domingo, 27 de maio de 2012

Drops: Battleship, Flores do Oriente e A Bailarina e o Ladrão

Battleship - A Batalha dos Mares
O prognóstico se confirmou, Battleship – A Batalha dos Mares é o candidato a pior filme do ano a ser batido. A origem do projeto já era duvidosa, fazer um roteiro em cima das regras do mundialmente conhecido jogo Batalha Naval. O resultado é um Independence Day nos mares sem pé nem cabeça que não cumpre sequer a função de entreter. Taylor Kitsch tem uma das presenças mais desastrosas do filme, o que é gravíssimo já que ele é o protagonista, assim como sua parceira de cena Brooklyn Decker, que confirma o que todos perceberam em Esposa de Mentirinha: a moça não tem talento algum para atuar. Tudo ganha um teor ainda mais bizarro quando vemos Rihanna, que sabe-se lá porque escolhe este projeto para fazer sua estréia, encarnar um tipo meio Sigourney Weaver em Alien. Tedioso.

Battleship, 2012. Dir.: Peter Berg. Roteiro: Erich Hoeber e Jon Hoeber. Elenco: Taylor Kitsch, Rihanna, Liam Neeson, Alexander Skarsgard, Brooklyn Decker, Hamish Linklater, Peter MacNicol, John Tui, Jesse Plemons, Jerry Ferrara. 131 min. Universal.


Flores do Oriente

Flores do Oriente é bem diferente do que Zhang Yimou nos ofereceu nos últimos anos. Aqui, o cineasta troca seus cenários e figurinos exuberantes pela fotografia cinzenta que evoca o luto do conflito armado. No lugar das lutas lindamente fotografadas, o diretor aposta no impacto da violência. Flores do Oriente é um bom filme do diretor – auto-didático e um pouco manipulador nas emoções que pretende gerar no espectador, é verdade, mas um bom filme. O longa trata da invasão japonesa em Nanquim, na China. Para ser mais específico, o longa narra a história de 12 adolescentes, sobreviventes dos ataques, que buscam abrigo em uma capela. Junto com um grupo de prostitutas e um agente funerário norte-americano, que também estão no local, elas procuram uma maneira de sobreviver e despistar as tropas do Japão para fugir de Nanquim. O longa conta com a presença de Christian Bale na pele do agente funerário que faz as vezes de padre para enganar os japoneses, muito bom, por sinal. Mas, certamente, Flores do Oriente não é o terreno que Zhang Yimou tem mais destreza.

P.S.: A Playarte fez uma verdadeira confusão com o título brasileiro do filme. As cópias distribuídas apresentam o filme como Flores da Guerra em suas legendas. No entanto, o pôster e todo o trabalho de divulgação oficial trabalharam o título como Flores do Oriente. Tsc,tsc.


Jin Ling Shi San Chai, 2011. Dir.: Zhang Yimou. Roteiro: Heng Liu. Elenco: Christian Bale, Ni Ni, Xinyi Zhang, Tianyuan Huang, Tong Dawei, Atsurô Watabe, Shawn Dou, Yuan Nie, Shigeo Kobayashi, Kefan Cao. 146 min. Playarte.


A Bailarina e o Ladrão
O espanhol Fernando Trueba volta a trabalhar, desta vez com o requisitado ator argentino Ricardo Darín. Mas A Bailarina e o Ladrão tem pouco a oferecer do ator, a não ser uma belíssima cena em que o personagem de Darín canta para sua ex-esposa, rivalizando com a de Carey Mulligan em Shame, de Steve McQueen, em 2012. O filme é, com méritos cumpridos ou não, de Abel Ayala e Miranda Bodenhofer . Nenhum dos dois atores sustenta bem seus personagens, ainda que Bodenhofer se saia melhor que seu colega, beneficiada, óbvio, pelos números de dança protagonizados por sua personagem. Abel Ayala é estridente, chega a ser incômodo a maneira com que o ator reduz a vivacidade e imaturidade de seu personagem em diálogos excessivamente exclamativos. Mas um dos maiores tropeços do filme é não conseguir fundir as tramas dos seus três personagens, principalmente o Nico de Ricardo Darín que fica de escanteio.

El baile de la Victoria, 2009. Dir.: Fernando Trueba. Roteiro: Fernanda Trueba, Jonás Trueba e Antonio Skármeta. Elenco: Ricardo Darín, Abel Ayala, Miranda Bodenhofer, Ariadna Gil, Julio Jung, Mario Guerra, Marcia Haydée, Luis Dubó. 127 min. Paris Filmes.

sábado, 26 de maio de 2012

Cannes 2012, Dia 10


Robert Pattinson com David Cronenberg: início de uma nova carreira?
Os últimos dias do festival chegaram com filmes que de alguma forma incomodaram alguns presentes. Não sei se pelo fato de serem protagonizados por ídolos adolescentes como Kirsten Stewart, Robert Pattinson ou Zac Efron, que demonstraram nesta edição do evento estarem empenhados nas mudanças dos rumos de sua carreira. No entanto, On the Road, The Paperboy e, agora, Cosmópolis, dirigido pelo cultuado David Cronenberg, dividiram opiniões.

The Paperboy é um caso à parte. Um filme que desde o início era apontado como um candidato da seleção oficial que não faz o gênero do festival, ainda assim, conseguiu a unanimidade na interpretação de Nicole Kidman e um salvo-conduto pelo fato de muitos terem gostado do filme, mas gostado muito. Cosmópolis não foi tão intenso em suas reações, mas o filme também dividiu opiniões e trouxe, para muitos, um fio de esperança de que Robert Pattinson poderá algum dia tornar-se um bom ator. Para muitos, ele o é em Cosmópolis
David Cronenberg na coletiva de imprensa do filme.
As atrizes Juliette Binoche e Samantha Morton, presenças aguardadas, não foram ao festival por compromissos diversos. Atenderam aos jornalistas e fotógrafos presentes David Cronenberg, Robert Pattinson, Paul Giamatti, Sarah Gadon e Emily Hampshire. O longa, que conta a história de um jovem bilionário que é surpreendido por eventos durante uma noite que o fazem refletir sobre sua vida, tendo menções e críticas diretas ao capitalismo.

Sobre seu cinema, David Cronenberg respondeu: "Para mim, a essência do cinema é um rosto de um ser humano que fala. Quando termino de filmar, vejo as cenas, a iluminação... Dou atenção a cada detalhe. E Cosmópolis não foi um filme fácil de realizar." . A escolha do protagonista, que gerou burburinhos e reclamações de toda sorte por ter sido Robert Pattinson, é enxergada de maneira mais pacífica pelo diretor que vê no personagem do ator algo mais que um vampiro de Wall Street. "É muito fácil dizer que o personagem interpretado por Robert é uma espécie de vampiro que chupa o sangue de Wall Street. Mas um actor não pode interpretar um conceito abstrato. É um personagem verdadeiro, com passado. Cosmópolis evoca o espectro do capitalismo. Quase que citamos diretamente o manifesto de Karl Marx.", diz o cineasta.

Quando perguntado sobre a experiência de trabalhar com um diretor como David Cronenberg, Pattinson não poupou elogios. "David ausenta-se frequentemente para verificar o que se acabou de rodar. David ouve-nos. Ele identifica tudo. É preciso manter-se atento quando se filma com ele!".

Elenco de Cosmópolis reunido posa para fotógrafos.
Veja o que foi dito sobre o novo filme de David Cronenberg no festival:

"Uma expressão inerte sobre o capitalismo na cidade de Nova York.", Todd McCarthy, Hollywood Reporter

"Com o que não podemos argumentar é que Cosmópolis é a expressão de um grande diretor, um realizador determinado a nos fazer pensar sobre ideias em uma limusine, nos revelando o que se passa na mente de seu protagonista.", Peter Howell

Clive Owen e Nicole Kidman se juntam a Philip Kaufman para promover Hemingway e Gelhorn, da HBO.
Outro filme que esteve no festival, mas fora de competição, foi Hemingway e Gelhorn, projeto da HBO dirigido por Philip Kaufman, de Os Eleitos e Contos Proibidos do Marquês de Sade. O longa feito para a TV fechada segue o romance do escritor Ernest Hemingway com a jornalista e correspondente de guerra Martha Gelhorn.

O projeto trouxe de volta a Riviera a australiana Nicole Kidman, intérprete de Gelhorn, desta vez com Clive Owen, que dá vida ao Ernest Hemingway do filme. A premiére do filme no festival também contou com Rodrigo Santoro, que é um dos integrantes de um elenco que inclui Robert Duvall e David Strathairn. O filme estreia no dia 28 de maio na HBO norte-americana. Ainda não há data prevista para a chegada do filme na TV fechada brasileira.



Veja o que foi dito sobre o filme no festival:

"Hemingway e Gelhorn é um filme magnífico. Junta-se ao melhor que Kaufman já pôde oferecer.", Jeffrey Anderson

"Um dinâmico, vivo e muito bem atuado olhar sobre dois dos maiores escritores do século XX, que compartilharam a guerra nos campos de batalha e entre quatro paredes.", Todd McCarthy, Hollywood Reporter

"Há vários momentos nos quais é difícil levar o filme a sério, tornando o filme por vezes um melodrama romântico risível.", Allan Hunter, ScreenDaily

"Um dos filmes mais passionais da carreira de Kaufman. É tão intenso quanto o relacionamento do casal principal.", David Wiegand, San Francisco Chronicle

Assista aos trailers de Cosmópolis e Hemingway e Gelhorn:


sexta-feira, 25 de maio de 2012

Cannes 2012, Dia 9


Nicole Kidman domina as críticas de The Paperboy em Cannes.
Depois da indiferente reação a On the Road, aguardada adaptação do livro de Jack Kerouac, de Walter Salles, quinta-feira, 24, foi dia de muito, mas muito barulho com The Paperboy, longa do norte-americano Lee Daniels, que já esteve no festival com Preciosa, fora de competição, há dois anos atrás.

Com um elenco inusitado, que dificilmente se reuniria se levarmos em consideração as escolhas que fizeram em suas filmografias, Lee Daniels trouxe uma história sobre crime, racismo e... muito, mas muito sexo. The Paperboy conta a história de um homem (John Cusack) condenado à morte pelo assassinato de um xerife. Para descobrir se a acusação procede ou não, um jornalista investigativo (Matthew McConaughey) e seu irmão (Zac Efron), um entregador de jornais, vasculham os passos do indivíduo e chegam até uma mulher extremamente misteriosa que mantém contato constante com presos no corredor da morte através de cartas. Ambientado na escaldante Flórida da década de 1960, The Paperboy traz Nicole Kidman, Zac Efron, Matthew McConaughey, John Cusack e Macy Gray. 

Elenco de The Paperboy se reúne com diretor para fotos.
Lee Daniels lembrou na coletiva que The Paperboy foi um projeto engavetado por alguns anos em Hollywood e que teve os primeiros rascunhos do roteiro feitos por Pedro Almodóvar, que o tornaria seu primeiro filme falado em língua inglesa.

No entanto, Daniels deixou claro que era apenas um rascunho e que o filme exibido no festival tinha muito dele. “Para a personagem interpretada por Macy Gray (Anita), me inspirei na minha história. Membros da minha família trabalhavam como domésticas para brancos. Todas estas personagens existem na minha vida. Fiz este filme debruçando-me sobre o meu próprio passado e sobre os meus filmes anteriores.", disse Daniels.

Nicole Kidman ouve Zac Efron falar na coletiva de imprensa do filme.
O filme gerou reações hiperbólicas para o bem ou para o mal. Trash, sujo e com singelas pitadas de humor irônico, The Paperboy teve um único consenso: a interpretação da australiana Nicole Kidman. Na pele da vulgar "barbie hipererotizada", como chamou uma jornalista na coletiva de imprensa, Charlotte Bless, Kidman fez o que sabe fazer melhor no cinema, provocar frissom ao arriscar-se em papeis que tradicionalmente não iriam para ela. Em duas das cenas mais comentadas do filme, Bless diz a que veio. Na primeira, leva o personagem de John Cusack ao orgasmo sem sequer tocá-lo, somente se insinuando em pleno julgamento do acusado. Em outro momento ainda mais histérico, Charlotte tenta aliviar a dor de um Zac Efron ferido com sua própria urina. Claro, que tudo num misto de humor e tensão sexual.

Durante a coletiva, Kidman disse que parte do processo de composição da personagem foi a criação de seu próprio visual, que, no caso, ficou completamente sob a responsabilidade da atriz. "Tive que me identificar muito com a minha personagem para interpretá-la de forma tão crua. Faz parte do meu trabalho me deixar levar, não funcionar com os meus próprios sentimentos. Nenhum take era o mesmo, explorávamos várias possibilidades. Procuro os contrastes e a diversidade. Gosto de expressar a minha imaginação: foi o que me levou a ser atriz".

Seu parceiro de cena, Zac Efron, disse ter se sentido intimidado quando soube que contracenaria com a atriz. "Era apaixonado por ela desde Moulin Rouge! Foi apavorante. Adorei contracenar com Nicole Kidman.". Sobre seu personagem o ator falou "Não me senti à vontade, nem deveria. Ele está numa posição desconfortável. É jogado nesse mundo e começa a desabrochar nele.".
Ainda é cedo para dizer que Kidman é a favorita a Palma de Ouro de melhor atriz. O filme não é o tipo de trabalho que costuma ser bem recebido no festival e há outras concorrentes no páreo, como a francesa Marion Cotillard. O que se sabe é que Nicole Kidman conseguiu ser o centro das atenções nos últimos dias do festival.

Veja abaixo imagens da tradicional marcha no tapete vermelho de Cannes da equipe de The Paperboy:

Da esquerda para a direita: Matthew McConaughey, Macy Gray, John Cusack, Lee Daniels, Nicole Kidman, Zac Efron e David Oyelowo.
Elenco de The Paperboy se prepara para subir de mãos dadas as escadas em Cannes.

Toda a equipe do filme reunida para a exibição do filme no festival.
Veja o que foi dito sobre o filme no festival:

"O filme de Daniels é parte suspense criminal, parte drama interracial, parte sobre o amadurecimento de um garoto e no final das contas é um filme sem forma.", Emanuel Levy

"The Paperboy é um filme surpreendente com sólidas interpretações e uma performance inesquecível de Nicole Kidman que vai fazê-lo perguntar se é mesmo ela por debaixo daquela peruca.", Gail Tolley

"Eu sinto como se clipes de outros 20 filmes, nenhum deles bons, tivessem sido apresentados." Robbie Colin, Daily Telegraph

"A revelação de The Paperboy é a interpretação de Nicole Kidman. Renunciando a imagem de deusa que ela frequentemente assume, sua Charlotte é uma criatura voraz, testando todos os seus atributos por exercício sexual. ", Mary Corliss, Time

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Cannes 2012, Dia 8


Walter Salles leva On the Road finalmente a Cannes.
O oitavo dia do Festival de Cannes 2012 foi um dos mais aguardados. O brasileiro Walter Salles pôde, enfim, mostrar para o mundo sua adaptação para o cinema de On the Road, baseado no livro homônimo de Jack Kerouac, um clássico cult da literatura estrangeira. O filme passou anos nas mãos dos Coppola - seria dirigido por Francis -, mas coube a Salles, que já mostrou vitalidade em road movies, trazer o trabalho do escritor para as telas.  

Elenco se junta a Walter Salles para fotos.
A primeira pergunta girou em torno da redescoberta de Jack Kerouac pela nova geração. Viggo Mortensen falou um pouco sobre o que torna o autor tão contemporâneo. "Li o livro para o filme e tomei consciência de que era muito atual. Hoje há uma espécie de rejeição da crise econômica e das autoridades por parte dos jovens. Então eu vejo este momento como um momento oportuno para estrear um filme como esse. As pessoas da minha geração, que o relerão com nostalgia, mas principalmente os jovens poderão identificar-se com este período e com o que se passou. Walter fez algo de novo com estas personagens. Não se contentou com uma cópia conforme do livro.", disse o ator.

"Foram necessários oito anos para fazer este filme. Até tínhamos pensado em realizar um documentário que serviria de base. Esta história diz mais respeito ao período que antecedeu a Beat Generation. Conta o despertar político e social de dois jovens que descobrem uma geografia humana que lhes era estranha.", disse o cineasta sobre a jornada de produção de On the Road.

Para Salles, seu elenco foi co-autor do filme que foi exibido no festival: "Considero todos os atores como co-autores deste filme. Fomos mais longe do que o livro permanecendo simultaneamente fiel, o que é bem difícil. Procuramos trabalhar num espírito de improvisação permanente.".


Kisten Dunst, premiada por Melancolia no ano passado, e Viggo Mortensen.
On the Road não causou uma boa impressão entre os críticos. As opiniões foram mistas, ainda que esta percepção tenha ficado restrita a imprensa. Veja o que foi dito sobre o longa:

"O que ele não nos dá - e por isso o livro funciona - é o espírito boêmio de Kerouac.", Owen Gleiberman, Entertainment Weekly

"Apesar do impacto dramático ser instável, o filme é um constante prazer visual.", Todd McCarthy, Hollywood Reporter

"Aqui, a jornada ou o destino não causa impacto algum.",Robbie Colin, Daily Telegraph

Assista ao trailer de On the Road:

terça-feira, 22 de maio de 2012

Cannes 2012, Dia 7

Brad Pitt posa para os fotógrafos na chegada ao festival.
Crimes e pôquer, este é, em poucas palavras, o mote de Killing them Softly, novo filme do diretor australiano Andrew Dominik, de O Assassinato de Jesse James e Chopper. Mais uma vez no Festival de Cannes, e mais uma vez sob a batuta do cineasta, estava Brad Pitt, um dos atores que tem se tornado figurinha tarimbada na Riviera. Só que, desta vez, para a tristeza dos fuxiqueiros e celebrityholics, sem a sra. Pitt do lado no tapete vermelho.

Ao lado do ator estavam as pessoas que tinham que estar, o diretor e os atores Ray Liotta, Ben Mendelsohn e Scott McNairy. E a conversa na sala de conferência foi mais do que proveitosa.

Brad Pitt na coletiva de Killing them Softly
Um dos temas levantados por Killing them Softly, que tem uma estrutura narrativa que flerta com as tramas criminais norte-americanas, é o processo cíclico das crises do capitalismo. "Achei os personagens do livro de George V. Higgin, Cogan’s Trade, formidáveis. É um livro que retrata a criminalidade. Quando comecei a adaptá-lo, percebi que contava também a história de uma crise econômica, a do capitalismo. É uma história eterna", disse o diretor que também assina o roteiro, adaptado do livro de Higgin.

Ainda sobre a violência do filme, um tema recorrente em sua quantitativamente modesta filmografia, Dominik disse: "Gosto da violência nos filmes. Como mostrar os dramas de outra forma que não através da violência? Os contos de Grimm são violentos, mas dirigem uma mensagem às crianças. É isso que faço em Killing them Softly. No filme, todas as personagens sabem a que ponto matar pode trazer um sentimento de culpa. Então tentam tornar a violência indolor. Desejam que ela seja o menos cruel possível para as respectivas vítimas.".

Brad Pitt também teve a palavra, como sempre acontece - nunca me esqueço do constrangimento no ano passado que parte dos jornalistas fizeram Jessica Chastain passar na coletiva de A Árvore da Vida, ignorando a moça por simplesmente não fazer ainda parte do star system de seu colega. "Interpretamos personagens que têm opiniões divididas num país dividido. Os pontos de vista abordados no filme não são necessariamente os meus. Interpretar um assassino preocupa-me menos do que interpretar uma personagem racista. Jackie Cogan procura matar delicadamente, para que não seja demasiado doloroso para a vítima que tem de morrer de qualquer forma."

Da esquerda para a direita, Ben Mendelsohn, Ray Liotta, Brad Pitt e Scott McNairy.
O filme deixou a plateia sem ar especialmente pelo nível de violência exposto pelo cineasta, o que fez com que Lawless, de Jill Hilcoat, exibido no sábado, parecesse suave em sua abordagem. E, deixou-se claro na Riviera, que a violência de Dominik em Killing them Softly está muito mais para a veia pop de Quentin Tarantino que o grau de urgência dos filmes de Martin Scorsese, por exemplo.

Ainda que tenha decepcionado muitos com seu desfecho considerado um tanto literal e conservador - o que contrastou com a abordagem anárquica mantida durante o filme -, as críticas foram muito elogiosas. Veja o que se falou do longa no festival:

"Em Killing them Softly, primeiro filme de Andrew Dominik depois de O Assassinato de Jesse James, Pitt interpreta mais uma vez um sociopata, e mais uma vez a tela vibra com isso.", Owen Gleiberman, Entertainment Weekly

"Um delicioso, sangrento e profano drama criminal que satisfaz como filme do gênero.", Todd McCarthy, The Hollywood Reporter

"Diálogos cínicos e os esforços de Brad Pitt como um assassino sociopata tornam o filme interessante.", Emanuel Levy, EmanuelLevy.com

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Cannes 2012, Dia 6

Rin Takanashi a protagonista de Like Someone in Loveposa para fotógrafos.
Dia relativamente morno nesta segunda-feira, 21, no Festival de Cannes. Apesar de ter sido a estreia do aguardado filme do iraniano Abbas Kiarostami, Like Someone in Love, e do francês Alain Resnois, Vous n'avez encore rien vu, nenhum dos dois filmes foram capazes de provocar furor na Riviera, ainda que Kiarostami, como sempre, tenha comprovado que é um dos realizadores mais controversos da atualidade ao apresentar um longa sobre a prostituição sem fim ou começo delimitados.

Enquanto Kiarostami tinha na manga a japonesa Rin Takanashi, Resnois veio ao festival com seu robusto elenco que inclui Anne Consigny e Lambert Wilson.

Elenco de Like Someone in Love com Abbas Kiarostami.
Kiarostami e seu elenco atenderam a imprensa na coletiva e o cineasta fez questão de deixar claro suas intenções cada vez mais evidentes de apostar nas mais diferentes nacionalidades em seus filmes. Foi o caso de seu último lançamento, Cópia Fiel, que rendeu em 2010 a Palma de Ouro de melhor atriz a Juliette Binoche, e é o caso deste novo filme, Like Someone in Love, que se passa no Japão.

O filme conta a história de uma estudante universitária japonesa que financia sua vida acadêmica através da prostituição. Ela começa a manter um relacionamento com um professor solitário. Tudo é mostrado numa espécie de realidade paralela.

O diretor aproveitou para fazer sua crítica ao cinema japonês atual. "Não consigo captar a alma e a emoção daqueles filmes. Talvez não tenha visto os filmes japoneses certos de hoje em dia, mas o que vi não me agradou". Entre as dificuldades encontradas em seu novo projeto, os presentes destacaram o financiamento do longa. "Encontrei duas soluções: primeiro, a ajuda do Ministério da Cultura e, por outro lado, sou coleccionador e vendi uma obra de Yves Klein para financiar o filme", disse o produtor Kenzo Horikoshi.

Mas nada foi tão controverso quanto a opção de Kiarostami de não definir um início ou um término para Like Someone in Love, atestando sua fama subversiva e autêntica como narrador de histórias em celulóide. "Na última cena, o que me veio à cabeça foi “THE END”. Disse a mim mesmo: 'isto não pode ser o fim'. Percebi também que não tinha início. O meu filme não começa nem acaba. É o que acontece na vida. Chegamos sempre depois do início e as coisas começaram antes de nós.".

Veja o que foi dito sobre o filme de Kiarostami em Cannes:

"O filme brinca com as expectativas dos personagens e do espectador, transformando uma narrativa linear em um filme cheio de segredos e complicações", Jordan Mintzer, Hollywood Reporter

"Tem ideias interessantes e ótimas interpretações num fascinante exercício de controle do diretor, mas a cortina cai justamente quando o drama começa a parecer interessante.", Peter Bradshaw, The Guardian

Assista ao trailer de Like Someone in Love:



Elenco de Vous n'avez encore rien vu posa com o diretor Alain Resnois.
O francês Vous n'avez encore rien vu parece ter seguido a mesma sorte. A comédia ambientada no universo teatral acompanha um grupo de atores de uma companhia que vão prestar uma homenagem a um colega moribundo. Durante a coletiva, o veterano Alain Resnais, autor da obra, falou um pouco sobre seu cinema e recebeu declarações emocionadas de todo o seu elenco pela experiência que tiveram.

"Não penso em termos de carreira. Sou um faz-tudo. Este filme não é parecido com nenhum outro. Se eu tivesse pensado no filme como um testamento, nunca teria tido a audácia e a energia de o fazer", falou o diretor sobre a obra.

Quem tomou a palavra e falou sobre a experiência ao lado do diretor, com a saúde visivelmente abalada, foi a atriz Anny Duperey: "Todo este amor em torno de Alain estava a serviço de um texto. Não fomos reféns de uma idade, de uma personalidade, de um papel. Estávamos ao serviço de Jean Anouilh, do teatro, de uma beleza. Quando vi o filme, esperava mais virtuosidade, mas não esperava ser recebida assim. Toda esta virtuosidade estava a serviço da emoção. É um trabalho magnífico", disse emocionada a atriz.

Veja o que foi dito sobre o filme no festival:

"Esta reflexão do passado, de amor e morte, é séria e irreverente. Engajado com uma certa sofisticação, mas frustrado por suas limitações.", Todd McCarhty, Hollywood Reporter

"Apesar dos momentos charmosos, o filme é prolixo, inerte, indulgente e ocasionalmente tolo", Peter Bradshaw, The Guardian

Assista ao trailer:

domingo, 20 de maio de 2012

Game Change - Virada no Jogo

Os assessores de John McCain testam Julianne Moore: Sarah Palin da atriz é o grande destaque de Game Change.
Julianne Moore é uma das atrizes mais interessantes de sua geração. Contudo, ao longo dos anos, a atriz amargou o que a maior parte das atrizes de sua idade sofrem, a escassez de personagens que lhes permitam trabalhar com o mínimo de dignidade possível. Assim, por muitos anos, acompanhamos a mesma intérprete de filmes como Boogie Nights, Magnólia, Longe do Paraíso e As Horas em longas risíveis como Os Esquecidos, A Cor do Crime e Leis da Atração. Como a vida não é fácil para ninguém e alguém tem que contribuir com as contas de casa, não há como culpar Julianne de suas últimas escolhas. No entanto, como tem acontecido a cada ano que passa com alguns dos melhores atores de língua inglesa, a HBO passou a ser reduto para explorar suas reais potencialidades, já que os estúdios cinematográficos preferem se render a continuações, remakes e adaptações. E Julianne é beneficiada com a tendência interpretando a governadora do Alasca, Sarah Palin, durante sua desastrosa escolha para ser vice-presidente na campanha de John McCain. O filme em questão é Game Change - Virada no Jogo.

Dirigido por Jay Roach, o mesmo realizador de outra trama política do canal, Recontagem, Game Change é ao mesmo tempo um thriller inteligente sobre as manobras políticas e reformulações nas estratégias eleitorais, cada vez mais afeita a imagens e na geração de entertainers que na de figuras comprometidas com ideais e propostas, e um envolvente estudo de personagem proporcionado pela brilhante interpretação de Julianne Moore como a interessante (do ponto de vista psicológico) Sarah Palin. O roteiro de Danny Strong  avança em uma crescente tensão que leva a protagonista ao colapso e à constatação de que não está intelectualmente e emocionalmente preparada para o cargo como ela e os assessores de McCain pensavam. Não é por menos que a própria Palin rebateu o retrato do filme e se disse ultrajada com a forma com que foi mostrada pelos envolvidos.

Antes de falarmos da grande atração desta produção, vamos aos seus coadjuvantes. E que coadjuvantes! Woody Harrelson está interessante como o arranjador e analista estratégico de McCain, Steve Schimidt, responsável pela escolha de Palin para a vice-presidência. O personagem oscila entre a fascinação pelo carisma de Palin e a constatação de que foi responsável por uma das grandes gafes políticas do país. Ed Harris também está muito bem como John McCain, uma figura que inspira respeito e que tem plena ciência de que representa o passado em um país que troca a convicção de ideias pela idolatria a seus candidatos. Outra figura interessante do elenco é Sarah Paulson, assessora que lida diretamente com a instabilidade e a inabilidade de Palin. Um desempenho pontual e que merece surtir efeitos na carreira da atriz.

Agora, vamos a Julianne Moore. Certamente (sei que nunca podemos dizer isso, mas...), se Game Change fosse lançado nos cinemas, o filme renderia a Julianne Moore seu tão esperado Oscar, após quatro indicações em sua carreira. A interpretação da atriz neste filme é uma daquelas interpretações magnéticas e instigantes que nos levam a sentir toda sorte de sentimentos sobre a personagem, revelando a humanidade com que a mesma foi retratada. A Sarah Palin de Moore é uma dona de casa alçada a condição de governadora do Alasca por força do acaso e por seu carisma e identificação com os eleitores. Palin é vítima e ao mesmo tempo age consciente em um entorno que a usa como força agregadora de votos. A personagem se sente intimidada diante de sua falta de traquejo intelectual para certos assuntos, ao mesmo tempo que ganha uma auto-confiança perigosa diante do menor dos êxitos. Moore trabalha a personagens com cuidado, delineando cada um dos meandros da personalidade de Palin, retratando a personagem com fidelidade não apenas no gestual e na postação de voz, como também na condução de suas emoções e reações ao longo do filme.

Game Change - Virada no Jogo é um thriller político que merece ser visto pela maneira com que desnuda os bastidores de um processo político, revelando-se como uma denúncia sem vestir intencionalmente a carapuça de filme-panfleto. O longa é o vergonhoso retrato de um processo que a cada ano que passa - e o mais grave é que acaba mostrando-se como um fenômeno global - se apresenta como um jogo publicitário, um jogo que se sobrepõe aos reais intentos da caminhada democrática. Tudo ganha ainda mais relevância quando vemos uma das mais fantásticas atrizes lançadas pelo bom cinema norte-americano em plena forma interpretando uma das figuras mais ambíguas e emblemáticas da recente política dos EUA. Game Change é uma virada na carreira de Julianne Moore.

 


Game Change, 2012. Dir.: Jay Roach. Roteiro: Danny Strong. Elenco: Julianne Moore, Woody Harrelson, Ed Harris, Sarah Paulson, Peter MacNicol, Jamey Sheridan, Ron Livingston, David Barry Gray, Larry Sullivan, Mikal Evans, Colby French, Bruce Altman. 118 min. Em exibição nos canais HBO.

Cannes 2012, Dia 5

Michael Haneke, diretor de Amour, posa para os fotógrafos.
Domingo, 20, foi dia da apresentação dos novos filmes do alemão Michael Haneke e do dinamarquês Thomas Vinterberg. Os diretores mostraram, respectivamente, Amour e Jagten . O primeiro sobre os reflexos da velhice em uma família e o segundo sobre abusos sexuais sofridos por crianças. Enfim, os diretores apresentaram filmes que trazem dois dos temas mais debatidos e delicados da atualidade, o que trouxe para o festival um certo ar de urgência e discussões contundentes, o que, para muitos, era o que estava faltando nesta edição até então.

Haneke e Vinterberg foram ao festival com parte de seu elenco a tiracolo. Isabelle Hupert, Mads Mikkelsen. Mas os grandes destaques da noite foram para Jean-Louis Tritignant e  Emmanuelle Riva, intérpretes dos protagonistas do filme de Haneke.
Isabelle Hupert, uma das atrizes de Amour, na coletiva em Cannes.
Michael Haneke, que triunfou três anos atrás no festival, pela terceira vez, diga-se de passagem, com A Fita Branca, esclareceu que não quer que Amour seja encarado como um filme-denúncia sobre a terceira idade. "Nunca escrevo filmes para protestar sobre alguma coisa. Quando chegamos a uma certa idade, o sofrimento acaba nos tocando. Não quero fazer panfleto em forma de filme. Por isso  escolhi rodar num apartamento. Não queria entrar num quarto de hospital, por exemplo. Estou contente por ter feito um filme simples.", diz o cineasta.

Trintignant falou sobre seu retorno aos sets: "Há muito tempo que não fazia filmes. Não queria mais fazer cinema e gosto muito do teatro. Mas quando recebi o convite do Haneke, um dos maiores realizadores do mundo, aceitei.  Mas não voltarei a fazer outro! Penso que sou melhor no teatro do que no cinema porque no teatro não vejo a mim próprio.", explicou o ator.

Já Emmanuelle Riva, a parte feminina do casal central, disse: "Senti uma grande confiança com Michael Haneke. Quando me disse para não fazer sentimentalismo, percebi logo. Creio que não foi difícil, pelo contrário, todas as manhãs corria para o estúdio e todas as noites dormia no meu camarim.".

O filme teve uma das recepções mais calorosas do festival. Veja o que a imprensa disse sobre o filme:
 
"Este é um incontestável testemunho sobre a capacidade humana de sensibilizar-se e inspirar dignidade diante da cruel natureza.", Peter Debruge, Variety

"Talvez o mais honesto filme sobre a velhice já feito", Owen Gleiberman, Entertainment Weekly


Da esquerda para a direita, Thomas Vinterberg e Madds Mikkelsen de Jagten.
Já Vinterberg, integrante do grupo dogma, do qual faz parte Lars Von Trier, trouxe um outro relato dramático para Cannes. O diretor explicou o tema delicado de Jagten: "Efetuamos um enorme trabalho de pesquisa antes de rodarmos o filme. Inspirámo-nos em vários casos de abusos sexuais lidos na imprensa. Num caso como este, as crianças são igualmente vítimas pois sofrem por terem de mentir aos adultos para os satisfazer. Na Dinamarca temos um provérbio que diz que apenas as crianças e as pessoas bêbedas dizem sempre a verdade. É falso. Há muitas portas abertas neste filme. Deixamos a escolha ao espectador.".

Madds Mikkelsen falou sobre seu personagem, que na história é um professor atingido por boatos de ter abusado sexualmente um de seus alunos: " Ele é teimoso. Mas paradoxalmente, tem dificuldade em dizer não e em avançar na vida. Gosta de crianças mas esse amor vai levá-lo a um sentimento de medo. Não colocamos em causa o fato de haver demasiadas crianças vítimas de pedofilia. Lucas é um adulto inocente vítima de uma caça às bruxas. Foi esta situação que quisemos contar.".

Vinterberg completou dizendo que o longa fala sobre a era da internet, repleta de boatos: "O filme situa-se no microcosmo de uma aldeia onde a informação circula muito rapidamente, como um vírus. Com a Internet, o mundo tornou-se numa pequena aldeia onde abundam os rumores. Mas o que conta mais neste filme é o amor entre as personagens. Elas tentam aproximar-se apesar dos mal-entendidos.".

O longa de Vinterberg foi responsável por uma das sessões mais entusiasmadas da noite, gerando notas que anunciavam o retorno ao vigor de Vinterberg como cineasta, algo que para muitos tinha ficado na década de 1990 com Festa de Família. Infelizmente, ainda não há crítica publicada sobre o filme.

sábado, 19 de maio de 2012

Cannes 2012, Dia 4

O toque feminino do violento Lawless: Mia Wasikowska e Jessica Chastain.
Em 2012, os gangsters voltam a estar em evidência. O primeiro filme do subgênero a ser conferido pela imprensa foi Lawless, do australiano Jill Hillcoat, diretor de A Estrada. O cenário é o de sempre, uma cidade sem lei, o nome evidencia, cheia de magnatas do crime, papéis que foram entregues a Guy Pearce e Gary Oldman.

No elenco do longa e marcando presença no festival, Tom Hardy, Shia LaBeouf, Jessica Chastain, Mia Wasikowska, Jason Clarke e, já comentado, Guy Pearce. A ausência sentida ficou por conta de Gary Oldman que, apesar do pequeno papel no filme, recebeu muitos elogios na sessão deste sábado, 19. 

Tom Hardy respondeu às perguntas sobre Lawless na coletiva.
A coletiva de imprensa contou com elenco, diretor e roteirista, Nick Cave, que escreveu O Assassinato de Jesse James, de Andrew Dominik, que também apresentará seu novo filme nesta edição do festival. Cave se baseou no romance de Matt Bondurant para escrever Lawless. "Gostei do ambiente do livro, gostei da história de amor e da violência excessiva. A conjugação desses elementos me interessou. Há sentimentos, mas também uma violência muito crua. A violência muitas vezes no cinema é algo de chato. Mas há uma maneira de a tratar. Isto, John Hillcoat faz como ninguém. Ele encontra uma maneira excitante e refrescante de trazer esses elementos.", disse o roteirista.

Durante a entrevista surgiram comparações aos clássicos westerns de Sergio Leone, gênero que também é flertado por Hillcoat em Lawless. O diretor explicou: "Adoro Leone. Inspirei-me em Era uma vez na América, assim como em Bonnie e Clyde (este é de Arthur Penn), sobretudo a fotografia. Queria compreender bem a época nessa região dos Estados Unidos.".

O longa traz como plot a história dos irmãos Bondurant (Hardy, LaBeouf e Clarke), que sobreviviam na época da Lei Seca graças ao comércio ilegal de bebidas. Os três acabam enfrentando dificuldades com o surgimento de duas figuras emblemáticas na cidade, o oficial vivido por Guy Pearce, e um gângster, interpretado por Gary Oldman.

Guy Pearce respondeu a perguntas sobre seu papel, que recebeu reações entusiasmadas dos presentes. "Tinha que estar à altura. Havia alguma coisa nessa personagem, tudo à volta dele parece enojá-lo, é presunçoso, tem uma visão obscura do mundo. A sua aparência segue o mesmo caminho.", disse o ator que recentemente ganhou um Emmy pelo seu desempenho em Mildred Pearce, de Todd Haynes, projeto da HBO protagonizado por Kate Winslet.

As personagens femininas também foram alvos de perguntas.Sobre sua personagem, Chastain, que esteve no ano passado apresentando o grande vencedor da Palma de Ouro A Árvore da Vida, disse: "Como ela tem muita experiência, tem um jeito forte. É interessante de ver a relação com Forrest (Tom Hardy), que é tão violento, mas quase feminino em sua reação a ela. Então os papeis são trocados.”.

Tom Hardy, que aqui trabalha com Gary Oldman pela terceira vez, já que é o vilão Bane de Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge e contracenou com o ator em O Espião que Sabia Demais, falou sobre o ator, mesmo com sua ausência: "Na primeira vez, em O Espião que Sabia Demais, eu basicamente tinha de olhar para ele, o que foi bom, porque para mim ele é Deus. No Cavaleiro das Trevas Ressurge, eu meio que estava interpretando Deus, então pude dar umas surras. Ele é meu herói.".

Da esquerda para a direita, Shia LaBeouf, Jason Clarke, Tom Hardy, Jill Hillcoat e Jessica Chastain.
O filme irá estrear no final da temporada de verão norte-americana, no dia 31 de agosto. Não sei se Cannes era espaço para um filme como Lawless, o que pode comprometer sua aceitação entre o júri. A crítica foi, no geral, positiva, mas nada entusiasmada com o filme. Veja o que foi dito sobre o longa:

"O filme é cheio de violência visceral. No entanto, abre espaço para a doçura de seus personagens através de um talentoso elenco.", David Rooney, The Hollywood Reporter

"É um bom filme, mas parece ter mais chances em termos de troféus nas categorias de atuação mesmo.", Mariana Morisawa, IG e Revista Preview.

Assista ao trailer abaixo:

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Cannes 2012, Dia 3


Da esquerda para a direita, o diretor Matteo Garrone com os atores Loredana Simioli e Nando Paoene.
Desde O Show de Truman os reality shows não ganharam uma abordagem mais séria e comprometida do cinema. Segundo boa parte da imprensa presente na sessão especial desta sexta-feira, 19, o italiano Reality, de Matteo Garrone, é o novo representante. Entre a crítica social, que flerta com a comédia e o drama, Reality trouxe um certo burburinho porque o seu protagonista Aniello Arena não pôde comparecer no festival por estar preso, segundo a Forbes, cumprindo pena por assassinato. Tudo ganha um envólucro ainda mais atrativo quando a interpretação de Arena é um dos pontos fortes de Reality.

Garrone retorna ao festival, onde foi muito bem recebido com o drama sobre organizações criminosas na Itália, Gomorra. Reality é uma nova perspectiva na filmografia do italiano e a despeito das ressalvas feitas ao novo longa do diretor, que também assume a função de roteirista do filme.

Matteo Garrone defende seu filme na coletiva de imprensa de Cannes.
Durante a coletiva, o diretor explicou que depois do impacto causado por Gomorra, procurou um tema igualmente impactante e surpreendente para seu próximo filme. A tentativa, obviamente, levou o realizador a frustração até que ele se deparou com o roteiro de Reality, um filme que buscava criticar a valorização de reality shows na sociedade atual e a forma com que esse fenômeno ajuda a moldar comportamentos.

O diretor queria dar ao filme o mesmo tom de um dos gêneros mais apreciados na filmografia italiana: as comédias. Mas não era somente esta a intenção por trás de Reality. "Procurávamos simplesmente contar a história destas personagens. Pode-se no entanto ver em Reality uma homenagem aos grandes cineastas italianos. Espero neste caso ter conseguido não plagiá-los e manter o meu ponto de vista. Alexandre Desplat (compositor da trilha) fez-me a observação de que se compararmos Reality aos filmes de Fellini, pensamos sobretudo nos seus primeiros longas. Penso que o único ponto comum que temos é que ele também abordava o tema da televisão.", disse Garrone.

O diretor também procurou utilizar elementos como iluminação e música para dar a Reality o tom de fábula, algo que aproximasse o espectador da realidade deslumbrada e sonhadora de seus personagens principais. "A grande aposta desse filme é encontrar a ligação entre sonho e realidade", diz o cineasta.

Sobre a ausência de seu protagonista em Cannes pelos motivos já conhecidos, Garrone preferiu não comentar os motivos que levaram Arena a ser preso anos atrás. Sabe-se que o ator de Reality cumpre uma pena há cerca de 18 anos e que 12 anos atrás começou a fazer teatro na penitenciária de Volterra, formando lá um grupo teatral do qual é diretor La Fortezza. Garrone assistiu a uma das apresentações do grupo e ficou impressionado com a performance de Arena. O diretor pretendia usar o ator em Gomorra, mas não obteve autorização judicial para liberá-lo para as filmagens. Na segunda tentativa, com Reality, o diretor conseguiu permissão do juiz, sobretudo pelas filmagens acontecerem durante o dia.

Equipe de Reality posa para foto final no festival.
Reality não chamou tanto a atenção de Cannes quanto Gomorra. A sensação ficou clara através das principais críticas que saíram sobre o filme, a maioria estabelecendo comparativos entre eles. Veja o que foi dito sobre o longa italiano na Riviera:

"Um projeto desapontador se comparado ao drama criminal Gomorra", Deborah Young, The Hollywood Reporter.

"É um filme agradável, apesar de previsível e sentimental demais.", Peter Bradshaw, The Guardian.

Cannes 2012, Dia 2

Marion Cotillard posa para fotógrafos antes da coletiva de De rouille et d'os.
Um dos filmes mais esperados desta edição do Festival de Cannes, De rouille et d'os, ou Rust and Bone em inglês, foi a grande atração da quinta-feira, 17. Entre os envolvidos na produção, o cineasta francês Jacques Audiard, que há dois anos atrás havia conquistado o festival com O Profeta, e a atriz francesa Marion Cotillard, vencedora do Oscar em 2007 por Piaf - Um Hino ao Amor.

No entanto, no romance redentor entre uma treinadora de baleias orcas que perde as duas pernas e um pai que passa pelas maiores dores para criar seu filho sem a mãe, quem se destacou foi o ator belga, Matthias Schoenaerts, do ainda inédito no Brasil Bullhead. Contudo, os holofotes para o ator não tiraram o charme, talento e elegança de La Mome Cotillard, uma das mais cotadas para a Palma de Ouro de melhor atriz.

Jacques Audiard na coletiva de imprensa do filme em Cannes.
Durante a coletiva, o diretor contou que desta vez queria contar uma história que tivesse uma personagem feminina, já que O Profeta abordou o universo violento e masculino de uma penitenciária. Esta nova história, segundo o realizador, teria que vir sob o envólucro de um romance. Tudo começou a tomar forma quando o roteirista Thomas Bidegain, parceiro de trabalho do diretor em O Profeta, lhe entregou uma coletânea de contos de Craig Davidson que narrava histórias de personagens sofridos. A partir dai surgiu a ideia de criar os protagonistas de De rouille et d'os, Stéphanie e Alain. Audiard e Bidegain encontraram no romance uma oportunidade de oferecer àqueles personagens um alívio, o que não acontece nos contos, onde todos são mostrados como indivíduos solitários.

O processo de adaptação, filmagem e edição, segundo Audiard e Bidegain, levou cerca de dois anos. Já a escolha dos atores não foi tão árdua. Audiard confirmou que um dos motivos que o levaram a escolher Marion foi sua interpretação de Edith Piaf em Piaf - Um Hino ao Amor. "Fiquei emocionado com o desempenho de Marion em Piaf. O que vi em Piaf era que ela navegava por emoções muito diversas. Há muitos atores, mas poucos que podem entrar em um personagem da maneira que ela faz. Ela é muito feminina, é incrível", sintetizou o diretor, endossando o coro dos admiradores da atriz do qual faço parte há algum tempo.

No caso de Matthias, a escolha também foi influenciada por trabalhos anteriores. "No personagem masculino, testamos outros atores, mas naum funcionamos. Vimos Bullhead, achei Matthias fabuloso. ". A questão física parece ter sido algo presente durante todo o processo de filmagem, desde a preparação física de Matthias para o papel, até o trabalho de Marion com as Orcas e com a natação. O personagem de Matthias é descrito como um homem habilidoso fisicamente mas que não consegue lidar muito bem com suas emoções. "Os personagens vão aprender a viver com as adversidades. Marion com os problemas físicos que ela encontra e Matthias tem problemas com as palavras, irá aprender a dizer 'Eu te amo' com ela", disse Audiard.

Como não poderia deixar de ser, veio para Cotillard uma pergunta sobre as diferenças de se trabalhar na frança com Audiard e nos EUA com realizadores como Michael Mann (Inimigos Públicos)  - sempre aparecem essas perguntas sobre cinema norte-americano em festivais, o melhor de tudo isso é que uma atriz francesa conseguiu rebater a pergunta com muita delicadeza. "Quando li o roteiro de Audiard fiquei impressionada e empolgada. Quando sinto isso, que quero fazer parte daquilo, sinto que entendo imediatamente que personagem é aquela. Com a Stephanie li o roteiro e não entendia quem ela era. Estava assustada e disse para Jacques. Ele disse que entenderíamos o personagem juntos e acabou sendo um processo interessante. Então, para mim, existem somente diferenças técnicas que não tem relação alguma com a nacionalidade. Um filme com Michael Mann é diferente do de Jacques. O mesmo entre Mann e Christopher Nolan (A Origem). A diferença está no realizador e não o país de onde ele vem", disse Cotillard. "O mesmo foi com Matthias. Trabalhar com ele foi como trabalhar com DiCaprio (A Origem) ou Daniel Day-Lewis (Nine)", completou.

Da esquerda para a direita, Jacques Audiard, Marion Cotillard e Matthias Schoenaertes.
A repercussão do filme entre a imprensa foi positiva, especialmente para a dupla de atores. Veja abaixo o que saiu na imprensa logo após a sessão de De rouille et d'os:

"O filme se beneficia com as intensas interpretações de Marion Cotillard e Matthias Schoenaertes.", Todd McCarthy, The Hollywood Reporter.

"Jacques Audiard cria uma comovente história de amor. Merece ser premiada. Marion merece ser premiada", Peter Bradshaw, The Guardian

"Vem do coração e da alma de Audiard este lindo filme sobre como eventos traumáticos podem por vezes nos levar para o caminho certo.", Sasha Stone, Awards Daily

Assista ao trailer de De rouille et d'os: