sábado, 30 de março de 2013

Drops: Jack - O Caçador de Gigantes

De X-Men 2 a Jack - O Caçador de Gigantes, muita coisa mudou na carreira do diretor Bryan Singer. De jovem promessa norte-americana, o diretor acumulou verdadeiros fiascos recentes, como a incompreendida homenagem Superman - O Retorno (um dos maiores prejuízos financeiros da Warner) e o pálido drama Operação Valquíria, com Tom Cruise. O brilho do Singer que recobrou o interesse dos estúdios pelas adaptações em HQ com X-Men, de 2000, e que nos inquietou com Os Suspeitos, filme de 1996, deu lugar a um diretor burocrático ofuscado pelo seu próprio ego. Jack - O Caçador de Gigantes é o sinal de mudança que precisávamos antes dele assumir novamente a franquia dos mutantes da Marvel (ele voltará ao comando da série na continuação de X-Men - Primeira Classe, prevista para estrear em 2014). O diretor enfrentou o mesmo problema no caixa que sofreu nos trabalhos anteriores, no entanto, esta aventura despretensiosa e bem ritmada já é um indicativo de que a carreira de Singer está de volta aos trilhos. Filmes como este são cada vez mais raros e, apesar de seguir o filão das adaptações dos contos de fadas (sim, é a versão live action e turbinada de João e o pé de feijão) é uma deliciosa releitura que deve ser prestigiada.


Jack, The Giant Slayer, 2013. Dir.: Bryan Singer. Roteiro: Chritopher McQuarrie, Darren Lemke e Dan Studney. Elenco: Nicholas Hoult, Eleanor Tomlinson, Ewan McGregor, Stanley Tucci, Ian McShane, Eddie Marsan, Ewen Bremner, Christopher Fairbank. 114 min. Warner.

Drops: A Hospedeira

Os filmes baseados nos romances de Stephenie Meyer podem até continuar levando legiões de fãs da autora aos cinemas, mas continuam sendo uma bomba. A Hospedeira segue o mesmo caminho trôpego de toda a "saga" Crepúsculo.  No filme, a Terra foi invadida por extraterrestres que se alojam no corpo dos seres humanos. A protagonista Melanie é uma dessas vítimas e passa a conviver com a alienígena batizada de Pregrina. No entanto, a Peregrina, que habita o corpo de Melanie, começa a questionar as funções que lhe são dada nessa civilização e foge do domínio extraterrestre em busca dos últimos humanos que restaram, entre eles o namorado de Melanie, Jared. Dirigido e roteirizado por Andrew Niccol, que começou a carreira no gênero de maneira promissora com Gattaca e desde então (com exceção de O Senhor das Armas) tem tropeçado projeto após projeto, A Hospedeira não sofre do descompasso entre adaptação e material original, como também acredito que este não era o problema de Crepúsculo, apesar de existir um grupo de defensores que acredite que sim. Os problemas de A Hospedeira, assim como acontece em Crepúsculo, está na base de toda a sua história, a construção de seu plot e das motivações de seus personagens, e por mais concessões que roteiristas e diretores façam, este é um problema que cabe ao material original (apenas um ponto de vista, folks). No mais, as implausibilidades do roteiro, os diálogos de um didatismo primário ("Você é você", diz um personagem em dado momento) e a cafonice e mal gosto visual predominam. Fora que ainda vemos a talentosa Saoirse Ronan pagar um mico clássico: travar diálogos com ela mesma. 


The Host, 2013. Dir.: Andrew Niccol. Roteiro: Andrew Niccol. Elenco: Saoirse Ronan, Diane Kruger, Max Irons, William Hurt, Jake Abel, Frances Fisher, Boyd Holbrook, Scott Lawrence, Lee Hardee, Emily Browning. 125 min. Imagem Filmes.

sábado, 23 de março de 2013

Drops: A Busca

Não tem para onde correr. Wagner Moura é o Ricardo Darín brasileiro. Está em todos os lugares e praticamente temos a sensação de existir somente ele como protagonista no cinema nacional. Mas quem ousa negar que Moura encara qualquer desgaste pelo excesso de exposição no meio com muita dedicação, talento e profissionalismo. Ele é ótimo, isso é que importa! Ator de talento nato, percorre bem qualquer gênero ou desafio imposto, um raro "produto" de consumo próprio e, futuramente, para exportação. Pode soar redundante, mas Moura, mais uma vez, supera qualquer expectativa positiva pelo seu trabalho em A Busca. O filme de Luciano Moura é um sensível drama familiar sobre o resgate e a reconstrução de laços afetivos esgarçados através da empreitada de procura de um pai por seu filho desaparecido. Direto em seus objetivos sem ser frio nas emoções, Moura, o diretor (que não é parente do seu protagonista) acerta nos mínimos detalhes e por deixar seus atores falarem por ele. Além do embasbacante desempenho de Wagner Moura, que vai desarmando e assim transformando seu personagem ao longo da narrativa, temos a sempre empenhada Mariana Lima, que vive a ex-esposa do protagonista (uma espécie de para-raios da família), e Lima Duarte em uma participação comovente.


A Busca, 2013. Dir.: Luciano Moura. Roteiro: Luciano Moura e Elena Soarez. Elenco: Wagner Moura, Mariana Lima, Brás Moreau Antunes, Lima Duarte, Germano Haiut, Alex Sander. 96 min. Downtown Filmes

domingo, 17 de março de 2013

Gênio indomável



A Garota traz um retrato nada agradável do mestre Alfred Hitchcock. Aos olhos da jovem Tippi Hedren, sua musa em Os Pássaros, ele é um homem doente e até perigoso


Em um dos intervalos das filmagens de Os Pássaros, a estreante Tippi Hedren divide com seu diretor, Alfred Hitchcock, o banco traseiro de um carro e é surpreendida por um beijo na boca. Rapidamente, Hedren empurra Hitchcock e sai atordoada do veículo, cambaleando na frente de toda a equipe do filme. Dias depois, vingando-se da desfeita da atriz, Hitch coloca Hedren em um cenário de um porão transformado em uma verdadeira gaiola. Na cena, a personagem de Hedren seria atacada por inúmeros pássaros que, sem a atriz ter a menor noção das intenções de seu diretor, eram reais e não protótipos com os quais a atriz contracenou durante boa parte das filmagens. Foram vários takes e Hedren saiu com ferimentos e traumas que a acompanharam por dias a fio.

Este é só um dos episódios relatados no telefilme da HBO A Garota, dirigido por Julian Jarrold, que conduziu o romance Amor e Inocência, no qual Anne Hathaway interpreta a escritora inglesa Jane Austen. A Garota  é baseado nos relatos da própria Tippi, portanto revela uma figura nada agradável do ícone do suspense Alfred Hitchcock. Com tintas fortes ou não, A Garota é um longa bem diferente de outro filme sobre Alfred Hitchcock em cartaz no Brasil, Hitchcock. Enquanto Sacha Gervasi procurou preservar o ídolo, Julian Jarrold não poupou esforços em mostrá-lo na sua pior faceta. Tornando Hitchcock uma figura cheia de falhas - e por mais que suspeitemos do teor tendencioso do material já que é um relato da Tippi - A Garota é eficiente no retrato humano deste personagem controverso. O filme de Jarrold não questiona a genialidade de Hitchcock como artista (quem o faria?), tampouco sua postura nada louvável com Hedren, mas não se acovarda em buscar a natureza do relacionamento que o diretor tinha com suas musas, representadas aqui pela então novata atriz de Os Pássaros.

Talvez por ser iniciante e, consequentemente, estar mais vulnerável ao assédio direto que as antecessoras Grace Kelly, Janet Leigh e Ingrid Bergman, Tippi Hedren conheceu esse outro lado de Hitchcock. Hedren teria ficado presa a Hitchcock por uma dívida que o diretor fazia questão de jogar na cara da atriz o tempo inteiro. Ao assinar contrato para fazer Os Pássaros, Hedren se comprometeu a ficar alguns anos vinculada ao diretor, um pacto que não permitiu sua ligação com qualquer outro projeto que não tivesse a assinatura de Hitch (traumas do diretor pela "esnobada" de Grace Kelly, que depois de se tornar princesa de Monaco jamais voltou a trabalhar com ele). Assim, nas palavras da própria Hedren, a atriz tinha uma profunda gratidão por Hitchcock, o homem que a apresentou como estrela de cinema para o mundo, mas também o detestava pois arruinou sua carreira, já que depois de Marnie, seu segundo e último trabalho dirigido por ele, foi relegada ao ostracismo em filmes de menor expressão.

No entanto, essa relação entre Hedren e Hitchcock não era tão simples assim, e Julian Jarrold frisa a natureza dessa dinâmica doentia. Se por um lado, Hedren passou por situações constrangedoras, por outro se formou como profissional graças a Hitchcock. Ou seja, ao mesmo tempo em que a jovem atriz tinha consciência do jogo doentio imposto por Hitchcock, se submetia a alguns de seus caprichos ao perceber que estava começando a colher os frutos dessa parceria, como a indicação ao Globo de Ouro de atriz revelação por Os Pássaros.

Toby Jones encontra o tom adequado para tornar seu Alfred Hitchcock uma figura problemática, mas humana, e não uma caricatura. Nesse departamento, seus esforços são melhores que os de Anthony Hopkins em Hitchcock, por exemplo, uma interpretação  prejudicada pela péssima maquiagem do longa de Gervasi. Sem artifício algum, Jones consegue entrar na mente do Hitchcock retratado em A Garota, sem externar julgamentos morais com um possível maniqueísmo. Intérprete da personagem título, Sienna Miller está magnética em cena (linda como sempre!) e expõe todos os danos emocionais sofridos por Hedren ao longo dos anos em que conviveu com Hitchcock. Outra presença essencial para o longa é Imelda Staunton, em desempenho discreto na pele de Alma, esposa de Hitchcock.

Ainda que exponha apenas um lado da verdadeira história por trás dos bastidores de Os Pássaros, Julian Jarrold tem um grande mérito com A Garota: não ter se intimidado pela força dos protagonistas de sua própria história. E não deixa de ser difícil, doído, cogitar a hipótese de que nossos ídolos têm falhas morais, mas talvez eles sejam fascinantes como personagens a serem conhecidos por conta disso. A verdade é que, assim como alguns dos protagonistas de seus filmes, Alfred Hitchcock exerce um fascínio em torno dos segredos de sua mente, fascínio do qual nem a própria Hedren escapa. 



A outra garota de Sienna

Conhecida pelo seu namoro com Jude Law, iniciado nos sets de Alfie - O Sedutor, Sienna Miller já mostrou que é mais do que um rostinho bonito antes de encarnar Tippi Hedren em A Garota. Em 2006, a inglesa interpretou outra musa de outro ícone pop, a personagem em questão era a modelo Edie Sedgwick, inspiração para Andy Warhol em seu famoso estúdio  "A Fábrica", no longa do falecido George Hickenlooper Uma Garota Irresistível (em inglês Factory Girl). O filme é bem interessante e traz como foco o relacionamento entre Warhol e Sedgwick,  além de revelar passagens importantes na carreira da modelo, como seu flerte com Bob Dylan e sua personalidade autodestrutiva, que a fez optar pelo caminho das drogas. Também oriunda do mundo da moda, Sienna destroçou qualquer descrença dos críticos sobre sua capacidade como atriz em Uma Garota Irresistível. Para quem não viu, vale a pena.



The Girl, 2012. Dir.: Julian Jarrold. Roteiro: Gwyneth Hughes. Elenco: Sienna Miller, Toby Jones, Imelda Staunton, Penelope Wilton, Conrad Kamp, Angelina Ingpen, Candice D'Arcy, Carl Beukes, Kate Tilley, Aubrey Shelton, Leon Clingman, Patrick Lyster. 91 min. Em exibição nos canais HBO

O matador e a coxa de frango

Deixando para trás as férias remuneradas de mais de uma década, Matthew McConaughey revela-se um grande ator e é a atração de Killer Joe


Um dos principais representantes da escola de diretores norte-americanos da década de 1970, William Friedkin ganhou notoriedade ao dirigir trabalhos como O Exorcista,  representante definitivo do gênero horror, e Operação França, pelo qual venceu o Oscar de melhor diretor em 1972. Nas décadas de 1980 e 1990 dirigiu alguns trabalhos com menor expressividade e repercussão, retornando nos anos 2000 com uma nova faceta. Em 2007, Friedkin apresentou Possuídos para as plateias de Cannes, um drama paranóico centrado na dupla Ashley Judd e Michael Shannon, baseado em uma peça do dramaturgo Tracy Letts, e roteirizado pelo próprio autor do original. O filme ganhou o boca a boca e conseguiu alguns admiradores, sobretudo pela performance de Ashley Judd, que nunca esteve tão intensa em cena. Friedkin retoma essa parceria agora em Killer Joe - Matador de Aluguel e dessa vez o fator surpresa é ninguém mais, ninguém menos que o eterno descamisado das comédias românticas Matthew McConaughey.

O filme conta a história de uma família texana cujo filho mais velho, Chris (Emile Hirsch), contrai uma dívida com traficantes e tem uma ideia completamente reprovável para quitá-la. Após saber que sua mãe fez um seguro de vida no nome de sua irmã equivalente a U$ 50 mil, Chris contrata um assassino profissional que trabalha como detetive na polícia local, o Killer Joe (Matthew McConaughey), para matar a matriarca. No entanto, o plano não sai como esperado e Chris passa a ser alvo não apenas dos traficantes como do matador contratado. 

Com doses cavalares de humor negro, o roteiro de Tracy Letts revela todas as fragilidades de uma família disfuncional, na qual qualquer demonstração de afeto é estranhamente confundida com a necessidade de sobrevivência, o "salvar a própria pele". O dramaturgo mais uma vez demonstra todo o seu cuidado com o tratamento de seus personagens e com a dinâmica cênica em momentos pontuais, acertando ao concentrar toda a ação final do filme em um único cenário, tornando tudo ainda mais tenso, sufocante e sujo. A exemplo do que fez em Possuídos, William Friedkin interfere o mínimo que pode e deixa-se levar pelo seu roteiro e pelas interpretações de seus atores, todos muito bons em seus respectivos personagens.

Nas mãos do ator Emile Hirsch, Chris traz toda a contradição desse núcleo familiar. Irresponsável e distante da figura materna, o jovem não consegue "bancar" a frieza necessária para sustentar sua própria decisão, demonstrando a instabilidade e imaturidade nata no comando da sua própria vida. Juno Temple é outra que brilha como o ponto aparentemente destoante dessa família, já que Dottie se preserva desse ambiente hostil em meio a redoma que criou para si, materializada em seu quarto repleto de motivos infantis e na  forma como se comporta, um comportamento que gera dúvidas (seria natural ou um mecanismo de defesa) já que a própria acaba se rendendo ao próprio ambiente em que vive no final das contas. Há também Thomas Haden Church, o patriarca tão contraditório em seu caráter quanto o próprio filho, e Gina Gershon, a madrasta manipuladora Sharla. Todos muito bem.

Mas é óbvio que a grande atração de Killer Joe é mesmo Matthew McConaughey, que sabiamente tem utilizado elementos de sua própria natureza a seu favor (o narcisismo em Magic Mike e sua origem texana aqui). McConaughey cria um tipo com intenções soturnas e personalidade bastante doentia para o matador Joe, um sujeito extremamente perigoso pela sua imprevisibilidade e frieza. No ato final, McConaughey toma o filme para si e monopoliza as atenções ao desestabilizar os demais personagens em uma sequência frenética e angustiante que culmina em uma catártica cena envolvendo uma coxa de frango frita.

Mais afeito ao minimalismo, mas jamais deixando de lado a exposição do que existe de pior na natureza humana, algo que faz desde a década de 1970, William Friedkin encontrou nos anos 2000 a solução ideal para a falta de interesse dos estúdios em seus projetos mais "autorais": o roteirista Tracy Letts, que lhe propõe sempre uma observação sobre personagens obscuros sem grandes despesas no processo de execução do filme. Todo o peso e a dramaticidade de O Exorcista, por exemplo, se transformaram em pessimismo irônico em Possuídos Killer JoeA reverberação em bilheteria pode ser menor, mas filmes como Possuídos e Killer Joe reavivaram a carreira de um cineasta essencial na história do cinema norte-americano,  enfim, do cinema mundial, com um envólucro e um processo de execução mais modesto, mas não menos interessante, pelo contrário.

McConaughey antes e depois: em Sahara (esquerda) e em Dallas Buyers Club (direita), com 17 quilos a menos.
Quem te viu, quem te vê!

Não sei se os tempos ao lado de Kate Hudson  em Um Amor de Tesouro cansaram ou foram estratégicos para que ele conseguisse uma estabilidade financeira e pudesse embarcar em empreitadas mais ousadas, mas o fato é que desde o ano passado Matthew McConaughey tem procurado trabalhar com diretores interessantes e assumido riscos em personagens mais complexos que o usual em sua filmografia. Já citamos o caso de Magic Mike, mas, ainda inédito no Brasil e pertencente à safra de 2012, McConaughey trabalhou com Lee Daniels (Preciosa) em The Paperboy, filme que rendeu a Nicole Kidman uma indicação ao Globo de Ouro. O ator ainda tem Mud, exibido em Cannes no ano passado e que rendeu elogios rasgados a sua interpretação nele, dirigido por Jeff Nichols (O Abrigo). Para completar, McConaughey está no novo filme de Martin Scorsese, The Wolf of Wall Street, ao lado de Leonardo DiCaprio, e em Dallas Buyers Club, no qual vive um homofóbico que foi diagnosticado como portador do HIV em 1986. Para este papel, McConaughey emagreceu 17 quilos e já se especula que a consequência de tamanho esforço e dedicação do ator pode lhe render sua primeira indicação ao Oscar em 2014.



Killer Joe, 2012. Dir.: William Friedkin. Roteiro: Tracy Letts. Elenco: Matthew McConaughey, Emile Hirsch, Juno Temple, Thomas Haden Church, Gina Gershon, Marc Macaulay, Gralen Bryant Banks, Danny Epper, Jeff Galpin, Charley Vance. 108 min. Califórnia Filmes.

sábado, 16 de março de 2013

Drops: Martha Marcy May Marlene


Um dos filmes mais comentados de 2011, Martha Marcy May Marlene, chega enfim para o público brasileiro. No entanto, como tem acontecido com bastante frequência em nosso país, o longa chega direto para o mercado doméstico de DVD e Blu-Ray. A fita conta a história de uma jovem que reaparece para sua irmã, a única pessoa que restou de sua família, após dois anos desaparecida. Logo em seguida, descobrimos que ela passou um tempo vivendo em uma comunidade alternativa com uma filosofia de vida que aos poucos vai se revelando um tanto quanto questionável. O "barato" aqui, semelhante ao que aconteceu com outro filme que também abordava a esquizofrenia, O Abrigo, é termos a mesma incerteza sobre a veracidade dos eventos que a protagonista tem. No entanto, confesso que aqui as pretensões do estreante  em longa metragens Sean Durkin, diretor e roteirista da produção independente, são mais nebulosas. Sua protagonista Elizabeth Olsen é quem ganha destaque ao assumir a responsabilidade de interpretar uma personagem instável e frágil emocionalmente, entregando discretamente os sinais do sério distúrbio psiquiátrico que apresenta.

Martha Marcy May Marlene, 2011. Dir.: Sean Durkin. Roteiro: Sean Durkin. Elenco: Elizabeth Olsen, Sarah Paulson, John Hawkes, Hugh Dancy, Brady Corbet, Maria Dizia, Julia Garner, Christopher Abbott, Louisa Krause, Adam Thompson. 102 min. Sony.

Fique de olho em... Elizabeth Olsen

Irmã mais nova das irmãs Olsen, Elizabeth Olsen chamou a atenção em 2011 pela sua interpretação em Martha Marcy May Marlene, sendo indicada a uma série de prêmios na temporada de premiações daquele ano, a mesma que rendeu a Meryl Streep o Oscar de melhor atriz por A Dama de Ferro. Ano passado esteve nos cinemas brasileiros com o suspense Poder Paranormal, ao lado de Robert DeNiro e Sigourney Weaver. Já tem engatados projetos interessantes como Kill Your Darlings, filme sobre a geração beat, e o esperado remake de Oldboy dirigido por Spike Lee.

Drops: A Fuga

A trama de A Fuga começa quando os irmãos Addison e Liza, personagens de Eric Bana e Olivia Wilde, sofrem um acidente de carro após assaltarem um cassino. Fugindo da polícia, cada um vai para um canto e Liza acaba conhecendo um boxeador recém saido da cadeia, vivido por Charlie Hunnam. Ela se apaixonando pelo rapaz quando sua intenção inicial era transformá-lo em isca para salvar a pele de Addison. Em meio a toda essa trama tem a policial Hanna, que está à caça dos fugitivos e enfrenta a tirania machista de seu pai, o chefe da polícia local. É no meio dessa bagunça do roteirista Zach Dean, que jamais oferece o aprofundamento psicológico sugerido, que o diretor Stefan Ruzowitsky tenta salvar seu filme do desinteresse inevitável da plateia. O melhor momento de todo o longa é deixado para os seus trinta minutos finais, quando todos os personagens entram em colisão, mas tudo é tão mal resolvido que ainda assim, no seu melhor momento, A Fuga falha. A melhor impressão deixada pelo longa é a interpretação de Eric Bana, que tenta conferir o mínimo de camadas ao grande vilão da história em uma atuação explosiva.


Deadfall, 2012. Dir.: Stefan Ruzowitsky. Roteiro: Zach Dean. Elenco: Eric Bana, Olivia Wilde, Charlie Hunnam, Kris Kristofferson, Sissy Spacek, Kate Mara, Treat Williams, Patrick Kerton, Kwasi Songui, John Robinson, Jocelynn Zucco. 95 min. Playarte.

domingo, 10 de março de 2013

Drops: O Quarteto

Dustin Hoffman escolheu para sua estreia na direção essa modesta comédia britânica ambientada em um retiro para artistas da Ópera chamada O Quarteto. O longa é morno e Hoffman não tem maiores pretensões de utilizar com esmero a linguagem cinematográfica em enquadramentos, fotografia ou montagem. O que ganha o público mesmo na fita são seus atores, especialmente o grupo que dá título ao filme,  composto por Maggie Smith, Pauline Collins, Tom Courtenay e Billy Connolly, guardando ainda espaço para a hilária participação de Michael Gambon como o diretor "estrela" do grupo de artistas aposentados. Ou seja, O Quarteto é um filme pouco memorável, mas merece reverência por manter na ativa esse grupo de talentosos atores que em circunstâncias naturais provavelmente seriam preteridos pela concorrência mais jovem, endossando a recente "onda" da terceira idade na sétima arte, tão bem iniciada com O Exótico Hotel Marigold, Um Divã para Dois e Amor.


Quartet, 2012. Dir.: Dustin Hoffman. Roteiro: Ronald Harwood. Elenco: Maggie Smith, Tom Courtenay, Pauline Collins, Billy Connolly, Michael Gambon, Sheridan Smith, Andrew Sachs, Dame Gwyneth Jones, Trevor Peacock, David Ryall. 98 min. Diamond Filmes.

Drops: O Amante da Rainha

O Amante da Rainha é mais uma daquelas produções europeias sobre os bastidores amorosos e políticos de um reinado do século XVIII e ninguém pode condená-lo por isso já que é extremamente eficiente em seus propósitos. Preciso e objetivo, o filme conta o caso amoroso entre a Rainha Caroline Mathilde e o médico pessoal e conselheiro do rei da Dinamarca na época, Christian VII. Como pano de fundo, a ascensão do Iluminismo sobre as monarquias europeias. O mais interessante nesse trabalho de Nikolaj Arcel, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, é o tratamento dúbio que dá às figuras masculinas, já que a admiração e o repúdio pelos dois vértices desse "triângulo amoroso" oscilam muito ao longo da narrativa. Portanto não é de se estranhar que, apesar do visual requintado,  o trio central é um dos maiores atrativos. O longa revela a talentosa Alicia Vikander, profunda no retrato da reprimida Caroline, e oferece mais um desempenho calculado de Mads Mikkelsen. Mas o destaque vai mesmo para Mikkel Boe Folsgaard como o infantil Rei Christian VII, um nome a ser lembrado.


En Kongelig Affaere, 2012. Dir.: Nikolaj Arcel. Roteiro: Nikolaj Arcel e Rasmus Heisterberg. Elenco: Alicia Vikander, Mads Mikkelsen, Mikkel Boe Folsgaard, Trine Dyrholm, David Dencik, Thomas W. Gabrielsson, Cyron Melville. 137 min. Europa Filmes.

sábado, 9 de março de 2013

Oz high tech

O Mágico de Oz é apenas um pretexto para Sam Raimi iniciar uma nova franquia de aventura juvenil com Oz - Mágico e Poderoso


Clássico de 1939, o musical O Mágico de Oz é tão poderoso no inconsciente popular que seu material original, o livro homônimo L. Frank Baum, mantém-se ofuscado diante de tamanha devoção dos fãs da história ao filme. O Mágico de Oz imortalizou Judy Garland como a doce Dorothy que, após ser capturada por um tornado no Kansas, onde vive com seus tios, é levada para o fantástico mundo de Oz, uma terra governada por um grande feiticeiro e cuja paz é constantemente ameaçada pelas ações das irmãs Evanora, apelidada de Bruxa Má do Leste, e Theodora, conhecida como a Bruxa Má do Oeste. Ao longo da jornada, Dorothy conhece um espantalho, um leão e um homem de lata, que anseiam ter um cérebro, coragem e um coração, respectivamente. Para isso, resolvem ir até a cidade das esmeraldas e fazer o pedido ao grande feiticeiro de Oz, que também é o único capaz de levar Dorothy de volta para casa.

Há anos que os estúdios almejam uma revisitada em Oz e, seguindo a atual tendência de Hollywood de reviver a época de ouro e os contos infantis somadas à onda dos prequels, Oz volta para os cinemas pelas mãos de Sam Raimi em Oz - Mágico e Poderoso. Para quem não sabe, Raimi foi responsável por revitalizar as adaptações de HQs nos cinemas no início dos anos 2000 com a bem-sucedida (e insuperável, que me perdoe Andrew Garfield e sua versão cafajeste do spidey) franquia Homem-Aranha, protagonizada por Tobey Maguire. O comando de Oz - Mágico e Poderoso ficou com a Disney, que logo tratou de contratar o diretor de arte de Alice no País das Maravilhas, longa de Tim Burton também do estúdio, Robert Stromberg, vencedor do Oscar por este trabalho e também pelos cenários de Avatar.

A ideia de Oz - Mágico e Poderoso é contar como o mágico charlatão Oscar foi parar em Oz e se tornou o líder daquele reino dominado por feiticeiras, macacos voadores e anões cantantes. Além disso, o projeto tinha como missão mostrar como a Bruxa Má do Oeste se transformou na figura horrenda, e verde, que vemos em O Mágico de Oz, e qual era o cerne das disputas entre ela, sua irmã Evanora e a Bruxa Boa do Sul, Glinda. A proposta pode parecer um tanto quanto questionável se pararmos para pensar que em O Mágico de Oz o grande barato era a dúvida que permanecia sobre a veracidade ou não daquele universo. Poderia soar como se Raimi e a equipe de Oz - Mágico e Poderoso tivesse passado uma borracha em todo o clássico de Victor Fleming. Mas, apesar de não definir isso em seu desfecho, Raimi e seus roteiristas não negam as interrogações de Fleming e  L. Frank Baum, sendo perfeitamente plausível que, assim como Dorothy 1) Oscar tenha caído em Oz como uma fuga para sua realidade ou; 2) tenha de fato sido levado por um tornado para uma terra mágica.

Resolvida essa peleja, vamos aos demais aspectos desse prequel. Tecnicamente e visualmente, o filme é um deleite e não deixa de ser admirável a decisão de Raimi de homenagear o clássico com a utilização do preto e branco e da razão de aspecto menor no Kansas e as cores e a expansão da imagem na tela quando o protagonista chega em Oz. Os primeiros trinta minutos de Oz -Mágico e Poderoso são imbatíveis, um verdadeiro sonho realizado ver um universo que povoou a imaginação de tantos cinéfilos com as possibilidades que a tecnologia atual proporcionam para o cinema. No entanto, todo esse encantamento cai por terra em virtude dos graves problemas narrativos do longa. O roteiro não se aprofunda no conflito de seus personagens e não consegue criar motes interessantes para os mesmos. Assim, a revisão do universo fica apenas na estética do filme e na concretização visual de episódios que já conhecíamos em O Mágico de Oz, para ser mais claro, as picuinhas entre Evanora, Theodora e Glinda.

James Franco até que se esforça como Oz, mas não consegue sair do tom burocrático e mecânico. Assim, a grande atração acaba sendo mesmo suas colegas de cena, Rachel Weisz, que se diverte com o estereótipo da vilã de contos infantis, e Michelle Williams, que consegue superar as dificuldades, pouco levantadas, de se interpretar uma personagem genuinamente boa como Glinda. Entre as duas está a mais irregular do trio, Mila Kunis, que não compromete de forma alguma o projeto, mas está anos luz de ser comparada à  eterna Margaret Hamilton, que transformou a Bruxa Má do Oeste em uma das maiores vilãs do cinema.

Não deixa de ser lamentável que um filme como Oz - Mágico e Poderoso não saia do "feijão com arroz" dos blockbusters atuais, tendo a frente um diretor que fez história assinando o comando de filmes tão fortes em suas respectivas assinaturas como The Evil Dead, Arraste-me para o Inferno e toda a primeira trilogia Homem-Aranha. Oz - Mágico e Poderoso é uma evidente reverência a O Mágico de Oz, mas não deixa de levantar suspeitas sobre o oportunismo de seus realizadores, uma vez que não consegue proporcionar uma brecha sequer de originalidade. Pior, por vezes banaliza um universo que jamais deveria ser banalizado. Como realização, tem suas qualidades, não são poucas. No entanto frusta quem tem a convicção de que Sam Raimi deveria e poderia ter ido um pouco além do arco-íris.



Oz: The Great and Powerful, 2012. Dir.: Sam Raimi. Roteiro: David Lindsay-Abaire e Mitchell Kapner. Elenco: James Franco, Mila Kunis, Rachel Weisz, Michelle Williams, Zach Braff, Bill Cobbs, Joey King, Tony Kox, Abigail Spencer, Bruce Campbell, Stephen R. Hart. 130 min. Buena Vista. 

sexta-feira, 1 de março de 2013

O mestre em suas excentricidades


Ao narrar o processo criativo de Psicose em Hitchcock, o diretor Sacha Gervasi opta pelo retrato folclórico e irônico do mito Alfred Hitchcock


Existem vários caminhos a serem seguidos por um diretor quando ele escolhe um projeto baseado em eventos reais e protagonizado por um personagem de fama mundial. Ele pode escolher aprofundar-se sobre este personagem, retratando-o da forma mais humana possível, em suas qualidades e nas ranhuras de seu caráter, uma perspectiva distanciada,mas não fria do protagonista, ou render-se à própria admiração que tem da figura biografada e do mito em torno dela, ou seja, da sua fama e não da sua pessoa. Sacha Gervasi, ao contar todo o processo de realização de Psicose, filme que revolucionou o suspense no cinema, acaba optando ora por uma via,  ora por outra em Hitchcock. A conhecida ironia e o humor negro do diretor também é uma arma para Gervasi contar seu filme e funciona em alguns momentos e em outros nem tanto. O grande problema é que ele acaba preferindo esconder-se como realizador atrás do folclore em torno de Hitch e esquece de aprofundar-se na curiosa e rica personalidade do diretor.

Antes de Hitchcock, Gervasi só teve experiências em ficção como roteirista. Ele foi o responsável pelo roteiro de O Terminal, de Steven Spielberg, e de A Ocasião faz o Ladrão, longa independente com Keanu  Reeves e Vera Farmiga que no Brasil foi diretamente para o mercado doméstico. Gervasi opta aqui por gostos duvidosos ao contar essa trama roteirizada John L. McLaughlin, um dos roteiristas de Cisne Negro, já que em situações limítrofes adota um humor deslocado e não envereda em um estudo mais minucioso da personalidade de Hitchcock. Claro que em alguns momentos esse diálogo com o próprio estilo do cineasta (uma espécie de metalinguagem) é muito bem utilizado, como na sequência de abertura e de desfecho que nos remetem à clássica série de TV mantida e apresentada por Hitchcock. No entanto, o tratamento que essa abordagem acaba dando para a relação estranha entre Hitch e sua esposa, sua obsessão pelas atrizes e, por vezes, até mesmo sua mesquinharia com elas (o caso de Vera Miles) não é nada pertinente. Assim como não é pertinente as passagens em que Hitch tem suas alucinações e confissões com Ed Gein, assassino que inspirou Norman Bates, o protagonista de Psicose.

Anthony Hopkins se esforça em sua composição. E realmente o inglês tem êxito na captura da voz e da linguagem corporal, ou a ausência dela já que o peso sempre foi um tormento na vida do diretor. No entanto, o ator é visivelmente prejudicado por uma maquiagem que o deixa sem expressão. Em momentos cruciais da trama, àqueles que exigem maior dramaticidade, Helen Mirren acaba se sobressaindo por não utilizar esses recursos e por fazer um retrato discreto, mas honesto (leia-se humano), de Alma Reville, esposa do diretor que apesar da devoção e do carinho que tinha pelo marido se anulou em diversos departamentos, mantendo-se à sombra de Hitch quando era figura crucial nos sets de filmagem e também sexualmente, já que o diretor, como afirmam alguns biógrafos, não tinha uma vida sexual muito ativa em função do seu peso e, dizem, realizava-se por meio das estranhas fantasias, nunca concretizadas, com as musas de seus filmes. A questão é que, a despeito dos esforços dos atores, Gervasi mantém-se na superfície dos dois tópicos, colocando seus personagens em uma espécie de redoma. Ao mesmo tempo em que levanta todas essas questões controversas, não vai além.

Há participações de Scarlett Johansson (Janet Leigh, a protagonista de Psicose), James D'Arcy (Anthony Perkins, que deu vida ao memorável Norman Bates), Toni Collette (maravilhosa como a assistente de Hitch), Danny Huston (prejudicado pelo personagem, um roteirista que flerta com Alma) e Jessica Biel, que talvez tenha o desempenho e a passagem mais interessante de todos os outros, dando vida a Vera Miles, atriz que viveu a irmã da personagem de Leigh em Psicose e que optou por formar uma família e ter uma vida pessoal estável ao invés do estrelato de outras musas de Hitch, como Grace Kelly. No entanto, a relação desses personagens com Hitch e suas características também são unidimensionais. O que não dá para negar é que independente dos vários tropeços da abordagem de Sacha Gervasi e da superficialidade do roteiro de McLaughlin, o interesse por Hitchcock é latente, já que é um tema que, folclórico ou não, sempre fascina as plateias. Por mais grosseiro que seja o tratamento, esse período do cinema norte-americano é fascinante e cercado de mitos. Mitos que Gervasi faz questão de manter em Hitchcock, mas que são apenas mitos e não dão conta da riqueza e da multidimensionalidade do verdadeiro Hitchcock e da verdadeira Alma Reville. 



Hitchcock, 2012, Dir.: Sacha Gervasi. Roteiro: John J.McLaughlin. Elenco: Anthony Hopkins, Helen Mirren, Scarlett Johansson, Toni Collette, Danny Huston, Jessica Biel, James D'Arcy, Michael Stuhlbarg, Michael Wincott, Richard Portnow, Ralph Macchio. 98 min. Fox