terça-feira, 30 de abril de 2013

Neuroses cinéfilas: Como é difícil falar de cinema hoje em dia



É o constrangimento máximo para qualquer cinéfilo, quase um prenúncio do Apocalipse. O momento em que a vontade primeira é incorporar a Bette Davis em seu papel mais irônico e condenar o indivíduo por sua simples existência como pretenso amante do cinema (sim, me permito a essas humanidades...). 

Não tem nada mais embaraçoso do que ser puxado para um papo dessa forma. "Hum, você gosta de cinema?". Você já olha ressabiado para o indivíduo, mas tenta ser sociável. Quem sabe, né? Anda tão raro encontrar cinéfilos hoje em dia. Vamos lá: "Sou sim". "Eu também!". Nossa que bacana, mais uma pessoa a desafiar-te intelectualmente, te sugerir aquelas raridades, tesourinhos de locadora. Daí o sujeito simplesmente destroi o seu castelo de areia impiedosamente, tal qual uma criança inocente, Chaves com Quico no lendário episódio de Acapulco. "Você já assistiu A Reconquista, com John Travolta? E Gigli - Contato de Risco, com Ben Affleck e Jennifer Lopez? Muito bons!". Difícil contra-argumentar uma afirmação dessas feita com tamanha efusão e expectativa de retorno. O problema não é a menção a um filme ruim, mas a menção a verdadeiras bombas cinematográficas, unanimidades. Uma coisa é a divergência de opiniões sobre obras que ensejam pontos de vista diferentes. Sobre estas, não há como negar, o debate e os contrastes são imprescindíveis e não vejo problema nenhum em se predispor a mudar de opinião, ver um filme não tão querido assim por um outro ângulo. Outra coisa é encarar desastres cinematográficos nos quais pouca, mas pouca coisa mesmo se aproveita, só de porre! 

Quem já não foi surpreendido com o mau gosto alheio? O que dizer numa hora dessas?

Particularmente, não sei para onde olho, dou um sorriso amarelor e quando me pegam nos meus melhores dias, consigo elaborar alguma resposta, ainda que a mesma seja frustrante para o outro. Começo com um "veja bem" aqui, meço umas considerações ali, deixo claro que se trata de um argumento pessoal... (claro, não quero dizer que dez em cada dez seres humanos conscientes abominam A Reconquista ou Gigli). Mas é claro que fica um embaraço no ar.

No entanto, a maturidade, que ainda não bateu na minha porta em toda sua plenitude (ainda tenho muito que aprender), me fez ver que nem tudo na vida se resume a afinidades cinéfilas. Tenho amigos queridos que simplesmente não sabem absolutamente nada de cinema, mas são verdadeiras almas gêmeas, me divertem, inspiram e me confortam com suas considerações sobre a vida, seus conselhos e um incrível bom senso, serenidade e humor. Me ensinam coisas sobre as quais não tinha familiaridade, me abrem janelas. É o que mais prezo.

Então, hoje me sinto mais confortável a dar seguimento nas conversas com os apaixonados por A Reconquista, Gigli e outras bombas que profanam a cinefilia, sem preconceitos. Quem sabe não é uma oportunidade para mostrar o que existe de bom na sétima arte, algo que particularmente julgo ter o mínimo de domínio? É lindo ver desabrochar o interesse por algo tão mágico e transformador quanto o cinema. E talvez esse ser de gosto exótico me mostre coisas que eu também não conhecia ou mesmo coisas que julgava conhecer. 

6 comentários:

Stella Daudt disse...

Que simpático, Wanderley, é uma ótima sensação quando crescemos em tolerância! Não tenho os seus conhecimentos sobre cinema e ainda sonho fazer um curso, antes que meu tempo acabe. Posso dizer que quase fui xingada por sugerir "Os Panacas" para uma prima sem o mesmo senso de humor. Adoro suas críticas, acho que não vi "Gigli" e mal me lembro da "Reconquista", apesar do John Travolta.

Wanderley Teixeira disse...

Então, Stella. Nem tenho esse conhecimento todo. Pelo contrário, tenho plena consciência de que ainda tenho um caminho longo pela frente, inclusive na minha formação profissional, q tá vinculada a área. E todo dia aprendo um pouco, inclusive com essas conversas como falei. E esse Os Panacas q vc falou é aquele com Steve Martin e Eddie Murphy. Se for, adoro! kkkkkkkk
Mas me refiro a esse choque mesmo pela aceitação de filmes ruins, mas muito ruins. Tem alguns títulos q são marcados mesmo pela diversidade de opiniões a respeito e acho isso absolutamente saudável. Diálogo é importante.
Mas muito obrigado, querida. Tb gosto muito do seu trabalho no By Star! ;)

Stella Daudt disse...

Acho que não estávamos falando do mesmo filme, Wanderley. Me enganei e coloquei o nome no plural. Aquele que minha prima odiou é "O Panaca" (The Jerk), do Carl Reiner.

Mas o que eu mais adorei foi a última frase de sua resposta acima. Obrigada pelo carinho, você é um amor! :-)

Wanderley Teixeira disse...

Esse eu acho q naum vi, Stella.

Que é isso... Vc merece! ;)

Marcela Gelinski disse...

Gostei dessa análise da situação atual, Wan. E acredito que é por ai mesmo que as coisas caminham. Eu sou da filosofia de que todo filme tem algo a acrescentar, nem que seja apenas o nome de uma cidade ou uma única cena com fotografia bonita. Dificilmente (exceções infelizmente existem) eu vou sentir que perdi meu tempo. E acredito também que discordar é muito bom para as pessoas envolvidas. Que chato seria se todos dissessem que tal filme é inspirador e o outro tal é insuportável. Espero que isso nunca aconteça. Mesmo quando alguém diz que ama um filme que eu acho o lixo do cinema, considero os pontos da pessoa. Pode ser que ela tenha enxergado algo que simplesmente me passou despercebido.
E sim, concordo muito com você quando diz que o cinema é um aprendizado constante. Eu espero ainda ler muito sobre o fato, estudar muito sobre isso. Até porque, sou uma mera iniciante do assunto no quesito de expressar opiniões. E espero, sinceramente, chegar um dia no seu patamar de conhecimento sobre o assunto (olha a responsabilidade de virar exemplo, huauhahuahua).
Mas acho que o melhor de tudo mesmo é conseguir encontrar alguém que esteja disposto a discutir sobre cinema. Acredito que isso, muito além dos livros, é que vai amadurecendo a gente com relação ao mundo cinematográfico. =)

Wanderley Teixeira disse...

Ainda tenho muito que aprender, Cela. Muito mesmo...
Ainda bem q a maioria entendeu o espírito do texto. Fiquei com medo de que achassem q estava sendo arrogante... Tanto que demorei para publicá-lo e depois de publicá-lo cheguei a tirar o post do ar.
Mas vc está certa. A gente sempre aprende algo com os filmes, mesmo os ruins. Gosto dessa sua maneira positiva e otimista de ver o cinema. É algo louvável mesmo.