sexta-feira, 1 de março de 2013

O mestre em suas excentricidades


Ao narrar o processo criativo de Psicose em Hitchcock, o diretor Sacha Gervasi opta pelo retrato folclórico e irônico do mito Alfred Hitchcock


Existem vários caminhos a serem seguidos por um diretor quando ele escolhe um projeto baseado em eventos reais e protagonizado por um personagem de fama mundial. Ele pode escolher aprofundar-se sobre este personagem, retratando-o da forma mais humana possível, em suas qualidades e nas ranhuras de seu caráter, uma perspectiva distanciada,mas não fria do protagonista, ou render-se à própria admiração que tem da figura biografada e do mito em torno dela, ou seja, da sua fama e não da sua pessoa. Sacha Gervasi, ao contar todo o processo de realização de Psicose, filme que revolucionou o suspense no cinema, acaba optando ora por uma via,  ora por outra em Hitchcock. A conhecida ironia e o humor negro do diretor também é uma arma para Gervasi contar seu filme e funciona em alguns momentos e em outros nem tanto. O grande problema é que ele acaba preferindo esconder-se como realizador atrás do folclore em torno de Hitch e esquece de aprofundar-se na curiosa e rica personalidade do diretor.

Antes de Hitchcock, Gervasi só teve experiências em ficção como roteirista. Ele foi o responsável pelo roteiro de O Terminal, de Steven Spielberg, e de A Ocasião faz o Ladrão, longa independente com Keanu  Reeves e Vera Farmiga que no Brasil foi diretamente para o mercado doméstico. Gervasi opta aqui por gostos duvidosos ao contar essa trama roteirizada John L. McLaughlin, um dos roteiristas de Cisne Negro, já que em situações limítrofes adota um humor deslocado e não envereda em um estudo mais minucioso da personalidade de Hitchcock. Claro que em alguns momentos esse diálogo com o próprio estilo do cineasta (uma espécie de metalinguagem) é muito bem utilizado, como na sequência de abertura e de desfecho que nos remetem à clássica série de TV mantida e apresentada por Hitchcock. No entanto, o tratamento que essa abordagem acaba dando para a relação estranha entre Hitch e sua esposa, sua obsessão pelas atrizes e, por vezes, até mesmo sua mesquinharia com elas (o caso de Vera Miles) não é nada pertinente. Assim como não é pertinente as passagens em que Hitch tem suas alucinações e confissões com Ed Gein, assassino que inspirou Norman Bates, o protagonista de Psicose.

Anthony Hopkins se esforça em sua composição. E realmente o inglês tem êxito na captura da voz e da linguagem corporal, ou a ausência dela já que o peso sempre foi um tormento na vida do diretor. No entanto, o ator é visivelmente prejudicado por uma maquiagem que o deixa sem expressão. Em momentos cruciais da trama, àqueles que exigem maior dramaticidade, Helen Mirren acaba se sobressaindo por não utilizar esses recursos e por fazer um retrato discreto, mas honesto (leia-se humano), de Alma Reville, esposa do diretor que apesar da devoção e do carinho que tinha pelo marido se anulou em diversos departamentos, mantendo-se à sombra de Hitch quando era figura crucial nos sets de filmagem e também sexualmente, já que o diretor, como afirmam alguns biógrafos, não tinha uma vida sexual muito ativa em função do seu peso e, dizem, realizava-se por meio das estranhas fantasias, nunca concretizadas, com as musas de seus filmes. A questão é que, a despeito dos esforços dos atores, Gervasi mantém-se na superfície dos dois tópicos, colocando seus personagens em uma espécie de redoma. Ao mesmo tempo em que levanta todas essas questões controversas, não vai além.

Há participações de Scarlett Johansson (Janet Leigh, a protagonista de Psicose), James D'Arcy (Anthony Perkins, que deu vida ao memorável Norman Bates), Toni Collette (maravilhosa como a assistente de Hitch), Danny Huston (prejudicado pelo personagem, um roteirista que flerta com Alma) e Jessica Biel, que talvez tenha o desempenho e a passagem mais interessante de todos os outros, dando vida a Vera Miles, atriz que viveu a irmã da personagem de Leigh em Psicose e que optou por formar uma família e ter uma vida pessoal estável ao invés do estrelato de outras musas de Hitch, como Grace Kelly. No entanto, a relação desses personagens com Hitch e suas características também são unidimensionais. O que não dá para negar é que independente dos vários tropeços da abordagem de Sacha Gervasi e da superficialidade do roteiro de McLaughlin, o interesse por Hitchcock é latente, já que é um tema que, folclórico ou não, sempre fascina as plateias. Por mais grosseiro que seja o tratamento, esse período do cinema norte-americano é fascinante e cercado de mitos. Mitos que Gervasi faz questão de manter em Hitchcock, mas que são apenas mitos e não dão conta da riqueza e da multidimensionalidade do verdadeiro Hitchcock e da verdadeira Alma Reville. 



Hitchcock, 2012, Dir.: Sacha Gervasi. Roteiro: John J.McLaughlin. Elenco: Anthony Hopkins, Helen Mirren, Scarlett Johansson, Toni Collette, Danny Huston, Jessica Biel, James D'Arcy, Michael Stuhlbarg, Michael Wincott, Richard Portnow, Ralph Macchio. 98 min. Fox

Nenhum comentário: