqueles alívios cômicos que se utilizados em demasia, como acontece no filme, serve muito mais pare desviar a atenção da plateia, tornar o personagem inverossímil, irritante e alheio a tudo o que há a seu redor.


Wrath of the Titans, 2012. Dir.: Jonathan Liebesman. Roteiro: Dan Mazeau e David Johnson. Elenco: Sam Worthington, Liam Neeson, Ralph Fiennes, Rosamund Pike, Édgar Ramirez, Toby Kebbell, Bill Nighy, Danny Huston, Kathryn Carpenter, Freddy Drabble. 99 min. Warner.