domingo, 7 de abril de 2013

Insustentável cotidiano


Revelação da nova safra nacional, O Som ao Redor é uma crítica ao individualismo e à estratificação social velada nos condomínios da classe média brasileira









É difícil tomar as proporções de um novo movimento cinematográfico no tempo presente. Provavelmente só teremos a dimensão do que de novo o cinema do pernambucano Kleber Mendonça Filho (que terra fértil para cineastas!) em O Som ao Redor trará com o tempo. Por hora, pode-se dizer que o laboratório antropológico cinematográfico muda seu objeto de análise. A preocupação majoritária com as classes mais baixas nas favelas do Rio de Janeiro, iniciado com Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, cede lugar à claustrofóbica rotina dos silenciosos e sufocantes condomínios residenciais da classe média, aqui retratada no nordeste brasileiro, mas que se aplica a qualquer lugar. Mendonça Filho aposta no mesmo conceito de laboratório antropológico, mas aqui os "bichinhos" são outros. Neles estão as raízes de alguns dos nossos problemas.

Ambientado em um conjunto habitacional de prédios e casas de propriedade de uma família abastada - só por aqui, chega-se à primeira contradição -, O Som ao Redor mostra a tensão reinante na aparente calmaria rodeada por prédios com guarita e proteção 24 horas. A abertura de O Som ao Redor é um plano longo que de cara dá a tônica de todo o filme: duas crianças brincando no playgorund do prédio e se dirigindo à quadra, onde as funcionárias domésticas supervisionam os filhos das patroas. Antes disso, Mendonça Filho mostra imagens de arquivo do antigo Pernambuco que mostram os donos das grandes propriedades rurais e seus empregados. A situação se perpetuou, diferenciando-se pela insatisfação velada das classes mais baixas e pela prepotência também velada dos seus patrões (o que não significam que não se permitam a rompantes, e eles existem com muito mais frequência do que se imagina). Esta tensa relação entre as classes e entre os próprios condôminos, ironicamente mais preocupados com o bem estar individual (como mostra a excelente sequência da reunião de condomínio)  do que com o coletivo, é o tipo de dinâmica que Kleber Mendonça Filho quer tratar e que consegue executar com destreza em O Som ao Redor.

Também crítico de cinema - e nesse departamento um grande tapa na cara daqueles que superficialmente dizem que o crítico é uma figura que em nada acrescenta ao próprio processo do objeto de análise, só emite uma opinião que não merece ter grande importância e que é um artista frustrado -, Mendonça Filho aplica todo seu olhar aguçado para o cinema que os anos de carreira como crítico lhe proporcionaram, utilizando com esmero e inteligência as qualidades intrínsecas do audiovisual e tudo  que ele pode proporcionar como linguagem. Como exemplo, a cena inicial, já mencionada, mas também todas as metáforas visuais do longa. Do início ao fim, Mendonça Filho demonstra total domínio do meio utilizado para contar sua história e como não poderia deixar de ser a fotografia é elemento essencial nesse contexto.

O som também é elemento de destaque e proporciona a inquietação dos personagens com a presença do outro, seja com a presença física, no caso de Bia com o cachorro do vizinho, seja com o local e toda a carga histórica que ele traz, a visita de João e Sofia ao engenho de propriedade do avô dele. João, aliás, é um personagem emblemático. Trata-se da nova geração, aparentemente alheia a este clima de tensão proporcionado pela estratificação social, alguém que procura pôr em prática o discurso da igualdade entre patrões e empregados através de sutilezas no convívio doméstico. A leveza do protagonista é apenas uma aparência, ele compreende tudo o que permeia aquelas relações, talvez não tenha se dado consciência disso, elaborado esse raciocínio a ponto de realizar modificações mais expressivas. Reflexo da nova geração, apática e preocupada com os dilemas de sua própria existência.

Já que tocamos no personagem, cabe dar destaque ao trabalho do paranaense Gustavo Jahn, que aposta na introspecção e na camaradagem de João para compô-lo por intermédio de sutilezas gestuais. Outra personagem executada com destreza no filme é a dona de casa Bia, papel da interessantíssima Maeve Jinkings, um híbrido brasileiro de Laura Brown, Julianne Moore em As Horas, com Mildred Pierce, personagem de Kate Winslet na minissérie homônima da HBO, sem as devidas reviravoltas que as personagens citadas anteriormente dão nas respectivas tramas. Bia é sufocada por aquele cotidiano, aquela rotina doméstica com seus filhos e começa a apresentar sinais de inquietação com a prisão que as grades de sua própria casa representam para sua vida. Jinkings externaliza todas as inquietações de Bia com a mesma sutileza reveladora de Jahn. Aliás, esta é uma característica da direção de atores empregada por Mendonça Filho em O Som ao Redor. O diretor pauta-se na naturalidade e evita maiores cores no processo de composição dos personagens, uma decisão mais que acertada já que toda a tensão do filme é calcada no cotidiano.


Consciente a todo momento, Kleber Mendonça realiza um filme de sutilezas que pretende dizer muito mais do que nossos olhos vêem. O Som ao Redor é a tomada de consciência de relações permeadas por tensões  e injustiças, moldadas por antepassados. O cenário é diferente da época dos grandes engenhos, o que muda  é a hipocrisia reinante, a alienação e o comodismo da classe média que prefere esconder um problema ou fingir que ele não existe, ao invés de enfrentá-lo e provocar um movimento de mudança mais significativo. A esperança é que O Som ao Redor provoque esta inquietação e inspire outros cineastas a lançarem um olhar para esta situação, da mesma maneira que Cidade de Deus inquietou tantos outros no início dos anos 2000, provocando mudanças sensíveis no cenário que tinha como foco, apesar de muito  coisa ainda precisar ser feita. Muita coisa mesmo.




O Som ao Redor, 2013. Dir.: Kleber Mendonça Filho. Roteiro: Kleber Mendonça Filho. Elenco: Gustavo Jahn, Irandhir Santos, Maeve Jinkings, Irma Brown, Sebastião Formiga, Dida Maia, W.J. Solha, Lula Terra. 131 min. Vitrine Filmes

Nenhum comentário: