domingo, 15 de julho de 2012

A princesa prometida

Pixar cumpre a promessa e traz um filme com personagens femininas marcantes.


Valente


Já virou clichê dizer que a Pixar praticamente nunca erra e que, mesmo em apostas equivocadas como Carros 2, o estúdio, que mantém a parceria com a Disney desde 1995, consegue ser impecável no tratamento técnico e artístico de seus longas de animação. Valente é o primeiro filme original do estúdio que resolveu dedicar os últimos dois anos a continuações de "pratos da casa". Trata-se também do primeiro filme protagonizado por uma personagem feminina, uma princesa. Mas a questão feminina em Valente vai muito além da simples imposição de uma personagem do gênero, ela está presente no ponto principal do filme: a maternidade. Ao trazer para o foco de sua narrativa a turbulenta e afetuosa relação entre Merida e sua mãe, a Rainha Elinor, Valente consegue dimensionar as implicações que estão por trás das incompreendidas decisões maternas. Assim, o filme cumpre com louvor sua missão sem sexismos, mas com humanidade, uma característica que sempre foi a marca do estúdio com clássicos do cinema (contrariando aqueles que ainda insistem em subestimar as animações) como Wall-E, Toy Story e suas duas continuações, Up, Ratatouille, Procurando Nemo...

Valente traz a história da Princesa Merida. A jovem desafia os costumes de seu reino ao quebrar o protocolo que a obriga a conceder sua mão ao vencedor de um torneio disputado por diferentes clãs da região. Incompreendida pela mãe, a Rainha Elinor, Merida resolve ceder à tentadora oferta de uma feiticeira e pede que a mesma lance um feitiço sobre a rainha para que a mesma aceite sua decisão de não se casar. No entanto, o pedido de Merida acaba trazendo consequências inesperadas e a garota acaba se arrependendo. A única alternativa que a jovem princesa tem para quebrar a maldição é consertando a sua complicada relação com sua mãe.

Um dos aspectos mais interessantes do roteiro de Valente é seu compromisso na contrução de personagens femininas fortes e subversivas, sem deixar a sensibilidade nata das mulheres de lado. Além de Merida, muito interessante como a protagonista do longa, a Rainha Elinor também se impõe. Elinor assume lugar de destaque no reino, sendo, na maioria das vezes, uma voz mais ativa que a de seu marido, o bonachão e coração nobre Rei Fergus. Em uma briga entre os clãs dos pretendentes de Merida, por exemplo, Elinor soluciona o conflito meramente físico entre os homens do reino com um simbólico "puxão de orelha", reestabelecendo a paz e o diálogo entre eles. Esta passagem ressalta a imaturidade dos homens frente a coerência e serenidade das mulheres, o que torna Elinor uma das personagens mais interessantes e bem construídas do longa, ainda que ela represente o contraponto a Merida.

A princesa Merida também toma a frente em diversas situações. Há uma cena em que Merida desafia seus pretendentes no "arco e flecha" e consegue superar o vencedor, que, pelas regras, deveria se casar com ela. Além dessa passagem, há um outro momento semelhante ao que foi protagonizado por sua mãe no primeiro ato. Em meio ao pandemônio deixado pelos homens do reino, que quase decretam guerra, Merida consegue conter os ânimos ao trazê-los de volta a razão.

E, nesse momento, Valente revela sua grandeza como obra cinematográfica. Além de conseguir dimensionar a força feminina no filme, que tem inegavelmente este mote, consegue estabelecer Merida e Elinor como personagens complementares, apesar de inicialmente "rivais" em suas formas de pensar o mundo. Assim, é lindo acompanhar o momento em que as personagens chegam a essa mesma conclusão e mãe e filha passam a compreender e dimensionar as motivações uma da outra. A narrativa "brinca" e surpreende o espectador desde o início ao mostrar que o foco não será a óbvia expectativa paterna sobre Merida, pelo contrário, a relação da princesa com seu pai é ótima. Como acontece na maioria dos casos, na família de Merida, o papel de "vilã" acaba recaindo nos ombros de Elinor. Portanto, nada mais coerente com os propósitos do filme que o conflito principal fosse entre Merida e sua mãe. Uma construção igualmente coerente e sensível do roteiro de Mark Andrews, Brenda Chapman, Steve Purcell e Irene Mecchi.

Ainda sobre essa quebra de expectativas, no que se refere a abordagem do relacionamento entre mãe e filha em Valente, me recordei imediatamente de O Rei Leão e a inesquecível cena em que Mufasa morre e Simba constata que o grande referencial de sua vida não estará mais presente. Há um momento em Valente que se equipara a essa sequência, quando Merida constata que pode nunca mais ter sua mãe ao seu lado diante da possibilidade do feitiço não ser quebrado. E não deixa de ser comovente perceber que os realizadores de Valente tiveram esse carinho no desenvolvimento do relacionamento de Merida e Elinor a ponto dele poder ser comparado com uma das animações mais emblemáticas da história do cinema.

O filme também é um primor no design de produção, desde a concepção dos personagens (os cabelos revoltos e vermelhos de Merida salientando sua rebeldia) até os cenários medievais, Valente é, tecnicamente, mais um trabalho requintado da Pixar. Mas talvez um dos maiores méritos do filme seja contrariar nossas expectativas e isso é muito bom. Ainda que flerte com a old school da Disney ao inserir números musicais (são apenas dois) ao longo do filme e tenha uma visível quebra de ritmo após a fatídica discussão entre Merida e Elinor - tudo é justificado posteriormente - a Pixar mostrou que para fazer um filme feminino não basta trazer uma princesa que faça "gracinhas" para o espectador e recuse ceder ao casamento arranjado. Para trazer uma história feminina para todos os públicos é preciso personagens femininas fortes e que tenham relações ternas e complexas e isso transborda em Valente.

P.S.: O curta animado que precede o filme (uma tradição Pixar nos cinemas), La Luna , é igualmente belo e também expõe o conflito entre gerações de uma mesma família. No caso, um garoto, seu pai e seu avô que têm a missão de conceber as fases da lua.



Brave, 2012. Dir.: Mark Andrews e Brenda Chapman. Roteiro: Mark Andrews, Brenda Chapman, Steve Purcell e Irene Mecchi. Vozes de: Kelly Macdonald, Emma Thompson, Billy Conolly, Julie Walters, Robbie Coltrane, Craig Ferguson, Sally Kinghorn, Steven Cree. 100 min. Buena Vista.

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