sábado, 11 de maio de 2013

Por mais delicadeza


Ferrugem e Osso mostra de que maneira recobramos a sensibilidade no mundo áspero e cruel em que vivemos: através da dor


Viver no século XXI não é fácil. As experiências cotidianas e as decepções com os relacionamentos nos tornam inflexíveis, duros, frios, secos. Em contrapartida, a sensibilidade que julgávamos perder diante da  frustração com a humanidade volta e meia nos mostra ser necessária, é o que nos diferencia enquanto animais na Terra. O francês Ferrugem e Osso, sexto longa-metragem de Jacques Audiard, diretor de O Profeta, trata sobre isso, sobre a necessidade de delicadeza no mundo e de como constatamos isso, infelizmente, por meio de eventos traumáticos. 

O eixo do filme é o relacionamento entre Stéphanie e Ali, vividos pela francesa Marion Cotillard e pelo belga Matthias Schoenaerts, este último um verdadeiro trator em cena. Stéphanie é uma treinadora de orcas que perde as pernas após um acidente durante uma apresentação com os animais no parque aquático em que trabalha. Já Ali é um segurança particular que está começando a estabelecer laços afetivos com o filho e que nas horas vagas participa de brigas de rua.

Stéphanie e Ali são indivíduos extremamente endurecidos pela vida. As coisas começam a mudar para Stéphanie após o acidente e ela começa a perceber como é importante  estabelecer e manter laços afetivos, percebe que os relacionamentos amorosos não são só uma necessidade física satisfeita através do ato sexual. Ali, igualmente embrutecido pela vida, ainda não se deu conta completamente disso, apesar de seu contato com Stéphanie começar a lhe abrir novas possibilidades. Ele é um homem que só consegue expressar seus sentimentos, sejam positivos ou negativos, através da violência. O personagem só muda drasticamente de postura no desfecho do longa quando um acontecimento traumático lhe toma de surpresa e o faz acordar para as pessoas que ama e perceber quanto é importante mantê-las perto de si. A vida é muito curta e muitas vezes pode ser muito tarde para reparar determinados equívocos, dizer palavras não ditas por vergonha de julgamentos alheios... A vida e seus percalços certamente nos tornam mais fortes, mas não duros e insensíveis. Pelo contrário, pode nos ensinar o caminho da delicadeza antes perdida.

Jacques Audiard, como já demonstrou em sua filmografia, é um diretor que tende a ter um olhar seco com seus personagens e com os universos que costuma retratar. O mais interessante do seu caso em Ferrugem e Osso é que a mesma transformação sofrida por Stéphanie e Ali ao longo da projeção parece afetar o cineasta, que encontra a delicadeza em um universo inicialmente rude. Marion Cotillard carrega essa personagem com bravura e dignidade, sendo capaz de revelar as transformações na forma com que Stéphanie passa a enxergar o mundo através de sutilezas, uma marca da atriz. Já Matthias Schoenaerts é indubitavelmente a grande surpresa do filme. Para quem não o conheceu em Bullhead, candidato ao Oscar de melhor filme estrangeiro pela Bélgica em 2012, é pego de sobressalto com uma performance exemplar que nos faz lembrar do Stanley de Marlon Brando em Uma Rua Chamada Pecado e do Jake La Motta de Robert DeNiro em Touro Indomável. O desempenho de Schoenarts é físico e por vezes racional, mas também capaz de explosões pontuais que gradualmente desnudam o personagem diante dos olhos do espectador. Exemplar.

Através da força do desempenho de seus dois protagonistas, Jacques Audiard consegue o êxito da sua proposta. Nunca antes um filme do diretor esteve tanto nas mãos das interpretações de seus atores como Ferrugem e Osso. Marion Cotillard como Stéphanie e Matthias Schoenaerts como Ali foram responsáveis por conseguir mostrar com muita sensibilidade o renascimento e a redenção de dois personagens desacreditados em seus potenciais para amar. Assim como Ali e Stéphanie gradualmente se transformam ao longo da projeção graças à interpretação da dupla, Jacques Audiard quebra a couraça de seu filme e se rende aos dois. Uma transformação tão bonita de se ver quanto a que o filme propõe para o espectador com muita sutileza e e pouquíssima pompa.




De Rouille et D'os, 2012. Dir.: Jacques Audiard. Roteiro: Jacques Audiard e Thomas Bidegain. Elenco: Marion Cotillard, Matthias Schoenarts, Armand Verdure, Céline Sallette, Corinne Masiero, Bouli Lanners, Jean-Michael Correia, Mourad Frarema, Yannick Choirat. 120 min. Califórnia Filmes.

Um comentário:

Stella Daudt disse...

Aprender com o sofrimento é uma bênção, porque quando a dor se transforma em amargura destrói a vida. Pelo que você escreveu, Wanderley, acho que vou amar esse filme. Bom domingo!