sábado, 22 de dezembro de 2012

Força da natureza

O Impossível acerta ao evitar o clichê do cinema catástrofe e concentrar esforços na perspectiva de seus personagens sobre o tsunami no Sudeste Asiático


Reza a "lenda" que há uma regra em Hollywood: quer arrancar lágrimas e mais lágrimas da plateia? Basta colocar crianças ou animais em situações de perigo. Explicar as razões da conexão do público com O Impossível apenas com esse argumento seria leviano, claro que o filme é muito mais que isso. Existe uma história de sobrevivência que, querendo ou não, comove a plateia, já que reconstitui um dos desastres naturais mais trágicos desse início de século, o tsunami na Ásia em 2004, mas as aspirações dos personagens são mais fortes que isso. Tudo o que Maria e Henry, personagens de Naomi Watts e Ewan McGregor, querem é se reencontrar - o casal se perde durante o evento -, sobreviver, já que não podem deixar seus filhos órfãos, e tirar seus três garotos daquele verdadeiro inferno.

Bayona adaptou a história a seus protagonistas. O Impossível é baseado nos relatos da espanhola Maria Belón, que estava passando o final de ano no país junto com sua família e viveu toda a via crucis que a personagem de Watts passa no longa. Em linhas gerais, O Impossível traz Naomi Watts e Ewan McGregor como um casal inglês em férias na Tailândia com seus três filhos. A família é surpreendida pelo tsunami que matou milhares de pessoas na região em 2004. Maria fica com Lucas, filho mais velho e rebelde do casal, enquanto Henry acaba preso na região do hotel com Simon e Thomas, os meninos mais novos. 


O roteiro de O Impossível não tem muita coisa de especial. Escrito por Sergio G. Sánchez, parceiro de Bayona em seu filme anterior, O Orfanato, o script não traça nenhuma linha mais profunda sobre a família protagonista. No entanto, Bayona contorna belíssimamente esse pretenso problema do filme com um olhar certeiro e consciente sobre os fatos e sobre o material que tem em mãos. O espanhol não cai no equívoco de transformar seu longa em um hiperbólico filme catástrofe ou um trabalho com cunho ambientalista exageradamente panfletário. O diretor concentra seus esforços na família protagonista da história, a perspectiva deles sobre o evento, e com muita simplicidade consegue estabelecer uma conexão instantânea com a plateia. Afinal, não é muito difícil não se identificar com os sentimentos que permeiam a família Bennett.

O diretor é beneficiado pelas interpretações comoventes do quinteto central, especialmente Naomi Watts, Ewan McGregor e o garoto Tom Holland, intérprete do filho mais velho. Watts novamente se submete a um desempenho físico e instintivo, com ecos de James Franco em 127 Horas. Mas o caso de Naomi é ainda mais extremo, o longa explora (no bom sentido da palavra) os sentimentos maternos. Há uma cena em específico que deixa todos arrepiados: Maria emerge das águas e se agarra em uma Palmeira para não ser levada pela corrente, instantaneamente, um choro pela dor física se confunde com seu desespero por achar que perdeu marido e filhos. Com bem menos tempo na tela que Watts, McGregor também é responsável por momentos arrepiantes na busca por sua esposa. A revelação, no entanto, fica por conta de Tom Holland, que encara toda a carga emocional exigida pelo roteiro com muita maturidade.


Por esse olhar, O Impossível encontra o tom adequado para tratar catástrofes naturais como essas. Mais do que o desafio de técnicos em reconstituir com fidelidade um evento, mostrando todo o poderio hollywoodiano em efeitos especiais, esses filmes carecem de um olhar humano. Afinal, em meio aos escombros e horrores - sim, porque Bayona está certo em retratar o aspecto sombrio de um evento como esse, já que assim ele deve parecer para quem o vivencia -, o drama de famílias, pessoas comuns, que de repente se veem tão frágeis e impotentes diante da própria natureza, deve prevalecer.



The Impossible, 2012. Dir.: Juan Antonio Bayona. Roteiro: Sergio G. Sánchez. Elenco: Naomi Watts, Ewan McGregor, Tom Holland, Samuel Joslin, Oaklee Pendergast, Geraldine Chaplin, Johan Sundberg, Marta Etura, Sonke Mohring, Ploy Jindachote. 114 min. Paris Filmes.

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