domingo, 24 de junho de 2012

Frivolidades de Yasmina

Marcelo Flores, Vladimir Brichta e Cláudio Gabriel levam a amizade masculina para além do papo de botequim.
Em cartaz no Rio de Janeiro, Arte é mais uma obra de Yasmina Reza, dramaturga francesa que escreveu Deus da Cranificina, produção que ganhou recentemente uma adaptação cinematográfica pelas mãos de Roman Polanski e que já estreou no circuito brasileiro. Trata-se de um momento propício para conhecer a obra de Reza.

Mais uma vez Yasmina usa uma situação trivial, no caso uma discórdia entre amigos sobre o teor artístico de uma tela, para discutir um tema que diz respeito às relações humanas, no caso, a amizade. Mais interessante é notar que Yasmina, uma autora feminina, consegue penetrar tão bem no universo masculino, um mero acaso, já que os temas de Arte são reconhecíveis em qualquer tipo de relacionamento entre amigos.

A peça em questão é uma tela que à primeira vista é branca. Sem traços, cores ou qualquer outra imagem disposta, simplesmente branca. Há o comprador do quadro, personagem de Cláudio Gabriel, um médico dermatologista que pagou R$ 200.000,00 pela obra e que diz por "A" mais "B" que a tela não é branca, trata-se de uma abordagem contemporânea. A situação é ridicularizada por um outro, interpretado por Marcelo Flores, que não enxerga conceito algum. Vivido por Vladimir Brichta, o terceiro é o conciliador que para evitar qualquer mágoa na relação que mantém com os dois prefere amenizar a situação e não expor totalmente sua opinião. Amizade é dizer verdades ou procurar expor pontos de vista da forma mais suave possível?

É interessante que a autora trate do universo masculino sem apelar para os chauvinismos tão comuns em comédias do gênero, que o digam o americano Todd Philips (Se Beber, Não Case!) e o brasileiro Bruno Mazzeo (Cilada.com e o recente E aí, comeu?), evitando reduzir este universo a futebol, seios e bebidas. A autora discute, sem rodeios, os sentimentos dos três amigos, que por questões de gênero têm uma tendência a preservá-los dentro de uma casca, mas que aos poucos revelam a essência sem afetações ou sugestões sexuais.

Com Arte, Yasmina não quer fazer um tratado sobre manifestações artísticas, estas são apenas um subterfúgio para discutir a relação dos três amigos - semelhante ao que fez em Carnificina com a briga entre os dois garotos no parque. Não interessa a opinião de um ou outro sobre arte contemporânea, os dois estão certos e errados ao mesmo tempo. O que a dramaturga busca é uma familiaridade com o repertório cotidiano da plateia, relações de amizade que não são harmônicas e lineares por tendência. São relações tortuosas e repletas de conflitos, disputas e vaidades, o que não significa que não são dotadas de sentimentos edificantes, como amor e cumplicidade.

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