domingo, 21 de abril de 2013

Relações perigosas

O Dia que durou 21 anos descortina as ligações entre o governo norte-americano e grupos militares brasileiros que engendraram o golpe de 1964


Há muito que se ouve sobre a influência dos EUA na ditadura militar no Brasil. No entanto, graças aos entraves costumeiros de nosso país, muita coisa documentada continua escondida e intocável aos olhos daqueles que querem se debruçar sobre a história brasileira, principalmente sobre a parte mais vergonhosa da nossa história. O diretor Camilo Tavares teve que ir até os EUA para buscar toda essa base documental que liga os pontos apresentados no documentário O Dia que durou 21 anos, curiosamente o país que contribuiu para a instauração de um regime anti-democrático na América Latina,  comprovando as tramas que tiveram como partes os presidentes dos EUA John Kennedy e Lyndon Johnson, intermediados pelo embaixador norte-americano Lincoln Gordon, e os militares na derrubada do presidente João Goulart no início dos anos de 1960.

O filme começa quando Goulart dissemina no Brasil suas propostas de reforma agrária que acabam tendo acolhida por parte da população. Concomitantemente o governo de Fidel Castro em Cuba consolida-se como o grande temor dos EUA, a potência não queria que governos populistas tomassem conta da América Latina e com isso interferissem em suas relações de dominação com esses países. Essas tensões, todas por debaixo do pano, servem para os EUA começarem a pensar em uma forma de controlar a independência e avanços futuros do Brasil. Intermediados pelo embaixador Lincoln Gordon, os EUA começam a dialogar com grupos militares mais conservadores a fim de que estes possam agir em nome dos interesses de ambos: tirar Goulart do poder e assumir o controle sobre o crescente movimento esquerdista que começava a tomar forma no Brasil.

Toda essa trama é mostrada com objetividade, articulação e ritmo por Camilo Tavares, que assume o tom conspiratório da fita, apesar de não se tratar de uma conspiração sem fundamento, tudo é comprovado pelo documentarista através de documentos e depoimentos montados com extrema eficácia ao longo do filme. Tavares cria uma espécie de thriller documental que permite a fluidez narrativa e o envolvimento e interesse do espectador pela trama, ainda que se tenha noção de alguns meandros dela. O diretor ainda tem como mérito assumir um juízo sobre os fatos demonstrados sem parecer panfletário. Tavares toma partido elegantemente, sem pretender fazer lavagem cerebral no espectador, recurso do qual alguns documentaristas não abrem mão.

O Dia que durou 21 anos é um relato amadurecido sobre uma época ainda obscura no Brasil. Uma época marcado por fatos que, curiosamente, foram comprovados neste documentário através da disponibilidade de arquivos oficiais do governo norte-americano, aquele mesmo governo que foi responsável pelo regime castrador que comandou o Brasil por mais de uma década. Ainda que seja um ponto de vista de bastidores de gabinete, o longa dá uma dimensão do que foi aquele período para o país e nos faz refletir sobre até onde pode ir a manipulação de uma massa refém de ideologias e promessas truncadas. Desses 21 anos não vividos, dou graças aos céus.




O Dia que durou 21 anos, 2013. Dir.: Camilo Tavares. Entrevistas: Flávio Tavares. 77 min. Pequi Filmes.

2 comentários:

Stella Daudt disse...

Wanderley, fiquei curiosa para ver esse documentário, mas minha percepção dos fatos deverá ser diferente do diretor. Me arrepia só de pensar que, por pouco, muito pouco, não tivemos o mesmo destino dos cubanos, que ainda vivem numa ditadura.

Wanderley Teixeira disse...

Na verdade, Stella, era uma percepção norte-americana de que o Goulart pudesse ser um líder como Fidel. Uma visão distorcida...