quinta-feira, 28 de junho de 2012

Festa estranha com gente esquisita


Sombras da Noite

Tim Burton já perdeu os prumos de sua carreira há algum tempo. Seus últimos filmes sofrem com os excessos das extravagâncias do cineastas e da pouca substância de suas tramas. É o caso de Alice no País das Maravilhas e Sweeney Todd - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, por exemplo. O último filme memorável do cineasta está pelos idos de 2003, Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas, e olha que aqui ele nem conta com a ajuda de seu parceiro habitual, o ator Johnny Depp, que por sinal anda se repetindo já faz algum tempo. Sombras da Noite é um caso à parte. Neste novo trabalho, o equívoco fica por conta da incapacidade do diretor Burton e do roteirista Seth Grahame-Smith em lidar com múltiplos personagens e tramas. Ainda que preserve o espírito da série de TV original, praticamente não vista no Brasil, como muitos dizem, falta a Sombras da Noite um pouco de coesão. No entanto, não dá para negar que o filme possui um dos elementos que faltava em alguns dos recentes trabalhos de Burton: a interessante combinação entre a personalidade do diretor nos personagens e narrativas e o auto-controle nos elementos visuais. Tudo o que seus piores filmes não souberam fazer.

Em Sombras da Noite, Tim Burton conta a história de Barnabas Collins, um homem amaldiçoado por uma bruxa que o condena a dor eterna ao transformá-lo em vampiro. A feiticeira chama-se Angelique e é tomada por uma fúria incontrolável quando Barnabas a rejeita e se apaixona por uma outra jovem. Após o feitiço, Angelique convoca todos da cidade a aprisionar Barnabas para sempre em um caixão. Duzentos anos depois, Barnabas acorda em plena década de 1970 e decide quebrar sua maldição e ajudar os descendentes de sua família a reerguerem os negócios dos Collins. Porém, Angelique retorna e move esforços para impedí-los.

 
Jackie Earle Haley e Johnny Depp em Sombras da Noite.
Sombras da Noite poderia ser um grande retorno de Tim Burton a um terreno que conhece como ninguém, àquele do humor protagonizado por personagens excêntricos e excluídos de alguma forma da sociedade. De certa maneira, Burton sente-se próximo desse tema e isso, ocasionalmente, o inspira a realizar obras de cunho autoral e emotivas, como Edward Mãos de Tesoura e Peixe Grande, ou divertidamente descompromissadas, como A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça e Ed Wood. No caso, Sombras da Noite aproxima-se mais do segundo grupo, mas é prejudicado pelos mesmos motivos que tornaram Marte Ataca! um filme complicado de ser engolido. Há presonagens demais, tramas paralelas demais e pouca resolução ou ligação entre elas, ou seja, o filme acaba ganhando um teor episódico.

Há interpretações interessantes. O próprio Depp está muito bem como Barnabas Collins, rendendo ótimos momentos ao salientar que o vampiro é um indivíduo completamente deslocado no tempo. As piadas sobre  a falta de timing de Barnabas com o século XX, em especial a década de 70, geralmente são as melhores do longa. Quem também rende ótimos momentos é Eva Green, que na pele da bruxa Angelique praticamente rouba a cena de Depp em diversos momentos. Green exagera na tinta e isso é sempre muito interessante para uma vilã do universo de Tim Burton. Michelle Pfeiffer, em sua segunda parceria com o diretor que a tornou ícone como a Mulher-Gato de Batman - O Retorno, surge discreta como a matriarca dos Collins e Helena Bonham Carter é uma interessante distração como uma psiquiatra contratada pela família.

 
Barnabas observa pouco confiável Roger Collins, personagem de Jonny Lee Miller.
O longa ainda não marca o retorno de Tim Burton aos bons filmes. Sombras da Noite possui mais arestas do que seu próprio realizador desejava. Quem se beneficia é Johnny Depp que, apesar de ser sempre mais interessante quando evita tipos e interpreta figuras mais humanas, consegue ser um dos poucos atores que captam a essência weird do diretor. Ainda assim é louvável que Tim Burton consiga realizar uma obra que desde o início tem consciência do que realmente é. Sombras da Noite tem muito mais o tom arrojado de Beattlejuice que a sensibilidade de um Edward Mãos de Tesoura. Mesmo assim, não custava nada priorizar determinados personagens e tramas em detrimento de outros. Ou seja, Burton progrediu, mas não foi dessa vez que ele mostrou seu vigor como cineasta. 

 


Dark Shadows, 2012. Dir.: Tim Burton. Roteiro: Seth Grahame-Smith. Elenco: Johnny Depp, Michelle Pfeiffer, Eva Green, Helena Bonham Carter, Chloe Moretz, Bella Heathcote, Jackie Earle Haley, Jonny Lee Miller, Gulliver McGrath, Christopher Lee, Alice Cooper. 113 min. Warner.

domingo, 24 de junho de 2012

Frivolidades de Yasmina

Marcelo Flores, Vladimir Brichta e Cláudio Gabriel levam a amizade masculina para além do papo de botequim.
Em cartaz no Rio de Janeiro, Arte é mais uma obra de Yasmina Reza, dramaturga francesa que escreveu Deus da Cranificina, produção que ganhou recentemente uma adaptação cinematográfica pelas mãos de Roman Polanski e que já estreou no circuito brasileiro. Trata-se de um momento propício para conhecer a obra de Reza.

Mais uma vez Yasmina usa uma situação trivial, no caso uma discórdia entre amigos sobre o teor artístico de uma tela, para discutir um tema que diz respeito às relações humanas, no caso, a amizade. Mais interessante é notar que Yasmina, uma autora feminina, consegue penetrar tão bem no universo masculino, um mero acaso, já que os temas de Arte são reconhecíveis em qualquer tipo de relacionamento entre amigos.

A peça em questão é uma tela que à primeira vista é branca. Sem traços, cores ou qualquer outra imagem disposta, simplesmente branca. Há o comprador do quadro, personagem de Cláudio Gabriel, um médico dermatologista que pagou R$ 200.000,00 pela obra e que diz por "A" mais "B" que a tela não é branca, trata-se de uma abordagem contemporânea. A situação é ridicularizada por um outro, interpretado por Marcelo Flores, que não enxerga conceito algum. Vivido por Vladimir Brichta, o terceiro é o conciliador que para evitar qualquer mágoa na relação que mantém com os dois prefere amenizar a situação e não expor totalmente sua opinião. Amizade é dizer verdades ou procurar expor pontos de vista da forma mais suave possível?

É interessante que a autora trate do universo masculino sem apelar para os chauvinismos tão comuns em comédias do gênero, que o digam o americano Todd Philips (Se Beber, Não Case!) e o brasileiro Bruno Mazzeo (Cilada.com e o recente E aí, comeu?), evitando reduzir este universo a futebol, seios e bebidas. A autora discute, sem rodeios, os sentimentos dos três amigos, que por questões de gênero têm uma tendência a preservá-los dentro de uma casca, mas que aos poucos revelam a essência sem afetações ou sugestões sexuais.

Com Arte, Yasmina não quer fazer um tratado sobre manifestações artísticas, estas são apenas um subterfúgio para discutir a relação dos três amigos - semelhante ao que fez em Carnificina com a briga entre os dois garotos no parque. Não interessa a opinião de um ou outro sobre arte contemporânea, os dois estão certos e errados ao mesmo tempo. O que a dramaturga busca é uma familiaridade com o repertório cotidiano da plateia, relações de amizade que não são harmônicas e lineares por tendência. São relações tortuosas e repletas de conflitos, disputas e vaidades, o que não significa que não são dotadas de sentimentos edificantes, como amor e cumplicidade.

sábado, 23 de junho de 2012

Minha culpa, minha máxima culpa

Evan Rachel Wood e Kate Winslet: um dos raros momentos de afeto de Veda com a mãe Mildred.
Mildred Pierce

A temática feminina me é interessante por razões pessoais que não me cabem contar neste blog. No entanto, posso dizer que praticamente fui criado por mulheres e compreendo bem as angústias femininas frente a um mundo eminentemente machista, ainda que seja um descaso camuflado. Mildred Pierce, minissérie da HBO, foi escrita e dirigida pelo brilhante, mas pouco visitado cineasta Todd Haynes, homem responsável por Velvet Goldmine, Longe do Paraíso (talvez sua obra máxima, com uma interpretação fascinante de Julianne Moore) e Não Estou Lá (cinebiografia inventada de Bob Dylan). Baseada no livro homônimo de James M. Cain, que por sua vez inspirou o filme de 1945, protagonizado por Joan Crawford, chamado no Brasil de Almas em Suplício, Mildred Pierce é um melodrama característico da época. Uma ode ao gênero bem diferente daquela feita por Haynes em Longe do Paraíso.

A obra traz a história de uma divorciada que consegue a independência financeira para criar suas filhas em plena Depressão americana. Mildred começa trabalhando como garçonete, abre um restaurante a partir de uma ideia bem interessante e logo transforma o negócio em um grande empreendimento com diversas ramificações. A ascensão de Mildred segue em descompasso com a relação que mantém com sua filha mais velha, ironicamente chamada de Veda (em inglês, pronuncia-se "Vida"). A garota é cínica, manipuladora e mimada, levando Mildred ao desespero por nunca suprir as suas necessidades.

Veda é fruto do abandono sofrido pela burguesia norte-americana do período. Com a crise econômica, a menina, que sempre teve tudo, passa a lidar com uma nova realidade e culpa sua mãe por não suprir aquilo que considera como suas necessidades. Mildred é uma mulher simples, de poucas ambições. Já Veda quer fazer parte das altas rodas da sociedade, preza pela sofisticação e cultiva o temperamento explosivo típico dos artistas. A relação se deteriora a olhos vivos - só não aos de Mildred -, piorando quando a garota cresce e sai de casa para ganhar a vida como tenora. Não sem antes arruinar a vida da pobre Mildred que custa acreditar que sua própria filha tenha se tornado uma criatura tão perversa.

Mildred tenta dissuadir a geniosa filha.
Mildred Pierce tem um grande argumento, conduzido com firmeza por Haynes. A culpa materna, algo que já vimos nesse mesmo ano em Precisamos Falar sobre Kevin, é um dos grandes temas da produção. A protagonista nunca consegue atender às demandas da própria filha. Assim como a personagem de Tilda Swinton no filme de Lynne Ramsay, a Mildred de Kate Winslet se sente responsável pela pessoa que Veda se tornou. Além de enganar-se tentando encontrar alguma justificativa para os atos da menina ou algum indício de que Veda irá se regenerar, Pierce se autoflagela pela convicção de que, de alguma forma, foi culpada pelo destino da menina. Até libertar-se desse fantasma (será que isso realmente acontece?), Pierce é destroçada pela garota. Em síntese a eterna e inescapável sensação de responsabilidade dos pais pelo destino dos próprios filhos. Onde foi que eu errei?

Como mencionei no início, Mildred Pierce não apresenta o mesmo cunho metalinguístico de Longe do Paraíso, outra obra do diretor que flerta com o melodrama. Dividida em cinco partes, a minissérie tem um senso cinematográfico admirável e constitui-se como uma obra do subgênero sem atalhos. Haynes confia as rédeas de Mildred Pierce a Kate Winslet, que mais uma vez não decepciona e faz da personagem um dos melhores e mais aplicados trabalhos de sua carreira. Winslet, como de praxe, evita os excessos e aposta nos gestos calculados, compreendendo muito bem a culpa que corrói a personagem, que se humilha em busca de qualquer migalha de atenção da filha. Em uma das cenas mais incríveis deste trabalho da atriz, Haynes foca suas atenções para a reação de Mildred durante a primeira apresentação da filha em Nova York. Enfim, junta-se a tantas outras composições da atriz, como as de Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, Titanic, Razão e Sensibilidade, O Leitor e Foi Apenas um Sonho. Kate é essencialmente técnica, ocasionalmente intuitiva, e qualquer tarefa pode ser dada a ela .

Mildred e Monty: um dos raros momentos em que a personagem se liberta das amarras da maternidade termina mal.
O trabalho, exibido originalmente na HBO, chega em DVD e Blu-Ray no Brasil. Além de Winslet, Guy Pearce também está muito interessante como um playboy por quem Mildred acaba se apaixonando. A intérprete da filha na fase adulta é Evan Rachel Wood, que até tem uma presença interessante na pele da detestável Veda. Há ainda participações pontuais de Melissa Leo, a melhor amiga de Mildred, e Hope Davis. No entanto, o espetáculo todo é de Kate Winslet e do seu realizador Todd Haynes que leva mais uma obra feminina para o público, contrariando as regras de que histórias sobre mulheres não funcionam para grandes públicos. Mildred Pearce é um trabalho complexo e sofisticado que lança um olhar sobre a difícil e por vezes ingrata missão de ser mãe, de ser mulher. Contrariando expectativas da própria Mildred, Veda só reserva recalque e desprezo para a própria mãe. A protagonista é condenada ao purgatório e afoga sua consciência em culpa.  Nem todas as almas boas são levadas ao céu. Afinal, o mundo nunca foi justo com elas...



Mildred Pierce, 2012. Dir.: Todd Haynes. Roteiro:Todd Haynes, James M.Cain, Jon Raymond e Jonathan Raymond. Elenco: Kate Winslet, Guy Pearce, Evan Rachel Wood, Melissa Leo, Hope Davis, Brian F. O'Byrne, James Le Gros, Morgan Turner, Mare Winningham, Halley Feiffer, Miriam Shor. Warner.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

10 personagens de Nicole Kidman



Hoje coloquei toda a minha porção fã para fora e escancarei!
Por não ser preferência exclusiva do Raining Frogs...
Por não ser uma unanimidade e mesclar, ao longo de sua filmografia, filmes cultuados e premiados com verdadeiras barcas furadas...
Por colecionar prêmios por sua interpretação em longas como Moulin Rouge! e As Horas e já ter sido indicada ao Framboesa de Ouro por A Feiticeira e Esposa de Mentirinha...
Por ter saído ilesa de um casamento com Tom Cruise ...
Por conseguir concentrar em si mesma o status de estrela hollywoodiana e atriz comprometida em sair da zona de conforto...
Por ter se submetido à batuta de cineastas tão díspares como Stanley Kubrick, Lars Von Trier, Baz Luhrmann, Gus Van Sant, Alejandro Aménabar, Stephen Daldry, Jane Campion, Steven Shainberg, Jonathan Gleizer, Noah Baumbach e John Cameron Mitchell...
Por ter tido coragem de trabalhar duas vezes com Joel Schumacher...
Por ser australiana...
Por ser Nicole Kidman...

A atriz merece um Top 10 com as melhores interpretações de sua carreira nesta quarta-feira, dia 20 de junho, quando completa 45 anos de vida.

#10. Alice Harford 
De Olhos bem Fechados (1999)
Dir.: Stanley Kubrick
Com: Tom Cruise


Alice Harford desestabiliza o marido. Assume numa noite, após ficar chapada, que já desejou outros homens. O estudo sobre a fidelidade e fantasias sexuais de Stanley Kubrick pode não ser um dos seus filmes mais elogiados, mas fez desabrochar a atriz que existia em Kidman e vivia sufocada pelo casamento. A exemplo de Alice, De Olhos bem Fechados foi uma espécie de "olha, eu existo, não estou satisfeita com os rumos de minha carreira e o culpado é você". A melhor cena é justamente aquela em que Alice surpreende seu até então seguro marido ao revelar seus sonhos eróticos com um outro homem. A experiência com Kubrick foi intensa e até hoje Nicole o considera como seu grande mentor. Kubrick disse: "Nicole, deveria se dedicar mais a sua carreira". A australiana seguiu o conselho e fez uma dúzia de trabalhos interessantes após esse aqui.

#09. Satine 
Moulin Rouge! - Amor em Vermelho (2001)
Dir.: Baz Luhrmann
Com: Ewan McGregor e Jim Broadbent

Quando Kidman for dessa para uma melhor, seu nome estará imediatamente associado ao musical de Baz Luhrmann, Moulin Rouge!. O filme, também estrelado por Ewan McGregor, fez surgir a estrela Nicole Kidman, a atriz já tínhamos visto em Um Sonho sem Limites. Semelhante às grandes estrelas da era de ouro dos musicais, a australiana surge no filme através de um número musical, "Sparkling Diamonds". Mas não foi somente essa sequência que nos fez levemente esquecer Marilyn Monroe que torna o trabalho de Nicole em Moulin Rouge! especial. A atriz soube traçar a trajetória trágica de sua heroína, transformando Satine em uma mulher que mostra-se como uma fútil e insaciável prostituta para a sociedade, mas que no fundo é frágil e sonhadora. Isso torna o trabalho de Kidman inesquecível. Moulin Rouge! foi a primeira indicação ao Oscar de melhor atriz de Nicole. A atriz também ganhou o Globo de Ouro de melhor atriz em musical ou comédia pelo musical. Sem dúvida, seu melhor e mais marcante filme.

# 08.Virgínia Woolf 
As Horas (2002)
Dir.: Stephen Daldry
Com: Meryl Streep, Julianne Moore e Ed Harris

Kidman seguiu a cartilha para ganhar um Oscar: interpretou uma personagem real e utilizou a maquiagem para esconder seu rosto, considerado um dos mais belos e harmônicos do cinema. Para quem gosta de reproduzir a brincadeira de Denzel Washington na noite de entrega do Oscar, é bom começar a repensar... A australiana incorporou a natureza melancólica e existencial da escritora inglesa Virgínoa Woolf em As Horas. Kidman parece ter entrado na alma da escritora que seus olhos na primeira cena de Virgínia Woolf desnudam a personagem. Além do Oscar de melhor atriz, Kidman ganhou o Globo de Ouro de atriz em drama e o Urso de Prata de melhor atriz no Festival de Berlim, junto com suas colegas de elenco Meryl Streep e Julianne Moore, pelo mesmo filme.

# 07. Margot 
Margot e o Casamento (2007)
Dir.: Noah Baumbach
Com: Jennifer Jason Leigh e Jack Black

Ela não é a irmã, a amiga, a mãe ou a cunhada que você queria ter, mas os personagens de Margot e o Casamento têm que conviver com Margot, personagem de Nicole Kidman. A protagonista do filme de Noah Baumbach é absolutamente intragável, mas Kidman não simplifica seus traços e evita tranformá-la simplesmente em uma bitch. A Margot da atriz é uma mulher marcada por suas duras experiências familiares que a tornaram uma pessoa intolerante, amarga e cruel. Infelizmente, foi direto para o mercado de home video no Brasil, mas merece ser descoberto.

# 06. Anna 
Reencarnação (2004)
Dir.: Jonathan Gleizer
Com: Lauren Bacall e Anne Heche

Trata-se de um dos trabalhos mais subestimados da atriz - junto com A Pele, biografia da fotógrafa Diane Arbus que não está aqui porque estamos levando em conta a interpretação e, neste caso, o filme é mais interessante que a atuação de Nicole em si. Reencarnação causou muito barulho no Festival de Veneza porque trazia uma cena de Nicole nua em uma banheira com um garoto de 10 anos, que no filme afirmava ser a reencarnação do falecido marido da personagem da atriz. O filme é um estudo sobre o luto e Kidman protagoniza uma das cenas mais lindas do cinema, àquela em que cogitando a possibilidade da afirmação do garoto ser real, ela ri e chora na plateia de uma ópera. Mas não é apenas uma cena que marca o trabalho de Kidman aqui, a atriz conduz toda a angústia de Anna ao longo do filme: o menino é ou não é a reencarnação de seu amado? Rendeu a Nicole uma indicação ao Globo de Ouro de melhor atriz drama.


# 05. Becca 
Reencontrando a Felicidade (2010)
Dir. John Cameron Mitchell
Com: Aaron Eckhart e Diane Wiest

Não há nada que se compare a dor de uma mãe ou um pai pela morte de um filho. A adaptação da peça Rabbit Hole ganhou sua versão cinematográfica pelas mãos do cineasta John Cameron Mitchell, de Shortbus, e foi o primeiro filme produzido por Nicole Kidman. Reencontrando a Felicidade representa tudo o que Kidman sempre preferiu em sua carreira, papéis femininos multifacetados e diretores que pudessem lhe proporcionar experiências diferenciadas. Após fiascos comerciais e artísticos como A Bússola de Ouro e Austrália, Kidman volta aos trilhos com este filme e conquista sua terceira indicação ao Oscar de melhor atriz.A interpretação dela é interessante pois dá a exata dimensão da dor de Becca e encontra perspectivas originais para expor o drama do luto materno. Há doses interessantes de humor, por exemplo. Um grato retorno.

# 04. Isabel Archer 
Retratos de uma Mulher (1996)
Dir.: Jane Campion
Com: John Malkovich, Viggo Mortensen e Christian Bale

O clássico de Henry James ganhou uma adaptação pela diretora que ajudou a carreira de Nicole Kidman na Austrália, Jane Campion. Retratos de uma Mulher é a primeira e única colaboração das duas. Nicole interpreta Isabel Archer, uma mulher sufocada pelas convenções e pelo machismo de uma época. As cenas com John Malkovich são angustiantes e Kidman retrata muito bem a personalidade reprimida de Archer. Uma das mais bonitas interpretações de Nicole. A câmera contemplativa e lenta da diretora de O Piano torna tudo ainda mais especial. 


# 03. Grace Margareth Mulligan 
Dogville (2003)
Dir.: Lars Von Trier
Com: Paul Bettany, Lauren Bacall e Stellan Skarsgaard

Mais uma personagem feminina inserida em um contexto de exploração, Grace de Dogville. Natural, qualquer atriz que passe pelas mãos do dinamarquês Lars Von Trier não sai ilesa. As filmagens foram extenuantes e a abordagem teatral (não há cenários, apenas marcações no chão com giz) exigiu dos atores. Nicole gradualmente leva Grace ao limite, culminando com um final catártico que diz muito sobre a natureza humana. Por sinal, esse é o objetivo de Dogville, muito mais que os paralelos com as relações internacionalmente mantidas pelo governo norte-americano, como muitos associaram.

# 02. Grace Stewart 
Os Outros (2001)
Dir.: Alejandro Aménabar
Com: Fionnula Flanagan e Christopher Eccleston

Grace Stewart não tem consciência sobre quem realmente é. Este é um dos pontos centrais para se entender a personalidade da protagonista de Os Outros. O filme basicamente contou com a condução de Aménabar e a interpretação de Nicole Kidman. Há pouquíssimos recursos digitais e o suspense é mantido por "truques" de iluminação e edição. Cristã, solitária, autoritária, mas extremamente carinhosa e dedicada aos filhos e ao casamento, a personagem não suporta o peso da revelação sobre o passado. Surgiram comparações com as icônicas "loiras" dos filmes de Alfred Hitchcock e todas elas procedem. Rendeu a Kidman uma indicação ao Globo de Ouro de melhor atriz drama e muitos afirmam que certamente renderia uma indicação ao Oscar para a atriz, caso as regras da Academia permitissem que uma mesma atriz fosse indicada na mesma categoria por trabalhos diferentes. Naquele ano, a atriz concorreu ao prêmio com  Moulin Rouge!.

# 01. Suzanne Stone Maretto
 Um Sonho sem Limites (1995)
Dir.: Gus Van Sant
Com: Joaquin Phoenix, Matt Dillon e Casey Affleck

O primeiro grande papel de Nicole Kidman foi Suzanne Maretto, uma jovem aspirante a repórter que faz de um tudo para conseguir um cargo em uma emissora local. Suzanne é uma psicopata: fria, louca e ambiciosa. O filme de Gus Van Sant foi a Cannes - não foi exibido na competição oficial - e surpreendeu muitos que duvidavam do potencial da atriz quando ainda era conhecida como a Sra. Tom Cruise. Suzanne cria intrigas, alicia menores e comete assassinatos, a típica bitch que a gente ama conhecer somente nas telas. Infelizmente, o filme não ganhou uma versão em DVD no Brasil. A Sony, que tem os direitos do filme, merecia um puxão de orelha por não lançá-lo no formato.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Shia despido


Disposto a deixar para trás os tempos em que protagonizou a trilogia Transformers e besteiras como Paranoia e Controle Absoluto, Shia LaBeouf chamou a atenção de internautas nesta semana ao protagonizar o clipe "Fjogur Píanó", da banda islandesa Sigur Rós. O clipe, bem experimental, é praticamente um curta-metragem. A certeza que deixa é a de que Shia LaBeouf é um ator bem melhor do que faz questão de se apresentar nos cinemas.Há alguns anos o ator já demonstrou em tentativas, Wall Street - O Dinheiro nunca Dorme foi uma dessas provas, que não pretende ficar toda a sua carreira conversando com robôs gerados em CGI e correndo para cá e para lá com Harison Ford.  O vocalista da banda é o Jónsi, que já assinou canções para os filmes Como treinar o seu Dragão e Compramos um Zoológico.
O clipe foi dirigido pela diretora israelense Alma Har'el, do documentário Bombay Beach. Assista abaixo:

Curioso que o clipe chamou muito mais atenção pela entrega do ator ao ficar nú do que pela sua coragem de despir sua alma e entregar-se a um trabalho tão bonito.

domingo, 17 de junho de 2012

Drops: Amor Impossível

Emily Blunt e Ewan McGregor: romance e pescaria no Yemen.
Amor Impossível é mais um filme comprometido pela visão açucarada que o cineasta Lasse Hallstrom tem sobre a vida. E o sueco exagera na dose. O filme traz como plot o relacionamento entre uma funcionária do departamento de Relações Exteriores da Inglaterra e um acadêmico cujo hobby é a pesca. A pedido de um xeique, ela pede ajuda a ele para iniciar a pesca de salmões no Yemen. Como o local não é nativo para o peixe, ele teria que ajudá-la a encontrar uma forma de promover a permanência e a reprodução da espécie lá. Na verdade o filme é um romance, que infelizmente não funciona. A trama dos salmões é bem mais interessante e os personagens de Ewan McGregor e Emily Blunt, por mais que os atores se esforcem, são unidimensionais. Blunt ainda é mais prejudicada que McGregor, a personalidade de sua heróina é simplificada pelo dilema que vive em relação ao sentimento que nutre pelo namorado e pelo parceiro de trabalho. Uma pena, porque o filme vai muito bem no primeiro ato, mas se contorce pela vontade de ser mais comercial e apela para as emoções artificiais. O casal acaba sendo ofuscado pela presença de Kristin Scott Thomas, que interpreta uma assessora de imprensa do Primeiro Ministro. Apesar das cores fortes, a personagem é deliciosa e a atriz deita e rola com a participação no filme.

P.S.: Pior que o filme, só mesmo o título que a distribuidora brasileira encontrou para ele no Brasil. De Salmon Fishing in the Yemen, o longa foi chamado aqui de Amor Impossível. A gente sabe que o título original não é dos mais fáceis de adaptar (um verdadeiro abacaxi), mas Amor Impossível é o cúmulo da falta de esforço da massa cinzenta ou a comprovação escrachada de que as distribuidoras realizam os tropeços que realizam para vender os filmes pelos títulos aos mais desavisados. 


Salmon Fishing in the Yemen, 2012. Dir.: Lasse Hallstrom. Roteiro: Simon Beaufoy. Elenco: Ewan McGregor, Emily Blunt, Kristin Scott Thomas, Amr Waked, Catherine Steadman, Tom Mison, Tom Beard, Jill Baker, Conleth Hill. 107 min. Paris Filmes.

sábado, 16 de junho de 2012

A caixa de Pandora

Prometheus
Em 1979, Ridley Scott conquistou o mundo com Alien - O Oitavo Passageiro, antes mesmo de tornar-se cult com Blade Runner. Alien era um longa de terror disfarçado de ficção-científica que trazia uma tripulação sendo dizimada no espaço por uma criatura apavorante. Prometheus, por mais que o diretor insista em distinguí-lo do filme de 1979, é um prequel de Alien, conta a origem da criatura. O longa também é uma tentativa do cineasta de retornar a um gênero pelo qual é reconhecido, após desastres recentes em sua carreira, como Robin Hood Rede de Mentiras. Scott queria retornar com o que sabe fazer de melhor: ficção-científica. E se Alien usava o gênero pela tangente, Prometheus é uma ficção-científica sem "rapapés".

Em Prometheus, uma nova tripulação protagoniza eventos nada agradáveis no espaço. Os cientistas vividos por Noomi Rapace e Logan-Marshall Green lideram uma expedição a um inóspito planeta em busca de uma civilização que teria dado origem aos humanos. Durante a investida, a tripulação da nave Prometheus - nome dado em referência ao Deus da mitologia grega que criou o homem -, acaba passando por uma série de situações que põe em risco seu retorno à Terra. Antes de chegar aos pontos positivos do filme, vamos às suas fragilidades. Na verdade, a experiência de assistir Prometheus é drasticamente comprometida por um grande equívoco do roteiro. Digo drasticamente porque é inevitável que qualquer entrave no roteiro afete substancialmente o filme.

Charlize Theron comanda a tripulação como a fria Meredith Vickers.
Prometheus tenta (vejam bem, tenta) teorizar sobre a origem da humanidade ao invés de entregar-se ao ponto forte do longa, a dinâmica entre a tripulação e os eventos da expedição. Ridley Scott quis tornar Prometheus maior que Alien - O Oitavo Passageiro, tranformando-o em uma versão mais blockbuster de 2001 - Uma Odisseia no Espaço. No entanto, o filme ganha muito mais quando Scott se entrega à atmosfera apavorante que soube empregar em Alien e que aqui aplica muito bem. Alguns diálogos são constrangedores e a motivação de alguns personagens são frágeis (se submeter a certos perigos apenas pelo prazer da descoberta científica é um pouco questionável). Prometheus filosofa sobre a criação dos seres humanos, mas não oferece respostas ou questionamentos convincentes para o público.

Mas o filme consegue suprir as deficiências do roteiro com a direção de Ridley Scott. O cineasta torna Prometheus uma verdadeira bomba relógio, empregando um ritmo bem parecido ao de Alien, com o benefício de contar agora com um orçamento bem maior e caprichar em efeitos especiais, maquiagem e direção de arte. O elenco também é um ponto forte do filme. A nova heroína, Noomi Rapace, anunciada como a nova Sigourney Weaver, traz vigor para a personagem sem deixar de ser feminina, uma característica que escapa com muita facilidade das mãos das intérpretes femininas no gênero. Michael Fassbender também tem um desempenho interessantíssimo como o andróide David, uma interpretação estritamente técnica que exigiu do ator controle sobre sua voz e seus gestos e neutralidade no terreno das emoções. Já Charlize Theron, no ano mais atribulado de sua carreira, interpreta a vilã do longa (não esqueçam que ela foi, de longe, a melhor coisa em Branca de Neve e o Caçador e foi injustiçada por não ter sido indicada ao Oscar por seu desempenho formidável em Jovens Adultos). No entanto, a personagem da sul-africana não é um protótipo de vilã e a atriz consegue dar  contornos interessantes e complexos a Meredith Vickers, realçando sua natureza egocêntrica e o fato de ser um completo "peixe fora d'água" na tripulação, um fator determinante para a motivação de seus atos. 

O andróide vivido por Michael Fassbender descobre os criadores. 
A ponte entre Prometheus e Alien - O Oitavo Passageiro satisfaz os fãs do primeiro filme da série protagonizada por Sigourney Weaver. No entanto, fica óbvio que o longa tinha potencial para ser mais do que é se ganhasse um melhor tratamento no roteiro. A certeza que fica é que Ridley Scott é um grande diretor para o gênero, talvez um dos melhores, se não o melhor. Prometheus é tenso e vivo como experiência cinematográfica, coisa que poucos filmes com seu escopo conseguem. O diretor, mestre da ficção-científica, retorna para a sua zona de conforto e nos mostra do que é capaz. Scott abre sua caixa de Pandora e revela a origem do mal, o início do tormento de Ripley e do fascínio de cinéfilos de todo o mundo por Alien.



Prometheus, 2012. Dir.: Ridley Scott. Roteiro: Jon Spaihts e Damon Lindelof. Elenco: Noomi Rapace, Michael Fassbender, Charlize Theron, Logan Marshall-Green, Idris Elba, Guy Pearce, Sean Harris, Patrick Wilson, Rafe Spall, Emun Elliott, Benedict Wong. 124 min. Fox.

sábado, 9 de junho de 2012

Às favas com as boas maneiras

Deus da Carnificina
O convívio social pede boas maneiras. Ninguém diz totalmente o que pensa. Na superfície todos são cheios de virtude e a cordialidade é uma qualidade mantida para harmonizar os relacionamentos. Deus da Carnificina, peça de Yasmina Reza, é um interessante estudo, quase que antropológico, que constata que o ser humano utiliza personagens no convívio social, as pessoas no fundo escondem sua verdadeira natureza, o que realmente pensam dos outros e o que realmente pensam de si. O trabalho desta vencedora do Tony, prêmio máximo do teatro, foi adaptado para o cinema pelo diretor Roman Polanski que trouxe Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz e John C.Reilly para viver o quarteto de personagens principais. Polanski, na verdade, não faz bem um trabalho de adaptação, já que o texto mantém sua integralidade nesta versão cinematográfica, o que é o grande equívoco do filme. No entanto, não deixa de ser interessante ver os quatro atores dando suas versões para os fatos e se empenhando em defender os personagens de Reza.

Deus da Carnificina começa quando os filhos dos casais Longstreet e Cowan se metem em uma briga no parque. O que começa como uma conciliação entre pais de agressor e vítima acaba em um verdadeiro duelo de acusações entre os quatro envolvidos. Tratando os adultos como verdadeiras crianças, o filme é totalmente ambientado no apartamento dos Longstreets, uma decisão que revela o apego de Polanski com a abordagem teatral, mas parece apropriado ao considerar o espaço como uma espécie de gaiola que expõe seus personagens à observação e análise crítica do espectador. O novo trabalho do diretor também acerta ao priorizar o humor e tornar as preocupações do quarteto com as aparências ainda mais ridículas. Contudo, Polanski e Reza poderiam ter feito concessões por se tratar de uma abordagem para o cinema e não para o teatro.

Jodie Foster e John C.Reilly (Penélope e Michael Longstreet), sempre tentando minimizar os danos.
O excesso  e a rapidez dos diálogos não é o que atrapalha - Quentin Tarantino e Woody Allen estão aí para provar -, mas a forma como eles são apresentados merecia uma polida caprichada dos envolvidos. Ainda assim, o elenco contorna qualquer problema visível. A dinâmica entre o quatro atores é incrível, sendo difícil destacar uma interpretação sem ser injusto com as demais. Talvez Jodie Foster seja beneficiada pelo tratamento dado a sua personagem, a personificação mais clara da "teoria" levantada no filme. Penélope, como prefere ser chamada por quem ainda não é íntima, é uma mulher completamente controlada que preza pelas aparências e por ser exemplo de conduta como esposa e mãe. O evento envolvendo a briga de seu filho com outro garoto e a visita do casal vivido por Kate Winslet e Christoph Waltz desmorona o castelo de areia da personagem. Ela acaba todas as ranhuras de seu caráter, ranhuras que, afinal de contas, todos nós temos. No entanto, para Penélope, constatar isso é simplesmente dar o braço a torcer: ela não é somente virtudes. Jodie Foster lida muito bem com esta trajetória de sua personagem, indo da autossuficiência para a insegurança gradualmente.

Entre os Cowan, a personagem de Kate Winslet, Nancy, também demonstra destempero. No fundo, suas angústias estão na omissão calculadamente irônica de seu marido, Alan Cowan. Alan é ausente da vida familiar não por descuido, por opção. Cowan considera a reunião promovida por Penélope uma grande perda de tempo, assim como toda sorte discussões domésticas, o que gera a irritação de sua mulher e dos demais. Diferente dos demais, Alan é o único que assume suas falhas de caráter, fazendo Christoph Waltz seguir um caminho inverso ao de seus colegas, o que é bem interessante por sinal. Para fechar o quadrado, John C. Reilly dá vida ao típico caso do marido que, sem se dar conta, acaba reproduzindo e obedecendo todas as orientações de sua esposa. Mas claro que toda a condescendência de Michael com Penélope vão pelo ralo quando o uísque chega como um quinto personagem na dinâmica de grupo.

A rivalidade pelo exemplo de conduta é a tônica na relação entre as personagens de Jodie Foster e Kate Winslet.
Verborrágico e constrangedoramente revelador, Deus da Carnificina é um trabalho menos expositivo na carreira de Roman Polanski. Trata-se de um de seus rotineiros respiros cinematográficos dentro de sua própria filmografia. Após um filme conturbado como O Escritor Fantasma, uma comédia sobre comportamento humano. Aqui, o diretor também opta por interferir o mínimo que pode na guerra travada no apartamento dos Longstreet, o que é bem correto, no final das contas. O cineasta mostra-se presente na interpretação de seus atores, que acaba se revelando como o fio condutor de toda a história. No entanto, em seu novo filme, o diretor traz como mote a grande preocupação de sua carreira: evitar maniqueísmos, ainda que seus próprios personagens insistam em trazê-los à tona com as usuais máscaras sociais. Vai dizer que, vez ou outra, você não tem vontade de chutar o balde e dizer que a vida é tão nauseante quanto um bolo de maçã com pêra? 


Carnage, 2011. Dir.: Roman Polanski. Roteiro: Roman Polanski e Yasmina Reza. Elenco: Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz, John C.Reilly, Elvis Polanski, Eliot Berger. 80 min. Imagem Filmes.

Drops: Madagascar 3 e Solteiros com Filhos


O quarteto de animais se junta a uma trupe de circo para voltar a Nova York em Madagascar 3.
Madagascar 3 - Os Procurados

Perdendo um pouco o tom episódico dos filmes anteriores, um fator que os tornava completamente descartáveis, Madagascar 3 - Os Procurados é o melhor filme da série. Não desnatura o material e ainda consegue ter algum propósito como narrativa cinematográfica.  Os realizadores voltam ao foco original, esquecido no segundo filme, e trazem os animais do zoológico de Manhattan dispostos ao que for preciso para voltar para Nova York, concluindo que não existe vida selvagem que valha mais do que o conforto de seus habitats artificiais. Os novos personagens não dizem muito a que vieram, especialmente a trupe de circo, exceto a caçadora voraz de animais que ganha a voz  de Frances McDormand na versão original, uma vilã que é um verdadeiro ganho para o filme. No final das contas, o show acaba sendo dos personagens originais, o que não é ruim, principalmente o lêmure Rei Julian, que sempre rende momentos imperdíveis, desta vez apaixonado por uma ursinha bem "carinhosa" e "delicada". O que é mais curioso nesse terceiro episódio da série cinematográfica é que ele conta com uma ajuda no roteiro de Noah Baumbach, o cineasta por trás de A Lula e a Baleia e Margot e o Casamento. Mais curioso ainda é que não um vestígio sequer dele neste filme. Mas pena mesmo é que o longa encerre dando margem para uma continuação que dá sinais de seguir o mesmo tom episódico do segundo filme. A conclusão não é satisfatória e dá sinais de que o quarto filme (haverá, não sejamos ingênuos, ainda mais se tratando da DreamWorks) acompanhará uma aventura qualquer dos protagonistas, em algum lugar qualquer, o que é uma pena.

Madagascar 3: Europe's Most Wanted, 2012. Dir.: Eric Darnell, Tom McGrath e Conrad Vernon. Roteiro: Eric Darnell e Noah Baumbach. Elenco: Ben Stiller, Chris Rock, David Schwimmer, Jada Pinkett Smith, Sacha Baron Cohen, Cedric The Entertainer, Frances McDormand, Jessica Chastain, Paz Vega, Bryan Cranston. 85 min. DreamWorks. 

Os amigos Adam Scott e Jennifer Westfeldt resolvem preencher lacunas em Solteiros com Filhos.
Separados com Filhos

Pela primeira vez assumindo a direção e o roteiro de um longa-metragem, a atriz Jennifer Westfeldt também protagoniza Solteiros com Filhos. E não confundam com o chatíssimo Amigas com Dinheiro com Jennifer Aniston, Frances McDormand e Catherine Keener, apesar dos títulos em inglês sugerirem que este aqui trata-se de um derivado. Essencialmente, Solteiros com Filhos é uma comédia com personagens comuns, pessoas como eu ou você que trabalham, saem com amigos e têm preocupações comuns como filhos. Toda esta tentativa de aproximar-se do espectador é evidenciada quando nos deparamos com o casal principal, a própria Westfeldt e Adam Scott, dois atores que estão bem distantes dos padrões das comédias românticas. E Solteiros com Filhos é basicamente uma comédia romântica, ainda que espertamente fuja dos padrões com uma abordagem mais convincente e um olhar mais cru, ainda que carinhoso e engraçado, sobre a vida. O longa traz a história de um casal de amigos de muitos anos que resolvem ter um filho ao constatar que são os únicos de seu ciclo de amizades que estão solteiros e sem crianças. O acordo é simples: eles têm a criança, mas como não sentem nada um pelo outro, a não ser uma bela amizade (ahan...), estão livres para procurar parceiros. Claro que no fim das contas eles acabam descobrindo que estão apaixonados um pelo outro, mas até chegar lá, Solteiros com Filhos é bem interessante, inteligente e mais humano que a maior parte das comédias românticas.

Friends with Kids, 2011. Dir.: Jennifer Westfeldt. Roteiro: Jennifer Westfeldt. Elenco: Jennifer Westfeldt, Adam Scott, Maya Rudolph, Kristen Wiig, John Hamm, Chris O'Dowd, Megan Fox, Edward Burns, Lee Bryant, Kelly Bishop, Cotter Smith. 107 min. Paris Filmes.

domingo, 3 de junho de 2012

Apenas uma Noite


Sam Worthington e Keira Knightley analisam a relação em Apenas uma Noite.
Antes deste Apenas uma Noite, a iraniana Massy Tadjedin havia roteirizado Camisa de Força, thriller psicológico no qual Adrien Brody viveu um veterano de guerra encaminhado para uma instituição destinada a pacientes com problemas mentais. O personagem subitamente desperta neste local e se descobre como uma cobaia de um experimento misterioso. Apenas uma Noite é sua estreia na dupla função - roteirista e diretora - e também sua estreia no comando de um longa-metragem. Tadjedin cumpre satisfatoriamente os dois cargos que ocupa aqui. Se como roteirista ela demonstra uma pertinência em diálogos e na construção psicológica de seus personagens, como diretora aprende que, no caso de Apenas uma Noite, quanto menos interferência com ângulos e cortes, melhor. O filme em questão pede uma abordagem intimista. Tadjedin realiza um trabalho interessantíssimo compreendendo os limites de sua narrativa e não prolongando a trama mais do que deveria. A diretora torna seu trabalho um daqueles velhos clichês: "um pequeno grande filme".

Apenas uma Noite traz como centro de sua narrativa um jovem casal que compartilha o mesmo teto há três anos. Joanna e Michael são apaixonados um pelo outro, mas colocam o matrimônio à prova ao cogitar a infidelidade no relacionamento. Michael começa a sentir atração física por uma colega de trabalho e Joanna reencontra um antigo namorado. Ao utilizar este quadrado amoroso, Massy Tadjedin aproxima seu filme de Closer - Perto Demais, adaptação da peça teatral de Patrick Mabber, dirigida por Mike Nichols em 2004. No entanto, a cineasta pretende ser bem mais objetiva em sua temática em Apenas uma Noite: a discussão aqui gira em torno da fidelidade, ou da falta de.  

Personagem de Keira Knightley se deixa levar por paixão antiga, vivida pelo francês Guillaume Canet.
Neste ponto, o longa aproxima-se mais de De Olhos bem Fechados, de Stanley Kubrick. Massy é bem clara com seu filme: ser fiel nada tem a ver com a existência de um casamento ou com amar alguém. Trata-se de uma opção. O amor entre Joanna e Michael não os tornam imunes aos estímulos alheios, ao interesse por outras pessoas, enfim, a sentirem-se tentados a trair. A fidelidade não é um valor ou um estandarte adquirido instantaneamente com o compromisso conjugal e é preciso muita maturidade para compreender como esta dinâmica amorosa funciona. Algo que talvez os personagens do longa não tenham, já que tanto Michael quanto Joanna são consumidos pela culpa e pelos sentimentos reprimidos. Aqui, o casamento é uma espécie de gaiola e sufoca os verdadeiros anseios dos personagens principais.

A condução de Tadjedin é impecável, lança um olhar no casal principal, Joanna e Michael, vividos por Keira Knightley e Sam Worthington. A edição é ainda mais interessante ao alternar cortes entre as falas de Joanna e o flerte de Michael e Laura no segundo ato do filme. O quarteto de atores está muito bem, em especial Keira Knightley e Guillaume Canet. Knightley, como de praxe, funciona melhor quando evita os excessos. Já o francês Guillaume Canet traz nuances determinantes para entender as motivações das escolhas passadas de seu personagem.

 
Sam Worthington é tentado pelas curvas de Eva Mendes na piscina do hotel.
Apenas uma Noite é um singelo estudo sobre relacionamentos amorosos. Inteligente e, na grande maioria das vezes, sincero em suas conclusões, o longa junta-se a uma gama contemporânea de interessantes e subestimados dramas sobre relacionamentos amorosos, como Closer - Perto Demais, Amantes e, claro, De Olhos bem Fechados. Massy Tadjedin cria um intrincado núcleo de personagens e leva-os ao limbo. A cineasta comprova:  não há nada pior do que a culpa em matéria de conflitos amorosos.



Last Night, 2011. Dir.: Massy Tadjedin. Roteiro: Massy Tadjedin. Elenco: Keira Knightley, Sam Worthignton, Guillaume Canet, Eva Mendes, Griffin Dunne, Anson Mount, Daniel Eric Gold, Stephanie Romanov, Scott Adsit, Justine Cotsonas. 93 min. Vinny Filmes.

Branca de Neve e o Caçador


Kristen Stewart em uma das cenas mais icônicas do conto dos irmãos Grimm.
Branca de Neve e o Caçador é a segunda adaptação do conto de fadas dos irmãos Grimm que chega aos cinemas em 2012. A primeira foi Espelho, Espelho Meu com Julia Roberts no papel da Rainha Má e a direção do indiano Tarsem Singh, um filme completamente mal resolvido que perde-se nos excessos costumeiros de seu próprio realizador (leia o comentário sobre este filme aqui). Branca de Neve e o Caçador foge da gênese do material original, trocando o conto de fadas pela fantasia épica. O resultado é bem interessante, mas, como seu distante similar, compartilha erros e acertos no tratamento de seus personagens e acaba transformando-se em um longa mediano que, se não causa indiferença no espectador por seus tropeços, também não impressiona por seus feitos.

Rupert Sanders assume a fita, sua estreia no cinema. O diretor é beneficiado pela competente direção de arte e pelos figurinos ostentosos da veterana Colleen Atwood, fatores que conferem ao longa um visual harmonioso com a proposta mais sombria da Branca de Neve em questão. Aqui, alguns elementos são alterados. A Rainha Má é batizada de Ravenna, o Caçador rivaliza o coração da protagonista com o "príncipe" e os sete anões são oito. O filme é beneficiado por um primeiro ato eficaz, dominado por Charlize Theron, cuja Ravenna é a grande personagem de todo filme, ao menos a que é melhor desenvolvida em seus propósitos e motivações.

Charlize Theron rouba a cena como a Rainha Ravenna, grande vilã do filme.
Charlize está estonteante no filme. Inegavelmente uma das atrizes mais belas em atividade, a sul-africana traz para a grande vilã do filme traços de psicopatia assustadores. Ravenna é obcecada pela beleza e juventude, mas sua personalidade é moldada por causas bem mais profundas do que o narcisismo. A Rainha de Theron tem marcas do passado que a definem e que a tornam perigosa obstinada em seus propósitos. O passado da personagem é determinante para que ela queira tanto destruir tudo e todos que a cercam. Um dos grandes acertos do roteiro escrito a seis mãos, entre elas as de Hossein Amini, de Drive, é sua vilã. Charlize Theron simplesmente suga todos os demais personagens que transitam pela trama, quando a atriz não está em cena o filme perde em ritmo.

Um dos grandes problemas de Branca de Neve e o Caçador é que o longa não desenvolve bem os demais personagens e tanta subversão em cima da história original ganha pouco sentido quando, por exemplo, o teor do relacionamento entre Branca de Neve e o Caçador não é bem amarrado e não há motivo aparente para uma aproximação amorosa entre aqueles personagens, tornando com que as mudanças no material original não tenham muita razão de ser. Além disso determinadas passagens icônicas da história original são inseridas aqui aleatoriamente, como se os roteiristas acreditassem que sem a cena do envenenamento pela maçã ou o despertar de Branca de Neve com um beijo apaixonado o filme se desnaturaria. Oras, a ideia não é compor uma nova história? Para que apegar-se a resquícios da trama originais se eles não estão à serviço do bom andamento da trama?
Chris Hemsworth vive o Caçador, que acaba se tornando o interesse amoroso da protagonista.
Branca de Neve e o Caçador tem seus problemas com ritmo. No entanto, o filme tem uma vilã assustadora, interpretada com firmeza por Charlize Theron. Kristen Stewart não compromete como a heroína e Chris Hemsworth funciona como herói épico. Branca de Neve e o Caçador só não é melhor que que é por equívocos na estrutura narrativa e por não conseguir trazer traços tão interessantes quanto os conferidos a Rainha Ravenna aos demais personagens. Ao menos o filme é bem melhor resolvido que boa parte das adaptações de contos de fadas que vimos nos últimos anos. Ainda assim, os clássicos infantis ainda não encontraram um correspondente em live action nas telonas que justifique tamanho interesse de Hollywood por este tipo de material.


Snow White and the Huntsman, 2012. Dir.: Rupert Sanders. Roteiro: Hossein Amini, Evan Daugherty e John Lee Hancock. Elenco: Kristen Stewart, Charlize Theron, Chris Hemsworth, Sam Claflin, Ian McShane, Toby Jones, Bob Hoskins, Ray Winstone, Eddie Marsan, Nick Frost, Johnny Harris, Brian Gleeson, Noah Huntley. 127 min. Universal.

sábado, 2 de junho de 2012

Cannes 2012 - Palma de Ouro

O diretor Michael Haneke ganha a Palma de Ouro com Amour, ao lado dos atores Emmanuelle Riva e Jean-Louis Trintignant.

Vencedores da 65ª edição do Festival de Cannes:

Melhor Filme
Amour - Dir.: Michael Haneke

Melhor Ator
Madds Mikkelsen - Jagten

Melhor Atriz
Cristina Flutur e Cosmina Stratan - Dupã Dealuri

Melhor Direção
Carlos Reygadas - Post Tenebras Lux