sábado, 25 de maio de 2013

Parem as máquinas!


Vocês já devem imaginar que atualizar sozinho semanalmente um blog como tenho feito desde 2006 é tarefa árdua, para poucos! Sobretudo quando não há retorno financeiro e outras atividades acabam engolindo seu tempo e, principalmente, sua energia.

Encontro-me esgotado e até mesmo desmotivado para continuar com o Chovendo Sapos... Por quê? Para quem? Talvez para mim mesmo. Quem quer que seja que se preocupe com isso, calma! É momentâneo. Crises que batem nos blogueiros cinéfilos de tempos em tempos, sobretudo em tempos como este.

O fato é que compromissos extra-blog me impedem de escrever neste espaço até o início de junho, tempo o suficiente para pensar nas novidades que planejei para este espaço no segundo semestre e para o circuito cinematográfico mostrar-se mais interessante e inspirador. Quem sabe com a estreia de O Grande Gatsby...

Até!

sábado, 18 de maio de 2013

Equilíbrio na balança

Anunciado como o último trabalho de Steven Soderbergh nos cinemas, Terapia de Risco é um thriller que não abre mão do seu teor autoral


Em 2011, o cineasta Steven Soderbergh, vencedor da Palma de Ouro por Sexo, Mentiras e Videotape e do Oscar por Traffic, anunciou aos veículos de comunicação dos EUA sua aposentadoria. O diretor, que praticamente inaugurou o cinema autoral independente norte-americano juntamente com Quentin Tarantino no início da década de 90 e que sempre manteve a produção regular, e difícil de ser alcançada, de um filme por ano, deixaria o cinema. O motivo? Soderbergh simplesmente queria mudar de ares, testar sua veia artística em outra área, as artes plásticas. Se o diretor manterá sua decisão e não nos "surpreenderá" com um retorno relâmpago ainda é incerto afirmar. Por ora, o último trabalho dele nas telonas é Terapia de Risco (Soderbergh ainda tem Behind the Candelabra, telefilme da HBO com Michael Douglas e Matt Damon que passará ainda neste ano no canal).

Roteirizado pelo mesmo Scott Z. Burns que foi responsável pelo roteiro de Contágio, filme de 2011 de Soderbergh que tratava sobre as origens e desdobramentos de uma epidemia nos moldes da gripe aviária, Terapia de Risco aborda a crescente indústria farmacêutica da depressão. Com a roupagem de um thriller, cheio de teorias conspiratórias e reviravoltas de prender o fôlego, Terapia de Risco põe o dedo na ferida sem maiores alardes, sensacionalismo. O longa acompanha a vida de uma jovem depressiva chamada Emily que tenta colocar a vida em ordem após seu marido sair da prisão. Emily acaba no consultório do Dr. Jonathan Banks, que passa a lhe receitar medicamentos para que ela consiga lidar melhor com seus próprios conflitos. No entanto, a paciente acaba cometendo um ato impensado após consumir altas doses de um dos medicamentos e o caso acaba tomando proporções inimagináveis, sendo levado até ao tribunal, onde é questionada a postura profissional do médico.

Sabiamente, Burns e Soderbergh deixam claro desde o primeiro instante que a origem de toda a celeuma não está propriamente no medicamento ou no uso dele. Terapia de Risco condena em seu discurso a recomendação clínica de medicamentos sem responsabilidade e ética pelos profissionais. Assim, o problema não está na substância em si, mas sim na postura do profissional que poderá decidir por servir ao seu cliente ou por servir aos interesses financeiros de um laboratório. Soderbergh tem consciência do alcance de voz que sua obra pode ter, ele e seu roteirista evitam ser engolidos pelo natural e necessário teor conspiratório da trama de Terapia de Risco e apontam os verdadeiros culpados do consumo desproporcional desses medicamentos.

Não deixa de ser uma pena que Soderbergh se despeça do cinema. Principalmente porque agora o diretor finalmente conseguiu aliar o entretenimento com sua veia autoral. Soderbergh sempre foi extremo e por vezes distante da audiência. Assim, seus trabalhos resultaram em filmes pedantes, como Che ou Confissões de uma Garota de Programa, ou passatempos frívolos e fetichistas em virtude do elenco estelar que sempre conseguiu atrair, o caso das duas sequências de Onze Homens e um Segredo. Desde 2011, Soderbergh conseguiu conceber filmes inteligentes, fluidos e capazes de manterem-se fieis à assinatura do diretor. Desta safra vieram Contágio, À Toda Prova e Magic Mike. Terapia de Risco encerra a lista como um filme que se mantém em seu ritmo e tem coerência atmosférica e narrativa.

Nenhum dos personagens é o que aparenta ser e é interessante notar como o elenco administrou a dualidade de cada um deles, revelando através de sutilezas a real natureza de suas personalidades. Rooney Mara mais uma vez personifica com destreza uma típica garota-problema (a atriz viveu a hacker Lisbeth Salander de Millenium - Os Homens que não Amavam as  Mulheres, filme que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz). Desta vez, a origem dos problemas da personagem de Mara é outra e a atriz sabe bem definir os limites entre este trabalho e seu personagem anterior. Igualmente interessante, Jude Law interpreta o psiquiatra da protagonista, um trabalho que equipara-se por excelência a recentes trabalhos do ator, me refiro a Anna Karenina e Contágio. Law confere ao personagem uma retidão de caráter inabalável. No entanto, quem surpreende mesmo é Catherine Zeta-Jones. A atriz dá vida à antiga psiquiatra de Emily, uma mulher que aos poucos revela todas as suas verdadeiras intenções sobre o caso. Com o tom de voz sempre sereno e persuasivo, Zeta-Jones tem uma presença cênica aqui como há anos não se via. Já Channing Tatum tem uma pequena e correta participação no longa.

Eficiente como realizador de thrillers eminentemente cerebrais, Steven Soderbergh tira Terapia de Risco do lugar comum e do discurso panfletário, preconceituoso e tendencioso contra o tratamento psiquiátrico, na verdade, nem tem a pretensão de lançar bandeiras, mas sim de mexer com a engrenagem crebral das plateias e lançar questionamentos sobre o tema que serve de pano de fundo para a trama. Na parceria com o roteirista Scott Z. Burns, o diretor, perdido em sua própria linguagem narrativa após Erin Brokovich e Traffic, parece ter encontrado a dosagem certa na tentativa de conseguir dialogar com todos os públicos, tornando seus filmes mercadologicamente atraentes, sem abrir mão de seu compromisso como artista. Se Terapia de Risco for realmente a despedida de Soderbergh, seria o caso dele repensar sua decisão. Fico imaginando o que mais ele poderia oferecer para nós nesse interessante e novo caminho que ele encontrou para contar suas histórias.



Side Effects, 2013. Dir.: Steven Soderbergh. Roteiro: Scott Z. Burns. Elenco: Jude Law, Rooney Mara, Catherine Zeta-Jones, Channing Tatum, Vinessa Shaw, Ann Dowd, Mamie Gummer, Mitchell Michaliszyn, Scott Shepherd, Michelle Vergara Moore. 106 min. Diamonds Filmes.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Drops: Giovanni Improtta

Criticar Giovanni Improtta alegando que o filme é mais um produto Globo Filmes que não tem o menor pudor de se apropriar da linguagem televisiva no cinema para tentar trazer às plateias um produto mais digerível é chover no molhado. O desconforto vem pelo fato de que seu realizador José Wilker é notoriamente conhecido por criticar propostas hollywoodianas que, somente pelo seu critério de julgamento, tem um viés exclusivamente mercadológico, a saber King Kong e A Origem, só para listar os casos que me recordo de terem sido listados pelo diretor e ator desta comédia. Wilker traz de volta seu conhecido personagem da novela Senhora do Destino, que por sua vez já tinha sido o protagonista de um livro de autoria do autor da telenovela, Aguinaldo Silva. Apesar de Wilker dominar como ninguém o personagem, sendo o único motivo para se assistir a este filme, Giovanni Improtta tem um roteiro disperso que não sabe focar em uma só trama e personagens periféricos totalmente sem carisma.


Giovanni Improtta, 2013. Dir.: José Wilker. Roteiro: Mariana  Elenco: José Wilker, Andrea Beltrão, André Mattos, Milton Gonçalves, Hugo Carvana, Othon Bastos, Thelmo Fernandes, Jô Soares, Gregório Duvivier. 100 min. Sony

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Drops: Amor Profundo

Na Londres do pós-Segunda Guerra, uma esposa deixa o marido, um famoso juiz, após se apaixonar perdidamente por um impetuoso piloto da Força Aérea. O tempo passa e todo o amor que poderia ser inebriado pela felicidade se desmorona com os inevitáveis obstáculos do dia-a-dia. Ele sem rumo, perdido em sua própria identidade com o fim da guerra, e ela não conseguindo suprir sua inevitável instabilidade emocional. Assim como acontece em Amor, de Michael Haneke, o amor em Amor Profundo, nova adaptação da peça de Terence Rattigan, desta vez dirigida e roteirizada por Terence Davies, tem muito mais relação com o mútuo sacrifício do que com os ilusórios eternos picos de felicidade dos relacionamentos comumente idealizados no cinema. E assim Hester, personagem de Rachel Weisz, entende que conviver com a fragilidade emocional de Freddie Page, Tom Hiddleston, o vilão Loki de Os Vingadores e Thor, faz parte do "pacote". É uma conclusão racional e todos os envolvidos na situação são maduros o suficiente para aceitar suas limitações emocionais sem estabelecer culpados ou vilões para os desfechos melancólicos. Mas é claro que é inevitável que todos saiam em frangalhos dessa experiência. A condução do filme é delicada, ainda que um tanto quanto distante e artificial. O destaque vai mesmo para a excelente parceria entre Rachel Weisz e Tom Hiddleston, estupendos em seus respectivos papeis.


The Deep Blue Sea, 2012. Dir.: Terence Davies. Roteiro: Terence Davies. Elenco: Rachel Weisz, Tom Hiddleston, Simon Russell Baele, Ann Mitchell, Karl Johnson, Jolyon Coy, Sarah Kants, Harry Hadden-Paton, Oliver Ford Davies, Barbara Jefford. 98 min. Imagem Filmes.

sábado, 11 de maio de 2013

Por mais delicadeza


Ferrugem e Osso mostra de que maneira recobramos a sensibilidade no mundo áspero e cruel em que vivemos: através da dor


Viver no século XXI não é fácil. As experiências cotidianas e as decepções com os relacionamentos nos tornam inflexíveis, duros, frios, secos. Em contrapartida, a sensibilidade que julgávamos perder diante da  frustração com a humanidade volta e meia nos mostra ser necessária, é o que nos diferencia enquanto animais na Terra. O francês Ferrugem e Osso, sexto longa-metragem de Jacques Audiard, diretor de O Profeta, trata sobre isso, sobre a necessidade de delicadeza no mundo e de como constatamos isso, infelizmente, por meio de eventos traumáticos. 

O eixo do filme é o relacionamento entre Stéphanie e Ali, vividos pela francesa Marion Cotillard e pelo belga Matthias Schoenaerts, este último um verdadeiro trator em cena. Stéphanie é uma treinadora de orcas que perde as pernas após um acidente durante uma apresentação com os animais no parque aquático em que trabalha. Já Ali é um segurança particular que está começando a estabelecer laços afetivos com o filho e que nas horas vagas participa de brigas de rua.

Stéphanie e Ali são indivíduos extremamente endurecidos pela vida. As coisas começam a mudar para Stéphanie após o acidente e ela começa a perceber como é importante  estabelecer e manter laços afetivos, percebe que os relacionamentos amorosos não são só uma necessidade física satisfeita através do ato sexual. Ali, igualmente embrutecido pela vida, ainda não se deu conta completamente disso, apesar de seu contato com Stéphanie começar a lhe abrir novas possibilidades. Ele é um homem que só consegue expressar seus sentimentos, sejam positivos ou negativos, através da violência. O personagem só muda drasticamente de postura no desfecho do longa quando um acontecimento traumático lhe toma de surpresa e o faz acordar para as pessoas que ama e perceber quanto é importante mantê-las perto de si. A vida é muito curta e muitas vezes pode ser muito tarde para reparar determinados equívocos, dizer palavras não ditas por vergonha de julgamentos alheios... A vida e seus percalços certamente nos tornam mais fortes, mas não duros e insensíveis. Pelo contrário, pode nos ensinar o caminho da delicadeza antes perdida.

Jacques Audiard, como já demonstrou em sua filmografia, é um diretor que tende a ter um olhar seco com seus personagens e com os universos que costuma retratar. O mais interessante do seu caso em Ferrugem e Osso é que a mesma transformação sofrida por Stéphanie e Ali ao longo da projeção parece afetar o cineasta, que encontra a delicadeza em um universo inicialmente rude. Marion Cotillard carrega essa personagem com bravura e dignidade, sendo capaz de revelar as transformações na forma com que Stéphanie passa a enxergar o mundo através de sutilezas, uma marca da atriz. Já Matthias Schoenaerts é indubitavelmente a grande surpresa do filme. Para quem não o conheceu em Bullhead, candidato ao Oscar de melhor filme estrangeiro pela Bélgica em 2012, é pego de sobressalto com uma performance exemplar que nos faz lembrar do Stanley de Marlon Brando em Uma Rua Chamada Pecado e do Jake La Motta de Robert DeNiro em Touro Indomável. O desempenho de Schoenarts é físico e por vezes racional, mas também capaz de explosões pontuais que gradualmente desnudam o personagem diante dos olhos do espectador. Exemplar.

Através da força do desempenho de seus dois protagonistas, Jacques Audiard consegue o êxito da sua proposta. Nunca antes um filme do diretor esteve tanto nas mãos das interpretações de seus atores como Ferrugem e Osso. Marion Cotillard como Stéphanie e Matthias Schoenaerts como Ali foram responsáveis por conseguir mostrar com muita sensibilidade o renascimento e a redenção de dois personagens desacreditados em seus potenciais para amar. Assim como Ali e Stéphanie gradualmente se transformam ao longo da projeção graças à interpretação da dupla, Jacques Audiard quebra a couraça de seu filme e se rende aos dois. Uma transformação tão bonita de se ver quanto a que o filme propõe para o espectador com muita sutileza e e pouquíssima pompa.




De Rouille et D'os, 2012. Dir.: Jacques Audiard. Roteiro: Jacques Audiard e Thomas Bidegain. Elenco: Marion Cotillard, Matthias Schoenarts, Armand Verdure, Céline Sallette, Corinne Masiero, Bouli Lanners, Jean-Michael Correia, Mourad Frarema, Yannick Choirat. 120 min. Califórnia Filmes.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Eu não te amo mais, eu não te amo mais

Inspirado na canção "Olhos nos olhos", de Chico Buarque, o cearense Karim Aïnouz presenteia Alessandra Negrini com um raro momento de protagonismo feminino no cinema nacional atual em O Abismo Prateado


Não é de hoje que canto aqui no blog que não há espaços suficientes para histórias femininas. Enfim, tramas protagonizadas por mulheres maduras, personagens que conduzem as histórias e cujos demais personagens transitam sobre sua órbita. No caso brasileiro, essa situação é ainda mais perceptível, o cinema ainda é um espaço eminentemente masculino. E se já tivemos musas (não apenas no acepção sexual do termo) como Vera Fischer, Sônia Braga, Cláudia Ohana, Fernanda Torres e Fernanda Montenegro, de lá para cá, os nomes nacionais que mais se sobressaem são os de Wagner Moura, Selton Mello, Rodrigo Santoro e João Miguel. Nada contra, mas o universo feminino é infinitamente mais rico, complexo e dramático, consequentemente, mais interessante. Mulheres têm feridas abertas, enquanto homens tentam ocultá-las por receio de represálias sociais. Seus universos tendem a ser mais pragmáticos, secos, enquanto os delas possuem mais tons e camadas.

Dito isto, o cineasta cearense Karim Aïnouz, de Madame Satã e O Céu de Suely, se inspirou em uma das mais conhecidas canções de Chico Buarque, um compositor conhecido por entender como ninguém as emoções femininas, para conceber O Abismo Prateado. Essa canção é "Olhos nos olhos". O drama sobre uma mulher abandonada pelo marido que passa madrugada afora tentando assimilar sua atual condição é o centro da narrativa do filme. Violeta é uma dentista que aparentemente vive um relacionamento estável com seu marido Djalma. Em um determinado dia, subitamente Djalma abandona mulher e filho sem ter ao menos a coragem de comunicar sua decisão pessoalmente para ambos, deixando apenas um recado na secretária eletrônica do celular de Violeta. Desesperada e sem entender a atitude do marido, Violeta passa a madrugada vivenciando a dor desse abandono e relutando em aceitar o fim de um casamento que julgava perfeito.

O "abismo prateado" do título diz respeito à madrugada que serve de período de ambientação e cenário para o filme. Durante toda a projeção, Aïnouz distribui entre os frames obviamente escuros pontos luminosos através dos faróis dos carros, da espuma do mar que bate na areia e das luzes dos postes. A protagonista passa por um verdadeiro calvário, tentando buscar uma explicação para as últimas palavras deixadas no celular e que ecoam na sua cabeça, "eu não te amo mais". A madrugada amplifica todo o sofrimento de Violeta, afinal é nela que ficamos, para o bem e para o mal, a sós com nossos pensamentos. No entanto, ao mesmo tempo em que passa por todo esse tormento, existe uma hora em que o desespero dá lugar à serenidade, as lágrimas secam. E é nesse momento que Violeta conhece um jovem pintor e sua esperta filha. Esse encontro faz com que Violeta encontre seu eixo e sua dignidade enquanto mulher.

A condução de Aïnouz em O Abismo Prateado é irrepreensível. O cineasta opta pelo naturalidade nas atuações e acompanha cada mínimo, e revelador, detalhe dos seus atores com pouquíssimos cortes em sequências que priorizam os gestos ao invés dos diálogos. Existe uma coerência entre a fotografia, a direção e o roteiro que tornam clara e poética a proposta do filme e dimensionam todos os estágios emocionais da protagonista , algo que atesta o domínio que Aïnouz tem da linguagem cinematográfica, cada vez mais raro entre cineastas. Há momentos angustiantes e outros completamente secos que culminam com um final de emoções à flor da pele.

Claro que para que tudo desse certo, Karim Aïnouz teria que contar com uma grande atriz para conduzir Violeta ao seu complexo, porém simples (humano), mar de emoções. Alessandra Negrini comanda o filme tornando a dor de Violeta concreta e espontânea. O esforço da atriz é ainda mais louvável se pensarmos nos poucos momentos de diálogos que o filme tem e que Negrini tem que segurar todos eles, alguns inclusive em plano sequência, comprovando que possui um talento nato para o cinema. Outro intérprete que possui a mesma qualidade é Otto Jr., que vive o marido da protagonista. A cena de abertura do filme conta apenas com sua presença, sem interações, e somente com olhares ausentes e gestos já se percebe o conflito latente que aquele homem vive.

Um dos expoentes do cinema da retomada com Madame Satã, Karim Aïnouz apresenta com O Abismo Prateado um cinema nacional pelo qual realmente vale a pena. Ninguém é tolo de negar a importância que a Globo Filmes tem no estabelecimento de uma indústria cinematográfica no Brasil, nem a importância da existência de uma indústria para que o cinema de autor também cresça no país. O que não pode acontecer, e é o que infelizmente aconteceu há poucos anos atrás, é que esse tipo de proposta  mercadologicamente palatável seja a única forma de nos reconhecermos e de nos expressarmos na sétima arte. O cinema de Karim Aïnouz, um dos poucos a dar voz às mulheres, deveria ser mais frequente e não uma exceção.





O Abismo Prateado, 2013. Dir.: Karim Aïnouz. Roteiro: Beatriz Bracher. Elenco: Alessandra Negrini, Otto Jr., Thiago Martins, Luisa Arraes, Camila Amado, Sérgio Guizé, Gabi Pereira, Carla Ribas. 83 min. Vitrine Filmes.

Notícias AdoroCinema: Jurassic Park 4 e continuação de 300 adiados; Andrew Garfield no filme de Scorsese; trailers de Gravidade e Capitain Phillips; Se Beber, Não Case! no Brasil; Joe Wright pode dirigir Cinquenta Tons

Gravações de Jurassic Park 4 são adiadas 
A Universal encaminhou um comunicado para a imprensa que informava sobre o adiamento de Jurassic Park 4, cujo lançamento estava agendado para as férias de verão de 2014 nos EUA. A justificativa do estúdio é a complexidade da produção, não dando tempo para apresentar o filme pronto até lá. No entanto, as especulações apontam para problemas de diferenças criativas entre a equipe e o estúdio. Sinceramente, a não ser que o roteiro da continuação lance novos horizontes para a série, um quarto filme é desnecessário. O segundo e o terceiro já foram! De qualquer forma, parece que a Universal já estava conversando com os atores Bryce Dallas Howard (A Dama na Água) e David Oyelowo (Jack Reacher) para interpretarem os protagonistas do longa.

300 - A ascensão do Império já está pronto, mas só estreia em 2014
Pode ser um mal sinal, mas vamos manter a calma. 300 - A ascensão do Império teve a data de estreia alterada. O filme, que dá continuidade ao longa de 2007 protagonizado por Gerard Butler, estrearia nesta temporada de blockbusters nos EUA (em agosto deste ano no Brasil). A data da estreia agora será 7 de março de 2014. Não há justificativa oficial para a mudança, mas especula-se que a Warner tema mais um desastre de bilheteria após as recepções decepcionantes de Jack - O Caçador de Gigantes, Dezesseis Luas e The Incredible Burt Wonderstone. É um motivo razoável, sobretudo por não sabermos como serão os números de O Grande Gatsby, outro lançamento do estúdio para 2013.

Andrew Garfield será o protagonista do próximo filme de Martin Scorsese
Nem bem Os Lobos de Wall Street estreou (previsto para dezembro no Brasil) e o próximo trabalho de Martin Scorsese começa a ganhar forma. Trata-se de Silence, filme ambientado no Japão do século XVII sobre dois jesuítas que viajam ao país para investigar denúncias de perseguição religiosa. O filme é um antigo desejo de Scorsese, que cuida do projeto há 15 anos e que só agora começa a ver a possibilidade de concebê-lo. O protagonista já foi definido, será o ator Andrew Garfield, intérprete atual do Homem-Aranha. Além disso, o projeto contará com Ken Watanabe (A Origem). Resta saber se Daniel Day -Lewis e Javier Bardem, atores que tiveram seus nomes vinculados ao projeto inicialmente, continuam nos planos de Scorsa.

Cartaz e trailer de Gravidade são divulgados
O primeiro cartaz da ficção científica de Alfonso Cuarón (Filhos da Esperança), Gravidade, protagonizada por George Clooney e Sandra Bullock, foi finalmente divulgado. Cuarón, que ficou um tempo sumido depois de Filhos da Esperança, é um diretor interessante cujo retorno deve e merece ser celebrado, não? O longo processo de pós-produção provavelmente ocorreu graças ao orçamento do filme que, para minha grata surpresa, será exibido em 3D. Além do pôster, o trailer do longa também foi divulgado e o resultado é belíssimo e assustador. Emmanuel Lubezki, diretor de fotografia de A Árvore da Vida é responsável pelo grande impacto visual. E nem mesmo o fato de ser protagonizado por George Clooney e Sandra Bullock me faz acreditar que Gravidade não dará certo. Salivando desde já.

Trailer de Captain Phillips é divulgado
O trailer do próximo trabalho de Paul Greengrass (O Ultimato Bourne), Captain Phillips, acaba de ser divulgado na rede. O protagonista do longa é interpretado por Tom Hanks, em uma papel que pode cheirar a Oscar. Richard Phillips, personagem do ator, teve seu navio cargueiro sequestrado por piratas na costa da Somália em 2009. No Brasil, o filme vai estrear ainda este ano, no mês de outubro.

Elenco de Se Beber, Não Case! - Parte 3 chega ao Brasil para divulgar o filme
Depois de Tom Cruise, lançando a ficção científica Oblivion, e Halle Berry, divulgando o suspense Chamada de Emergência, o Brasil receberá mais astros de Hollywood, desta vez o trio de atores da franquia Se Beber, Não Case!, que chega em seu terceiro capítulo em 2013. Além do trio central formado por Bradley Cooper, Zack Galifianakis e Ed Helm, os atores Justin Bartha, Heather Graham e Ken Jeong, intérpretes de personagens importantes na trilogia, também vêm ao Brasil, junto com o diretor dos três filmes, Todd Phillips. O elenco virá participar de uma pré-estreia especial que acontecerá no Rio de Janeiro no final do mês de maio, data de lançamento do filme no país. Nada mais natural, em tempos de queda nas bilheterias em solo norte-americano, a solução mesmo é buscar a receptividade dos estrangeiros. Daqui pra frente a tendência será esta e cada vez mais o Brasil, e principalmente o Rio de Janeiro, será parada obrigatória no itinerário dos grandes títulos hollywoodianos. 

Joe Wright, diretor de Desejo e Reparação e Anna Karenina, é vinculado à adaptação de Cinquenta Tons de Cinza
E as especulações sobre a adaptação cinematográfica de Cinquenta Tons de Cinza continuam... Após circular na imprensa  que Gus Van Sant (Milk - A Voz da Igualdade) estava fazendo testes de cena para o longa com o ator Alex Pettyfer (Magic Mike), o nome de Joe Wright começa a entrar na roda de boatos.  Por enquanto, continua sendo mais um boato, mas também é uma opção tão interessante quanto Gus Van Sant. Esperamos que a Universal e a Focus tenham coragem para endossar um projeto assim e quem sabe Cinquenta Tons de Cinza seja uma adaptação interessante com cineastas de personalidade e estilo tão próprios envolvidos.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Tête-à-tête: O Grande Gatsby


Em suas primeiras sessões, O Grande Gatsby recebe críticas positivas e negativas em igual proporção. O argumento de ambas: as usuais excentricidades de Baz Luhrmann, seu diretor


Antes que comecem a simplificar o assunto - seguindo uma tendência generalizada para todas as áreas -, com dizeres do tipo "crítico é tudo recalcado", "não me importo com críticas" ou "é uma questão de opinião", digo logo que nada disso se aplica ao caso, ou melhor, nenhuma dessas tentativas de explicação se aplicam a caso algum em se tratando de cinema. Acontece que nesta semana houve a badalada estreia de O Grande Gatsby, novo filme do australiano Baz Luhrmann (Moulin Rouge!), baseado no romance de F.Scott Fitzgerald, e a crítica norte-americana anda dividida, 50/50, diria. 

Baz Luhrmann é um cineasta relativamente novo. Talvez hoje, com cinco longa-metragens no currículo, tenhamos uma noção exata do que ele representa para o cinema, onde ele está localizado nesse oceano de novas possibilidades, linguagens e correntes cinematográficas.

Moulin Rouge! foi uma grande exceção em popularidade e aceitação crítica e o contexto o favorecia. Os demais longas da carreira de Baz não resistiram aos seus excessos visuais e narrativos. No entanto, é no excesso que está a originalidade, é nele que reside a sua marca. Sem as cores berrantes, o excesso de diálogo com diversos gêneros e referências, a montagem frenética e o artificialismo, não seria Baz Luhrmann, seria qualquer outra coisa, mas não seria Luhrmann. E isso se aplica a toda sua filmografia. Isso é ser autor no cinema.

A rejeição a Austrália e, possivelmente, a recepção decepcionante a O Grande Gatsby mostra opiniões contrárias e a favor aos filmes na mesma proporção. Nas duas situações, o mesmo argumento que é utilizado para enaltecer o objeto analisado é usado para criticá-lo negativamente. Isso enfraquece a relevância da crítica para o caso de Baz? Muito pelo contrário, enaltece sua relevância como espaço de reflexão, diálogo e argumentação sobre a qualidade e a significação social dos projetos, saindo do terrenos banal e simplista das cotações e da dicotomia "gostei" ou "não gostei" que dominam as editorias de cultura dos veículos.  

A abertura do Festival de Cannes na próxima semana (15/05), que terá o filme como grande atração, certamente nos brindará com um quadro ainda mais curioso. Como um grupo aparentemente mais exigente formado pelos críticos especializados que participam das sessões em Cannes, vindos de toda parte do mundo, reagirão à assinatura de Baz em O Grande Gatsby?

 De toda sorte, a decisão da Warner em adiar por quatro meses a estreia do filme parece ter sido acertada. Gatsby não dividiu as atenções do estúdio com Argo no ano passado, fazendo com que a Warner dedicasse mais tempo para convencer a Academia a votar no filme de Ben Affleck, que faturou o Oscar de melhor filme, e Gatsby surge como o destaque de um verão norte-americano cuja tendência a cada ano que passa é o cinema testosterona. Um romance como Gatsby é um respiro bem-vindo. 

Por outro lado, se não conseguir faturar uma bilheteria que pague os U$ 127 milhões investidos, Baz Luhrmann terá que repensar sua carreira. Depois de fracassos financeiros consecutivos (Austrália não foi muito bem na arrecadação), como o diretor conseguirá que os estúdios desembolsem o dinheiro necessário para suas caras produções cinematográficas? O cinema independente não é o seu nicho... 

A brincadeira certamente ficará mais interessante em Cannes. Não sei se para Luhrmann, mas para nós, não há dúvidas que sim.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Notícias AdoroCinema: Jessica Chastain, Missão: Impossível 5 e Godard

Jessica Chastain entra para o elenco de ficção científica de Christopher Nolan. Filme já tem Matthew McConaughey, Michael Caine e Anne Hathaway.
Interstellar, próximo trabalho do cineasta Christopher Nolan, acaba de ganhar uma nova integrante para seu elenco: Jessica Chastain (foto). Ficção científica existencialista que tem como inspiração 2001 - Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, Interstellar ainda contará com a presença de Matthew McConaughey, em ótimo momento, Michael Caine e Anne Hathaway, que acaba de trabalhar com o diretor em Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge no qual interpretou a Mulher-Gato. O longa trará o elenco como um grupo de exploradores que viaja pelo universo e acaba se deparando com realidades paralelas. 

Tom Cruise confirmado em Missão: Impossível 5. Diretor ainda está para ser contratado
Tom Cruise passou por um dos maiores testes de credibilidade que uma estrela do seu calibre pode enfrentar. Seu relacionamento com Katie Holmes e a influência da Cientologia em sua vida fizeram com que a credibilidade do ator ficasse um pouco abalada, mas ainda assim ele é um dos poucos em Hollywood a viverem sob a lógica do star system. Estúdios e diretores dependem dele e não o contrário. Cruise acaba de ser confirmado em Missão: Impossível 5, antes mesmo da contratação de um diretor ou de um roteirista para o filme. Podem me chamar de chato ou purista, mas essa lógica não faz a minha cabeça, ainda mais quando lemos que o ator está pensando em chamar o novo camarada Christopher McQuarrie, que bem algum fez para a carreira de Cruise com Jack Reacher - O Último Tiro, para a direção, sobretudo quando temos o longa anterior no qual Brad Bird (da animação Os Incríveis) deu um novo ânimo para a série.

Rio de Janeiro recebe exposição e mostra sobre Jean-Luc Godard
Cariocas, aproveitem. Desde o dia 07 de maio, o Rio de Janeiro recebe a exposição sobre um dos mais cultuados expoentes da nouvelle vague, Jean-Luc Godard, intitulada Expo(r) Godard - Viagens em Utopia,  no Oi Futuro Flamengo. Além da exposição, que ficará na cidade até o dia 07 de julho, serão exibidos filmes consagrados do diretor como Acossado e Uma Mulher é uma Mulher, no Oi Futuro Ipanema, dos dias 14 a 19 de maio. Pra não perder!!!!

domingo, 5 de maio de 2013

Revisitando: Longe do Paraíso


Longe do Paraíso é um dos filmes mais queridos da minha prateleira. Não só por praticamente ter sumido de circulação (muito em virtude da breve vida de sua distribuidora aqui no Brasil, a Casablanca Filmes), mas também por ser protagonizado por uma das atrizes mais incríveis do seu tempo, Julianne Moore (e se você a conhece apenas por Hannibal Leis da Atração, corra para assistir coisas mais dignas na sua filmografia), por ser dirigido pelo inventivo Todd Haynes (aqui em sua fase pré- Não estou lá e Mildred Pierce), por pertencer a uma safra interessantíssima do cinema norte-americano (a de 2002), por colocar em prática belissimamente a metalinguagem ao escolher os melodramas da década de 1950 como formato, pela relevância no tratamento de temas ainda delicados no cinema como a homossexualidade e o preconceito racial... Enfim, por inúmeros motivos.

Para quem desconhece, Todd Haynes é um diretor do circuito independente dos Estados Unidos com uma filmografia diversificada ao extremo. Na ocasião em que concebeu Longe do Paraíso, Haynes tinha acabado de virar sensação no mercado alternativo com Velvet Goldmine, fita de 1998 com Ewan McGregor, Jonathan Rhys-Meyers e Christian Bale que explorava o universo do glam rock. Inspirado nos típicos melodramas de Douglas Sirk, filmes que tinham marcações bem específicas, como veremos adiante, Haynes criou o roteiro de Longe do Paraíso e levou-o para as telonas com o aval de gente graúda como George Clooney e Steven Soderbergh, que se tornaram os produtores executivos da fita. O filme causou furor no Festival de Veneza do seu ano de lançamento e levou para casa o prêmio de melhor atriz para o desempenho de Julianne Moore.


Douglas Sirk foi um diretor de cinema alemão que acabou consagrando-se nos Estados Unidos por definir o clássico melodrama hollywoodiano. Suas histórias eram sempre contadas sob o ponto de vista de donas de casa da classe média que sofriam os preconceitos da época por romperem com convenções e preconceitos da sociedade. Mas não era só na temática e na definição de seus personagens que os melodramas norte-americanos se diferenciavam de seus pares. Determinadas opções estéticas, como a fotografia e a direção de arte que explorava muito bem a disposição de cores por frame, ou de movimentos de câmera e montagem, sempre suaves e com pouquíssimos cortes, são características do sub-gênero, bem como a orientação na interpretação dos seus atores e as sutis ironias sugeridas ao longo da projeção.

Todd Haynes utilizou a premissa de Tudo o que o céu permite, filme de Douglas Sirk de 1955, protagonizado por Jane Wyman, para compor um dos principais conflitos de Longe do Paraíso. A trama do filme de 1955 girava em torno de uma viúva que começa a se envolver com seu jardineiro, vivido por Rock Hudson, e escandaliza a sociedade conservadora da época. Outro longa que inspira Haynes em Longe do Paraíso é Imitação da Vida, último melodrama de Sirk, desta vez protagonizado por Lana Turner, que vivia uma atriz que contrata os serviços de uma negra como empregada doméstica. As personagens acabam compartilhando os dramas vividos com suas respectivas filhas e se tornam grandes amigas. Imitação da Vida tratava sobre a questão racial, um dos temas centrais de Longe do Paraíso


No filme de Haynes, a protagonista é Cathy Whitaker, uma dona de casa que vive uma vida modelo no Connecticut: um casamento estável, filhos saudáveis, uma casa muito bem administrada, uma vida social intensa... Toda essa perfeição artificial, uma das marcas do melodrama e da vida de muitas famílias classe média da época, esconde a insatisfação de Cathy com seu casamento. O modelo da família feliz sustentado pela protagonista sofre um abalo após a revelação de que seu marido é homossexual. A partir desse momento, Cathy passa a manter uma amizade com seu jardineiro Raymond Deagan, uma aproximação que acaba não sendo bem vista por seu círculo de amigos por Deagan ser negro.

O que Haynes faz brilhantemente bem em Longe do Paraíso é inserir esses "corpos estranhos", ou seja, novos elementos, no melodrama, mantendo-se fiel à linguagem visual e narrativa do gênero mas fazendo uma grande releitura. Apesar do tom contestador e levemente feminista desses filmes, muita coisa era silenciada ou tratada com muita discrição e parcimônia. Haynes traz um olhar atual para o formato  através de uma abordagem séria e contundente sobre a intolerância silenciosa a homossexuais e negros na década de 1950. Uma intolerância que fez proliferar uma geração de lares infelizes e marcados pela frustração de anseios pessoais não realizados em função do medo de represálias sociais. Salienta-se: apesar de tudo que vivemos hoje - sim, o preconceito ainda existe e homossexuais enrustidos como Frank Whitaker estão aos montes por ai, levando suas esposas a uma vida de aparências e infelicidade - , nada se compara àquele época. Aliás, o maior medo dos tempos atuais é que voltemos aquele estado de coisas  asfixiantemente conservador, cujo discurso se prolifera de forma muito sutil e perigosa em determinados grupos que não têm vergonha alguma de condenar pessoas por características que lhes são intrínsecas (a mulher, o negro e o homossexual). Por que uns têm mais direitos de existir, de ser o que são, do que outros? Uma pergunta que me faço até hoje.


Além do direcionamento cirúrgico de seu roteiro (preciso, discreto e eficiente), Haynes tem uma condução exemplar nesse filme, mostrando que se aprofundou sobre o gênero  em aspectos técnicos e narrativos. Não há um só detalhe que escape aos olhos do diretor, um vacilo sequer. Desde os créditos iniciais, que seguem a tradição da década de 1950; passando pela fotografia, figurinos, direção de arte e iluminação, que harmonizam cores até mesmo em ambientes naturais; finalizando o apuro com uma certeira montagem, também sabiamente comprometida com o gênero.

Julianne Moore está em uma de suas melhores performances. Indicada ao Oscar de melhor atriz por este desempenho (no mesmo ano concorreu por As Horas, como atriz coadjuvante, e curiosamente sua personagem lá vivia o mesmo drama de Cathy, e na mesma época, só que invertem-se os papeis e a Laura Brown do filme de Stephen Daldry toma uma decisão muito mais corajosa que o personagem de Dennis Quaid aqui), Moore cuida milimetricamente de cada passo dado por Cathy, desde a artificialidade com que mantém seus relacionamentos e sufoca seus verdadeiros anseios, até o momento em que começa a tomar consciência de sua própria realidade. O castelo de cristal da personagem desmorona e Moore domina todas as mudanças sofridas por ela até chegar a esta constatação. Igualmente brilhante está Dennis Quaid que vive um homem sufocado pela culpa nutrida por sua condição. Frank tem vergonha de sua homossexualidade e começa a se enganar achando que pode "curá-la" ou conviver secretamente com ela. No entando, o personagem não consegue sustentar a infelicidade de seu casamento tão bem quanto Cathy. Todas essas variações de humor e sutilezas de intenção do personagem são conduzidas com perfeição por Quaid em um desempenho que merecia ter rendido uma indicação ao Oscar para selar as quatro nomeações que o filme recebeu naquela edição do prêmio (melhor atriz, roteiro original, fotografia e trilha sonora original). 


Longe do Paraíso é um dos raros casos em que a metalinguagem não transforma o filme em um grande engodo artificial. O artificialismo aqui é empregado com ironia e melancolia, apontando as ranhuras daquela sociedade e dimensionando o drama de sua protagonista, uma mulher cujo destino inevitável é a infelicidade. Todd Haynes não contempla simplesmente um gênero cinematográfico, nem edifica-o a ponto de não conseguir identificar suas próprias falhas proporcionadas pelo tempo. Pelo contrário, em Longe do Paraíso o diretor utiliza o melodrama por entender que como narrativa cinematográfica não há forma melhor de expor a condição de minorias em uma sociedade opressora que sufoca indivíduos em vidas completamente artificiais, ocas, ou seja, vidas de aparências. Tudo foi escolhido a dedo: o melodrama, a década de 1950 (não localizando o preconceito como um problema daquela época, mas o período é utilizado para tornar mais explícito os temas e também por se encaixar na narrativa melodramática) e os grupos oprimidos (uma mulher, um homossexual e um negro), todos completamente castrados e impossibilitados de viverem em plenitude. Longe do Paraíso, o filme, a genuína perfeição que sobrevive ao tempo pela pertinência do seu diálogo com o público.

Trailer de Longe do Paraíso




Far from Heaven, 2002. Dir.: Todd Haynes. Roteiro: Todd Haynes. Elenco: Julianne Moore, Dennis Quaid, Dennis Haysbert, Viola Davis, Patricia Clarkson, James Rebhorn, Celia Weston, Ryan Ward, Lindsay Andretta, Bette Henritze, Michael Gaston. 107 min. Casablanca Filmes.

sábado, 4 de maio de 2013

A importância da assinatura ou Como Danny Boyle voltou a ser Danny Boyle

Em Transe tem muitos aspectos mal resolvidos. A direção de Danny Boyle certamente não é um deles.


Quem quer ser um milionário? foi um grande engodo que conseguiu agradar a Academia faturando oito estatuetas do Oscar. Já 127 horas é um filme regular de direção firme, mas que se perde em meio a banalidade de sua própria trama (mais uma história de sobrevivência...). O diretor Danny Boyle, inventivo e frenético em Trainspotting, Cova Rasa e Extermínio, aparentemente se rendeu a caminhos mais palatáveis. Em Transe é um considerável desvio nos rumos atuais de sua carreira, no entanto, um desvio que o leva a seu lugar de origem e nos faz ver quão importante é para um diretor manter sua assinatura. Não tornar-se imutável, mas preservar as suas marcas, o aspecto autoral de seus filmes.

Em Transe conta a história de um homem que trabalha em leilões de obras de arte. Durante uma ação de criminosos para roubar uma das peças em oferta, esse funcionário é atingido na cabeça e perde toda a sua memória recente. Com o intuito recobrar a lembrança dos eventos que aconteceram durante a ação criminosa, ele passa a se submeter a sessões de hipnose conduzidas por uma terapeuta especialista na técnica. Contar mais do que isso seria estragar várias surpresas essenciais para o entretenimento do próprio leitor. Surpresas que são importantes (acreditem, céticos!) pois Em Transe é o tipo de filme que foi concebido com o intuito de desvendar acontecimentos para seus personagens e para o público concomitantemente.

Nessa trama que flerta com A Origem e (acreditem!) Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, Danny Boyle volta ao tom lisérgico de um thriller envolvente e ambicioso. Não há dúvidas de que sua direção é eficiente pois consegue manter os olhos e a mente do espectador em constante tensão e atividade. No entanto, o roteiro escrito pela dupla John Hodge e Joe Ahearne não acompanha a sofisticação visual, rítmica e por vezes emocional do filme. Os personagens de Em Transe são unidimensionais e simplificados em suas motivações pelas funções que exercem na trama e em suas próprias vidas (a terapeuta, o criminoso e o anti-herói), até mesmo o sentimento que passam a nutrir uns pelos outros é simplificado pelo script. Para se ter uma ideia do tropeço, uma das personagens que mais sofre com a superficialidade no tratamento é o eixo de toda a trama.

Apesar da displicência do roteiro, o trio de atores central se esforça, diga-se de passagem, outro aspecto que nos leva a Danny Boyle. James McAvoy mais uma vez incorpora como  poucos um carismático anti-herói cheio de nuances interessantes e Vincent Cassel cumpre bem a sua função na trama, seu personagem tem um curioso twist que "brinca" com toda e qualquer sorte de expectativas a seu respeito. Já Rosario Dawson é inegavelmente a grande estrela do longa, uma mescla de musa policial e heroína resignada muito bem sucedida - há anos a moça merecia uma chance como essa. Tudo é claro, sem muito esforço do roteiro. Os bons desempenhos dos atores vêm das orientações de Boyle e do esforço de cada um deles.

Em Transe pode não ser o melhor exemplar da carreira de Danny Boyle, soando como um filme superficial na psicologia de seus personagens, quando na verdade pressupõe-se que teria que aprofundar-se nas motivações e nos conflitos éticos de cada um. O que torna o filme uma experiência no mínimo interessante é o conjunto de esforços entre direção e atores que consegue torná-lo um projeto válido apesar de todas as falhas.



Trance, 2013. Dir.: Danny Boyle. Roteiro: John Hodge e Joe Ahearne. Elenco: James McAvoy, Rosario Dawson, Vincent Cassel, Danny Sapani, Tuppence Middleton, Matt Cross, Wahab Sheikh, Mark Poltimore, Simon Kunz, Vincent Montuel. 101 min. Fox.

A gênese do ídolo

Somos tão Jovens é um filme satisfatório, mas Antonio Carlos da Fontoura opta pelo convencional ao contar o início da carreira de Renato Russo


O cinema por suas características intrínsecas, pela complexidade de profissionais e áreas que abrange, já é uma atividade artesanal que mexe com a paciência do seu realizador. No Brasil então, a atividade parece exigir doses cavalares de "chás de cadeira", doses mais fortes que o usual. Somos tão Jovens está há alguns anos na fila de espera por uma brecha em nosso competitivo e apertado calendário cinematográfico para chegar ao público brasileiro. O filme sobre a formação musical de Renato Russo e a origem da Legião Urbana teve parte do elenco contratada em 2009, incluindo aqui o protagonista Thiago Mendonça. As filmagens aconteceram somente no final de 2011 e, de lá para cá, o período de pós-produção durou um ano e meio! Todo esse tempo gasto resultou em um filme que só vemos estrear nas salas de todo o país nesse início de maio, disputando bilheterias com o trator Homem de Ferro 3.

Ao menos a espera compensa por vários motivos, ainda que o filme não possua nem um terço da verve incendiária do próprio biografado. Explico, Somos tão Jovens opta por um estilo padronizado de narrativa para não aborrecer públicos mais conservadores, evitando também qualquer flerte com temas polêmicos relacionados à vida do músico. E pode-se falar qualquer coisa sobre Renato, menos que ele era um cara que gostava de padrões, pelo contrário, ele os evitava. Apesar do descompasso e de todo o "bê-a-bá" esperado para uma convencional biografia cinematográfica o filme é marcado por certos esforços do diretor Antonio Carlos da Fontoura que merecem destaque.

O tom declamatório e didático dos diálogos (os personagens têm a tendência a explicar todo e qualquer ato ou pensamento para o espectador) sai da boca de um elenco jovem absolutamente comprometido e envolvido com o projeto. Thiago Mendonça é um ator de sensibilidade à flor da pele e compõe um Renato Russo com admiração, inquietação e profundidade. O ator é uma escolha acertada não só por sua impressionante semelhança física ( o que, particularmente, sempre acho menos relevante nessas escalações), mas por sua dedicação e por seu comprometimento. Mendonça procurou estudar não só a vida de Renato, mas toda a forma com que o artista se expressava na música, uma trabalho cheio de honestidade e dignidade. Outro destaque do jovem elenco é Laila Zaid, intérprete de Ana, melhor amiga e confidente de Renato, mulher que serviu de inspiração para ele compor "Ainda é cedo". A atriz é absolutamente encantadora, praticamente não dá para competir com ela em cena, nem mesmo Mendonça consegue.

Fora o esforço do elenco, que ainda conta com Sandra Corveloni como a mãe do protagonista, o filme traça muito bem o repertório de influências e referências de Renato Russo (o punk rock britânico, os Beatles etc.), assim como também oferece uma panorâmica do cenário roqueiro de Brasília nos anos de 1980 (Plebe Rude, Capital Inicial, além dos seus próximos como Paralamas do Sucesso).  Contando os primeiros anos de Renato Russo, Somos tão Jovens pode não ser um dos filmes mais ousados do recente repertório cinematográfico nacional, a condução do veterano Antonio Carlos da Fontoura transforma um longa que aborda a juventude em uma narrativa "quadradona", preocupada com didatismos e com a cronologia dos fatos. No entanto, o afeto que temos por seu protagonista, pelo que ele representa para a sua geração e a dedicação do elenco torna Somos tão Jovens um filme especial. Provavelmente, o longa será o ponto de partida para que uma geração que não conheceu Renato Russo e a Legião Urbana passe a conhecê-los melhor. E quem sabe a nossa geração Coca Zero aprenda alguma coisa com as letras da geração Coca-Cola do Renato? Somos tão Jovens é um bom começo.



Somos tão Jovens, 2013. Dir.: Antonio Carlos da Fontoura. Roteiro: Marcos Bernstein. Elenco: Thiago Mendonça. Laila Zaid, Sandra Corveloni, Marcos Breda, Bianca Comparato, Bruno Torres, Conrado Godoy, Olívia Torres, Henrique Pires, Nicolau Villa-Lobos. 104 min. Imagem Filmes.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Notícias AdoroCinema: Bradley Cooper, Ninfomaníaca, Círculo de Fogo, Colin Firth

Bradley Cooper é mais um a deixar o elenco de Jane got a Gun. Em compensação, o ator será o protagonista do próximo filme de Steven Spielberg
É espantosa a quantidade de baixas que o western Jane Got a Gun, protagonizado por Natalie Portman, anda tendo nos últimos dois meses. Após perder a diretora Lynne Ramsay (Precisamos Falar sobre o Kevin), que saiu da produção às vésperas do início da filmagem, sem motivo divulgado, e os atores Michael Fassbender e Jude Law, este último em virtude da saída da diretora, o filme acaba de perder aquele que foi anunciado como o substituto dos dois. Bradley Cooper não estará mais no longa. O motivo divulgado foi a atribulada agenda do ator, que dividirá as próximas semanas entre a continuidade das gravações de American Hustle , filme de David. O.Russel, no qual retoma a parceria com o diretor e com a atriz Jennifer Lawrence (O Lado bom da Vida), e a divulgação de Se Beber, Não Case! - Parte 3. São apontados como possíveis substitutos de Cooper/Fassbender/Law, cujo personagem é o grande vilão da história, os atores Tobey Maguire, Joseph Gordon-Levitt e Tom Hiddleston. O novo diretor do projeto é Gavin O'Connor (Guerreiro). Mas quando um projeto começa assim... Alguma coisa nos bastidores existe que não foi divulgada...

Na mesma semana, circulou nos veículos especializados a confirmação de Bradley Cooper no próximo filme de Steven Spielberg, American Sniper. O filme será um drama sobre um atirador de elite que matou cerca de 150 pessoas no tempo em que trabalhou na marinha. O personagem de Cooper será mostrado como um homem atormentado pelos seus próprios atos, vivendo um stress pós-traumático. Parece promissor, mas bem que gostaria de ver por agora o Spielberg envolvido no seu projeto cancelado, a ficção científica Robopocalipse.

Cartaz de Ninfomaníaca é divulgado
O novo filme do cineasta dinamarquês Lars Von Trier acaba de ganhar um cartaz minimalista ao cubo (não preciso nem dizer o que o parenteses significa). Ninfomaníaca não foi selecionado para o Festival de Cannes como esperado, mas é óbvio que o filme vai ter uma repercussão gigantesca sobretudo pelo tema que aborda. Protagonizado pela musa de Trier, a atriz e cantora Charlotte Gainsbourg (que já esteve em Anticristo e Melancolia), o filme trará a vida sexual de sua personagem da infância a maturidade, abordando no meio tempo as consequências de um estupro que ela sofrerá. Espera-se que Ninfomaníaca participe dos festivais de Veneza e Toronto no segundo semestre deste ano.

Guillermo DelToro divulga trailer de Círculo de Fogo
O DelToro tá sempre por ai e fica parecendo que ele lança um filme por ano. Na verdade, produções como O Orfanato, Não tenha medo do Escuro e, recentemente, Mama, foram filmes produzidos pelo diretor. O último longa dirigido por Guillermo foi Hellboy 2 - O Exército Dourado, de 2008. Feitas essas considerações, DelToro acaba de divulgar na rede um novo trailer de Círculo de Fogo, esse sim dirigido pelo próprio, que chegará nos cinemas brasileiros nessas férias de inverno (09 de agosto). O longa parece uma espécie de Tranformers (péssima referência, assumo), mas melhorado. O visual é impressionante e com Guillermo no comando pode ser uma daquelas gratas surpresas do verão norte-americano, a vida inteligente no marasmo de blockbusters lançados todo ano.

Colin Firth estará no próximo filme de Woody Allen
Bem mais interessante que a possível escalação de Emma Stone para o próximo filme de Woody Allen anunciada na semana passada, o cineasta acaba de conseguir Colin Firth, o inglês vencedor do Oscar por O Discurso do Rei, para o elenco desse novo projeto. O longa, como de praxe na filmografia de Allen, não tem título nem sinopse divulgados, sabe-se apenas que seguirá a tendência de alguns dos últimos filmes do diretor e será ambientado na Europa.