domingo, 22 de julho de 2012

Profeta do Apocalipse

Michael Shannon finalmente brilha como protagonista em O Abrigo, uma interessante análise sobre o limite entre a razão e a loucura.


O Abrigo não foi exibido nos cinemas brasileiros. Pela falta de salas, pela abertura da maioria delas para o 3D ou simplesmente por falta de visão e opção da própria distribuidora, este, que foi merecidamente um dos mais aclamados longas do ano passado, colecionando três prêmios no Festival de Cannes de 2011, revela um cineasta promissor chamado Jeff Nichols. E mais, proporciona a Michael Shannon um primeiro e merecido protagonista de peso nas telonas, após participações elogiadas em filmes como Possuídos, de William Friedklin, e Foi Apenas um Sonho, de Sam Mendes, com Leonardo DiCaprio e Kate Winslet. Por este último, Shannon foi indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante em 2008, perdendo a estatueta para Heath Ledger e seu icônico Coringa de O Cavaleiro das Trevas. Por O Abrigo, Shannon quase chegou lá, recebendo indicações a vários prêmios de associações de críticos, mas perdendo o fôlego não por não ser o tipo de trabalho que a Academia costuma reconhecer (trata-se de um filme tão "estranho", no melhor sentido da palavra, quanto Cisne Negro, por exemplo), mas por não ser ainda tempo para Jeff Nichols merecer uma menção, na cabeça da AMPAS. Como o ano privilegiou desempenhos corretos, mas muito aquém da capacidade de seus indicados (leia-se Brad Pitt e Damien Bichir) e deixou de lado Leonardo DiCaprio (J. Edgar), Ryan Gosling (Drive) e Michael Fassbender (Shame), pode-se dizer que foi um ano de escolhas infelizes.

Voltando a O Abrigo, trata-se da história de um pai de família que começa a ter alucinações sobre um grande desastre natural que ameaça a vida na Terra. Curtis é um homem simples que começa a ter sonhos com tempestades e revoadas de pássaros, encarando-os como um presságio. Para proteger mulher e filha, ele começa a reforçar as estruturas de um abrigo para tornados que tem no quintal de sua casa e prepara todo um arsenal de sobrevivência. Como somente Curtis é tomado por essas visões, ele mesmo passa a duvidar de sua sanidade: trata-se da mensagem de um perigo real ou ele estaria perdendo suas faculdades mentais? A situação fica mais crítica quando ele revela para sua esposa, a compreensiva e companheira Samantha, a causa de seu comportamento estranho e suas decisões começam a ameaçar a harmonia familiar, seu trabalho e suas amizades. 

 

O Abrigo tem claras semelhanças com o trabalho de um pessimista nato, o dinamarquês Lars Von Trier. Flertando com a psicanálise e trazendo para sua narrativa a melancolia e a perspectiva distorcida do próprio protagonista, O Abrigo se assemelha com Anticristo na medida em que traz um personagem que progressivamente vai perdendo o controle da situação, cedendo espaço para a esquizofrenia, mas sobretudo com o último filme de Trier, Melancolia, por sua premissa apocalíptica. No entanto, aqui os objetivos são outros. Enquanto lá havia uma reflexão sobre as formas como encaramos a morte e a importância de que, em determinadas circunstâncias, abracemos os sentimentos tristes, aqui, o norte-americano Jeff Nichols faz um excepcional estudo sobre a via crucis percorrida por quem começa a abrir espaço em sua vida para a loucura (e pode parar de ler o comentário do filme por aqui, caso não queira spoilers).

Com um final emblemático e tão aberto a discussões e interpretações variadas, O Abrigo traz para a sua narrativa o próprio estado de incerteza de seu protagonista. Jamais temos a exata noção se Curtis está tornando-se esquizofrênico de fato, oscilando nossa crença nas alucinações do personagem a todo momento, inclusive em seu desfecho, algo que me lembrou e muito a interessante decisão tomada por Martin Scorsese em Ilha do Medo (um protagonista parecido com este e que também faz direção e roteiro adotar a perspectiva angustiante de incertezas do personagem) e Christopher Nolan em A Origem. Uma vez ultrapassada a linha da razão e do real e conhecido o que existe depois dela, o caminho de retorno pode ser difícil, até impossível. Passando por todos os estágios de seu estado clínico, a penumbra nos olhos e na mente de Curtis só faz aumentar. O mesmo acontece conosco e esse diálogo constante com o espectador torna o filme complexo emocionalmente e rico em sua linguagem. 


Além do êxito de Nichols na direção, O Abrigo é beneficiado por uma interpretação cheia de detalhes de Michael Shannon, um ator que, assim espero, não seja relegado ao acaso por filmes de estúdio. Shannon é minucioso nas escolhas que faz em cena, tornando gradual o processo pelo qual Curtis é submetido no filme. A perda da razão do personagem não toma o espectador de solavanco. Shannon faz isso preservando uma característica fundamental para torná-lo amável aos olhos da plateia: trata-se de um pai dedicado e um marido carinhoso. Michael Shannon é um talento raro, um daqueles atores orgânicos à própria narrativa, assume o personagem com tanta naturalidade e propriedade que, a depender do papel, seu esforço pode passar despercebido por olhares desatentos. Com uma personagem menos dúbia, Jessica Chastain também tem seus grandes e emocionantes momentos no filme. Chastain dá vida a uma daquelas mães e esposas que em dado momento tornam-se o eixo da família.

Jeff Nichols junta-se a um interessante grupo de cineastas que foram revelação no ano que passou. O Abrigo é um filme tão intenso quanto a própria experiência de seu protagonista, tão bem retratado por Michael Shannon. O longa faz um mergulho profundo na mente humana e encontra os meandros que cercam a esquizofrenia, um estado difícil de ser vivenciado por quem a tem (Curtis) e por quem está do lado de quem a tem (sua esposa, Samantha), fazendo com que o espectador experimente as duas sensações através da tensão, angústia e dor nas interpretações de Michael Shannon e Jessica Chastain.



Take Shelter, 2011. Dir.: Jeff Nichols. Roteiro: Jeff Nichols. Elenco: Michael Shannon, Jessica Chastain, Tova Stewart, Kathy Baker, Shea Whigham, Katy Mixon, Natasha Randall, Ron Kennard, Scott Knisley, Robert Longstreet, Heather Caldwell. 120 min. Sony.

Nenhum comentário: