sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Drops: Os Mercenários 2


No ano em que foi lançado o aguardado Os Vingadores, da Marvel, chego a conclusão de que Sylvester Stallone foi pioneiro no lançamento de um subgênero com Os Mercenários, em 2010, o filme de ação fetiche. E por mais que soe estranha a denominação, especialmente aqui por falarmos de um potencial clássico na filmografia testosterônica hollywoodiana, o conceito é bastante simples e se aplica aos dois produtos: reunir alguns dos principais personagens de um nicho específico de fãs em um mesmo filme e colocá-los em confronto, mesmo que o motivo da reunião não tenha sequer um terço da gravidade que é anunciada no longa. Mas posso dizer que a fórmula funciona muito mais com Stallone e seu exército de brutamontes do que com os personagens da Marvel. Os Vingadores, apesar de divertido, tinha falhas em sua própria diegese, um vilão fraco e um Hulk que tem sua mudança de comportamento mal explicada no terceiro ato. Bom, aqui, o que importa dizer é que a tropa de Stallone está de volta e que esse Os Mercenários 2 é tão divertido, descompromissado e nostálgico quanto o filme de 2010. Todas as marcas dos filmes de ação oitentistas estão lá e o êxtase chega com o confronto mano a mano entre Stallone e Jean-Claude Van Damme, vivendo um vilão denominado Vilain (mais óbvio que isso, impossível). Ainda tem o trio Stallone-Schwarzenegger-Willis finalmente no front e a aparição de Chuck Norris. Um presente de ídolos para fãs, óbvio.


The Expendables 2, 2012. Dir.: Simon West. Roteiro: Sylvester Stallone e Richard Wenk. Elenco: Sylvester Stallone, Bruce Willis, Arnold Schwarzenegger, Jean-Claude Van Damme, Liam Hemsworth, Nan Yu, Jason Statham, Dolph Lundgreen, Jet Li, Terry Crews, Randy Couture, Chuck Norris. 103 min. Imagem Filmes.

Drops: Procura-se um Amigo para o Fim do Mundo


Procura-se um Amigo para o Fim do Mundo é um daqueles filmes com fortes tendências para se tornar cult, principalmente por se sustentar na paixão de um de seus personagens centrais - vivido por Keira Knightley - pelos vinis. Além disso, trata-se de uma história de amor, tem Steven Carrel - mais uma vez soberbo no que sabe fazer de melhor, dar vida a sujeitos extremamente humanos e que tornam-se engraçados pelas suas neuroses e por seus afetos. Não deixa de ser um reconhecimento merecido já que o longa de Lorene Scafaria é um mimo mesmo. O filme segue um vendedor de seguros abandonado pela esposa que decide reencontrar um amor do passado três semanas antes do mundo acabar. Para isso, ele conta com a ajuda de sua vizinha, uma garota que sofre de um distúrbio do sono e que não consegue manter um relacionamento sério por um longo período. Claro que tudo isso é uma alegoria para que Scafaria nos leve à conclusão de que na vida o que temos de mais importante são as relações que criamos e cultivamos, um artifício que Melancolia usa com muito mais propriedade. Mas digamos que Procura-se um Amigo para o Fim do Mundo é uma versão mais pop da proposta, com direito a Beach Boys e The Walker Brothers na trilha, um luxo e um instrumento quase que irresistível de sedução que sua diretora e roteirista usa para desviar a atenção das falhas de seu filme.


Seeking a friend for the end of the world, 2012. Dir.: Lorene Scafaria. Roteiro: Lorene Scafaria. Elenco: Steve Carell, Keira Knightley, Michael Sheen, Adam Brody, Connie Britton, Rob Corddry, Melanie Lynskey, Nancy Carell, Mark Moses. 101 min. Paris Filmes.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Ópera Rock

Rock of Ages emperra por não ter uma trilha que sirva para o desenvolvimento de sua história


Para uma década considerada por muitos como uma década sem referencial artístico, os anos 1980 polarizaram o universo musical. O amadurecimento do Rock e a ampliação daquilo que convencionou-se chamar Pop, com o advento da imagem associada ao trabalho musical, proporcionado principalmente pela forte vinculação da música com a imagem, foram algumas das principais características daquele período. Com esse intuito, a Broadway trouxe Rock of Ages, musical que fala sobre essas tensões no cenário musical dos anos 1980, mas que no final acaba sendo uma grande ode ao Rock. Bom, ao menos essa é a intenção do projeto, que chega internacionalmente com essa adaptação cinematográfica.


Dirigido por Adam Shankman, responsável pelo divertido Hairspray, Rock of Ages traz a história de dois jovens do interior apaixonados pela música que partem para Los Angeles para conquistar uma carreira no ramo. Os dois acabam se apaixonando e são inseridos entre um intenso conflito protagonizado por um grupo de beatas local, organizado pela esposa do prefeito da cidade, e Stacy Jaxx, uma lenda do rock que está a assumir uma carreira solo.


Com tantas tramas e personagens, a maioria deles absolutamente descartáveis na trama, fica difícil para Shankman organizar as frentes de seu filme. O diretor opta por utilizar algumas marcas de seu trabalho anterior, Hairspray, lançando elementos que foram exitosos ali, mas que aqui soam fora de contexto e só servem para bagunçar ainda mais os propósitos da trama. Há muito non sense e sugestões de cunho sexual, algumas nem chegam a ser sugestões de tão explícitas, por exemplo. Essas situações em Hairspray eram funcionais e faziam sentido com a proposta do longa. Aqui, só servem para transformar o filme em uma verdadeira bagunça sem objetivo ou proposta mais sólida.


Para completar o descompasso, o musical emperra por não conseguir atender a uma exigência básica do gênero: harmonizar suas canções com a narrativa. São poucos os números musicais que servem para expor as aspirações e a evolução de seus personagens. Afinal, é de conhecimento do mais leigo dos mortais que canções são inseridas na narrativa de um musical com esse propósito. A produção ainda tenta encaixar a cantora Mary J. Blige como um dos personagens do filme, a gerente de um clube de strippers, que jamais diz a que veio, mas que sempre está presente em um número musical. Ao que tudo indica, só para constar.

 

No elenco, há um grande tropeço na escalação. Julianne Hough é constrangedora em seus esforços, se é que eles existiram. A voz de Hough é irritante e a atriz não economiza caras e bocas em cena. Essas observações assumem uma repercussão ainda mais grave por se tratar de uma das protagonistas do filme e por ela interpretar mais da metade do repertório de Rock of Ages. Seu par romântico, Diego Boneta é bem mais convincente, o que ajuda a sustentar o mote romântico do filme em diversos momentos.
Os destaques vão mesmo para os veteranos que, infelizmente, têm menos espaço que a dupla de novatos. Catherine Zeta-Jones retorna com vigor para um gênero que lhe rendeu um Oscar – o melhor número musical é dela- , interpretando a beata que trava uma guerra contra a casa de shows de Rock administrada por Alec Baldwin e Russell Brand, que têm alguns dos melhores momentos do filme, até protagonizarem o número mais constrangedor do longa. Paul Giamatti também está excelente como o empresário musical que controla a carreira de Stacy Jaxx.

A presença de Tom Cruise no filme é uma das mais inusitadas da carreira do ator. Cruise retrata o roqueiro Stacy Jaxx como uma figura aparentemente ausente, já que aparece sempre chapado e proferindo palavras sem nexo, que cresce consideravelmente nos palcos. O ator personificou bem o espírito que o filme tenta imprimir e usa referências vastas para seu desempenho nos palcos – momentos estes que só engrandecem o desempenho de Cruise -, como Axl Rose, do Guns’n’Roses, ou Mick Jagger, dos Rolling Stones. Contudo, apesar do êxito de Cruise, o roteiro escorrega ao tentar convencer o público de que há faíscas em seu romance com a frígida repórter vivida por Malin Akerman, disparado a integrante do elenco mais prejudicada, já que sua personagem jamais diz a que veio, nem proporciona de fato uma transformação em Stacy Jaxx.


Com Rock of Ages, a sensação que fica é que Adam Shankman se perdeu em seu próprio estilo e marcas como diretor. O descompromisso e a tensão entre a inocência e a malícia dos anos 1950 de Hairspray se repete em um contexto inapropriado em Rock of Ages, despersonalizando o filme. É uma pena que ele escorregue exatamente no diálogo entre trilha e narrativa, corroborando ainda mais para a avaliação preconceituosa de quem não gosta do gênero sem ao menos conhecer seus principais expoentes. Rock of Ages certamente não é o melhor exemplar da escola cinematográfica. 




Rock of Ages, 2012. Dir.: Adam Shankman. Roteiro: Justin Theroux, Chris D'Arienzo e Allan Loeb. Elenco: Tom Cruise, Julianne Hough, Diego Boneta, Alec Baldwin, Paul Giamatti, Catherine Zeta-Jones, Russell Brand, Malin Akerman, Bryan Cranston, Mary J. Blige, Will Forte. 123 min. Warner.

Drops: O Ditador


Sacha Baron Cohen retorna para suas comédias "sem noção" com O Ditador. Assim como fez em Borat e Bruno, o comediante não poupa ninguém e faz uso de escatologias, piadas preconceituosas e críticas ao universo do qual faz parte há alguns anos, Hollywood (aqui, a maioria dos atores e atrizes são michês e vão de Megan Fox a Edward Norton, ambos em participações interessantes como eles mesmos). O Ditador é a história Aladeen, tirano do fictício país Wadiya, que se perde de sua comitiva durante uma visita aos EUA para discursar na ONU. Diferente dos filmes anteriores de Cohen, O Ditador não traz o ator contracenando com pessoas reais, desta vez tudo é ficção, afinal Cohen já é conhecido e boa parte de suas dinâmicas não surtiriam mais efeito. Muita coisa funciona, outras tantas geram desconforto (desta vez, as piadas machistas são extremamente questionáveis), mas não dá para negar que Cohen criou mais um tipo hilário em sua carreira, jogando na cara da sociedade norte-americana toda sua hipocrisia.



The Dictator, 2012. Dir.: Larry Charles. Roteiro: Sacha Baron Cohen, Alec Berg, David Mandel e Jeff Schaffer. Elenco: Sacha Baron Cohen, Ben Kingsley, Anna Faris, Jason Mantzoukas, John C.Reilly,Sayed Badreya, Adeel Akhtar. 83 min. Paramount.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Drops: O Vingador do Futuro, Bel Ami


O Vingador do Futuro

Cultuada no início dos anos de 1990, O Vingador do Futuro era uma ficção científica baseada em um conto de Philip K. Dick, considerado o papa do gênero (autor de Minority Report e Blade Runner, entre outros), e trazia Arnold Schwarzenegger como um operário, em um futuro marcado pela segregação social entre os dois territórios restantes na Terra. O homem descobria ser um agente duplo e tinha que se desvencilhar de um governo autoritário e de sua esposa, que revelava-se como uma agente contratada para vigiá-lo. O filme era conduzido pelo hiperbólico Paul Verhoven, sendo um entretenimento despretensioso e flertava com o kitsch. A nova versão traz Colin Farrell no papel título e é igualmente despretensiosa e divertida, ainda que o filme original preserve seu charme e sua autenticidade no tempo, sendo superior a este aqui. O remake é dirigido por Len Wiseman, da série Anjos da Noite, que por sinal se sai melhor aqui que no comando da franquia sobre vampiros e lobisomens. Há uma excelente aplicação de efeitos especiais e design de produção em prol da narrativa e Colin Farrell demonstra uma clara evolução como ator, se pensarmos em seus primeiros filmes. No entanto, o ingresso é recompensado pela desenvoltura de Kate Beckinsale, esposa do diretor e sua habitual colaboradora, que com uma arma em punho mostra, mais uma vez, que é melhor que muito marmanjo. E olha que ela assume o posto que foi ocupado anteriormente por Sharon Stone!


Total Recall, 2012. Dir.: Len Wiseman. Roteiro: Kurt Wimmer e Mark Bomback. Elenco: Colin Farrell, Kate Beckinsale, Jessica Biel, Bill Nighy, Bryan Cranston, Bokeem Woodine, John Cho, Michael Therriault, Stephen MacDonald, Lisa Chandler. 118 min. Sony.


Bel Ami - O Sedutor

Ninguém é ingênuo em duvidar que esta nova adaptação do romance homônimo de Guy de Maupassant, Bel Ami, foi viabilizada com outro propósito que não o de ser mais um veículo para Robert Pattinson. No entanto, não é por isso que sua existência merece ser passada em branco, ainda que o trabalho da dupla Declan Donnellan e Nick Ormerod (mais familiazarizados com os palcos que com a câmera) deixe muito a desejar. O filme conta a história de um jovem que ambiciona circular na elite parisiense do século XIX e para isso seduz algumas das principais esposas de homens influentes na época. Dito isto, há uma única razão para os alicerces de Bel Ami conseguirem se sustentar aos trancos e barrancos: o excelente elenco feminino que a produção traz. Começando por Uma Thurman, cada vez mais rara no cinema, interpretando uma personagem fascinante que prioriza a racionalidade e que mantém-se nas rodas sociais graças ao seu inegável traquejo político. Bel Ami ainda traz Kristin Scott Thomas, sempre formidável, aqui como uma mulher ingênua e reprimida que cai nas graças do protagonista e perde por completo o controle da situação, e Christina Ricci, como a terceira amante do protagonista, aquela com quem ele tem um relacionamento mais sincero. Infelizmente nem o talento das três consegue fazer de Bel Ami um filme coerente e tão sedutor quanto seu protagonista (ao menos é isso que é dito o tempo inteiro e que o próprio subtítulo do filme no Brasil sugestiona). O roteiro atropela situações e faz a ascensão de Georges Duroy, personagem de Pattinson, ser rápida demais, era preciso mais tempo para o espectador dimensionar a situação e conseguir compreender melhor as motivações do protagonista. Para piorar ainda mais o soneto, Pattinson não consegue explorar nem um terço da complexidade que o personagem exige, tornando Duroy uma figura indefinida diante de mulheres tão interessantes.


Bel Ami, 2012. Dir.: Declan Donnellan e Nick Ormerod. Elenco: Robert Pattinson, Uma Thurman, Kristin Scott Thomas, Christina Ricci, Colm Meaney, Natalia Tena, Philip Glenister, Holliday Grainger, James Lance, Anthony Higgins, Christopher Fulford. 102 min. Califórnia Filmes.

domingo, 19 de agosto de 2012

Gente como a gente

Meryl Streep e Tommy Lee Jones mostram sinergia em Um Divã para Dois, comédia sobre a retomada da vida sexual na terceira idade


A queixa é frequente e procede. São cada vez menores as oportunidades de se retratar na tela os conflitos da maturidade. Um Divã para Dois tem ecos de Alguém tem que Ceder, comédia de Nancy Meyers de 2003, protagonizada por Diane Keaton e Jack Nicholson, trazendo como enfoque a retomada da vida sexual na terceira idade. Mas o filme de David Frankel é bem mais convincente e eficaz em seus propósitos que o filme de Meyers, contando com os talentos de Meryl Streep e Tommy Lee Jones, incríveis em cena.

O longa, dirigido por David Frankel, de O Diabo veste Prada e Marley e Eu, é muito simpático e evita qualquer obviedade com marcações típicas das comédias. Mais, o filme não cai na tentação de ridicularizar seus personagens em função da situação que ambos têm que lidar. Óbvio que as tentativas da dupla de quebrar o gelo sexual, reestabelecendo laços afetivos, geram situações engraçadas, mas elas servem para reforçar a credibilidade das situações vividas e não para estabelecer estereótipos ou apelar para a vulgaridade. Ou seja, saimos no lucro.

Um Divã para Dois começa quando Kay, personagem de Streep, uma mulher que vive há anos sob o mesmo teto que Arnold, um contador vivido por Tommy Lee Jones, cai em si e percebe que seu casamento já não é o mesmo de antes. Com filhos criados, Kay e Arnold dormem em quartos separados, não trocam carinhos ou palavras afetuosas e já não têm uma relação sexual há anos. Quando Kay descobre a existência de um terapeuta sexual que promete solucionar os problemas conjugais de qualquer casamento em crise, ela não pensa duas vezes e consegue, a duras penas, convencer Arnold a submeter seu matrimônio a uma terapia de casal intensiva. Com o passar das sessões, Kay e Arnold começam a se redescobrir como homem e mulher, quebrando os pudores e a repressão sexual que eles mesmos estabeleceram com anos e anos de casamento.


O grande "barato" de Um Divã para Dois está no tratamento que o tema recebe dos responsáveis por sua narrativa. O filme também funciona muito bem porque tudo segue com bom gosto, sem que o desenvolvimento de sua dupla de protagonistas seja afetado pela bandeira da "melhor idade". Kay e Arnold são figuras extremamente simples e fáceis de se tornarem reflexos dos espectadores. A maior parte das pessoas têm problemas com relação ao sexo, por mais que se fale cada vez mais sobre o assunto e as pessoas pareçam cada vez mais livres de qualquer pudor. Ainda há muita coisa silenciada e o que é pior, muita coisa silenciada entre os casais. E aqui chegamos a Kay e Arnold e a maravilhosa empatia que eles provocam no espectador desde o primeiro instante em que surgem na tela. Com todas as suas diferenças e a semelhança de não conseguirem expressar seus sentimentos, o casal de protagonistas é palpável e seu desabrochar é construído com cuidado e respeito, tornando o longa um daqueles casos deliciosos e particulares de filmes que conseguem dialogar em diversas frentes.

Para que o fator "humano" tenha êxito foi fundamental para Frankel contar com a dupla central: Meryl Streep e Tommy Lee Jones. Meryl mais uma vez consegue mostrar porque é uma das atrizes mais incríveis de sua geração. Não há qualquer detalhe, o mínimo que seja, de Kay que escape ao trabalho de composição da atriz. Desde a sua insegurança, sempre pedindo a opinião alheia sobre o assunto mais banal (um prato no cardápio do restaurante, por exemplo), ao desconforto por sua submissão a Arnold e por sempre se esquivar de qualquer confronto, já que sempre cede às vontades do esposo. Jones, por sua vez, dá vida ao rabugento Arnold, um tipo recorrente em sua carreira, mas que ganha contornos mais sensíveis ao demonstrar a devoção e o amor que tem por sua esposa, comprometendo-se a ultrapassar barreiras intransponíveis para um homem intransigente, machista e nada delicado. Steve Carell faz uma participação afetiva como o analista da dupla, mediando não um duelo de interpretações entre Streep e Jones, mas uma evidente parceria da dupla de protagonistas. 


David Frankel faz com Um Divã para Dois um tipo de comédia que deveria ser feita com mais frequência. O tipo de comédia que não apela para baixarias, escatologias e que não se autodeclara como um manual para a misoginia. Um filme que fala sobre afeto e sobre pessoas tentando superar suas próprias limitações em prol de tornarem-se melhor para quem mais amam. Quem dera se existissem mais David Frankels por ai e menos Adam Sandlers e Bruno Mazzeos. Infelizmente é uma média que dificilmente será alcançada. Em todo caso, é animador que um filme como esse seja feito em Hollywood, comprovando que dentro do circuito comercial ainda existe um nicho inteligente e sensível. Mas há que se falar: Um Divã para Dois ganha muito com os empenhos de Meryl Streep e Tommy Lee Jones, que nos apresentam a figuras de carne e osso. 



Hope Springs, 2012. Dir.: David Frankel. Roteiro: Vanessa Taylor. Elenco: Meryl Streep, Tommy Lee Jones, Steve Carell, Elizabeth Shue, Mimi Rogers, Jean Smart, Ben Rappaport, Marin Ireland, Patch Darragh, Brett Rice, Becky Ann Backer. 100 min. Imagem Filmes.

O doce e o amargo da vida nos lábios de Camila Pitanga

Atriz brilha em Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios, filme que traz um triângulo amoroso trágico no norte do país



Em 2005, Marçal Aquino trouxe para as livrarias, através da editora Companhia de Letras, o livro Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios. Um ano depois, o escritor estava ao lado de Beto Brant, cineasta responsável pelo ótimo policial O Invasor, e Renato Ciasca escrevendo o primeiro tratamento do roteiro da adaptação da obra para o cinema. Como todo trabalho do Marçal, a adaptação exigiu demais dos três, seus textos são de difícil transição, apesar, e por causa, do intenso trabalho deles na construção de personagens (para quem estiver interessado, a obra do autor já foi para o cinema com Um Copo de Cólera e o inesquecível Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho). Aqui, o autor novamente explora um amor visceral, agora entre uma ex-garota de programa e um fotógrafo forasteiro no interior da Amazônia. O processo exigiu imersão e comprometimento de seus atores, que não deixaram por menos e representam o que há de melhor nesse romance com teor trágico, especialmente Camila Pitanga.

A história de Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios começa quando Lavínia, vivida por Camila Pitanga, cede aos encantos de Cauby, um fotógrafo que se instala no interior da Amazônia e por lá cria raízes para compor seu trabalho. Lavínia passa a ser uma de suas modelos exclusivas e os dois acabam se apaixonando e se encontrando esporadicamente na casa/estúdio do fotógrafo. No entanto, a moça é casada com o pastor Ernani, homem conhecido e respeitado na região por suas pregações. Anos atrás, Ernani tirou Lavínia das ruas e casou-se com ela, resgatando-a de uma vida nas drogas e na prostituição. Lavínia tem uma enorme gratidão com Ernani, uma gratidão que passa a competir com a paixão que sente por Cauby, levando-a inevitavelmente a fazer uma escolha entre os dois.


Beto Brant e Renato Ciasca conseguiram com Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios um tipo de integração entre personagens e lugar em que estão inseridos que poucos diretores conseguem. A dupla torna a Amazônia parte do triângulo, um elemento essencial na composição dos personagens pelo elenco. O filme passa a ser uma poesia visual, cheia de insights quanto a utilização da câmera como veículo que deixa mais clara a perspectiva de um dos personagens centrais do filme, o fotógrafo Cauby, interpretado por Gustavo Machado. Da primeira cena até o desfecho do longa, duas personagens dialogam com ela, uma das modelos dele e, no desfecho, Lavínia, que encerra o longa com um diálogo esperançoso com ele. As opções da dupla também são interessante por outros aspectos, especialmente pela forma com que apresentam a protagonista feminina do longa. Lavínia nos é apresentada como objeto de cobiça e um prêmio conquistado por Cauby, para depois ter seu presente e passado revelados no filme, uma gradação que talvez represente o próprio interesse de Cauby pela moça - mais uma vez a perspectiva do fotógrafo sendo aplicada na condução da narrativa.

O trabalho de Camila Pitanga é fundamental para o filme. A atriz se compromete por inteiro com a personagem e acompanha a trajetória extenuante e sacrificante de Lavínia. A personagem é mostrada em três fases bem distintas de sua vida e em todas elas Pitanga se compromete em retratá-la da forma mais humana e coerente possível. Mais importante, não são três personagens diferentes, mas Lavínia em três momentos diferentes de sua vida, e isso faz toda a diferença. A personagem é cheia de nuances e proporciona a atriz diálogos doces, sujos, agressivos, sutis, uma variação de direcionamentos que Pitanga conduz como ninguém. Outro grande destaque da produção é Gustavo Machado, impecável como Cauby, um homem intenso em suas paixões (a fotografia, a liberdade e a própria Lavínia), ao mesmo tempo em que é totalmente desapegado de tudo. O filme também traz os ótimos desempenhos de Zé Carlos Machado, como o pastor Ernani, e Gero Camilo, interessantíssimo como o repórter da cidade que acaba ficando amigo de Cauby e sendo seu confidente.


Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios é um interessante estudo sobre a paixão e suas diferentes formas de entrega. Seja pela inconsequência de Cauby, pela paradoxalidade (racionalidade x entrega) de Lavínia ou pela compaixão do pastor Ernani, o filme conta uma tragédia essencialmente brasileira com desempenhos intensos de seus atores e uma direção comprometida com a tentativa de lançar um olhar diferenciado para um trabalho que pré-existiu nas páginas de um livro. Para tanto, contam principalmente com Camila Pitanga, que faz de Lavínia uma das personagens mais fascinantes e apaixonantes do filme, e com a inspiração fotográfica do Amazonas. Brant e Ciasca exploram muito bem as potencialidades visuais do projeto e entregam-se às suas próprias percepções sobre o roteiro, compreendendo que apesar de existir um material original, esse aqui deve assumir vida própria. E ele assume.



Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios, 2012. Dir.: Beto Brant e Renato Ciasca. Roteiro: Beto Brant, Renato Ciasca e Marçal Aquino. Elenco: Camila Pitanga, Gustavo Machado. Zé Carlos Machado, Gero Camilo, Adriano Barroso, Simone Sou, Magnólio de Oliveira, Lívea Amazonas, Antonio Pitanga. 100 min. Sony.

sábado, 18 de agosto de 2012

Caminhos bifurcados

Elenco internacional é a tônica de 360, um mosaico de personagens com altos e baixos

Depois de dramas com intenso engajamento político e social, como Ensaio sobre a Cegueira, O Jardineiro Fiel e, claro, Cidade de Deus, Fernando Meirelles resolve apostar em um longa mais intimista, preocupado com as pessoas que são retratadas na tela e seus dramas. Nas palavras do próprio cineasta, 360 é um pequeno filme. Talvez a categorização de Meirelles esteja cheia de modéstia ou tente suavizar os equívocos desse longa aos olhos dos críticos - os estrangeiros já reprovaram o filme em alguns festivais. Em todo caso, 360 é um filme ambicioso no que diz respeito às pretensões do roteirista Peter Morgan, que já escreveu trabalhos primorosos como A Rainha e Frost/Nixon, ao tentar, através de um mosaico de personagens, conferir uma unicidade a todas as tramas paralelas retratadas, uma unicidade que muitas vezes só existe nas palavras do roteiro e não na tela.

360 segue a vida de diversos personagens, cujas ações interferem na vida uns dos outros sem que necessariamente se conheçam. Assim, uma prostituta eslovaca marca um programa com um executivo inglês, que por sua vez tem uma esposa que mantém um relacionamento com um fotógrafo brasileiro que tem uma namorada também brasileira e que conhece um senhor que está prestes a ir aos EUA em busca de sua filha desaparecida há muitos anos. A ideia de Morgan e Meirelles é mostrar que o mundo e que as pessoas estão interconectadas e cada vez mais distantes. Uma ideia que mostra-se um pouco frágil se levarmos em consideração que há outros filmes contemporâneos que exploraram esse tipo de abordagem, como Babel e o incipiente Crash - No Limite. 


O grande problema é que 360 conta com um segmento que faz o filme cair um pouco em descrédito. Ele é protagonizado pelos personagens de Maria Flor (uma pena, porque Flor merecia uma grande estreia internacional), Anthony Hopkins e Ben Foster. A personagem de Flor é excessivamente crédula e toma decisões inverossímeis e incoerentes, sobretudo se pensarmos no contexto em que a conhecemos. Contudo, 360 tem um ótimo desfecho, um núcleo formado por um motorista russo à serviço de um empresário rico e perigoso que contrata a prostituta eslovaca que mencionamos no parágrafo anterior. O segmento é protagonizado por Vladimir Vdovichenkov e Gabriela Marcinkova, que interpreta a irmã da garota de programa em questão, incríveis em cena. Os melhores desempenhos do filme são de Vdovichenkov e Marcinkova, junto com o de Ben Foster, que apesar de protagonizar um núcleo mal desenvolvido, faz a composição primorosa de um ex-condenado por crimes sexuais tentando manter-se afastado das "tentações" da sociedade.

Voltando ao último núcleo de personagens mostrado em 360, há um momento em que Marcinkova lê uma carta que sua personagem escreve para a irmã falando sobre caminhos bifurcados e as escolhas que fazemos em nossas vidas. Aqui, o roteiro de 360 parece encontrar um eixo original e satisfatório para sua trama, mostrando que mais que um mosaico de personagens de diversas nacionalidades que comprovam na prática o já excessivamente explorado "efeito borboleta", o filme quer falar sobre as escolhas que fazemos e as consequências que elas geram na vida de outras pessoas.


Além disso, o longa explora muito bem recursos como montagem e fotografia em prol da narrativa. Há um momento interessantíssimo no longa no qual somos apresentados à personagem de Rachel Weisz e seu caso amoroso com o brasileiro vivido por Juliano Cazarré. Meirelles explora muito bem a utilização do som e da fotografia para mostrar a culpa da personagem após protagonizar uma intensa cena de sexo com o amante - o barulho do casal na cama cede lugar para o silêncio reflexivo dela, sozinha no mesmo lugar. Aqui a montagem de Daniel Rezende também é fundamental, realizando cortes que dimensionam os sentimentos dos personagens e outros que conferem um ritmo ágil ao longa.

Entre altos e baixos, os bons momentos de 360 acabam compensando as fragilidades do filme na construção de sua conclusão. No entanto, é interessante notar que, com um elenco com nomes como os de Anthony Hopkins, Rachel Weisz e Jude Law, o filme traga como núcleo mais coeso aquele protagonizado por uma atriz eslovaca e um ator russo. Isso jamais deve ser encarado como surpresa, o propósito de Fernando Meirelles com sua carreira de agora em diante é exatamente este, trazer uma equipe com integrantes de diferentes nacionalidades, experiências e visões de mundo, o que para um set cinematográfico acaba sempre proporcionando experiências riquíssimas. 360 é uma delas apesar dos deslizes. Um filme representativo na carreira de um cineasta que aposta sempre na diversidade de olhares.



360, 2012. Dir.: Fernando Meirelles. Roteiro: Peter Morgan. Elenco: Anthony Hopkins, Rachel Weisz, Jude Law, Maria Flor, Ben Foster, Juliano Cazarré, Vladimir Vdovichenkov, Gabriela Marcinkova, Dinara Drukarova, Marianne Jean-Baptiste, Lucia Siposova, Danica Jurcová, Mark Ivanir, Djemel Barek, Sydney Wade, Tereza Srbova. 110 min. Paris Filmes.

sábado, 11 de agosto de 2012

Drops: À Beira do Caminho e O que esperar quando você está esperando


À Beira do Caminho

Quando 2 Filhos de Francisco foi lançado em 2005, o nome de Brenno Silveira logo despontou como uma das grandes promessas do novo cinema nacional. Um nome que poderia rivalizar com Fernando Meirelles e Walter Salles internacionalmente, já que a cinebiografia da dupla sertaneja Zezé de Camargo e Luciano bateu recordes de bilheteria no Brasil, uma marca impressionante na cinematografia nacional até hoje, e quebrou as expectativas negativas da crítica. No entanto, a promessa ficou em 2005. Em seu filme seguinte, Era uma vez, Silveira errou feio e o que parecia ser uma qualidade do cineasta, revelou-se como seu "calcanhar de Aquiles". A simplicidade narrativa e a emoção espontânea de 2 Filhos de Francisco cedeu espaço para banalidade e o recorte de inúmeros clichês televisivos em Era uma vez. A emoção espontânea foi substituída por situações e construções que surgiam como intrusas na fruição do filme. O mesmo acontece em À Beira do Caminho, que suplica escancaradamente por uma lágrima do espectador sem conseguir arrancar uma gota sequer dos seus olhos. Assim como Era uma vez não saia do lugar comum ao adaptar uma obra de Shakespeare (Romeu e Julieta) para a realidade dos morros cariocas, À Beira do Caminho quer parecer original ao contar, através do repertório de Roberto Carlos, a história de um caminhoneiro que encontra um órfão na boleia do seu caminhão e segue viagem com ele pelo país em busca do pai do garoto. Mas alguém consegue assistir a essa história sem esquecer que em 1999, com uma estrutura praticamente idêntica - e muito mais eficiente na conexão emocional com seu público -, Walter Salles nos apresentou a Central do Brasil?


À Beira do Caminho, 2012. Dir.: Brenno Silveira. Roteiro: Patrícia Andrade. Elenco: João Miguel, Vinícius Nascimento, Dira Paes, Ludmila Rosa, Denise Weinberg, Ângelo Antonio. Fox.


O que esperar quando você está esperando

Minhas reservas quanto a este tipo de produção será recorrente no blog enquanto elas continuarem sendo produzidas pelos estúdios. Não acho que seja exigência demais pedir um melhor tratamento no roteiro de um filme como O que esperar quando você está esperando. Aliás, não acredito que seja uma exigência estapafúrdia, como espectador, pedir um roteiro decente a qualquer filme. E repito a mesma pergunta e comparação que fiz na época de lançamento de Idas e Vindas do Amor e Noite de Ano Novo, que são tão ruins quanto esse: se Simplesmente Amor conseguiu ser o filme que é, com os mesmos propósitos - reunir o máximo de figuras conhecidas em prol de uma história romântica - porque os realizadores deste aqui não podem se esforçar, nem que seja um pouquinho? Fica difícil comprar um filme que traz personagens cujos principais conflitos dizem respeito a circuncisão de uma criança ou os desencontros de um jovem casal que não tinha motivo aparente para romper o relacionamento. Nesse mosaico composto por personagens primários em situações estereotipadas, Elizabeth Banks é a única razão para esse filme merecer o mínimo de atenção. A atriz está ótima como uma conselheira para mães que passa a viver na pele as agruras da gravidez.


What to expect when you're expecting, 2012. Dir.: Kirk Jones. Roteiro: Shauna Cross e Heather Hach. Elenco: Jennifer Lopez, Cameron Diaz, Elizabeth Banks, Anna Kendrick, Rodrigo Santoro, Chace Crawford, Dennis Quaid, Brooklyn Decker, Ben Falcone, Matthew Morrison, Chris Rock, Joe Manganiello. 110 min. Paris Filmes.