domingo, 11 de novembro de 2012

Campo minado

Ben Affleck amadurece como diretor em Argo, filme que promete finalmente levá-lo ao Oscar


Não ficarei por aqui enaltecendo as características de Ben Affleck como cineasta, já fiz isso nos comentários sobre seus dois filmes anteriores Medo da Verdade e Atração Perigosa. Affleck é consciente da linguagem cinematográfica e objetivo e elegante em seus planos, consenso. Vamos falar sobre o amadurecimento dele em sua nova empreitada, Argo. Sim, pois se Affleck ainda não conseguiu superar sua estreia em Medo da Verdade com este longa, demonstrou estar mais do que ciente do que pode oferecer atrás das câmeras. O thriller político fica a todo momento sob o controle do diretor, que consegue conferir um ritmo crescente a  um filme que poderia cair no marasmo panfletário sobre a situação no Oriente Médio.

Argo conta a história de uma missão que durante anos permaneceu escondida nos porões da CIA. O agente Tony Mendez, integrante de uma divisão ultra-secreta do departamento de inteligência dos EUA, foi convocado para construir uma estratégia de resgate a seis diplomatas do país encurralados no Irã após a invasão da embaixada norte-americana por seguidores de Khomeini, entre o final dos anos 1970 e início dos anos 1980. O plano arquitetado por Mendez era chegar no país como um produtor de um filme de ficção científica que tinha interesse em ter algumas locações no oriente. Mendez, por intermédio do amigo John Chambers, maquiador vencedor do Oscar por O Planeta dos Macacos, contrata o produtor Lester Siegel para a farsa e até compra os direitos de um roteiro batizado de Argo.


Affleck começa o filme com storyboards, imagens reais e reproduções suas dos eventos na embaixada americana, o que aliás evidencia a compreensão de estar lidando com um tema espinhoso e que é preciso deixar o espectador contextualizado sem se perder em didatismos dispensáveis. Além de ser uma história que por si só gera interesse no público, Affleck não perde o ritmo nem as oportunidades certas para proporcionar a quem está assistindo um nível de tensão semelhante ao vivido pelos seis reféns no Irã.

Talvez algumas ressalvas que merecem ser feitas diz respeito ao tom ligeiramente ufanista do terceiro ato, contrastando com a leve crítica feita às intervenções americanas no início do filme. No entanto, fica claro que a necessidade de exaltar emoções no desfecho de Argo está ligada às pessoas e não às nações envolvidas no conflito geopolítico. Também é difícil encarar Affleck como o protagonista da trama sobretudo com o emotivo desfecho que encontra para Argo. Aqui há um problema semelhante ao que todos detectaram em Atração Perigosa, o Affleck ator não consegue carregar o peso dramático que seus protagonistas exigem. Contudo, a apatia habitual do ator acaba, de certa forma, servindo ao personagem, que encontra-se em um momento melancólico de sua vida e que tem uma profissão que exige dele  a maior discrição possível. Portanto, perdoam-se os leves deslizes.


O diretor conta com um elenco coadjuvante formidável. Alan Arkin está interessantíssimo como o produtor Lester Siegel e faz uma dupla impagável com John Goodman, intérprete do maquiador John Chambers. 

Argo é o trabalho mais ambicioso da carreira de Ben Affleck. O filme lida com questões políticas internacionais complicadas, um terreno que o diretor ainda não tinha desbravado em seus dois últimos projetos. Argo é a história de heróis silenciosos, aqueles cujos nomes muitas vezes não sabemos. Por mais ufanista que isso possa parecer, Affleck consegue transformar a história de Tony Mendez em um legado para seu próprio filho, apaixonado pela saga Star Wars e que certamente tem em Luke Skywalker a referência masculina de sua infância. No entanto, Mendez sempre esteve por perto, mesmo ausente. Encontrar essa humanidade em uma trama dominada basicamente pelo ódio e desrespeito ao ser humano é para poucos, mas pouquíssimos diretores. Affleck fez isso, mais uma vez.



Argo, 2012. Dir.: Ben Affleck. Roteiro: Chris Terrio. Elenco: Ben Affleck, Bryan Cranston, Alan Arkin, John Goodman, Victor Garber, Clea DuVall, Tate Donovan, Scoot McNairy, Rory Cochrane, Christopher Denham, Kerry Bishé, Kyle Chandler, Chris Messina, Zeljko Ivanek, Titus Welliver.

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