sábado, 7 de abril de 2012

Albert Nobbs

Glenn Close perdida em sua própria identidade em Albert Nobbs: desempenho indicado ao Oscar.
Albert Nobbs é um daqueles filmes que a gente lamenta dar um retorno negativo aos leitores, mas é inevitável. O novo filme de Rodrigo Garcia é, na verdade, mais um trabalho da autoria da atriz Glenn Close que do diretor. A função de Garcia certamente passou pelo aval de Close que encenou Albert Nobbs nos palcos na década de 1980 e há anos guardava o sonho de levar a história para as telonas. Close produz, roteiriza e protagoniza este drama de época e ainda encontra tempo para compor a canção que encerra o longa em seus créditos finais, "Lay Your Head Down", uma parceria com Sinnead O'Connor. As expectativas eram grandes desde o anúncio das filmagens, Close, uma das atrizes mais queridas de sua geração, finalmente retornaria em grande estilo para as telonas e com um personagem complexo o suficiente para lhe render seu tão esperado Oscar de melhor atriz - a atriz já havia sido indicada cinco vezes ao prêmio antes de Albert Nobbs. O resultado de tanta expectativa é um verdadeiro fiasco, uma derrota que todos lamentam, não há dúvidas.

Albert Nobbs conta a história de um mordomo de um hotel que esconde um segredo: ele é na verdade uma mulher. Nobbs assumiu a identidade masculina desde a sua adolescência para poder sobreviver. Em pleno século XIX, as coisas não eram nada fáceis para mulheres e para completar Nobbs passou por experiências traumáticas na juventude que fortaleceram sua vontade de assumir uma identidade masculina. Toda a história é tratada, como de hábito, com bastante delicadeza por Rodrigo Garcia, um diretor que não costuma falhar mesmo quando lhe incumbem de materiais duvidosos como Passageiros, filme protagonizado por Anne Hathaway. Mas lembremos de Destinos Ligados e Coisas que eu poderia dizer só de olhar para ela. Garcia sempre emprega uma direção elegante e respeitosa com seus atores e aqui não é diferente.

No entanto, os esforços de Garcia são sabotados por um roteiro desastroso escrito a seis mãos, duas delas são as de Glenn Close. Em meio ao eixo dramático que de fato interessa, Nobbs e sua busca por uma identidade própria, os roteiristas inserem subtramas descartáveis (como a que envolve o enlace entre dois jovens empregados do hotel), desdobramentos que em nada servem à trama (o alastramento da Febre Tifóide na Europa) e mudanças súbitas de comportamento dos personagens (o caso do personagem de Aaron Johnson, que acaba sendo reduzido a um vilão que não assume sua própria vilania). Destas inserções, somente uma vale realmente a pena, a ligação entre Nobbs e o pintor Hubert Page, vivido por Janet McTeer, que logo se revela um igual para o novo "amigo". Page também é uma mulher assumindo socialmente a identidade de um homem. Em meio a tantos conflitos para resolver, Albert Nobbs se esquece de resolver uma questão crucial: o que se passa de fato na cabeça de Nobbs? Homem? Mulher? O longa não deixa claro a solução para esse enlace, nem mesmo deixa claro se a solução é deixar todos na dúvida. 

O que não deixa dúvidas é que Glenn Close tem um desempenho impecável, ainda que a atriz tenha sido responsável por uma auto sabotagem em virtude das péssimas soluções e desenvolvimento de personagens do roteiro. Close personifica a falta de traquejo de Nobbs e o olhar de quem está acostumado aos gestos e reações comedidas para esconder seu grande segredo. Ao mesmo tempo em que há uma ingenuidade, que beira a infantilidade, de Nobbs na descoberta das imperfeições dos indivíduos a seu redor, Close deixa clara a natureza arredia e introspectiva do personagem. Sem maiores danos, Janet McTeer acaba se beneficiando pelos tropeços que o roteiro proporciona à composição de Close. Bem mais resolvido que Nobbs, o Sr.Page da atriz, também indicada ao Oscar pelo filme (coadjuvante), é o melhor personagem de todo o longa.

Curioso notar que Albert Nobbs é tão, ou mais, desastroso que A Dama de Ferro, longa que rendeu o tão aguardado terceiro Oscar da carreira de Meryl Streep, prova de que suas protagonistas passaram por uma grande prova de fogo em suas carreiras. Se Close e Streep sobreviveram aos terrenos movediços de seus próprios projetos é uma prova cabal de que nada mais pode abalar a carreira das veteranas. Em compensação, as duas produções terem chegado onde chegaram é prova de que não há dúvidas que o cinema continua com uma dívida enorme com suas atrizes. Albert Nobbs é uma promessa não realizada, mas o mais curioso é perceber que não havia ninguém ao lado de Close para alertá-la do péssimo roteiro em desenvolvimento. Um roteiro tão confuso e perdido no caminho a seguir quanto o próprio Albert Nobbs e seu dilema quanto a sua própria identidade sexual. Pena. Queria que fosse arrebatador, mas não é.

 


Albert Nobbs, 2011. Dir.: Rodrigo Garcia. Roteiro: Glenn Close, John Banville e Gabriella Prekop. Elenco: Glenn Close, Mia Wasikowska, Aaron Johnson, Janet McTeer, Brendan Gleeson, Jonathan Rhys Meyers, Pauline Collins, Maria Doyle Kennedy, Mark Williams, James Greene. 113 min. Paris Filmes.

3 comentários:

cleber eldridge disse...

De uma forma geral é um filme até agradavel, com interpretações excelentes, direção rasa e roteiro mais ainda prejudicam um pouco, mas só um pouco.

Maxwell Soares disse...

Olá, Wanderley. Ainda não vi este. Estou devendo. Parabéns pelo texto. Mais uma vez a grande Glenn Close brilha. Um abraço...

Stella disse...

Que pena, ainda tinha esperanças em Albert Nobbs!