domingo, 20 de maio de 2012

Cannes 2012, Dia 5

Michael Haneke, diretor de Amour, posa para os fotógrafos.
Domingo, 20, foi dia da apresentação dos novos filmes do alemão Michael Haneke e do dinamarquês Thomas Vinterberg. Os diretores mostraram, respectivamente, Amour e Jagten . O primeiro sobre os reflexos da velhice em uma família e o segundo sobre abusos sexuais sofridos por crianças. Enfim, os diretores apresentaram filmes que trazem dois dos temas mais debatidos e delicados da atualidade, o que trouxe para o festival um certo ar de urgência e discussões contundentes, o que, para muitos, era o que estava faltando nesta edição até então.

Haneke e Vinterberg foram ao festival com parte de seu elenco a tiracolo. Isabelle Hupert, Mads Mikkelsen. Mas os grandes destaques da noite foram para Jean-Louis Tritignant e  Emmanuelle Riva, intérpretes dos protagonistas do filme de Haneke.
Isabelle Hupert, uma das atrizes de Amour, na coletiva em Cannes.
Michael Haneke, que triunfou três anos atrás no festival, pela terceira vez, diga-se de passagem, com A Fita Branca, esclareceu que não quer que Amour seja encarado como um filme-denúncia sobre a terceira idade. "Nunca escrevo filmes para protestar sobre alguma coisa. Quando chegamos a uma certa idade, o sofrimento acaba nos tocando. Não quero fazer panfleto em forma de filme. Por isso  escolhi rodar num apartamento. Não queria entrar num quarto de hospital, por exemplo. Estou contente por ter feito um filme simples.", diz o cineasta.

Trintignant falou sobre seu retorno aos sets: "Há muito tempo que não fazia filmes. Não queria mais fazer cinema e gosto muito do teatro. Mas quando recebi o convite do Haneke, um dos maiores realizadores do mundo, aceitei.  Mas não voltarei a fazer outro! Penso que sou melhor no teatro do que no cinema porque no teatro não vejo a mim próprio.", explicou o ator.

Já Emmanuelle Riva, a parte feminina do casal central, disse: "Senti uma grande confiança com Michael Haneke. Quando me disse para não fazer sentimentalismo, percebi logo. Creio que não foi difícil, pelo contrário, todas as manhãs corria para o estúdio e todas as noites dormia no meu camarim.".

O filme teve uma das recepções mais calorosas do festival. Veja o que a imprensa disse sobre o filme:
 
"Este é um incontestável testemunho sobre a capacidade humana de sensibilizar-se e inspirar dignidade diante da cruel natureza.", Peter Debruge, Variety

"Talvez o mais honesto filme sobre a velhice já feito", Owen Gleiberman, Entertainment Weekly


Da esquerda para a direita, Thomas Vinterberg e Madds Mikkelsen de Jagten.
Já Vinterberg, integrante do grupo dogma, do qual faz parte Lars Von Trier, trouxe um outro relato dramático para Cannes. O diretor explicou o tema delicado de Jagten: "Efetuamos um enorme trabalho de pesquisa antes de rodarmos o filme. Inspirámo-nos em vários casos de abusos sexuais lidos na imprensa. Num caso como este, as crianças são igualmente vítimas pois sofrem por terem de mentir aos adultos para os satisfazer. Na Dinamarca temos um provérbio que diz que apenas as crianças e as pessoas bêbedas dizem sempre a verdade. É falso. Há muitas portas abertas neste filme. Deixamos a escolha ao espectador.".

Madds Mikkelsen falou sobre seu personagem, que na história é um professor atingido por boatos de ter abusado sexualmente um de seus alunos: " Ele é teimoso. Mas paradoxalmente, tem dificuldade em dizer não e em avançar na vida. Gosta de crianças mas esse amor vai levá-lo a um sentimento de medo. Não colocamos em causa o fato de haver demasiadas crianças vítimas de pedofilia. Lucas é um adulto inocente vítima de uma caça às bruxas. Foi esta situação que quisemos contar.".

Vinterberg completou dizendo que o longa fala sobre a era da internet, repleta de boatos: "O filme situa-se no microcosmo de uma aldeia onde a informação circula muito rapidamente, como um vírus. Com a Internet, o mundo tornou-se numa pequena aldeia onde abundam os rumores. Mas o que conta mais neste filme é o amor entre as personagens. Elas tentam aproximar-se apesar dos mal-entendidos.".

O longa de Vinterberg foi responsável por uma das sessões mais entusiasmadas da noite, gerando notas que anunciavam o retorno ao vigor de Vinterberg como cineasta, algo que para muitos tinha ficado na década de 1990 com Festa de Família. Infelizmente, ainda não há crítica publicada sobre o filme.

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