sábado, 29 de setembro de 2012

Vingador do futuro

Com Looper - Assassinos do Futuro, Rian Johnson cria um dos filmes mais originais e surpreendentes do ano



Rian Johnson é um diretor relativamente novo na indústria. Entre curtas e episódios de Breaking Bad, dirigiu Vigaristas, comédia non sense com Rachel Weisz e Adrien Brody de 2008, e A Ponta de um Crime, filme com Joseph Gordon-Levitt que ainda precisa ser descoberto. Parece que tudo foi um ensaio que nos levaria a Looper - Assassinos do Futuro, seu grande trabalho até o momento e um dos filmes mais interessantes e "malucos", no melhor sentido da definição, do ano. O longa aposta alto em conceitos nada convencionais e na narrativa não linear e acerta em tudo.

Looper é uma ficção científica que se passa em 2044 e conta a história de uma sociedade formada por pessoas com poder de telecinese e um grupo de assassinos. Joseph Gordon-Levitt faz um desses assassinos. Ele descobre que uma de suas vítimas é ele mesmo, só que no futuro, personificado por Bruce Willis. Os dois acabam forçadamente se unindo e terão que matar um indivíduo com poderes para provocar destruição em massa, chamado Rainmaker. Contar mais que isso seria estragar mais da metade do delicioso entretenimento que é Looper.


 O tema central é comum a filmes do gênero, mas apresenta desdobramentos bem interessantes aqui. O roteiro afiado de Johnson nos propõe - e a seus personagens - o questionamento sobre nossas escolhas e a realização do desejo unânime de reescrever a própria vida. Com elementos aparentemente dissonantes, Rian Johnson consegue atar as pontas de sua trama em um catártico terceiro ato beneficiado pelas interpretações de Emily Blunt e do garoto Pierce Gagnon, muito interessante em cena. Como um todo, o filme possui diálogos interessantes e elementos atraentes e ricos para uma distopia que não mede esforços e ambições, todas recompensadas.

Joseph Gordon-Levitt e Bruce Willis estão interessantes ao inserirem, em suas respectivas composições, reconhecidas marcas gestuaisum do outro (Levitt de Willis e Willis de Levitt). Esse trabalho é especialmente bem executado por Gordon-Levitt que absorveu os trejeitos de Willis sem tornar seu personagem uma caricatura do eterno John McClane. No entanto, o" coração" do filme está mesmo na relação entre os personagens de Emily Blunt e Pierce Gagnon e como Levitt se encaixa nesse contexto. Gagnon é um daqueles meninos prodígios sem as afetações comuns a crianças que começam muito cedo no cinema. Já Emily Blunt traz a devida profundidade a sua personagem, mostrada no longa como uma mulher que tenta reconstruir sua vida através dos laços afetivos com seu filho, a quem protege com admirável dedicação, um trabalho excepcional da atriz que revela seu empenho nos mínimos detalhes (a cena em que Sara simula estar fumando um cigarro é uma evidência disso, por exemplo).


Não sei o que o destino reserva a Looper. Será reconhecido em premiações? E a recepção do público? O presente/passado não costuma ser justo com ficções científicas, especialmente produções desse calibre (Filhos da Esperança e Blade Runner estão aí para provar). A resposta costuma vir com o tempo. No entanto, a boa recepção em sua estreia e na sessão do último Festival de Toronto (com muito buzz para o próximo Oscar) é um indicativo de que Looper pode quebrar essa resistência boba. Assim esperamos pois não há nada melhor do que uma ficção científica quando bem contada. 



Looper, 2012. Dir.: Rian Johnson. Roteiro: Rian Johnson. Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Bruce Willis, Emily Blunt, Paul Dano, Jeff Daniels, Pierce Gagnon, Noah Segan, Piper Perabo, Tracie Thoms, Frank Brennan, Garret Dillahunt, Marcus Hester. 118 min. Paris Filmes.

domingo, 23 de setembro de 2012

Drops: Ted


Ted é uma comédia sobre o amadurecimento tardio que a maioria dos homens enfrentam. Melancólico... Mas Ted está longe de ser um tratado sobre o tema, o filme é simples e direto. Mark Wahlberg interpreta um homem por volta de seus 35 anos que é pressionado por sua namorada (Mila Kunis) a se desligar de Ted, um urso de pelúcia que é seu grande amigo e que ganhou vida graças a um pedido que fez quando pequeno. Incursão cinematográfica do criador de Uma Família da Pesada, Seth MacFarlane, que aqui dubla o urso em questão, Ted é ácido em suas piadas, boa parte delas oscilando entre o humor inteligente, escatológias e sexualidade. O filme abusa da linguagem televisiva, adotando inúmeras vezes recursos de seriados em sua trilha e cortes, mas é inegável que a nova criação de MacFarlane é deliciosa, ainda que boa parte da diversão esteja nas mãos de Ted, um personagem que ganha vida graças ao seu dublador e aos recursos digitais empregados.


Ted, 2012. Dir.: Seth MacFarlane. Roteiro: Seth MacFarlane, Alec Sulkin e Wellesley Wild. Elenco: Mark Wahlberg, Mila Kunis, Seth MacFarlane, Joel McHale, Giovani Ribisi, Patrick Warburton, Matt Walsh, Jessica Barth, Aedin Mincks, Bill Smitrovich. 106 min. Universal. 

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Boletim: Richard Gere é cotado a prêmios; Hitchcock estreia em 2012

 
Richard Gere colhe elogios da crítica por Arbitrage
 
Destaque no circuito cinematográfico da semana passada, Arbitrage tem comido pelas beiradas na temporada. O filme que traz a história de um magnata que, em tempos de crise econômica, vende seus negócios a um grande banco e entra em uma negociação suspeita, que esconde de sua esposa, deu o que falar.
Arbitrage é dirigido e roteirizado por Nicholas Jarecki, em seu primeiro longa, e traz ecos claros de Wall Street. Mas a imprensa norte-americana tem reforçado mesmo o êxito de Richard Gere na pele do protagonista do longa. Após alguns anos no ostracismo e uma expectativa frustrada em torno do reconhecimento por seu trabalho em Chicago, que não lhe rendeu indicações a prêmios apesar do burburinho, Gere parece finalmente ter encontrado o que, para alguns, somente a maturidade traz: o reconhecimento da crítica. Confira o trailer clicando aqui
 

Hitchcock é antecipado 
 O que surgiu como especulação em meados desse ano se confirmou com a divulgação do novo pôster de Hitchcock pela Fox Searchlight: o filme será mesmo lançado em 2012, nos EUA, e não em 2013 como programado inicialmente. O longa trará os bastidores das filmagens de Psicose e trará como eixo narrativo central o relacionamento do cineasta Alfred Hitchcock, vivido por Anthony Hopkins, com sua esposa Alma Reville, papel de Helen Mirren. Enfim, a old school  de Hollywood anda em alta e quando se trata de filmes baseados em grandes personalidades, mesmo com suas falhas, é praticamente impossível para aos membros da Academia resistirem. O longa ainda conta com Scarlett Johansson, como Janet Leigh; James D'Arcy, como Anthony Perkins; Toni Collette, como Peggy Robertson; e Jessica Biel, como Vera Miles. A direção e o roteiro são do novato Sacha Gervasi, que antes de Hitchcock havia escrito o roteiro de O Terminal. Seria Anthony Hopkins o dark horse da temporada que pode atrapalhar a vida de Joaquin Phoenix, Daniel Day-Lewis e Philip Seymour Hoffman?

domingo, 16 de setembro de 2012

Boletim: trailer de Lincoln, favoritismo de Lawrence e estreia comercial de The Master são destaques da semana

Fonte: Google Play
Spielberg divulga na rede o primeiro trailer de Lincoln

Durante a semana, Steven Spielberg lançou na rede, junto com o ator Joseph Gordon-Levitt, o primeiro trailer do drama histórico Lincoln, que contará os últimos anos da vida do ex-presidente dos EUA, Abraham Lincoln. O lançamento foi uma parceria da DreamWorks, de Spielberg, e a Google Play, que exibiu com exclusividade a peça publicitária, muito bonita, por sinal, do filme (com link ao vivo na Times Square, foto acima). Levitt interpreta Robert Todd Lincoln, filho do protagonista, na maturidade.
O filme ainda conta com Sally Field, Tommy Lee Jones, Jackie Earle Haley, David Strathairn, Hal Holbrook, Lee Pace e Jared Harris no elenco. Sua estreia nos EUA será em novembro. Confira o trailer abaixo:



Silver Linings Playbook vence Toronto com voto popular e garante vantagem a Jennifer Lawrence no Oscar

O Festival de Toronto anunciou nesse domingo (16) os vencedores do prêmio do público. A dramédia Silver Linings Playbook, de David O.Russel, foi escolhido entre os votantes como o melhor filme da seleção, colocando-o em uma posição confortável para disputar prêmios nessa temporada. Já conquistou o voto popular, Quem quer ser um Milionário? e O Discurso do Rei, vencedores do Oscar em 2008 e 2010, respectivamente. Argo, de Ben Affleck, ficou com o segundo lugar.
Os comentários positivos para a dupla de protagonistas, Bradley Cooper e Jennifer Lawrence, favoreceram o filme, óbvio. Por hora, Jennifer Lawrence é a candidata mais forte da temporada a prêmios de melhor atriz. Para Bradley Cooper, a disputa deve ficar mais difícil, já que enfrentará uma forte concorrência, a saber Joaquin Phoenix e Philip Seymour Hoffman em The Master e Daniel Day-Lewis em Lincoln. Podem apostar que o filme concorrerá a prêmios de melhor filme, direção, roteiro adaptado, ator, atriz e pode ainda existir espaço para os coadjuvantes Robert DeNiro, Chris Tucker e Jacki Weaver. Vamos aguardar...

 
The Master bate recorde de bilheteria em sua estreia nos EUA
Acompanhando a repercussão de The Master, de Paul Thomas Anderson, nos EUA em sua semana de estreia, a informação mais surpreendente é o sucesso comercial que o filme tem feito no circuito limitado, no qual foi lançado.
Em apenas cinco cinemas, em Los Angeles e Nova York, The Master faturou cerca de U$ 700.000, superando o recorde de lançamento em circuito limitado que foi batido ainda esse ano por Moonrise Kingdom, de Wes Anderson, em maio.
O que é ainda mais interessante nesse diagnóstico da Box Office norte-americana é que Resident Evil - Retribuição, líder da bilheteria, com todo o aparato que esse tipo de produto costuma ganhar, especialmente por estrear com muitas cópias para 3D, conseguiu U$ 21 milhões, um número abaixo do esperado. O segundo lugar ficou para o relançamento de Procurando Nemo, também em formato 3D, com um número muito próximo do primeiro lugar, cerca de U$17 milhões. Sinal de que as coisas estão começando a mudar e as pessoas já estão de saco cheio dessas sequências baratas? Difícil julgar, mas é uma boa notícia.

Drops: Abraham Lincoln - Caçador de Vampiros


Uma coisa é Quentin Tarantino reescrever a história em Bastardos Inglórios, dando aos judeus a responsabilidade pelo destino de Adolf Hitler e o nazismo, uma catárse que somente o cinema poderia ser responsável por realizar em níveis tão complexos (na ficção e na realidade). Outra coisa é o russo Timur Bekmambetov, realizador de Guardiões da Noite e O Procurado, transformar o ex-presidente dos EUA Abraham Lincoln em um hábil caçador de vampiros e trazer como motivo da guerra civil norte-americana um pretenso conflito entre vivos e mortos, tudo com muita seriedade. Como se não bastasse sua proposta estapafúrdia, a premissa e o desenvolvimento do roteiro foram feitos pelo escritor da obra literária que deu origem ao filme, Seth Grahame-Smith, o que significa que os problemas precedem o próprio longa. Claro que  Abraham Lincoln - Caçador de Vampiros tem o requinte e o cuidado técnico desse tipo de produção. No entanto, é óbvio que isso não é suficiente para dar credibilidade ao longa, sobretudo no terceiro ato, quando o ator Benjamin Walker, intérprete de Lincoln, aparece muito bem caracterizado como o protagonista em sua fase mais madura. Somando-se a esses problemas, certas soluções que o roteirista encontra para o filme, como por exemplo o demorado insight  do protagonista na busca por uma estratégia para derrotar os vampiros na guerra ("Ah! Claro! A prata, que utilizei durante todo o filme e que é matéria prima da arma que utilizo desde o início na caçada aos vampiros!"), e a teimosia de Bekmambetov em usar aleatoriamente o slow motion em cenas de ação, o filme é um dos projetos mais infelizes de 2012.


Abraham Lincoln - Vampire Hunter, 2012. Dir.: Timur Bekmambetov. Roteiro: Seth Grahame-Smith. Elenco: Benjamin Walker, Dominic Cooper, Mary Elizabeth Winstead, Anthony Mackie, Rufus Sewell, Marton Csokas, Jimmi Simpson, Joseph Mawle, Erin Wasson. 105 min. Fox.

sábado, 15 de setembro de 2012

Drops: Intocáveis

 
Anunciado como um dos maiores sucessos comerciais franceses, Intocáveis tem a fórmula dos filmes que encantam por sua sensibilidade e bom humor em temas espinhosos da vida. O longa acompanha os caminhos que levaram à amizade entre Philippe, um aristocrata tetraplégico, e Driss, primogênito de uma família negra do subúrbio francês que acaba se tornando seu ajudante. O filme de Olivier Nakache e Eric Toledano é muito simpático e faz por merecer seus admiradores, difícil resistir a seus encantos. Apesar de apelar para estereotipações, e boa parte delas envolve Driss, em sua origem e características, mas também na sua relação com elementos do mundo de Philippe (manifestações artísticas, especificamente), Intocáveis é um filme com boas intenções, cujos êxitos se sobrepoem aos seus defeitos. A dupla François Cluzet e Omar Sy, então, é um de seus maiores méritos.
 
 
Intouchables, 2011. Dir.: Olivier Nakache e Eric Toledano. Roteiro: Olivier Nakache e Eric Toledano. Elenco: François Cluzet, Omar Sy, Anne Le Ny, Audrey Fleurot, Clotilde Mollet, Alba Gaia Kraghede Bellugi, Cyril Mendy, Christian Ameri. 112 min. Califórnia Filmes.

domingo, 9 de setembro de 2012

Veneza, Telluride e Toronto aquecem os motores para a temporada de prêmios

Argo e The Master saem na frente  na disputa por estatuetas com ótimas recepções nos festivais


Quem acompanha o calendário cinematográfico norte-americano sabe que os primeiros candidatos ao Oscar começam a pipocar no circuito no segundo semestre. Claro que já vislumbramos indicados em potencial desde o primeiro semestre de 2012 - Moonrise Kingdom e The Sessions estão entre eles, por exemplo -, mas a disputa começa a mostrar suas tendências mesmo na segunda metade do ano. Os festivais de Veneza, Toronto e Telluride são os melhores termômetros da disputa. Os produtores se abocanham para conseguir um espaço nas seleções dos três eventos, esperando visibilidade e criando estratégias para marcarem suas principais apostas na lembrança e no interesse de futuros votantes do Oscar, Globo de Ouro... Afinal, sempre importante lembrar, prêmios são importantes para aquecer a indústria, dar oportunidade e visibilidade a talentos, além de dar destaque à cena autoral norte-americana.

O primeiro candidato seríssimo a estatuetas é The Master, novo longa de Paul Thomas Anderson (Sangue Negro - não Cisne- e Magnólia). Apesar do desgosto da imprensa com o comportamento de Joaquin Phoenix, seu protagonista, no Festival de Veneza, o filme foi aclamado no evento e recebeu dois importantes prêmios, o de direção para Anderson e a Copa Volpi de melhor interpretação masculina, dividida entre Phoenix e Philip Seymour Hoffman. Não levou o prêmio principal - o melhor filme segundo o júri do festival foi Pietá, do sul-coreano Kim Ki-Kuk -, mas o que se especula é que ele levaria o prêmio e na hora da decisão o júri teve que tirar um dos prêmios do filme já que nenhum longa pode figurar em mais de duas categorias no resultado do festival. O filme traz uma complicada história pós-guerra protagonizada  por um homem em recuperação que encontra a redenção na relação que passa a manter com o líder de uma nova seita religiosa. The Master tem claras referências à cientologia, religião que costuma chamar atenção por sua influência na vida de atores como John Travolta e Tom Cruise (que já trabalhou com Anderson em Magnólia e, segundo o diretor, já assistiu a The Master e não fez objeções, apesar de não ter comprado muito a ideia do filme). Anderson já disse à imprensa que seu filme é na verdade um estudo sobre o culto a personalidades e a religião, de uma forma geral. De todo modo, dizem que é um dos trabalhos mais complicados do diretor, especialmente pela relação entre o personagem de Joaquin Phoenix (naquela que dizem ser a interpretação de sua carreira) e Philip Seymour Hoffman, que vai além da pura idolatria. Até o momento, The Master é o candidato a ser superado em categorias como melhor filme e direção e o favorito a prêmios de melhor ator para Phoenix - que sabe-se Deus como reagirá em possíveis discursos de vitórias, já que em Veneza foi evasivo com jornalistas e evitou qualquer tipo de badalação. A estreia do filme no Brasil está agendada para janeiro de 2013, mas pode ser modificada estrategicamente pela distribuidora em função de indicações ao Oscar.


Argo, novo longa de Ben Affleck, foi o filme que rivalizou com The Master as atenções da imprensa nesses primeiros meses da temporada. Exibido no pequeno, porém relevante, Festival de Telluride, o filme é um policial que, segundo a crítica, parece seguir a crescente qualidade das incursões do ator atrás das câmeras (Medo da Verdade e Atração Perigosa) , podendo ser a primeira e merecida indicação de Affleck na categoria melhor direção de muitas premiações. O longa se passa na revolução iraniana da década de 1970 e segue ma missão para resgatar soldados americanos sequestrados no país. Para salvar os soldados, que conseguem escapar do cativeiro e se abrigam na embaixada canadense, um especialista da CIA, vivido pelo próprio Affleck, toma a frente da situação. O trabalho do elenco foi elogiado, uma característica dos filmes de Affleck (não ter uma interpretação específica que chame a atenção, mas ser um trabalho de elenco), tornando-o sério candidato ao SAG, prêmio do sindicato dos atores, na categoria melhor elenco, apesar de nenhum de seus filmes ter sido indicado ao prêmio. No entanto, como aconteceu em Medo da Verdade com Amy Ryan e em Atração Perigosa com Jeremy Renner, Argo promete render uma indicação na categoria coadjuvante para Alan Arkin, vencedor do Oscar por Pequena Miss Sunshine. O filme promete chegar no Brasil ainda esse ano, em novembro.


Sempre aguardado - e sempre ausente -, Terrence Malick vem esse ano com To the Wonder. Romance que também traz como protagonista Ben Affleck, vivendo um homem em conflito com seu casamento e que reencontra em um amor de infância e na religião novas formas de reescrever sua própria vida. O longa, como de praxe na filmografia do cineasta, teve as participações de atores como Rachel Weisz, Michael Sheen e Jessica Chastain cortadas. No entanto, além de Affleck, o filme tem Rachel McAdams (o amor de infância do protagonista), Javier Bardem (o religioso) e Olga Kurylenko (esposa). As reações a To the Wonder seguiram a tradição dos filmes do Malick, muita gente gostou e muita gente odiou por características intrínsecas na filmografia do diretor, o tom contemplativo e a valorização do silêncio, entre elas. Assim, não dá para ter nenhuma conclusão sobre as chances desse filme na temporada. Uma das poucas certezas é que Emmanuel Lubezki, colaborador de Malick em A Árvore da Vida e Um Novo Mundo é uma das opções na categoria fotografia em muitos prêmios. Ainda não há previsão para a chegada de To the Wonder no Brasil.


Longa que não anda agradando mesmo é Hyde Park on Hudson , de Roger Michell (Vênus e Uma Manhã Gloriosa). O romance entre o presidente Roosevelt e sua prima distante, Margaret Suckley, papeis de Bill Murray e Laura Linney, contado na semana em que o rei e a rainha da Inglaterra visitam os EUA, não agradou os presentes na sessão do filme no Festival de Telluride. A performance de Laura Linney,que prometia ser uma das grandes apostas da temporada ao prêmio de melhor atriz, não chamou tanta atenção assim. Bill Murray e a inglesa Olivia Williams conseguiram mais elogios, mas ainda assim pode ser complicado para ambos sobressaírem em meio a uma temporada disputada nas categorias de melhor ator e melhor atriz coadjuvante. O filme ainda será exibido no Festival de Toronto e estreará em circuito comercial no início de dezembro nos EUA, portanto é aguardar. O longa estava previsto para chegar em outubro no Brasil, contudo, a pouca expressividade e as reações mornas podem acabar adiando sua estreia por aqui para depois das estreias dos filmes indicados ao Oscar em nosso circuito. Prevejo uma estreia para maio, junho ou agosto de 2013 em nosso país, sendo otimista. Mas vamos esperar um pouco mais e ver como outros públicos reagem.


Uma característica interessante de 2012 poderá ser o grande número de candidatos estrangeiros (meaning: produções não americanas) presentes na lista das principais premiações. Um ano aparentemente inexpressivo de candidatos norte-americanos traz três longas exibidos no Festival de Cannes, ocorrido em maio passado, para a pauta. O primeiro deles é o neo-zeolandês Beasts of the Southern Wild, de Ben Zeitlin. O filme traz a história de uma garota de seis anos que vive em uma comunidade isolada e que corre o risco de ficar orfã já que seu pai está gravemente doente. A partir daí o longa assume um caráter inventivo e a menina começa a enfrentar fenômenos naturais e criaturas pré-históricas em sua jornada para encontrar sua mãe desaparecida e reestruturar sua família. A interpretação da menina Quvenzhané Wallis foi um dos trabalhos mais elogiados do ano, talvez uma das poucas unanimidades em um ano fraco para atrizes, o que pode lhe valer uma estatueta de melhor atriz. Além dela, o trabalho do intérprete de seu pai, Dwight Henry, também está cotado para indicações na categoria coadjuvante. Melhor filme também é uma das apostas para Beasts of the Southern Wild, que deve chegar no Brasil no início do ano que vem, quando pipocarem as indicações a Globo de Ouro e Oscar. É um rival forte para The Master e Argo, especialmente se levarmos em conta que o longa possui uma proposta muito mais digerível para o público que os demais.

Outro candidato estrangeiro é o francês De rouille et d'os, de Jacques Audiard (O Profeta). Além da categoria estrangeiro, o longa promete ser responsável pelo tão aguardado retorno de Marion Cotillard, vencedora do Oscar em 2007 por Piaf - Um Hino ao Amor, aos prêmios, após injustas esnobadas em Inimigos Públicos, A Origem e Nine (tá, eu sei que o filme não merecia muitos prêmios, mas quando a Academia teve que optar por uma indicada a coadjuvante escolheu Penélope Cruz e se tinha uma interpretação no musical de Rob Marshall que merecia atenção era a de Cotillard). O filme é um romance entre uma treinadora de baleias paraplégica e um ex-boxeador que tenta ter uma vida "normal" ao morar com o filho, sua irmã e seu cunhado. O longa foi bem recebido em Cannes e muito se especulou sobre Marion Cotillard levar a Palma de Ouro de melhor atriz na ocasião, o que não aconteceu. Junto com Quvenzhané, Cotillard tem o desempenho feminino mais comentado da temporada. No entanto, o pódium das duas pode ser abalado pelo fator "babe", semelhante ao que aconteceu nas vitórias de Gwyneth Paltrow por Shakespeare Apaixonado (contra o desempenho formidável de Cate Blanchett em Elizabeth) e Reese Whiterspoon por Johnny e June (contra  Felicity Huffman em Transamérica), já que Keira Knightley está no páreo com Anna Karenina, mas isso é conversa para mais adiante. De rouille et d'os ainda não tem estreia prevista no Brasil.

Para fechar a lista de candidatos europeus, o vencedor da Palma de Ouro de Cannes, e candidato oficial da Áustria ao Oscar de melhor filme estrangeiro, Amour, de Michael Haneke (Caché e A Fita Branca), também promete reservar indicações para sua dupla de protagonistas, os veteranos franceses Emmanuelle Riva e Jean-Louis Trintgnant. Os dois protagonizam a história de um casal de professores de música aposentados que tem a relação testada quando ela fica enferma. Além de levar Cannes, o filme acaba de ser exibido em Telluride com grande êxito e promete ser também uma grande chance para Haneke ser indicado nas categorias direção e roteiro original, além de melhor filme. Novamente, uma grande possibilidade se levarmos em consideração que os candidatos norte-americanos pouco se revelaram.


Fora do circuito Telluride-Veneza, o Festival de Toronto começou na última sexta-feira e uma das sessões especiais foi do romance Anna Karenina, nova incursão do cineasta Joe Wright (Orgulho e Preconceito e Desejo e Reparação) no gênero romance de época. Desta vez adaptando Tolstoi, o diretor se reúne novamente com Keira Knightley para contar a história da aristocrata Anna Karenina, uma mulher cuja vida dá uma guinada quando resolve ter um relacionamento extra-conjugal com o influente Conde Vronsky na Rússia do final do século XIX. O grande chamariz do filme de Wright dessa vez é sua tentativa de torná-lo teatral, inspiração escancarada em Dogville, de Lars Von Trier. Para isso, Wright rodou todo o longa em um grande teatro da Inglaterra e não há uma externa sequer em todo o filme. O que se comenta nas sessões de Anna Karenina, até então, é que o filme possui o requinte estético, esperado em um filme do diretor inglês (podem aguardar indicações como direção de arte e figurino). Keira Knightley parece ser mesmo um dos nomes na temporada, contudo muitos fazem a comparação do desempenho da atriz com outras que interpretaram a mesma personagem, especialmente Greta Garbo e Vivien Leigh. Segundo críticos, não é o desempenho avassalador da temporada, mas uma interpretação que merece atenção e que tem grandes chances de surgir em algumas premiações. O filme ainda traz Jude Law e Aaron Johnson no elenco. Ainda não há previsão para sua estreia no Brasil.

 


Ainda em Toronto foram exibidos The Place Beyound the Pines, de Derek Cianfrance (Namorados para Sempre), e Silver Linings Playbook, de David O.Russell (O Vencedor). O primeiro decepcionou os críticos, já o segundo colheu elogios rasgados, sobretudo para o desempenho de Jennifer Lawrence, outro nome a surgir na bolsa de apostas do Oscar. 

The Place Beyound the Pines é a nova parceria entre Derek Cianfrance e Ryan Gosling, que juntos fizeram Namorados para Sempre. No filme, Gosling interpreta um motociclista que para sustentar mulher e filho acaba praticando alguns atos criminosos. O longa ainda tem no elenco Bradley Cooper (também em Playbook), Eva Mendes e Rose Byrne. Pouquíssimas notas ou críticas positivas, chegando muitos a dizer que trata-se de uma decepção se levarmos em consideração que Cianfrance fez um dos filmes mais marcantes de 2010.

Silver Linings of Playbook contornou a descrença de muitos que não viram no primeiro trailer do longa um material que pudesse gerar indicações a prêmios. O novo filme de David O.Russell parece ser um daqueles dramas positivos cheios de pitadas de humor. O longa conta a história de um professor que após passar anos em uma instituição para pessoas com disturbios mentais retorna a sociedade. O protagonista tenta colocar sua vida de volta nos trilhos, reencontrando sua ex-mulher e voltando ao convívio com seus pais. Lawrence interpreta uma garota por quem o protagonista acaba se apaixonando, ela tem depressão e problemas com a família em função do que os psiquiatras diagnosticaram como "natureza promíscua". Como já mencionado parágrafos atrás, o protagonista é feito por Bradley Cooper e o filme ainda conta no elenco com Robert DeNiro e Jacki Weaver. Aposta para melhor filme, direção, roteiro adaptado, atriz... Surpresa (nem tanto).

Em Toronto também houve a exibição de The Perks of Being a Wallflower, ou, como será chamado no Brasil, As Vantagens de ser Invisível, pequeno longa de Stephen Chbosky. Vem sendo um dos queridinhos do festival, principalmente por ter uma veia mais pop. O filme conta a história de um tímido adolescente que passa a conhecer a malícia do mundo através da amizade de dois outros adolescentes, vividos por Emma Watson (Harry Potter) e Ezra Miller (Precisamos falar sobre o Kevin). A performance de Logan Lerman (Percy Jackson) foi muito elogiada. O filme chega no Brasil em novembro desse ano.           Uma das mais curiosas sessões do festival ficou por conta de Cloud Atlas, nova ficção-científica dos irmãos Wachowskis (Matrix) e do alemão Tom Tykwer (Corra Lola Corra). O filme acompanha as conexões entre diferentes personagens em diferentes tempos e partes do mundo. Aqui atores como Tom Hanks, Halle Berry, Susan Sarandon, Jim Sturgess e Jim Broadbent interpretam mais de um personagem, em alguns momentos irreconhecíveis pelo ótimo trabalho da equipe de maquiagem. Muita gente gostou, outras nem tanto. Parece ser um material de difícil compreensão, o que em termos de prêmios pode não ser nada favorável. Alguns dizem que tende a ser um clássico, mas as reações positivas a ele só virão com o tempo. O longa deve chegar ainda esse ano no Brasil. 

 

Fora desse circuito de festivais, The Impossible, já batizado no Brasil de O Impossível, teve uma ótima recepção em exibições prévias. O filme acompanha a tentativa de sobrevivência de uma família após o tsunami na Indonésia. Naomi Watts tem recebido as críticas mais favoráveis, sendo uma séria candidata ao Oscar de melhor atriz - um retorno a se comemorar após quase dez anos de sua primeira e única (!!!) indicação ao prêmio, por 21 Gramas -, além do garoto Tom Holland, um dos filhos do casal protagonista do filme. Ewan McGregor interpreta o pai e também pode surgir como uma possibilidade entre os indicados. O filme é dirigido por Juan Antonio Bayona (O Orfanato) e chega no Brasil no dia 21 de dezembro.

sábado, 8 de setembro de 2012

(Crítica) 'O Legado Bourne' é um 'Bourne' supérfluo

Conexões tolas com os filmes anteriores tornam O Legado Bourne um capítulo desnecessário


 Raríssimas exceções, a sustentação do cinema hollywoodiano na nova década parece vir das continuações - afinal, sabemos quão grande é a desconfiança das plateias com tramas originais e o interesse dos estúdios em arrecadar tufos de dinheiro com a zona de conforto e segurança do espectador. O que mais se produz são reboots e continuações de trilogias "extintas". A indústria confere ao cinema um caráter descartável, fazendo com que determinados ícones ressuscitem com exemplares desnecessários. Foi o caso de Piratas do Caribe - Navegando em Águas Misteriosas, O Espetacular Homem-Aranha  e agora O Legado Bourne.

Quando a trilogia Bourne foi encerrada em 2007 com O Ultimato Bourne parecia uma decisão acertada e coerente dos seus envolvidos. Três filmes eram mais que suficientes e a trama de fato nunca pareceu ter fôlego para uma expansão daquele universo. Fomos enganados. O Legado Bourne é ambientado entre os eventos de O Ultimato Bourne e mostra outros tentáculos da CIA. Um deles, o Outcome, tem como um dos agentes o ex-militar Aaron Cross (Jeremy Renner). Quando todos os segredos do programa vêm à tona durante a perseguição a Jason Bourne, os agentes do Outcome passam a ser perseguidos pelo coronel Eric Bayer (Edward Norton). Determinado a realizar uma grande queima de arquivo, Bayer chega a Cross, que consegue escapar. Disposto a sobreviver, Aaron Cross vai ao encontro da médica Martha Shearing (Rachel Weisz). Ela tem acesso ao laboratório farmacêutico fornecedor do coquetel dos agentes da Outcome, um experimento semelhante ao que foi feito com Bourne.

Tony Gilroy, roteirista de toda a trilogia e diretor de Conduta de Risco e Duplicidade, parecia ter uma carta escondida na manga a respeito da franquia Bourne. No entanto, teria que dar continuidade ao projeto sozinho já que nem Paul Greengrass, diretor dos dois últimos filmes ou Matt Damon compraram a ideia. Não que um ou outro fossem fundamentais para a franquia a partir desse capítulo, claro que a história poderia prosseguir sem eles. Acontece que o que é mostrado aqui é bem decepcionante. 

 Entre esta nova perspectiva sobre os eventos e a anterior, as ideias no entorno do personagem Jason Bourne parecem mais interessantes, inclusive suas próprias características como protagonista, um agente em crise de consciência disposto a encontrar a redenção e esquecer seu passado. Sobre a troca de diretores, também não existiria grandes problemas. Não acredito que a presença de Paul Greengrass seja vital para os filmes. É inegável que o diretor conferiu uma agilidade absurda a seus trabalhos na série, tornando seus capítulos fluidos e interessantes em seus cortes, mas a franquia sobreviveria tranquilamente sem ele pois uma das mentes por trás de Bourne continuaria (Tony Gilroy). Assim, sob esse ponto de vista, O Legado Bourne, quarto filme da franquia, sobreviveria tranquilamente com Tony Gilroy sozinho, abandonado por seus colaboradores de outrora.

Acontece que um dos pontos vitais dos anteriores é o ponto fraco desse Bourne aqui. O que incomoda em O Legado Bourne é o roteiro do próprio Gilroy, que insistiu em levar a história adiante mesmo sem o intérprete de Jason Bourne à frente do seu elenco. No lugar de Bourne, somos apresentados a Aaron Cross, personagem de Jeremy Renner, também um agente utilizado para fins escusos por um programa secreto de segurança. O problema é que, diferente do agente de Matt Damon, que tinha motivações concretas para agir nos três filmes anteriores (buscar seu passado e uma nova vida), as motivações de Cross são nebulosas e não se trata de um mistério proposital do roteiro, mas de um tropeço do próprio Gilroy que não construiu bem o novo protagonista. Aaron Cross é o grande "calcanhar de Aquiles" de O Legado Bourne, cujo nome evidencia o fantasma de um passado ainda muito forte e do qual o longa parece não querer se desvencilhar.

É preciso reconhecer todavia que Jeremy Renner se esforça e segura bem as principais cenas de ação do filme, funcionando mais do que em Missão Impossível: Protocolo Fantasma ou Os Vingadores. Contudo, é Rachel Weisz quem impressiona mais o público como a "mocinha", uma das mais interessantes de toda a franquia, diga-se de passagem, deixando Franka Potente e Julia Stiles a léguas de distância. Edward Norton na pele de um personagem com resquícios da inesquecível Pamela Landy de Joan Allen é um completo desperdício, por sua vez. Outros atores dos três anteriores dão o ar da graça, como a própria Joan Allen, David Strathairn e Scott Glenn.

As ligações com a trilogia anterior presentes nesse longa são descartáveis, sendo incompreensíveis os motivos que levaram Gilroy a ir adiante com O Legado Bourne. Determinadas características da franquia foram mantidas e o filme não deixa de ser encarável como um entretenimento despretensioso. Ainda assim, o longa soa como um golpe de misericórdia de um roteirista promissor em crise com a inesperada ausência do protagonista de seu filme. Na falta de Matt Damon e de Jason Bourne, Tony Gilroy teve que improvisar e, diante dessa situação extrema, as coisas parecem não funcionar ou operam por uma lógica artificial, estranha. Há a promessa de que Tony Gilroy e Matt Damon façam as pazes pelos próximos anos e Bourne surja em parceria com Aaron (who) Cross em um quinto Bourne. Quem sabe assim a franquia tenha um capítulo que justifique uma continuidade ao que foi feito na trilogia original?



The Bourne Legacy, 2012. Dir.: Tony Gilroy. Roteiro: Tony Gilroy e Dan Gilroy. Elenco: Jeremy Renner, Rachel Weisz, Edward Norton, Donna Murphy, Stacy Keatch, Michael Chernus, Corey Stoll, Oscar Isaac, Joan Allen, Scott Glenn, David Strathairn. 135 min. Universal.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

(Especial) Trilogia Bourne


A Identidade (2002)

Quando a Universal deu sinal verde para Doug Liman começar os trabalhos em A Identidade Bourne, existiam duas claras missões em mente para a franquia de ação. A primeira era trazer um veículo destinado a colocar Matt Damon no panteão hollywoodiano. Já a segunda era realizar um filme de ação que fugisse da crescente tendência por lutas coreografadas iniciada com Matrix, em 1999, e que resgatasse as tramas policiais conspiratórias. Flertando com Operação França, de William Friedklin, e a franquia 007, A Identidade Bourne é lançado em 2002 com estrondoso sucesso e  o filme faz por merecer. O longa traz Damon na pele de Jason Bourne, um homem resgatado no meio do oceano. Desmemoriado, Bourne é descoberto por um departamento secreto do governo norte-americano e passa a ser perseguido pelo mesmo. O filme é fluido e restringindo seus esforços na ação e no desenvolvimento dos personagens é um exercício interessante dentro de seu próprio gênero. Chris Cooper está afiado na pele de um dúbio agente que persegue Bourne e Franka Potente está correta como a parceira do protagonista. Agora, claro que o destaque mesmo é Matt Damon, que reposiciona a figura emblemática do agente secreto na pele de um homem em crise de consciência e disposto a redimir seu passado condenável.


The Bourne Identity, 2002. Dir.: Doug Liman. Roteiro: Tony Gilroy. Elenco: Matt Damon, Franka Potente, Chris Cooper, Clive Owen, Brian Cox, Julia Stiles, Adewale Akinnuoye-Agbaje, Gabriel Mann, Walton Goggins, Josh Hamilton. 119 min. Universal.


A Supremacia (2004)

A Supremacia Bourne viria um ano depois, em 2004. Desta vez, Doug Liman passa a batuta da franquia para Paul Greengrass, inglês que dirigiu Domingo Sangrento, em 2002, e  que conduziria o excepcional Voo United 93, de 2006. O roteiro continuaria a cargo de Tony Gilroy, que em 2007 faria sua estreia atrás das câmeras em Conduta de Risco, longa indicado a 7 Oscars em 2007. A trama de Supremacia se passa dois anos depois dos eventos de Identidade, quando Jason Bourne tem sua vida pacata ao lado de Marie (Franka Potente) bagunçada novamente por acusações de assassinato. O segundo capítulo é ainda mais dinâmico que o primeiro, especialmente pela montagem de Richard Pearson e Christopher Rouse, este último se tornaria parceiro habitual de Greengrass. A franquia passa a adotar a famosa câmera frenética do diretor, evitando quadros milimetricamente calculados, algo na zona do "improviso". O aspecto mais interessante aqui é a gradual transformação de Bourne em um homem conformado com o seu passado e usando-o para escrever sua própria história dali em diante. Uma marca da série que se faz valer nesse segundo filme é  o impecável elenco coadjuvante. Desta vez, a franquia Bourne ganha muito com a presença e interpretação de Joan Allen, dando vida a fria e racional Pamela Landy.


The Bourne Supremacy, 2004. Dir.: Paul Greengrass. Roteiro: Tony Gilroy. Elenco: Matt Damon, Joan Allen, Franka Potente, Brian Cox, Julia Stiles, Karl Urban, Gabriel Mann, Marton Csokas, Tom Gallop, Ethan Sandler. 108 min. Universal.


O Ultimato (2007)

Até o momento, o ciclo de Matt Damon na franquia se fecha com O Ultimato Bourne. Paul Greengrass retorna à batuta, já Tony Gilroy conta com a ajuda de dois outros roteiristas, Scott Z. Burns, de Contato, e George Nolfi, que em 2011 escreveria e dirigiria o subestimado e pouco visto Os Agentes do Destino, protagonizado pelo próprio Damon e por Emily Blunt. O Ultimato não chega a ser o melhor da franquia, mas amarra bem o destino do personagem de Damon. Não acho que acrescente algo a sua trajetória- bem, talvez as mudanças em seu dinâmica com Pamela Landy -, serve apenas para colocar um ponto final na trajetória do personagem. O longa possui características que dominaram todos os exemplares da franquia e a montagem ganha importância na medida em que confere ainda mais ritmo ao filme, optando por cortes em ações simultâneas ou pela perspectiva de mais de um personagem para um mesmo acontecimento. Se não é o mais interessante dos três, pelo menos mantém qualidades que foram marcantes em Identidade e Supremacia.


The Bourne Ultimatum, 2007. Dir.: Paul Greengrass. Roteiro: Tony Gilroy, Scott Z.Burns e George Nolfi. Elenco: Matt Damon, Julia Stiles, David Strathairn, Joan Allen, Édgar Ramírez, Paddy Considine, Albert Finney, Scott Glenn, Daniel Bruhl, Tom Gallop, Corey Johnson, Joey Ansah. 115 min. Universal.

domingo, 2 de setembro de 2012

A causa de todos os males

Fausto, vencedor do último Festival de Veneza, recria o clássico de Goethe para encerrar quadrilogia russa sobre o poder


O último filme da quadrilogia sobre o poder criada pelo russo Alleksandr Sokúrov, em 1999, com Muloch, conclui todas as teorias do cineasta sobre o tema. Com sua adaptação do poema clássico de Goethe, Fausto, Sokúrov coloca toda a imperfeição e a eterna insatisfação do homem, sua ambição, como impulsionadores das maiores desgraças da humanidade. Fausto é o desfecho provocativo de alguns dos principais temas evocados por Sokúrov, desta vez o destaque é o apego do homem com a ciência, utilizando-a como última e incontestável justificativa para atos completamente questionáveis. Além do apego à razão, Sokúrov critica a covardia humana, através de um protagonista que sempre se esquiva da culpa por suas "vilanias".

Em Fausto, o personagem-título firma um acordo com Mefisto, visto aqui como uma espécie de agiota, mas que é na essência o diabo. Médico, Fausto anseia por mais conhecimento e a partir das possibilidades infinitas que lhes são oferecidas por Mefisto, deseja conquistar a bela Margarete. No entanto, ele acaba se envolvendo em uma briga e mata o irmão da jovem, o que acaba sendo um grande empecilho para seu relacionamento com ela. Após esses eventos, ele conta com a ajuda de Mefisto para fazer Margarete ceder às suas investidas. Em troca, o agiota lhe exige aquele que seria seu bem mais valioso, sua alma.


Amparado pelo roteiro que adaptou junto com Marina Koreneva, Sokúrov abusa de recursos já conhecidos do diretor, como seus planos sequência e as imagens distorcidas, todos utilizados de forma inteligente e coerente com a trama e com o desenvolvimento dos personagens. O diretor aposta em quadros inusitados e em composições que dialogam com obras de pintores alemães como Albrecht Altdorfer, Caspar David Friedrich e Lucas Cranach. Claro que as mais impressionantes ajudaram a compor a sequência de abertura, criada em computação gráfica e que traz a vila onde Fausto reside vista de cima e a "Fonte da Juventude", na qual o cineasta mostra o primeiro encontro entre Fausto e Margarete, intermediado por Mefisto.

Todo o trabalho de Sokúrov vem sustentado pela impecável fotografia de Bruno Delbonnel, que privilegia as referências estéticas das pinturas clássicas alemãs e utiliza sabiamente a luz e os tons pastéis a favor dos sentimentos e percepções do protagonista. O longa também conta com desempenhos dedicados do alemão Johannes Zeiler, que sabe trabalhar muito bem com o sinismo "involuntário" de Fausto, e Isolda Dychauk, a doce Margarete que acaba sendo jogada às feras. Mas o trabalho mais impressionante talvez seja o de Anton Adasinsky, ator russo que compõe um instigante e asqueroso Mefisto, trabalhando muito bem com a expressão corporal e a tonalidade da voz do escorregadio agiota da adaptação.


Revoluções no cinema são recebidas com certo incômodo. Não há rompimento de padrões sem uma instantânea rejeição a novos formatos e isso certamente acontecerá com o público em Fausto, principalmente com um público cada vez mais acomodado com linearidades narrativas e respostas prontas no cinema. Também não há ainda como mensurar que tipo de transformações esse cinema de Sokúrov trará nos próximos anos. Isso só o tempo revelará.

O que pode ser dito é que o filme explora  como nenhum outro as potencialidades semióticas da sétima arte e ousa em determinadas subversões técnicas. Sokúrov eleva sua ambição à enésima potência quando conclui sua quadrilogia - após analisar os meandros do poder com personagens como Hitler, Lênin e Hiroshito - afirmando que o homem, por sua incontrolável cobiça, não mede esforços em seus objetivos e é irresponsável, não assumindo a responsabilidade pelos atos que mesmo provoca. Em vez disso, prefere atribuir a culpa a forças ocultas - o diabo é apenas uma de suas representações. Na verdade, o Mefisto é apenas a projeção do nosso lado mais obscuro. Asqueroso, covarde, mesquinho, promíscuo, humano.
  


Faust, 2011. Dir.: Aleksandr Sokúrov. Roteiro: Aleksandr Sokúrov e Marina Koreneva. Elenco: Johannes Zeiler, Anton Adasinsky, Isolda Dychauk, Georg Friedrich, Hanna Schygulla, Antje Lewald, Florian Bruckner. 140 min. Imovision.