domingo, 28 de outubro de 2012

Guerra e paz

Produção da HBO Hemingway e Gellhorn peca no formato mas acerta na escolha de seus protagonistas, Nicole Kidman e Clive Owen


A Guerra Civil Espanhola (1936 - 1939) mudou para sempre a vida da jornalista norte-americana Martha Gellhorn. Por meio do conflito, Martha conheceu Ernest Hemingway, um dos maiores novelistas da língua inglesa e que seria seu marido por um breve espaço de tempo. Acontece que Ernest foi mais que uma grande paixão na vida de Martha, Hemingway foi a grande inspiração para a prolífica carreira de correspondente de guerra de Gellhorn por cinquenta anos. Essa história da paixão avassaladora de Gellhorn por Hemingway, e vice e versa, é o alicerce de Hemingway e Gellhorn, produção ambiciosa da HBO indicada ao Emmy, que acaba de estrear na programação do canal a cabo no Brasil. O longa é dirigido pelo diretor Philip Kaufman, de Contos Proibidos do Marquês de Sade, Henry e June, Os Eleitos e A Insustentável leveza do Ser e traz a vencedora do Oscar Nicole Kidman e o indicado ao mesmo prêmio Clive Owen nos papéis principais, ambos indicados ao Emmy por esses desempenhos.

Além da passagem de Gellhorn e Hemingway pela Espanha, que lutava na época contra o regime facista, o telefilme traz as passagens da jornalista pela Alemanha, China e Finlândia. Kaufman contextualiza todos os conflitos e procura intercalar o romance dos escritores com imagens reais das guerras e trechos dos textos da própria Gellhorn, todos eles narrados por Kidman na pele da jornalista. Essas inserções de Kaufman funcionam em parte. Se por horas serve para tornar a história crível e dimensionar a percepção da própria Gellhorn sobre os conflitos que presenciou, por outro desvia o olhar do espectador do romance mote da trama e não oferece um foco para o projeto que dura mais que o necessário.


O que não significa que Hemingway e Gellhorn não funcionasse em sua plenitude caso Kaufman optasse por um outro formado, dividindo sua história em capítulos. Ao invés de um longa metragem para a televisão, uma minissérie em cinco capítulos, semelhante ao que Todd Haynes fez com Mildred Pierce, minissérie com Kate Winslet, no mesmo canal. Talvez nesse formato, Kaufman pudesse flertar com todos esses temas e explorá-los devidamente sem parecer cansativo. O tempo em si não beneficia Hemingway e Gellhorn.

 No entanto, o filme conta com um grande trunfo, sua dupla de protagonistas. Clive Owen é um Ernest Hemingway sem precedentes. O ator conseguiu trazer toda e veia subversiva do escritor, um homem que oscilava entre o temperamento forte e rude e a sensibilidade nata de um artista do seu porte. Owen é um dos poucos atores que consegue trafegar sem maiores problemas por esses terrenos tão distoantes. Sobre Nicole Kidman, particularmente é difícil estabelecer qualquer juízo sobre um trabalho da australiana sem elogiá-la, a atriz sempre acerta com o mais improvável e sempre desafia os parâmetros hollywoodianos para atrizes do seu porte. Como Martha Gellhorn, Kidman comprova mais uma vez que é uma das atrizes mais magnéticas de sua geração. A australiana seduz a câmera e consegue com precisão dar o caráter feminista, inquieto e com um forte senso de justiça de Gellhorn, uma mulher a frente do seu tempo. Kidman também faz um trabalho muito interessante na impostação de sua voz para encarnar com mais credibilidade jornalista. Além dos atores, há que se ressaltar o ótimo trabalho de Javier Navarrete na trilha sonora, vencedora do Emmy. O compositor utilizou guitarras espanholas para o tema central do casal,  ajudando a deixar o relacionamento entre Gellhorn e Hemingway ainda mais intenso, sobretudo nas cenas de sexo.


Apesar de não cumprir suas promessas e parecer perdido em seu próprio formato, Hemingway e Gellhorn sobrevive graças aos desempenhos dedicados de Nicole Kidman e Clive Owen, que mantém uma química inquestionável em cena. Os atores fazem jus à natureza do romance entre Ernest Hemingway e Martha Gellhorn, um relacionamento que não sobreviveria à rotina, mas sim ao caos, à paixão e à aventura. O elenco de coadjuvantes também é interessante, tem David Strathairn como John Dos Passos, Rodrigo Santoro e Robert Duvall. No entanto, o maior legado do filme ainda é o de nos apresenta ao trabalho humanitário e pouco conhecido, ao menos fora dos EUA, de Martha Gellhorn. Gellhorn dedicou  sua carreira à cobertura desses conflitos que mostram quão vil pode ser o ser humano, testando o senso de humanidade de qualquer um que os vivencie. Martha cometeu o suicídio em 1998, quando já estava bastante debilitada pela cegueira e por um câncer. Ernest Hemingway também se matou após sofrer com  problemas de saúde como diabetes, depressão, perda de memória e hipertensão.




 Hemingway & Gellhorn, 2012. Dir.: Philip Kaufman. Roteiro: Jerry Stahl e Barbara Turner. Elenco: Nicole Kidman, Clive Owen, David Strathairn, Rodrigo Santoro, Robert Duvall, Tony Shalhoub, Molly Parker, Connie Nielsen, Parker Posey, Peter Coyote, Brooke Adams, Nancy Guerriero. 155 min. Em exibição na HBO

Drops: Gonzaga - De pai para filho



Segundo filme de Breno Silveira em menos de um ano, Gonzaga - De Pai para Filho conta a trajetória pessoal e profissional de Luiz Gonzaga e Gonzaguinha. O filme tem como enfoque a relação, nada harmônica, entre pai e filho ao longo dos anos, como uma forma de exorcizar o rancor e ressentimento de Gonzaguinha com seu pai, que nunca teve tempo para de fato estar presente na vida do filho. O resultado é bem melhor que os filmes anteriores de Silveira, a saber Era uma vez e À Beira do Caminho. No entanto, o diretor insiste em ser o mais didático possível em seu filme, até mesmo nas emoções, forjando determinados clímax emocionais que seriam melhor sentidos se brotassem espontaneamente do espectador. Em vez disso, Silveira força lágrimas com uma trilha quase sempre impertinente e com os diálogos expositivos do seu roteiro. Tudo seria melhor se Breno de fato confiasse no ótimo elenco que escalou, especialmente Land Vieira, intérprete do Gonzagão mais velho, e Cyria Coentro, mãe do protagonista.


Gonzaga - De Pai para Filho, 2012. Dir.: Breno Silveira. Roteiro: Breno Silveira. Elenco: Chambinho do Arcodeon, Land Vieira, Adélio Lima, Julio Andrade, Nanda Costa, Silvia Buarque, Domingos Montagner, Roberta Gualda, Giancarlo Di Tomazzio, Luciano Quirino, Claudio Jaborandi. 120 min. Downtown.

Drops: 007 - Operação Skyfall


Completando cinquenta anos de existência do personagem, não cinquenta filmes como alguns confundem (no total são 23 longas), 007 retorna às telonas com o aguardado Operação Skyfall. Aguardado porque esse novo capítulo da franquia permaneceu no limbo após a crise econômica de 2008. Sam Mendes, diretor que venceu o Oscar por Beleza Americana, já estava na mira dos produtores, mas pendengas com direitos autorais e o nebuloso destino da MGM, casa de James Bond, fez com que o destino do filme permanecesse incerto por algum tempo. Tudo valeu a pena pois Skyfall recupera o vigor da nova fase do personagem, assumido em 2006 por Daniel Craig no excelente Cassino Royale. Mendes, que tem um currículo composto por dramas como Estrada para a Perdição e o subestimado Foi Apenas um Sonho, cai como uma luva no filme e traz o veterano Roger Deakins para a equipe, o que resulta na fotografia irretocável do longa. Além de Craig, mais à vontade na pele do personagem, Operação Skyfall conta com uma participação maior de Judi Dench, sempre ótima como a durona M, e Javier Bardem, em um desempenho mais complexo que o usual para um vilão da franquia. O filme está longe de ter o impacto de Cassino Royale, mas faz a gente esquecer o terrível Quantum of Solace.


007 - Skyfall, 2012. Dir.: Sam Mendes. Roteiro: Neal Purvis, Robert Wade e John Logan. Elenco: Daniel Craig, Judi Dench, Javier Bardem, Ralph Fiennes, Naomie Harris, Berenice Marlohe, Albert Finney, Ben Whishaw,Rory Kinnear, Ola Rapace. 143 min. Sony

sábado, 20 de outubro de 2012

O amor que merecemos

Com sensibilidade, As Vantagens de ser Invisível traz a adolescência como ela é: a pior e a melhor fase de nossas vidas


Charlie é um garoto de 16 anos que passa a maior parte do tempo sozinho, escrevendo confissões para um amigo que "não existe" (assistindo ao filme entenderá porque está entre aspas). Mesmo prometendo começar o ano no colégio estabelecendo novos vínculos afetivos, qualquer aproximação parece muito difícil para Charlie. Ele encontra consolo nas fitas mixadas pelo namorado de sua irmã e abandonadas por ela, uma compilação que inclui canções do The Smiths e toda sorte de melancolia musical. Tudo muda quando Charlie conhece Patrick, um veterano extrovertido, e Sam, também mais velha que Charlie e que acaba, com sua sensibilidade, conquistando o coração do menino. A amizade dos dois passa a ser um alento na vida de Charlie que começa a curar as feridas de um passado traumático e descobre o mundo que antes tinha medo de desbravar.

As Vantagens de ser Invisível é uma adaptação do livro homônimo de Stephen Chbosky. O filme acabou tendo o roteiro do próprio Chbosky que, para manter ainda mais o controle sobre a sua obra, assumiu também a direção do projeto. O resultado é um longa pequeno, mas extremamente delicado no retrato que faz da adolescência. Aqui, paradoxalmente bela e triste, mas sempre hiperlativa, com sentimentos vibrantes e espontâneos. Só por essas características, As Vantagens de ser Invisível merece menção em um ano tão morno nas telonas brasileiras. 


Como diretor, Chbosky demonstra um cuidado em evitar excessos e estereotipações. E ele poderia cair muito fácil nessa armadilha, já que sua trama é protagonizada por um outsider, sua musa inalcansável e seu amigo homossexual divertido, enfim, alguns tipos conhecidos do colegial. Contudo, Chbosky segue a cartilha de seu trabalho original e preserva a humanidade que existe em cada um desses perfis, explorando em minúncias suas dores e inseguranças, que não são poucas. O diretor evita os excessos e jamais se coloca à frente de seu próprio trabalho, compreendendo que o foco deve ser depositado exclusivamente na performance de seu trio de protagonistas, todos impecáveis.

Já que falamos deles, vamos ao elenco. Logan Lerman é uma das surpresas mais gratas do filme. O jovem ator que sempre apareceu promissor, ainda que em filmes ruins como Percy Jackson e o Ladrão de Raios e Os três Mosqueteiros, tem sua grande chance e não faz por menos: mostra que é um baita de um ator. Lerman expressa todo o turbilhão de emoções contidas em Charlie, que surge tenso na maioria das cenas e que gradualmente se desarma para o mundo, um desempenho lindo de se acompanhar. Ezra Miller, que já esteve brilhante em Precisamos falar sobre o Kevin, também não deixa barato com seu marcante Patrick. Emma Watson, por sua vez, vive como ninguém a compreensiva e apaixonante Sam.

Através de um personagem doce e introvertido, Stephen Chbosky faz um filme honesto e sensível. Um olhar positivo, porém realista, sobre a melancolia, comumente atenuada, da fase mais extrema de nossas vidas. As Vantagens de ser Invisível é pulsante, vivo em cada frame. Não por recursos estéticos ou tecnológicos empregados, mas pelos sentimentos que movem as performances de seus atores. Para quem durante algum tempo de sua vida já foi um jarro de flor no colegial e sabe quão difícil é fazer um movimento para ser aceito, quando na verdade trata-se apenas de encontrar as pessoas certas para isso, As Vantagens de ser Invisível é altamente recomendável.





The Perks of being a Wallflower, 2012. Dir.: Stephen Chbosky. Roteiro: Stephen Chbosky. Elenco: Logan Lerman, Emma Watson, Ezra Miller, Paul Rudd, Mae Whitman, Joan Cusack, Dylan McDermott, Kate Walsh, Johnny Simmons, Nina Dobrev. 103 min. Paris Filmes 

domingo, 14 de outubro de 2012

No reino de João e Maria

Com Moonrise Kingdom, Wes Anderson enfim encontra a harmonia entre suas marcas como cineasta e a história que propõe contar


"Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava o rock para as matinês[...]" Chico Buarque, João e Maria

Wes Anderson é um diretor voltado para o rigor técnico e para a lógica interna de suas próprias incursões cinematográficas, quase sempre parecidas, flertando com o distanciamento do diretor de seus personagens e com as bizarrices que o cineasta costuma empregar. No entanto, se em Os Excêntricos Tenenbaums e A Vida Marítma de Steve Zissou esse universo particular surgia como um "capricho" estético e narrativo, em Moonrise Kingdom ele é pertinente e dialoga com  a proposta do próprio longa: mostrar a perspectiva infantil de acontecimentos "rotineiros", mas grandiosos.
Moonrise Kingdom é uma jornada grandiosa sim, como as aventuras mitológicas de A Ilíada, mas esta dimensão surge em função da atribuição dos apaixonados Sam e Suzy. No longa, Suzy abandona seu lar caótico e Sam foge do acampamento de escoteiros cáqui para viverem juntos uma história de amor. Os dois acabam descobrindo afinidades e encontrando um no outro o conforto para as agruras da vida, ela para a infelicidade do casamento de seus pais e ele para a solidão que sente desde que ficou órfão.


O filme reproduz em fotografia, direção de arte e figurinos as produções da década de 1960. Até a interpretação dos atores segue a cartilha do período, com a diferença de que todos, como em um grupo teatral, seguem as orientações do próprio Anderson, que tem um jeito todo particular de enxergar o mundo. O roteiro, também do diretor, junto com Roman Coppola, filho de Francis Ford Coppola, é certeiro no humor involuntário das situações criadas pelos próprios protagonistas, Sam e Suzy, e pelos adultos extremamente frustrados com os rumos de suas próprias vidas. O casamento fracassado de Frances McDormand e Bill Murray, a frustração profissional do chefe dos escoteiros de Edward Norton, a solidão do personagem de Bruce Willis e o pragmatismo da assistente social de Tilda Swinton de um lado. Do outro, o frescor criativo, a impetuosidade, a ingenuidade e a falta de pudores típicas da infância de Sam e Suzy. Moonrise Kingdom lida com esses contrastes.

Outro grande êxito do longa é a condução do elenco infantil. Claro que Kara Hayward e, especialmente, Jared Gilman são os destaques do filme, os dois mostram uma cumplicidade e uma naturalidade ímpar com seus personagens. No entanto, não dá para esquecer o restante do jovem elenco escalado por Anderson, que dedicou horas de ensaio para o filme, típico do diretor. O elenco adulto também não passa batido. Temos um Edward Norton inspirado como o inspetor bem intencionado do acampamento de escoteiros, Frances McDormand e Bill Murray como o casal em descompasso e Bruce Willis  mais terno e humano que o usual.


Não que os exageros e o estranhamento causado pelos filmes anteriores de Wes Anderson não fossem bem vindos, mas parece que em Moonrise Kingdom tudo isso encontra maior receptividade e justifica-se, trata-se da gênese do cineasta. O longa é uma grande jornada empreendida por crianças e não necessariamente feita para crianças. O contraste entre o universo inventivo infantil e o insosso mundo adulto proporcionam uma reflexão sobre o caminho que nos transforma em criaturas sem vida, infelizes e medíocres. Moonrise Kingdom é incrivelmente espirituoso, mas pode ser uma conclusão melancólica, a depender da recepção. Um tempo que não volta. Ao que parece Anderson encontrou um meio de mantê-lo vivo, o cinema. A partir do filme entendemos o ponto de vista que o diretor sempre teve do mundo a sua volta. De todo modo é uma experiência incrível.




Moonrise Kingdom, 2012. Dir.: Wes Anderson. Roteiro: Wes Anderson e Roman Coppola. Elenco: Jared Gilman, Kara Hayward, Bruce Willis, Edward Norton, Bill Murray, Frances McDormand, Tilda Swinton, Harvey Keitel, Jason Schwartzman, Bob Balaban, Jake Ryan, Seamus Patrick-Fitzpatrick, Larry Pine. 94 min. Paramount.

sábado, 13 de outubro de 2012

Irmãos metralha

John Hillcoat acerta com Os Infratores, entretenimento para adultos que mistura western e gangster movie


Os Infratores é a junção de dois gêneros cinematográficos genuinamente norte-americanos: o western e os filmes de gângsters. Como o diretor John Hillcoat conseguiu fundir esses dois legados ianques? Simples, sua trama é ambientada durante a depressão americana, época na qual lendas como Al Capone já estavam estabelecidas nas grandes cidades e pequenos povoados do interior tentavam sobreviver em meio a pobreza e violência do país. Nesse contexto, surgem os irmãos Bondurant, em Franklin County, na Virgínia. A família se mantém com um comércio ilegal de bebidas, que logo enfrenta a tirania de poderosos impressionados com a persistência e a resistência dos irmãos frente a uma realidade completamente desfavorável.

Com esse filme, John Hillcoat realiza um trabalho eficiente através de uma trama que dialoga com elementos do gênero - talvez um dos melhores trabalhos contemporâneos nesse sentido - e consegue se sustentar aos olhos do espectador, independente do repertório que este venha ter. O diretor soube fazer uma trama fluida, que aproveita a mise en scène para trazer enquadramentos inteligentes, que estão sempre à serviço do filme. Trata-se de um trabalho infinitamente superior ao pretensioso e arrastado A Estrada, filme anterior de Hillcoat que acabou se revelando uma grande frustração.



Os Infratores é um Hillcoat mais bem resolvido, longe das amarras da expectativa em torno da transposição que foi gerada em A Estrada. O diretor parece mais à vontade e disposto a acompanhar as orientações de seus próprios personagens, são ele que norteiam Hillcoat e sua câmera aqui e não o contrário. Hillcoat cria uma atmosfera hostil e melancólica, evidenciada pelo excesso de tons pasteis em cenários e figurinos que vão da isolada taberna dos Bondurant à propriedade dos Minnix. Sabiamente, essa atmosfera é rompida por dois personagens, a Maggie Beaufford de Jessica Chastain, forasteira naquele ambiente (uma personagem feminina que é tradição no gênero), e o vilão assustador vivido por Guy Pearce, Charlie Rakes. Enfim, o diretor e sua equipe não pouparam esforços para trazer um trabalho completo nesse sentido, um filme no qual todos os detalhes são pertinentes na construção de sentidos. Isso é tão raro...

No elenco, cabe destacar a formidável performance de Tom Hardy como o calado e involuntariamente heróico Forrest Bondurant, uma impecável composição do ator que mais uma vez aposta em estratégias como postura e impostação de voz para construir um personagem memorável (vale lembrar que Hardy também esteve este ano em Guerreiro e Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge, no último como o vilão Bane). Shia LaBeouf está, como de praxe, eficiente na pele do Bondurant mais novo, que amadurece muito ao longo do filme. O longa também conta com Jessica Chastain (mais linda do que nunca) e Gary Oldman (um papel pequeno, mas marcante). Contudo, cabe destacar a assustadora interpretação de Guy Pearce como o perturbador (e perturbado) Charlie Rakes, grande vilão do longa.


Assim, Os Infratores consegue ser um entretenimento recomendável. O longa flerta abertamente com a old school de Hollywood sem perder de vista os benefícios da contemporaneidade, que permite olhar para esse tipo de material com outra perspectiva. Apesar de tropeçar no desfecho, prolongando uma sequência que poderia ser evidentemente encurtada, Hillcoat é inteligente ao apostar no teor nada realista e violento da "lenda" dos Bondurant. Os Infratores também é um trabalho muito bem executado por ser a primeira oportunidade que o diretor teve de mostrar seus recursos, sem que suas pretensões se sobrepusessem à própria trama.




Lawless, 2012. Dir.: John Hillcoat. Roteiro: Nick Cave. Elenco: Tom Hardy, Shia LaBeouf, Jessica Chastain, Guy Pearce, Mia Wasikowska, Gary Oldman, Jason Clarke, Dane DeHaan, Chris McGarry, Tim Tolin, Bill Camp, Noah Taylor. 116 min. Imagem Filmes.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Drops: Ruby Sparks - A Namorada Perfeita


Neta de Elia Kazan (diretor de Uma Rua chamada Pecado e Sindicato dos Ladrões) e filha de Nicholas Kazan (Matilda) e Robin Swicord (Memórias de uma Gueixa), Zoe Kazan herdou os genes do cinema. A jovem atriz apostou alto em sua estreia como roteirista em Ruby Sparks - A Namorada Perfeita, filme sobre um prodigioso escritor em crise criativa antes mesmo de completar os trinta anos e que cria uma musa perfeita para seu próximo trabalho, a encantadora Ruby Sparks. Digo que Kazan apostou alto em sua estreia porque Ruby Sparks vai além da simples comédia romântica, o filme é uma análise sensível sobre os meandros que norteiam o relacionamento de um artista com sua própria obra. Kazan também assume o posto de protagonista e vive sua própria criação, Ruby Sparks, por sinal, uma ótima interpretação. Mesclando as ideias e o processo de seu filme com o universo real (só para termos ideia de como o longa é absurdamente metalinguístico!), Zoe contracena com Paul Dano (também muito bem em cena, como sempre, vivendo o protagonista), seu namorado, e trouxe para a direção os sumidos Jonathan Dayton e Valerie Faris (também casados), dupla que dirigiu Pequena Miss Sunshine e que de lá para cá não fez mais nada.


Ruby Sparks, 2012. Dir.: Jonathan Dayton e Valerie Faris. Roteiro: Zoe Kazan. Elenco: Paul Dano, Zoe Kazan, Annette Bening, Antonio Banderas, Chris Messina, Steve Coogan, Toni Trucks, Deborah Ann Woll, Elliott Gould, Aasif Mandvi. 104 min. Fox.


domingo, 7 de outubro de 2012

Drops: Os Infiéis


Não fossem as argumentações superficiais de Os Infiéis para a frequência da infidelidade masculina, a comédia francesa dividida em segmentos passaria na média. As passagens foram feitas como pequenos curtas por diferentes diretores e o longa é amarrado com um desses "curtas" que traz as escapadas de dois amigos. Infelizmente, a ideia predominante, voluntaria ou involuntariamente, é a de que o homem trai por instinto, necessidade biológica. O projeto até tenta inverter o jogo e questionar o machismo em um dos segmentos mais infelizes, dirigido pelo recente ganhador do Oscar, Michel Hazanavicius, que traz um grupo de traidores compulsivos em uma sessão de terapia em grupo. O barato fica mesmo com a dupla Jean Dujardin (que protagoniza o melhor segmento do filme, no qual um homem busca uma aventura durante uma viagem que faz para participar de um congresso) e Gilles Lellouche. A dupla interpreta vários personagens no projeto e acaba mostrando versatilidade além da conta.


Les Infidèles, 2012. Dir.: Michel Hazanavicius, Emmanuelle Bercot, Jean Dujardin, Fred Cavayé, Alexandre Courtès, Jan Kounen, Eric Lartigau, Gilles Lellouche. Roteiro: Jean Dujardin, Gilles Lellouche, Stéphane Joly, Nicolas Bedos, Philippe Cavarivière. Elenco: Jean Dujardin, Gilles Lellouche, Guilhaume Canet, Alexandra Lamy, Clara Ponsot. 109 min. Imovision.