sexta-feira, 10 de maio de 2013

Eu não te amo mais, eu não te amo mais

Inspirado na canção "Olhos nos olhos", de Chico Buarque, o cearense Karim Aïnouz presenteia Alessandra Negrini com um raro momento de protagonismo feminino no cinema nacional atual em O Abismo Prateado


Não é de hoje que canto aqui no blog que não há espaços suficientes para histórias femininas. Enfim, tramas protagonizadas por mulheres maduras, personagens que conduzem as histórias e cujos demais personagens transitam sobre sua órbita. No caso brasileiro, essa situação é ainda mais perceptível, o cinema ainda é um espaço eminentemente masculino. E se já tivemos musas (não apenas no acepção sexual do termo) como Vera Fischer, Sônia Braga, Cláudia Ohana, Fernanda Torres e Fernanda Montenegro, de lá para cá, os nomes nacionais que mais se sobressaem são os de Wagner Moura, Selton Mello, Rodrigo Santoro e João Miguel. Nada contra, mas o universo feminino é infinitamente mais rico, complexo e dramático, consequentemente, mais interessante. Mulheres têm feridas abertas, enquanto homens tentam ocultá-las por receio de represálias sociais. Seus universos tendem a ser mais pragmáticos, secos, enquanto os delas possuem mais tons e camadas.

Dito isto, o cineasta cearense Karim Aïnouz, de Madame Satã e O Céu de Suely, se inspirou em uma das mais conhecidas canções de Chico Buarque, um compositor conhecido por entender como ninguém as emoções femininas, para conceber O Abismo Prateado. Essa canção é "Olhos nos olhos". O drama sobre uma mulher abandonada pelo marido que passa madrugada afora tentando assimilar sua atual condição é o centro da narrativa do filme. Violeta é uma dentista que aparentemente vive um relacionamento estável com seu marido Djalma. Em um determinado dia, subitamente Djalma abandona mulher e filho sem ter ao menos a coragem de comunicar sua decisão pessoalmente para ambos, deixando apenas um recado na secretária eletrônica do celular de Violeta. Desesperada e sem entender a atitude do marido, Violeta passa a madrugada vivenciando a dor desse abandono e relutando em aceitar o fim de um casamento que julgava perfeito.

O "abismo prateado" do título diz respeito à madrugada que serve de período de ambientação e cenário para o filme. Durante toda a projeção, Aïnouz distribui entre os frames obviamente escuros pontos luminosos através dos faróis dos carros, da espuma do mar que bate na areia e das luzes dos postes. A protagonista passa por um verdadeiro calvário, tentando buscar uma explicação para as últimas palavras deixadas no celular e que ecoam na sua cabeça, "eu não te amo mais". A madrugada amplifica todo o sofrimento de Violeta, afinal é nela que ficamos, para o bem e para o mal, a sós com nossos pensamentos. No entanto, ao mesmo tempo em que passa por todo esse tormento, existe uma hora em que o desespero dá lugar à serenidade, as lágrimas secam. E é nesse momento que Violeta conhece um jovem pintor e sua esperta filha. Esse encontro faz com que Violeta encontre seu eixo e sua dignidade enquanto mulher.

A condução de Aïnouz em O Abismo Prateado é irrepreensível. O cineasta opta pelo naturalidade nas atuações e acompanha cada mínimo, e revelador, detalhe dos seus atores com pouquíssimos cortes em sequências que priorizam os gestos ao invés dos diálogos. Existe uma coerência entre a fotografia, a direção e o roteiro que tornam clara e poética a proposta do filme e dimensionam todos os estágios emocionais da protagonista , algo que atesta o domínio que Aïnouz tem da linguagem cinematográfica, cada vez mais raro entre cineastas. Há momentos angustiantes e outros completamente secos que culminam com um final de emoções à flor da pele.

Claro que para que tudo desse certo, Karim Aïnouz teria que contar com uma grande atriz para conduzir Violeta ao seu complexo, porém simples (humano), mar de emoções. Alessandra Negrini comanda o filme tornando a dor de Violeta concreta e espontânea. O esforço da atriz é ainda mais louvável se pensarmos nos poucos momentos de diálogos que o filme tem e que Negrini tem que segurar todos eles, alguns inclusive em plano sequência, comprovando que possui um talento nato para o cinema. Outro intérprete que possui a mesma qualidade é Otto Jr., que vive o marido da protagonista. A cena de abertura do filme conta apenas com sua presença, sem interações, e somente com olhares ausentes e gestos já se percebe o conflito latente que aquele homem vive.

Um dos expoentes do cinema da retomada com Madame Satã, Karim Aïnouz apresenta com O Abismo Prateado um cinema nacional pelo qual realmente vale a pena. Ninguém é tolo de negar a importância que a Globo Filmes tem no estabelecimento de uma indústria cinematográfica no Brasil, nem a importância da existência de uma indústria para que o cinema de autor também cresça no país. O que não pode acontecer, e é o que infelizmente aconteceu há poucos anos atrás, é que esse tipo de proposta  mercadologicamente palatável seja a única forma de nos reconhecermos e de nos expressarmos na sétima arte. O cinema de Karim Aïnouz, um dos poucos a dar voz às mulheres, deveria ser mais frequente e não uma exceção.





O Abismo Prateado, 2013. Dir.: Karim Aïnouz. Roteiro: Beatriz Bracher. Elenco: Alessandra Negrini, Otto Jr., Thiago Martins, Luisa Arraes, Camila Amado, Sérgio Guizé, Gabi Pereira, Carla Ribas. 83 min. Vitrine Filmes.

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