domingo, 19 de agosto de 2012

O doce e o amargo da vida nos lábios de Camila Pitanga

Atriz brilha em Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios, filme que traz um triângulo amoroso trágico no norte do país



Em 2005, Marçal Aquino trouxe para as livrarias, através da editora Companhia de Letras, o livro Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios. Um ano depois, o escritor estava ao lado de Beto Brant, cineasta responsável pelo ótimo policial O Invasor, e Renato Ciasca escrevendo o primeiro tratamento do roteiro da adaptação da obra para o cinema. Como todo trabalho do Marçal, a adaptação exigiu demais dos três, seus textos são de difícil transição, apesar, e por causa, do intenso trabalho deles na construção de personagens (para quem estiver interessado, a obra do autor já foi para o cinema com Um Copo de Cólera e o inesquecível Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho). Aqui, o autor novamente explora um amor visceral, agora entre uma ex-garota de programa e um fotógrafo forasteiro no interior da Amazônia. O processo exigiu imersão e comprometimento de seus atores, que não deixaram por menos e representam o que há de melhor nesse romance com teor trágico, especialmente Camila Pitanga.

A história de Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios começa quando Lavínia, vivida por Camila Pitanga, cede aos encantos de Cauby, um fotógrafo que se instala no interior da Amazônia e por lá cria raízes para compor seu trabalho. Lavínia passa a ser uma de suas modelos exclusivas e os dois acabam se apaixonando e se encontrando esporadicamente na casa/estúdio do fotógrafo. No entanto, a moça é casada com o pastor Ernani, homem conhecido e respeitado na região por suas pregações. Anos atrás, Ernani tirou Lavínia das ruas e casou-se com ela, resgatando-a de uma vida nas drogas e na prostituição. Lavínia tem uma enorme gratidão com Ernani, uma gratidão que passa a competir com a paixão que sente por Cauby, levando-a inevitavelmente a fazer uma escolha entre os dois.


Beto Brant e Renato Ciasca conseguiram com Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios um tipo de integração entre personagens e lugar em que estão inseridos que poucos diretores conseguem. A dupla torna a Amazônia parte do triângulo, um elemento essencial na composição dos personagens pelo elenco. O filme passa a ser uma poesia visual, cheia de insights quanto a utilização da câmera como veículo que deixa mais clara a perspectiva de um dos personagens centrais do filme, o fotógrafo Cauby, interpretado por Gustavo Machado. Da primeira cena até o desfecho do longa, duas personagens dialogam com ela, uma das modelos dele e, no desfecho, Lavínia, que encerra o longa com um diálogo esperançoso com ele. As opções da dupla também são interessante por outros aspectos, especialmente pela forma com que apresentam a protagonista feminina do longa. Lavínia nos é apresentada como objeto de cobiça e um prêmio conquistado por Cauby, para depois ter seu presente e passado revelados no filme, uma gradação que talvez represente o próprio interesse de Cauby pela moça - mais uma vez a perspectiva do fotógrafo sendo aplicada na condução da narrativa.

O trabalho de Camila Pitanga é fundamental para o filme. A atriz se compromete por inteiro com a personagem e acompanha a trajetória extenuante e sacrificante de Lavínia. A personagem é mostrada em três fases bem distintas de sua vida e em todas elas Pitanga se compromete em retratá-la da forma mais humana e coerente possível. Mais importante, não são três personagens diferentes, mas Lavínia em três momentos diferentes de sua vida, e isso faz toda a diferença. A personagem é cheia de nuances e proporciona a atriz diálogos doces, sujos, agressivos, sutis, uma variação de direcionamentos que Pitanga conduz como ninguém. Outro grande destaque da produção é Gustavo Machado, impecável como Cauby, um homem intenso em suas paixões (a fotografia, a liberdade e a própria Lavínia), ao mesmo tempo em que é totalmente desapegado de tudo. O filme também traz os ótimos desempenhos de Zé Carlos Machado, como o pastor Ernani, e Gero Camilo, interessantíssimo como o repórter da cidade que acaba ficando amigo de Cauby e sendo seu confidente.


Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios é um interessante estudo sobre a paixão e suas diferentes formas de entrega. Seja pela inconsequência de Cauby, pela paradoxalidade (racionalidade x entrega) de Lavínia ou pela compaixão do pastor Ernani, o filme conta uma tragédia essencialmente brasileira com desempenhos intensos de seus atores e uma direção comprometida com a tentativa de lançar um olhar diferenciado para um trabalho que pré-existiu nas páginas de um livro. Para tanto, contam principalmente com Camila Pitanga, que faz de Lavínia uma das personagens mais fascinantes e apaixonantes do filme, e com a inspiração fotográfica do Amazonas. Brant e Ciasca exploram muito bem as potencialidades visuais do projeto e entregam-se às suas próprias percepções sobre o roteiro, compreendendo que apesar de existir um material original, esse aqui deve assumir vida própria. E ele assume.



Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios, 2012. Dir.: Beto Brant e Renato Ciasca. Roteiro: Beto Brant, Renato Ciasca e Marçal Aquino. Elenco: Camila Pitanga, Gustavo Machado. Zé Carlos Machado, Gero Camilo, Adriano Barroso, Simone Sou, Magnólio de Oliveira, Lívea Amazonas, Antonio Pitanga. 100 min. Sony.

Um comentário:

Alan Raspante disse...

Já tinha lido boas críticas sobre o filme, mas a sua realmente me deixou curioso sobre.