sábado, 28 de julho de 2012

Ato final

Christopher Nolan encerra muito bem  seu ciclo na franquia Batman com Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge.


Um dos diálogos entre Bruce Wayne e Alfred em Batman Begins, primeiro filme da trilogia de Christopher Nolan, trazia o personagem de Christian Bale justificando a utilização de morcegos como símbolo de sua nova identidade, Wayne dizia que usaria esse artifício pois como símbolo seria incorruptível. A partir daquele momento nascia a lenda do Batman. Com essa ideia em mãos e com um esforço metalinguístico (a adaptação de um HQ de super-herói para o cinema falando sobre a construção de um mito heróico), Christopher Nolan reimaginou o universo do personagem da DC Comics, quebrado em sua credibilidade após Batman & Robin: uma visão crua e realista do personagem, que também trazia sua cidade, Gotham City, como um dos principais personagens de sua trama. Eis que chegamos a Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge, terceiro filme da saga, e Christopher Nolan encerra seu ciclo para o herói como poucos. O Cavaleiro das Trevas Ressurge retorna aos temas lançados em Batman Begins e oferece um desfecho digno para sua saga e, ainda que o longa seja ligeiramente inferior aos seus antecessores, especialmente Batman - O Cavaleiro das Trevas, Ressurge é coerente e comprova a habilidade de Christopher Nolan e seu irmão, Jonathan Nolan, em amarrar tramas.

Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge traz a Gotham City em período de pacificação. Após oito anos dos eventos de Batman - O Cavaleiro das Trevas, a memória de Harvey Dent permanece intacta e Batman é um fugitivo da polícia, condenado pelo assassinato do promotor. Além de ser indesejado pela população, Batman não é mais necessário, a nova Lei Dent foi mais rigorosa e tirou boa parte dos criminosos das ruas de Gotham. Assim, Bruce Wayne afasta-se da sociedade e entra em profunda depressão. Nesse meio tempo, um terrorista que se auto-intitula Bane começa a minar a cidade instaurando o caos e incitando uma revolução contra os poderosos de Gotham. Com a cidade em frangalhos e a população refém dos bandidos, soltos e liderados por Bane, Wayne se vê obrigado a sair do exílio e intervir para salvar a cidade.


Um dos aspectos mais admiráveis da carreira dos Nolan é a maneira com que eles conseguem costurar uma história, fazendo com que cada elemento sirva à narrativa de alguma maneira. Assim, os alicerces de Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge estão em Batman Begins. Dessa forma voltamos a questão da importância da construção de mitos, dissociando as identidades de Bruce Wayne e Batman, ainda que, nesse estágio, a máscara do Morcego consuma Wayne de tal maneira que este assuma, desde o início da trilogia, uma queda pela esquizofrenia. Bom, não vou poder adentrar muito bem nessa passagem do mito em Ressurge porque pode estragar a surpresa (um elemento sempre fundamental nos filmes do Nolan), assim, discutiremos isso melhor em um post dedicado a spoilers do longa.

Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge também fecha o ciclo de um personagem, o Bruce Wayne de Christian Bale, que, no terceiro ato, reforça a obsessão que o mesmo tem por assumir essa segunda identidade, a do Batman. Nolan sempre quis tornar a trilogia a história de um personagem, Bruce Wayne. Bale retrata Wayne em Ressurge como um homem fatigado e que mantém uma relação obsessiva com a identidade do Cavaleiro das Trevas, uma espécie de droga que precisa recorrer para esquecer os dissabores de sua vida, as perdas de seus pais e do seu grande amor, Rachel Dawes, assassinada pelo Coringa em O Cavaleiro das Trevas.

Assim, chegamos a outro legado de Begins e O Cavaleiro das Trevas, retomado de forma ainda mais comovente aqui: o relacionamento nevrálgico de toda a trilogia, Bruce e Alfred.  Alfred é quem tenta fazer com que Wayne volte para si. Como um pai zeloso, deseja que Bruce dê continuidade à sua vida e perceba que ela é feita de perdas. E aqui cabe reverenciar Michael Caine, que assumiu com tanta dignidade o Alfred durante toda a trilogia, sendo uma espécie de consciência para Wayne, mas também uma figura paterna e o mais próximo de uma relação de cumplicidade que o protagonista tenha chegado. Alfred diz alguns dos diálogos mais cruciais e cortantes desse terceiro capítulo.


Dividido em três atos, Ressurge conta com uma ótima introdução, que traz uma das melhores personagens do longa (e quem duvidaria?), Selina Kyle. Interpretada com inteligência por Anne Hathaway, a Mulher-Gato de Ressurge jamais assume a identidade felina, o nome "Mulher-Gato" sequer é pronunciado durante a projeção, e surge como uma punguista que deseja limpar seu passado criminoso prestando favores para outros criminosos. Em determinado momento da trama, a conexão dela e sua importância para o duelo entre Bane e Batman é revelada, mas o que interessa é que os Nolan trouxeram a Mulher-Gato que todos esperavam, nas palavras da própria: uma garota adaptável. Selina obedece aos seus próprios códigos de conduta, podendo agir contra ou a favor de Bruce Wayne a depender de seus interesses. Hathaway traça a personalidade de Kyle com muita segurança e consegue lidar com a volatilidade da personagem como ninguém. Além disso, é um ótimo contraponto ao Batman, de Christian Bale, que, pelo senso de responsabilidade com Gotham City, não consegue se libertar de determinadas amarras.


Já o vilão de Ressurge, Bane, serve muito bem ao terceiro ato. Nolan precisava de um personagem que fosse um verdadeiro desafio para o protagonista, desgastado fisicamente pelos eventos anteriores e por estar recluso há oito anos. O cineasta fez questão de tornar Bane um vilão ameaçador, mostrando-o sempre por ângulos que evidenciem essa sensação, de cima para baixo. Tom Hardy, intérprete do personagem, também é uma das grandes razões para o êxito do mesmo. Como o rosto do ator é coberto por uma máscara, que na trama ajuda o personagem a sobreviver, há uma ligeira limitação em suas vias de expressão. No entanto, Hardy é responsável por uma composição irretocável, sobretudo pelas entonações ameaçadores em sua voz, pela expressividade de seu olhar e  pela imponência de seu gestual e expressão corporal. Além disso, Bane é uma peça fundamental para compreender uma subtrama chave para Ressurge e que encontra eco em um episódio vivido por Bruce Wayne no segundo ato.



Além deles, o filme conta com as presenças usuais de Gary Oldman e Morgan Freeman, como Gordon e Lucius Fox, respectivamente. Ainda que, nos dois casos, os personagens exerçam suas funções de sempre, há sempre algo novo que Oldman e Freeman oferecem ao público. Além do fortalecimento de seus vínculos com Wayne, Gordon e Fox acabam sendo extensões do protagonista quando Batman entra em ação. No caso de Gordon, Nolan ainda trabalha com sua culpa na decisão de ajudar Wayne a esconder a verdade por trás da morte de Dent em O Cavaleiro das Trevas. Essa situação chega ao clímax em uma cena entre Gordon e Blake, personagem de Joseph Gordon-Levitt, uma excelente adição ao elenco, por sinal. Além dele, Marion Cotillard dá o ar da graça como Miranda Tate, e, apesar de ser fascinado pelo trabalho da atriz, não há como negar que sua composição - e não sua personagem ou a maneira com que aparece na trama -, foi um dos passos equivocados do terceiro capítulo . Uma pena. Mais detalhes no próximo post sobre o filme.



O filme também apresenta uma organicidade dos efeitos especiais -jamais percebemos estar diante de uma aplicação digital - e  prioriza locações e pessoas, o que em tempos de produção em escala industrial em CGI é sempre muito bom. Ressurge ainda traz um cuidado requintado em seus cenários e com a fotografia que, a exemplo dos filmes anteriores, criam identidade ao longa (os tons amarelados de Begins, o azul em O Cavaleiro das Trevas e aqui o branco).  Há também um esmero redobrado na caracterização dos personagens (mais uma vez adaptando o universo fantasioso dos quadrinhos para o universo real de Nolan, com Bane e com a Mulher-Gato). Mas não há nada tão irretocável quanto a junção entre a trilha sonora de Hans Zimmer e a montagem de Lee Smith. Nesse terceiro capítulo, Zimmer oferece ótimas composições inéditas, como os temas de Bane (que utiliza o "canto" dos prisioneiros da prisão subterrânea) e Selina Kyle (tão sinuoso quanto a própria personagem). A montagem de Smith executa muito bem uma das principais marcas de Christopher Nolan, a composição simultânea de várias tramas e ações. Esses dois elementos conferem um ritmo único aos longas do diretor e não são precisamente melhor executados aqui, mas são muito bem aplicados e fazem toda diferença. Trata-se de uma marca, uma assinatura, sempre muito bem-vinda de Christopher Nolan.

Agora, vamos discutir algumas decisões controversas de Christopher e Jonathan Nolan, revelando, obviamente, alguns spoilers. Portanto, se não viu o filme, aconselho que não leiam o post abaixo!

O Legado do Mito, Batman e Nolan


Reflexões, com spoilers, sobre Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge.



Agora vamos às revelações de Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge e seu corajoso e dúbio desfecho. Vamos à primeira revelação, aquela que envolve os personagens de Marion Cotillard e Tom Hardy, respectivamente Talia al Ghul e Bane, e a prisão subterrânea, uma trama que tem ligação direta com o passado do personagem de Liam Neeson, Ra's al Ghul, em Batman Begins. Muita gente achou forçada esta conexão encontrada por Nolan em Ressurge, mas além da personagem de Cotillard existir no universo DC (Talia é filha do vilão, segue o mesmo código de conduta do pai e já se envolveu amorosamente com Wayne), o retorno da Liga das Sombras no terceiro capítulo da trilogia é plausível com a proposta de construção do mito que descreverei mais adiante. Com a Liga das Sombras, Wayne aprendeu as bases para criar o Batman e formar o mito em torno dele. E assim como fez com o Homem-Morcego, a Liga das Sombras perpetua um mito por gerações com o intuito de destruir civilizações que na visão deles representam a perpetuação do que existe de pior na humanidade. Isso é explicado em Batman Begins e é importante para que não seja dito por aí que as motivações de Talia e Bane em destruir Gotham City são superficiais. A Liga das Sombras procura destruir as civilizações (o personagem de Ken Watanabe em Begins cita Constantinópola e Roma, por exemplo) através de várias frentes, econômica e moralmente, por exemplo. Esse propósito do grupo dialoga com a criação do mito e a passagem de seu legado, que explicarei mais adiante.


Contudo, é triste constatar que a interpretação de Cotillard é um dos pontos fracos do filme - não sua história e a forma com que a personagem entra e adere à trama, como escrevi no primeiro post. Trata-se de um dos desempenhos mais relaxados da carreira da atriz, e digo isso com pesar porque a francesa é sempre muito atenta aos seus personagens, retratando-os com uma humanidade ímpar. Acontece que, essencialmente, Talia é uma personagem dúbia e mesmo que tenha simulado a identidade de Miranda Tate tão bem, não traz vestígio algum das  verdadeiras intenções em seus atos como a executiva (ninguém finge tão bem). O desleixo talvez tenha ocorrido por ter sido uma escalação conturbada. Após trabalhar com a atriz em A Origem, Nolan queria Cotillard em Ressurge, só não contava com a gravidez da atriz. O diretor adaptou o cronograma de filmagens à vida pessoal de Cotillard, ao invés de prosseguir e chamar outra que de fato pudesse se comprometer com o papel da forma como deveria ter sido feito. Contudo, temos o lado bom das coisas, quando Bane tem revelada sua trágica origem, suas motivações ganham novos - e melhores- contornos e é comovente acompanhar no terceiro ato sua reação diante da revelação de Talia a Batman. Tudo, é claro, graças à excelente interpretação de Tom Hardy.


Chegamos à situação mais emblemática de Ressurge, seu desfecho. Toda a trajetória do Batman nas mãos de Christopher Nolan teve como norte a consciência do cineasta de que deveria contar uma história realista, pessimista e centrada em Bruce Wayne, algo que nunca ocorreu nos filmes anteriores do personagem. E por mais que tentem me convencer de que O Cavaleiro das Trevas é um filme sobre o Coringa, rebato.O Cavaleiro das Trevas é uma história da descoberta da natureza da identidade do próprio Bruce Wayne, o Coringa é um instrumento para deflagrar a verdadeira natureza do personagem, testá-lo, e isso é denunciado no desfecho do longa através do sacrifício de Batman em prol da manutenção da imagem Harvey Dent como o verdadeiro herói de Gotham.

 Portanto, ao decidir encerrar seu filme, Nolan quis dar uma redenção ao personagem apoiando-se na ideia da formação do mito que foi desenvolvida em Batman Begins. Batman é imortal e seu legado pode se perpetuar independente do destino de Bruce Wayne, abandonar o uniforme e viver uma vida normal ao lado de Selina Kyle na Itália ou sacrificar sua própria vida por Gotham. As duas opções de desfechos representam a libertação de Bruce da sua própria fonte de obsessão, Gotham City e o Batman.

Como Alfred alerta Bruce no primeiro ato do longa, caso Wayne continue a intervir em Gotham como Batman pode terminar com sua própria vida. E como  carregar uma vida dupla torna-se um verdadeiro fardo para o personagem,  a coexistência de Bruce Wayne e Batman já não é mais sustentada por ele. Ainda assim, o personagem tem plena consciência de que Gotham precisa do Batman, afinal, "ele é o 'herói' que Gotham precisa" (fala de Gordon em O Cavaleiro das Trevas), deixando seu legado para Blake, que no final do filme revela-se como a versão Christopher Nolan do Robin. O personagem continua como um órfão que cultiva uma admiração pelo Batman, mas não trabalha em um circo e não veste um uniforme como o Homem-Morcego. Na verdade, o desfecho do filme dá a entender que ele é o escolhido por Wayne para dar continuidade ao seu legado. Afinal, Batman é imortal, Bruce Wayne não.



Prefiro acreditar que Wayne tenha morrido no final de Ressurge. A cena em Florença representa as expectativas do próprio Alfred para Bruce: bem longe dos fantasmas de seu passado e formando uma família com sua esposa. Wayne já foi consumido demais por suas próprias obsessões para conseguir levar uma vida fora de Gotham City e distante do uniforme do Homem-Morcego , deixando seu legado para outro, uma hipótese que só enxergo com a morte do próprio Wayne. Também não acredito que Selina Kyle seja o tipo de mulher que se conformaria com uma vida mais tranquila ao lado de Bruce. Além disso, fica evidente que a perspectiva daquele momento é a de Alfred. Assim, a hipótese de que Christopher Nolan tenha optado por matar seu protagonista em Ressurge me parece mais coerente, sobretudo se pensarmos que, durante toda a trilogia, Nolan sempre reforçou o caráter humano de Wayne. Portanto, nada mais simbólico para um Bruce Wayne de carne e osso do que a constatação de sua morte. Mas nada impede que o desfecho otimista com Bruce e Selina juntos seja uma interpretação possível. Afinal, Alfred viu muito pouco Selina ao longo do filme para associá-la instantaneamente a uma possível companheira de Bruce em uma projeção pessoal e uma das cenas do final do filme traz Lucius Fox descobrindo que Wayne conseguiu fazer um piloto automático para o Morcego. Então, ainda que prefira a primeira versão, a segunda também me parece muito plausível.


 E, voltando a Batman Begins, ao idealizar Batman, Bruce Wayne quer criar algo maior que um justiceiro, uma lenda, algo maior que o próprio Bruce Wayne. Assim, como última hipótese, deixa seu legado para quem acredita que possa carregá-lo, o policial Blake, vivido por Joseph Gordon-Levitt, que ganha as orientações do próprio Wayne para encontrar a batcaverna. E, como no universo realista de Batman criado por Nolan nunca teve espaço para um menino prodígio como o conhecemos, ele viria na forma de um sucessor para carregar a identidade do mito Batman, atingindo assim o objetivo de Wayne com o herói, torná-lo imortal. Robin, portanto, seria um sucessor de Wayne como Batman e aqui faz todo sentido a sequência em que Gordon restaura o batsinal.

 

É preciso enaltecer a coragem de Christopher Nolan que, já inserido no contexto hollywoodiano, consegue conferir um final aberto a múltiplas interpretações e que dialogue com tantos temas complexos. A maioria dos cineastas prefere fugir de maiores complicações e oferecem respostas mastigadas ao espectador nesse tipo de produto. Nolan subverte expectativas e mais uma vez faz a plateia refletir no gênero, explorando um potencial inesgotável que, com pouquíssima frequência, surge nesse nível de coragem e maturidade.

Haverá uma continuação para Ressurge? Não sei, difícil pensar em um diretor dando continuidade ao trabalho de Nolan, mesmo com Blake, personagem de Joseph Gordon-Levitt, assumindo o traje de Batman ou outro símbolo qualquer. Agora, se me perguntarem se a Warner tem pretensões de fazer um novo filme do  personagem com um outro diretor e uma nova proposta, minha resposta vai ser positiva. Batman é o personagem mais rentável no universo das adaptações de HQs para o cinema e, a julgar pelos números conquistados por esse aqui, não é difícil que daqui há algum tempo surja um outro diretor que reimagine esse universo. Mas Christopher Nolan de volta? Acho muito improvável. A trilogia foi uma oportunidade de Nolan conseguir status para realizar projetos mais autorais, como foi A Origem, que lhe deu livre acesso na Warner para fazer o que quiser e que existiu graças ao louros colhidos com O Cavaleiro das Trevas e Batman Begins. Vejo, pelos próximos anos, Nolan se dedicando a projetos mais autorais.



De qualquer forma, fica registrado aqui meu depoimento. Batman é meu ídolo desde pequeno, foi meu mito de infância. O conheci no cinema com Tim Burton, acompanhei a série animada de televisão e colecionava alguns de seus gibis durante boa parte de minha vida. Como tantos, vi um dos meus personagens  preferidos cair em desgraça as arbitrariedades dos dois fatídicos filmes de Joel Schumacher, Batman Eternamente e,principalmente, Batman & Robin. Após a sessão de Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge, quando me dei conta do ciclo criado com tanto cuidado e esmero por Christopher Nolan, desde Batman Begins em 2005, me senti recompensado e agradecido pela revitalização do personagem feita por este brilhante cineasta de nossa geração . Nolan contornou situações limítrofes na trilogia inteira, como a crise de credibilidade do Batman (em Batman Begins), a expectativa de aumentar as ambições e as cobranças em torno da superação de um trabalho anterior (Batman - O Cavaleiro das Trevas) e a morte de um amigo e membro fundamental de sua equipe (Heath Ledger, o que certamente fez alterar boa parte dos planos dele para Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge). Mas tal qual Bruce Wayne fez com Batman, Nolan construiu os alicerces sólidos de um mito que, perdurará por anos e anos, ainda que seu legado seja assumido por outro, como Wayne ao deixar seu legado para Blake. Missão cumprida para ele e nós o respeitamos como realizador e por ter agarrado a grande oportunidade de sua carreira ao assumir a trilogia O Cavaleiro das Trevas



The Dark Knight Rises, 2012. Dir.: Christopher Nolan. Roteiro: Christopher Nolan e Jonathan Nolan. Elenco: Christian Bale, Michael Caine, Anne Hathaway, Tom Hardy, Marion Cotillard, Gary Oldman, Joseph Gordon-Levitt, Morgan Freeman, Ben Mendelsohn, Matthew Modine. 164 min. Warner.

domingo, 22 de julho de 2012

Profeta do Apocalipse

Michael Shannon finalmente brilha como protagonista em O Abrigo, uma interessante análise sobre o limite entre a razão e a loucura.


O Abrigo não foi exibido nos cinemas brasileiros. Pela falta de salas, pela abertura da maioria delas para o 3D ou simplesmente por falta de visão e opção da própria distribuidora, este, que foi merecidamente um dos mais aclamados longas do ano passado, colecionando três prêmios no Festival de Cannes de 2011, revela um cineasta promissor chamado Jeff Nichols. E mais, proporciona a Michael Shannon um primeiro e merecido protagonista de peso nas telonas, após participações elogiadas em filmes como Possuídos, de William Friedklin, e Foi Apenas um Sonho, de Sam Mendes, com Leonardo DiCaprio e Kate Winslet. Por este último, Shannon foi indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante em 2008, perdendo a estatueta para Heath Ledger e seu icônico Coringa de O Cavaleiro das Trevas. Por O Abrigo, Shannon quase chegou lá, recebendo indicações a vários prêmios de associações de críticos, mas perdendo o fôlego não por não ser o tipo de trabalho que a Academia costuma reconhecer (trata-se de um filme tão "estranho", no melhor sentido da palavra, quanto Cisne Negro, por exemplo), mas por não ser ainda tempo para Jeff Nichols merecer uma menção, na cabeça da AMPAS. Como o ano privilegiou desempenhos corretos, mas muito aquém da capacidade de seus indicados (leia-se Brad Pitt e Damien Bichir) e deixou de lado Leonardo DiCaprio (J. Edgar), Ryan Gosling (Drive) e Michael Fassbender (Shame), pode-se dizer que foi um ano de escolhas infelizes.

Voltando a O Abrigo, trata-se da história de um pai de família que começa a ter alucinações sobre um grande desastre natural que ameaça a vida na Terra. Curtis é um homem simples que começa a ter sonhos com tempestades e revoadas de pássaros, encarando-os como um presságio. Para proteger mulher e filha, ele começa a reforçar as estruturas de um abrigo para tornados que tem no quintal de sua casa e prepara todo um arsenal de sobrevivência. Como somente Curtis é tomado por essas visões, ele mesmo passa a duvidar de sua sanidade: trata-se da mensagem de um perigo real ou ele estaria perdendo suas faculdades mentais? A situação fica mais crítica quando ele revela para sua esposa, a compreensiva e companheira Samantha, a causa de seu comportamento estranho e suas decisões começam a ameaçar a harmonia familiar, seu trabalho e suas amizades. 

 

O Abrigo tem claras semelhanças com o trabalho de um pessimista nato, o dinamarquês Lars Von Trier. Flertando com a psicanálise e trazendo para sua narrativa a melancolia e a perspectiva distorcida do próprio protagonista, O Abrigo se assemelha com Anticristo na medida em que traz um personagem que progressivamente vai perdendo o controle da situação, cedendo espaço para a esquizofrenia, mas sobretudo com o último filme de Trier, Melancolia, por sua premissa apocalíptica. No entanto, aqui os objetivos são outros. Enquanto lá havia uma reflexão sobre as formas como encaramos a morte e a importância de que, em determinadas circunstâncias, abracemos os sentimentos tristes, aqui, o norte-americano Jeff Nichols faz um excepcional estudo sobre a via crucis percorrida por quem começa a abrir espaço em sua vida para a loucura (e pode parar de ler o comentário do filme por aqui, caso não queira spoilers).

Com um final emblemático e tão aberto a discussões e interpretações variadas, O Abrigo traz para a sua narrativa o próprio estado de incerteza de seu protagonista. Jamais temos a exata noção se Curtis está tornando-se esquizofrênico de fato, oscilando nossa crença nas alucinações do personagem a todo momento, inclusive em seu desfecho, algo que me lembrou e muito a interessante decisão tomada por Martin Scorsese em Ilha do Medo (um protagonista parecido com este e que também faz direção e roteiro adotar a perspectiva angustiante de incertezas do personagem) e Christopher Nolan em A Origem. Uma vez ultrapassada a linha da razão e do real e conhecido o que existe depois dela, o caminho de retorno pode ser difícil, até impossível. Passando por todos os estágios de seu estado clínico, a penumbra nos olhos e na mente de Curtis só faz aumentar. O mesmo acontece conosco e esse diálogo constante com o espectador torna o filme complexo emocionalmente e rico em sua linguagem. 


Além do êxito de Nichols na direção, O Abrigo é beneficiado por uma interpretação cheia de detalhes de Michael Shannon, um ator que, assim espero, não seja relegado ao acaso por filmes de estúdio. Shannon é minucioso nas escolhas que faz em cena, tornando gradual o processo pelo qual Curtis é submetido no filme. A perda da razão do personagem não toma o espectador de solavanco. Shannon faz isso preservando uma característica fundamental para torná-lo amável aos olhos da plateia: trata-se de um pai dedicado e um marido carinhoso. Michael Shannon é um talento raro, um daqueles atores orgânicos à própria narrativa, assume o personagem com tanta naturalidade e propriedade que, a depender do papel, seu esforço pode passar despercebido por olhares desatentos. Com uma personagem menos dúbia, Jessica Chastain também tem seus grandes e emocionantes momentos no filme. Chastain dá vida a uma daquelas mães e esposas que em dado momento tornam-se o eixo da família.

Jeff Nichols junta-se a um interessante grupo de cineastas que foram revelação no ano que passou. O Abrigo é um filme tão intenso quanto a própria experiência de seu protagonista, tão bem retratado por Michael Shannon. O longa faz um mergulho profundo na mente humana e encontra os meandros que cercam a esquizofrenia, um estado difícil de ser vivenciado por quem a tem (Curtis) e por quem está do lado de quem a tem (sua esposa, Samantha), fazendo com que o espectador experimente as duas sensações através da tensão, angústia e dor nas interpretações de Michael Shannon e Jessica Chastain.



Take Shelter, 2011. Dir.: Jeff Nichols. Roteiro: Jeff Nichols. Elenco: Michael Shannon, Jessica Chastain, Tova Stewart, Kathy Baker, Shea Whigham, Katy Mixon, Natasha Randall, Ron Kennard, Scott Knisley, Robert Longstreet, Heather Caldwell. 120 min. Sony.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Queime, queime

Sob o julgamento inquisidor dos fãs de Jack Kerouac, Walter Salles preserva o espírito do autor em Na Estrada.


Escrever sobre Na Estrada talvez seja uma das tarefas mais complicadas que resolvi encarar aqui. Justifica-se. O novo filme do brasileiro Walter Salles é baseado em uma obra literária (e aqui existe uma certa mistificação por parte de muitos) que, ainda por cima, é cultuada por várias pessoas e serviu de inspiração para uma geração inteira de artistas - de músicos como Bob Dylan, Jim Morrison, Joni Mitchell, Lou Reed e Beck, a cineastas como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Wim Wenders, David Cronenberg e Gus Van Sant. Portanto, não sei se farei jus à paixão de muitos, o que posso dizer é que, em se tratando daquela que será a eterna comparação entre livro e filme On the Road, os dois são experiências fascinantes justamente por conseguirem existir como obra sem utilizar o outro como muleta. Mais uma observação junta-se à anterior: Walter Salles foi o mais fiel que pôde a obra mais famosa de Kerouac, levando-se em consideração que levá-la para as telas é tarefa das mais ingratas.

Kerouac escreveu On the Road como uma espécie de diário de viagem relatando as experiências que viveu nas estradas dos Estados Unidos ao lado de Neal Cassady, um jovem irresponsável que aspirava ser escritor, mas que tinha talento mesmo para o sexo e para a bebedeira. A verdade é que Jack acabou fascinado pela figura de Cassady, especialmente pela maneira com que conduzia sua própria vida. Para evitar maiores problemas, Kerouac resolveu alterar os nomes dos personagens reais. Ele se nomeou Sal Paradise e batizou Neal de Dean Moriarty. A obra de Kerouac rodou o mundo e tornou-se uma verdadeira Bíblia daquela que foi chamada de "Geração Beat", jovens que, como Dean, exaltavam a vida nômade e a liberdade em todos os sentidos.  



O filme fez parte da seleção do último Festival de Cannes e colecionou reações mornas. Compreensível, Na Estrada chega com um certo atraso nos cinemas e sofre com a inevitável sensação de déjà vu. Como mencionei, a obra de Kerouac inspirou vários cineastas e, apesar de nunca ter recebido uma adaptação própria, foi referência para uma nova vertente. Na verdade, On the Road praticamente definiu as diretrizes do que se convencionou chamar road movie. Sem Destino, clássico com Peter Fonda e Dennis Hopper, por exemplo, bebe da fonte da "Bíblia da Contracultura". Assim, se existem problemas em Na Estrada eles transcendem o próprio filme. O problema aqui é de fruição, faltou timing para o longa. Chegou na hora errada.


Com seus inúmeros problemas de bastidores, os direitos do livro foram adquiridos por Francis Ford Coppola na década de 1970 e quase ganhou uma versão com Johnny Depp e Colin Farrell, sob o comando de Gus Van Sant (anos atrás, havia sido cobiçado por Marlon Brando que, após desentendimentos com Kerouac abandonou o barco, e Joel Schumacher), na década passada. Até que Walter Salles, a convite do próprio Coppola, após elogios rasgados a Diários de Motocicleta, assume as rédeas do projeto. 

Mais uma vez é importante lembrar que aceitar a empreitada de levar um livro praticamente sacro para as telonas não é nada fácil e o diretor e seu roteirista, Jose Rivera, conseguem fazer um trabalho muito interessante de síntese, organização das ideias e dos fatos narrados por Kerouac, além da preservação do espírito do autor. Na verdade, o espírito preservado em Na Estrada é o espírito de Dean Moriarty. Assim como no livro, Salles e Rivera trouxeram para a tela - e aqui não me refiro apenas à interpretação de Garrett Hedlund, mas a todos os elementos estéticos e técnicos do longa -, a personalidade de Moriarty, ou seja, a personalidade criada, idealizada e desconstruída pelo narrador. Compreendendo que toda a perspectiva do filme é de Sal Paradise, Salles e Rivera criam um ciclo formidável que, a princípio, mostra Moriarty como uma espécie de mito para mostrar em seu desfecho o personagem  como um homem em conflito com  as responsabilidades do matrimônio e da maternidade (em suma, da vida adulta),  com dificuldades em manter vínculos afetivos e extremamente autodestrutivo. Enfim, Dean deixa de ser mito e passa a ser humano. O que não deixa de ser menos fascinante. Não por acaso, após essa constatação, surge a inspiração para Kerouac escrever as primeiras linhas de On the Road.


Em Na Estrada, Walter Salles ainda conta com a interpretação magnética e surpreendente de Garrett Hedlund. Digo surpreendente porque, até então, Hedlund só tinha no currículo interpretações rasteiras em Tron - O Legado e Onde o Amor Está. Aqui, Hedlund entra de cabeça em um processo de composição delicado e complexo, construindo Dean Moriarty para depois descontruí-lo aos olhos de Sal. O trabalho de Hedlund é tão interessante que pode-se dizer que Na Estrada não seria tão completo sem sua presença. Sam Riley, intérprete de Sal/Kerouac, tem uma composição mais discreta, algo perfeitamente compreensível já que seu personagem representa os olhos e ouvidos do espectador. Kristen Stewart interpreta a ninfeta, e ninfomaníaca, Marylou. Uma participação que certamente surpreenderá quem tem aversão à  moça pela "saga" Crepúsculo. O trabalho de Stewart é admirável pela entrega, mais que pelo êxito profissional. Na Estrada traz indícios de que a atriz, hoje um dos maiores (se não o maior) cachê de Hollywood, não seguirá os caminhos mais óbvios e confortáveis. Por si só, isso é muito bom.

 Ao longo do filme, alguns atores dão o ar da graça. Tom Sturridge faz Carlo Marx, que na verdade é o poeta Allen Ginsberg, e consegue trazer contornos interessantes ao personagem, evitando as afetações, uma armadilha fácil para alguns atores. Kirsten Dunst está excelente como Camille, esposa de Moriarty. Viggo Mortensen também está no filme como Bull Lee, na realidade William Burroughs, e é igualmente interessante. Mas Amy Adams, que interpreta a esposa do escritor, surpreende ao assumir um papel inusitado em sua carreira. Afinal quem está acostumado com suas frágeis e doces heroínas, provavelmente tomará um susto ao vê-la como uma mulher com sérios distúrbios mentais à procura de lagartos no jardim de sua própria casa.


Com Na Estrada, Walter Salles faz um filme que respeita o material original sem que com isso se acovarde e não chame a história para si. O diretor não reverencia cegamente a "Geração Beat", nem  a desrespeita com julgamentos morais. Mais interessante ainda, o realizador consegue trazer a constatação de que por trás de tanta transgressão e liberdade existia muita solidão e uma busca insaciável e desmedida por uma identidade em Dean, Sal e Marylou. Não há como negar que há propósitos consistentes em toda a projeção. O cineasta consegue o improvável, sobreviver aos olhares descrentes de quem ainda pensa que o cinema, diferente da literatura, tem muito pouco a oferecer. Tolinhos...



On the Road, 2012. Dir.: Walter Salles. Roteiro: Jose Rivera. Elenco: Garrett Hedlund, Sam Riley, Kristen Stewart, Tom Sturridge, Kirsten Dunst, Viggo Mortensen, Amy Adams, Elizabeth Moss, Alice Braga, Steve Buscemi, Terrence Howard, Danny Morgan. 137 min. Playarte.

domingo, 15 de julho de 2012

A princesa prometida

Pixar cumpre a promessa e traz um filme com personagens femininas marcantes.


Valente


Já virou clichê dizer que a Pixar praticamente nunca erra e que, mesmo em apostas equivocadas como Carros 2, o estúdio, que mantém a parceria com a Disney desde 1995, consegue ser impecável no tratamento técnico e artístico de seus longas de animação. Valente é o primeiro filme original do estúdio que resolveu dedicar os últimos dois anos a continuações de "pratos da casa". Trata-se também do primeiro filme protagonizado por uma personagem feminina, uma princesa. Mas a questão feminina em Valente vai muito além da simples imposição de uma personagem do gênero, ela está presente no ponto principal do filme: a maternidade. Ao trazer para o foco de sua narrativa a turbulenta e afetuosa relação entre Merida e sua mãe, a Rainha Elinor, Valente consegue dimensionar as implicações que estão por trás das incompreendidas decisões maternas. Assim, o filme cumpre com louvor sua missão sem sexismos, mas com humanidade, uma característica que sempre foi a marca do estúdio com clássicos do cinema (contrariando aqueles que ainda insistem em subestimar as animações) como Wall-E, Toy Story e suas duas continuações, Up, Ratatouille, Procurando Nemo...

Valente traz a história da Princesa Merida. A jovem desafia os costumes de seu reino ao quebrar o protocolo que a obriga a conceder sua mão ao vencedor de um torneio disputado por diferentes clãs da região. Incompreendida pela mãe, a Rainha Elinor, Merida resolve ceder à tentadora oferta de uma feiticeira e pede que a mesma lance um feitiço sobre a rainha para que a mesma aceite sua decisão de não se casar. No entanto, o pedido de Merida acaba trazendo consequências inesperadas e a garota acaba se arrependendo. A única alternativa que a jovem princesa tem para quebrar a maldição é consertando a sua complicada relação com sua mãe.

Um dos aspectos mais interessantes do roteiro de Valente é seu compromisso na contrução de personagens femininas fortes e subversivas, sem deixar a sensibilidade nata das mulheres de lado. Além de Merida, muito interessante como a protagonista do longa, a Rainha Elinor também se impõe. Elinor assume lugar de destaque no reino, sendo, na maioria das vezes, uma voz mais ativa que a de seu marido, o bonachão e coração nobre Rei Fergus. Em uma briga entre os clãs dos pretendentes de Merida, por exemplo, Elinor soluciona o conflito meramente físico entre os homens do reino com um simbólico "puxão de orelha", reestabelecendo a paz e o diálogo entre eles. Esta passagem ressalta a imaturidade dos homens frente a coerência e serenidade das mulheres, o que torna Elinor uma das personagens mais interessantes e bem construídas do longa, ainda que ela represente o contraponto a Merida.

A princesa Merida também toma a frente em diversas situações. Há uma cena em que Merida desafia seus pretendentes no "arco e flecha" e consegue superar o vencedor, que, pelas regras, deveria se casar com ela. Além dessa passagem, há um outro momento semelhante ao que foi protagonizado por sua mãe no primeiro ato. Em meio ao pandemônio deixado pelos homens do reino, que quase decretam guerra, Merida consegue conter os ânimos ao trazê-los de volta a razão.

E, nesse momento, Valente revela sua grandeza como obra cinematográfica. Além de conseguir dimensionar a força feminina no filme, que tem inegavelmente este mote, consegue estabelecer Merida e Elinor como personagens complementares, apesar de inicialmente "rivais" em suas formas de pensar o mundo. Assim, é lindo acompanhar o momento em que as personagens chegam a essa mesma conclusão e mãe e filha passam a compreender e dimensionar as motivações uma da outra. A narrativa "brinca" e surpreende o espectador desde o início ao mostrar que o foco não será a óbvia expectativa paterna sobre Merida, pelo contrário, a relação da princesa com seu pai é ótima. Como acontece na maioria dos casos, na família de Merida, o papel de "vilã" acaba recaindo nos ombros de Elinor. Portanto, nada mais coerente com os propósitos do filme que o conflito principal fosse entre Merida e sua mãe. Uma construção igualmente coerente e sensível do roteiro de Mark Andrews, Brenda Chapman, Steve Purcell e Irene Mecchi.

Ainda sobre essa quebra de expectativas, no que se refere a abordagem do relacionamento entre mãe e filha em Valente, me recordei imediatamente de O Rei Leão e a inesquecível cena em que Mufasa morre e Simba constata que o grande referencial de sua vida não estará mais presente. Há um momento em Valente que se equipara a essa sequência, quando Merida constata que pode nunca mais ter sua mãe ao seu lado diante da possibilidade do feitiço não ser quebrado. E não deixa de ser comovente perceber que os realizadores de Valente tiveram esse carinho no desenvolvimento do relacionamento de Merida e Elinor a ponto dele poder ser comparado com uma das animações mais emblemáticas da história do cinema.

O filme também é um primor no design de produção, desde a concepção dos personagens (os cabelos revoltos e vermelhos de Merida salientando sua rebeldia) até os cenários medievais, Valente é, tecnicamente, mais um trabalho requintado da Pixar. Mas talvez um dos maiores méritos do filme seja contrariar nossas expectativas e isso é muito bom. Ainda que flerte com a old school da Disney ao inserir números musicais (são apenas dois) ao longo do filme e tenha uma visível quebra de ritmo após a fatídica discussão entre Merida e Elinor - tudo é justificado posteriormente - a Pixar mostrou que para fazer um filme feminino não basta trazer uma princesa que faça "gracinhas" para o espectador e recuse ceder ao casamento arranjado. Para trazer uma história feminina para todos os públicos é preciso personagens femininas fortes e que tenham relações ternas e complexas e isso transborda em Valente.

P.S.: O curta animado que precede o filme (uma tradição Pixar nos cinemas), La Luna , é igualmente belo e também expõe o conflito entre gerações de uma mesma família. No caso, um garoto, seu pai e seu avô que têm a missão de conceber as fases da lua.



Brave, 2012. Dir.: Mark Andrews e Brenda Chapman. Roteiro: Mark Andrews, Brenda Chapman, Steve Purcell e Irene Mecchi. Vozes de: Kelly Macdonald, Emma Thompson, Billy Conolly, Julie Walters, Robbie Coltrane, Craig Ferguson, Sally Kinghorn, Steven Cree. 100 min. Buena Vista.

sábado, 14 de julho de 2012

Drops: Até a Eternidade e Coriolano


Até a Eternidade

Aqui, o título de Les Petit Mouchoirs acabou sendo Até a Eternidade. Esse mais novo tropeço na escolha de títulos brasileiros para filmes internacionais acaba se tornando uma piada involuntária, já que o "calcanhar de Aquiles" desse filme de Guillaume Canet, um grande sucesso entre os espectadores franceses, é justamente sua duração, quase três horas de filme para contar uma história simples que privilegia o cotidiano de um grupo de grandes amigos reunidos em férias no litoral da França após um episódio trágico envolvendo um deles. O filme é beneficiado pelo elenco entrosado e pelas performances interessantes de François Cluzet, o impaciente Max Cantara, que na verdade esconde suas inquietações a respeito de sua sexualidade, e Marion Cotillard, linda (como sempre) e absolutamente cativante como Marie. No fundo, esta despretensiosa carta de amor à amizade de Canet tem mais boas intenções que êxitos artísticos, contudo há que se elogiar o enlace sensível da história e o comprometimento de seus atores com ela e com o coletivo, algo muito raro no cinema de qualquer nacionalidade.


Les petit mouchoirs, 2010. Dir.: Guillaume Canet. Roteiro: Guillaume Canet. Elenco: Marion Cotillard, François Cluzet, Jean Dujardin, Benoit Magimel, Gilles Lellouche, Laurent Lafitte, Valérie Bonneton, Pascale Arbillot, Joel Dupuch, Anne Marivin. 154 min. Califórnia Filmes.


Coriolano

Coriolano é uma adaptação da tragédia homônima de autoria de William Shakespeare. Estreia na direção do ator inglês Ralph Fiennes, trata-se da história de um general romano que passa a flertar com a política após vencer uma batalha contra rebeldes. Vítima de uma trama conspiratória no senado, Coriolano acaba expondo mais do que deveria sua agressividade e desagrada o povo romano, sendo expulso de sua própria terra. Algum tempo depois ele retorna com o objetivo de destruir Roma e todos os cidadãos que tanto o detestam. Ralph Fiennes fez um trabalho semelhante ao do australiano Baz Luhrmann em Romeu + Julieta, trouxe uma ambientação contemporânea mas preservou o texto clássico do autor. Assim, Coriolano segue inúmeras vezes um pouco prolixo, já que assume um caráter teatral, o que é um pouco prejudicial para a própria obra, afinal estamos falando de uma outra linguagem, o cinema. Contudo, como clássicos são sempre clássicos e os responsáveis pelo filme foram pontuais em suas adaptações, transpondo para a nossa realidade os elementos da Roma antiga, o filme é, na maioria das vezes, uma experiência gratificante. Especialmente quando estão em cena Ralph Fiennes, excelente como o Coriolano, e Vanessa Redgrave, irretocável como sua mãe.


Coriolanus, 2011. Dir.: Ralph Fiennes. Roteiro: John Logan. Elenco: Ralph Fiennes, Gerard Butler, Vanessa Redgrave, Jessica Chastain, Brian Cox, John Kani, Lubna Azabal, Ashraf Barhom, Slavko Stimac, Dragan Micanovic, James Nesbitt. 123 min. Califórnia Filmes.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Drops: A Era do Gelo 4, Conspiração Americana e 50%


A Era do Gelo 4

E chegamos ao quarto filme da série de animação A Era do Gelo. Alguém pode perguntar: e eles têm fôlego para isso? Não. A Blue Sky poderia sair da zona de conforto e procurar algum outro material, mas prefere apostar, se é que isso é aposta, no certo do que no duvidoso. A Era do Gelo 4 é tão episódico quanto os dois filmes anteriores, sendo um pouquinho melhor que a terceira produção - como se isso fosse difícil. Como de costume, o grande atrativo da produção é o esquilo Sketch e sua eterna disputa pela avelã. No mais é meia dúzia de personagens novos que pouco interessam e a ruptura com definitiva com alguns temas tão bem estabelecidos no primeiro filme.


Ice Age: Continental Drift, 2012. Dir.: Steve Martino e Mike Thurmeier. Roteiro: Michael Berg e Jason Fuchs. Vozes de: Ray Romano, John Leguizamo, Denis Leary, Queen Latifah, Peter Dinklage, Jennifer Lopez, Nick Frost, Simon Pegg, Seann William Scott, Patrick Stewart. 94 min. Fox.


Conspiração Americana

Este novo longa-metragem de Robert Redford estreou praticamente despercebido nos EUA e aqui no Brasil. O filme traz à tona fatos que sucederam o assassinato do presidente norte-americano Abraham Lincoln, em 1865. Conspiração Americana assume claramente o formato de um drama de tribunal, lançando uma perspectiva sobre o destino de Mary Surratt, uma das acusadas de conspirar o assassinato de Lincoln. O fator complicador aqui é que os Estados Unidos tinham acabado de sair da Guerra Civil, que teve como vencedores os estados do Norte, uma vitória influenciada por Lincoln. Após o confronto, os sulistas, obviamente, não ficaram satisfeitos com o resultado e um grupo tramou o assassinato do presidente, tendo êxito no plano. Surratt era uma dona de casa de hábitos simples e muito religiosa, cujo filho foi uma das principais peças da trama. Pela relação de parentesco e por ter cedido sua pensão para as reuniões do grupo, Mary acabou sendo um dos principais alvos da revolta que se instalou no país após o atentado. A mulher aguentou o julgamento dentro e fora dos tribunais para proteger seu primogênito, John Surratt. Redford conduz com uma certa burocracia um filme que já não é beneficiado em ritmo pelo roteiro. No entanto, os paralelos traçados com a política norte-americana nos conflitos com o Afeganistão e Iraque são interessantes, revelando que de lá para cá, pouca coisa mudou. Muitas ações militares e caças a terroristas são promovidas para saciar o opinião pública e muitas vezes a lei é colocada de lado para dar lugar a outros interesses. No elenco, há que se elogiar a impecável interpretação de Robin Wright como Mary Surratt.


The Conspirator, 2010. Dir.: Robert Redford. Roteiro: James Solomon. Elenco: James McAvoy, Robin Wright, Tom Wilkinson, Evan Rachel Wood, Kevin Kline, Danny Huston, Justin Long, James Badge Dale, Colm Meaney, Alexis Bledel, Johnny Simmons, Toby Kebbell. 122 min. Imagem Filmes.


50%

Tentar conferir leveza a um tema tão sinuoso quanto o câncer não é mérito exclusivo de 50%, outros filmes e até seriados (me recordo imediatamente de The Big C com a excelente Laura Linney) já fizeram isso. O longa executa bem essa função, especialmente por não pender para nenhum dos prováveis extremos: não é excessivamente melodramática nem apela para o escracho completo, trata a situação com precisão. É espirituoso ou sensível quando deve ser. Enfim, humano. Jonathan Levine precisa de uma calibrada como realizador e o roteiro de Will Reiser peca por não resistir ao "inevitável" enlace amoroso do protagonista. No entanto, é notável o êxito de Joseph Gordon-Levitt como ator. Ele finalmente deixa de ser uma promessa e faz valer o status de celebridade cool multimídia. Até então, Levitt colhia as glórias de suas escolhas profissionais, faltava méritos pessoais. Ele está ótimo ao compor um protagonista que se desarma para estabelecer relações mais afetuosas ao longo do filme, uma espécie de efeito colateral da doença. Também merecem elogios Anna Kendrick, que interpreta uma jovem terapeuta entre a ética profissional e o envolvimento afetivo com o novo paciente, e a maravilhosa Anjelica Huston, que há anos não aparecia tão bem, interpretando a mãe do protagonista.


50/50, 2011. Dir.: Jonathan Levine. Roteiro: Will Reiser. Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Seth Rogen, Anna Kendrick, Bryce Dallas Howard, Anjelica Huston, Philip Baker Hall, Serge Houde, Matt Frewer, Donna Yamamoto, Sugar Lynn Beard. 100 min. Swen Filmes.

sábado, 7 de julho de 2012

Espetacular?

Novo filme do personagem da Marvel é um reboot marcado por decisões equivocadas e fica à sombra do longa de 2002.


O Espetacular Homem-Aranha

Reboots são releituras de obras ou universos já visitados. Normalmente, a necessidade de fazê-los surge em  virtude da insatisfação do público e da crítica com seus antecessores. Não foi o caso de O Espetacular Homem-Aranha, de Marc Webb. Antes dele, Sam Raimi iniciou a trajetória de Peter Parker, alter ego do herói, em 2002, com um filme muito satisfatório, que culminou com o melhor longa da série, Homem-Aranha 2, em 2004. Ou seja, fora o grande erro da franquia chamado Homem-Aranha 3, que teve direito ao pior vilão das HQs - Venom - e a versão emo de Peter Parker, os filmes de Sam Raimi são muito bem resolvidos e marcaram de forma determinante a história do cinema, sendo os precursores dessa febre de adaptações de quadrinhos para o cinema que se vê hoje (mais até que X-Men, de 2000). Assim, para que voltar do ponto inicial se ele já foi tão bem contado há dez anos atrás (vejam bem, estou falando de dez anos!)?

Que Batman e 007 tenham ganhado reboots, com Batman Begins e Cassino Royale, tratam-se de decisões perfeitamente compreensíveis, afinal os anos de Pierce Brosnan na pele de James Bond arruinaram a reputação do personagem e o Homem-Morcego nunca teve sua origem contada com seriedade nas telonas por Tim Burton e muito menos por Joel Schumacher. Mas Homem-Aranha era uma franquia que já tinha recebido um tratamento digno de sua fama. Claro que o personagem poderia retornar aos cinemas depois do fiasco de Homem-Aranha 3. Ninguém condenaria seus produtores por isso, trata-se de um movimento perfeitamente compreensível na indústria cinematográfica: franquias como esta rendem fortunas e merecem ser continuadas ainda que com a mudança de sua equipe principal. No entanto, o que é incompreensível aqui é que O Espetacular Homem-Aranha surja sobre o invólucro de um reboot que ocasionalmente se apresenta como um remake. Hum... Confuso demais...

 Se seguisse o exemplo de outro personagem da Marvel, o Hulk, talvez o filme de Marc Webb tivesse um resultado melhor. Após a recepção negativa da crítica e dos espectadores a Hulk, em 2003, a Marvel encomendou outro filme com o personagem, mas não necessariamente recontou suas origens. Surge, então, O Incrível Hulk, de Louis Leterrier. Deixando bem claro que, nesse caso, ambas produções tem mais pontos positivos que negativos.


Feita essa enorme ressalva sobre O Espetacular Homem-Aranha, vamos ao filme. Na história de Marc Webb, Peter Parker é deixado por seus pais ainda criança na casa de seus tios, Ben e May. Quando cresce vira um adolescente desajustado (aqui, mais ou menos) e apaixonado por sua colega de colégio, Gwen Stacy. Mas Parker passa a ser dominado pela vontade de saber os motivos que levaram seu pai e sua mãe a distanciarem-se dele. O adolescente acaba conhecendo Dr. Curt Connors, melhor amigo de seu pai, que parece conhecer a fundo as motivações do abandono sofrido por Peter. Durante uma visita ao laboratório do Dr. Connors, Peter é picado por uma aranha geneticamente modificada e passa a adquirir super-poderes. Quando um evento trágico acontece com sua família, Peter começa a caçar criminosos por Nova York e tem a ideia de assumir uma nova identidade, o Homem-Aranha.

Uma das óbvias características do Homem-Aranha, o que inclusive o diferencia dos demais super-heróis e consegue criar uma empatia imediata com o público, é o fato de Peter Parker ser um adolescente e, como tal, sentir-se constantemente inadequado em sua própria "pele", ainda mais por ser um garoto dedicado aos estudos e muito tímido. Infelizmente, Andrew Garfield, que já contornou sua péssima "estreia" em Leões e Cordeiros com atuações interessantes em A Rede Social e Não me Abandone Jamais, não consegue retratá-lo desse modo. O único sinal perceptível da insegurança de Parker é fornecido em uma cena do longa na qual ele evidencia preferir usar lentes no colégio ao invés dos óculos. Outro fator que contribui para atenuar essa característica que seria vital em Peter Parker vem da decisão de trazer Gwen Stacy como interesse amoroso do protagonista. Stacy é uma mocinha que não oferece um décimo do que Mary Jane oferecia para a trilogia de Sam Raimi. Mary Jane era praticamente inalcançável e ampliava a noção de que Peter Parker era uma excluído, criando um mote interessante para uma trama amorosa no filme. Gwen é uma personagem apática, por mais que a talentosa Emma Stone, tente torná-la (e ela tenta) interessante.



Infelizmente, esse tipo de comparação merece ser estabelecida por motivos óbvios e que a própria obra não teve receio de enfrentar: o pouco espaço de tempo entre esta produção e os filmes de Sam Raimi. E não interessa se a teia do Aranha lá era orgânica e se o cineasta teria alterado a cronologia original ao apresentar Mary Jane como a primeira namorada de Peter Parker, todas eram decisões coerentes com universo criado por Raimi. Adaptações não precisam seguir à risca suas obras inspiradoras para serem bem-sucedidas, para isso, basta que a atmosfera e a essência do material original sejam preservados. Isso é tão válido que em O Espetacular Homem-Aranha a teia mecânica criada pelo próprio Parker e a inserção de Gwen Stacy, preservando a cronologia dos quadrinhos, em nada servem à história. Ficam à deriva junto com meia dúzia de decisões equivocadas de seu diretor, que ainda tenta trazer uma trilha sonora incidental mais pop, com artistas conhecidos como Coldplay, para evidenciar o universo cheio de dúvidas e alegrias da adolescência. Na verdade, uma grande muleta de Webb, que em momento algum consegue passar essa sensação no filme com os outros elementos que ele tem à disposição.

Como vilão, O Espetacular Homem-Aranha conta com o Lagarto, resultado de um experimento vivido pelo Dr. Connors. Inicialmente, o vilão apresenta motivações interessantes, desenvolvendo uma espécie de soro que o ajudaria a regenerar seu braço amputado. No entanto, quando se transforma na criatura, Connors passa a ouvir vozes e apresenta como motivação para a violência de seus atos o ódio pela raça humana e a necessidade de sua aniquilação, reduzindo drasticamente o brilho que ainda restava no personagem. O vilão é interpretado pelo inglês Rhys Ifans, que acrescenta muito pouco a ele. As grandes presenças do elenco do filme, contudo, são de Martin Sheen e Sally Field, os tios de Parker, ainda que eles não consigam representar nem a metade do que Cliff Robertson e Rosemarie Harris representaram para a geração que assistiu os filmes de Sam Raimi, Nesse filme, por exemplo, a morte de Tio Ben não consegue ser tão eficiente dramaticamente quanto a do filme de 2002.



A utilização do 3D na produção é pífia. As primeiras cenas dos voos do Aranha, trazendo a perspectiva do personagem, são inseridas aleatoriamente e não causam vertigem ou a emoção que os voos dos filmes do Sam Raimi traziam - e olhem que a primeira trilogia foi exibida e filmada em 2D. Marc Webb não pensa em quem não vê o filme em 3D nos cinemas ou na sobrevida do longa no formato Home Vídeo, o que, por si só, demonstra a falta de preocupação dos envolvidos em trazer uma narrativa do Homem-Aranha que realmente valha a pena e não apenas um motivo para inserir o personagem na "febre" dos filmes em 3D. O longa também apresenta uma fotografia escura que, por mais que Peter Parker viva situações dramáticas e limítrofes - ou, pelo menos, deveria vivenciar -, não condizem com o universo adolescente do Aranha. Ou seja, o filme é marcado pela desarmonia.

Assim, O Espetacular Homem-Aranha é uma obra marcada por equívocos e que diz ser o que não é. Pretende ser sombrio e evocar os conflitos da aolescência com elementos como trilha e fotografia, esquecendo-se de transferir uma porcentagem dessas funções para o roteiro e para a interpretação de seus atores. O resultado é um filme que não encontra razões criativas para ter sido feito, pois não acrescenta ou enriquece em nada o universo do Homem-Aranha. O único aprimoramento aparente é o uniforme do super-herói (só para se ter uma ideia da futilidade do projeto). No resto, o filme de 2002 continua imbatível e certamente é a imagem do herói que permanecerá como ícone para toda uma geração de cinéfilos. Não há nada pior para um filme do que a sensação de que ele vive à sombra de um outro.



The Amazing Spider-Man, 2012. Dir.: Marc Webb. Roteiro: James Vanderbilt, Steve Kloves e Alvin Sargent. Elenco: Andrew Garfield, Emma Stone, Martin Sheen, Sally Field, Rhys Ifans, Denis Leary, Irrfan Khan, Campbell Scott, Embeth Davidtz, Chris Zylka, Max Charles. 136 min. Sony.