sexta-feira, 28 de junho de 2013

Os Amantes Passageiros

Pedro Almodóvar cede ao apelo popular e cria uma comédia que não consegue encontrar um objetivo claro em sua execução
 
 
A Pele que Habito, filme de 2011, representou um interessante movimento na carreira de Pedro Almodóvar. O realizador se aventurava no terreno obscuro de um suspense que, apesar de flertar pontualmente com o irresistível melodrama, trazia elementos novos a serem trabalhados pelo diretor, uma trama hitchcockiana, com um protagonista masculino soturno... Eis que Os Amantes Passageiros, filme que seguiu o longa de 2011 na filmografia do cineasta, representa um retorno ao passado do diretor, uma comédia rasgada, com todas as tonalidades almodovarianas: sexualmente sugestiva (com alguns momentos explícitos até), mas que não representa nem um terço das possibilidades que um filme com a assinatura do espanhol costuma trazer. Os Amantes Passageiros é um dos seus filmes mais tímidos, evocando uma irreverência e uma subversão que só ficam na promessa, no meio do caminho.
 
Os Amantes Passageiros traz como protagonistas a tripulação e os passageiros de um voo da companhia aérea Península, que sai da Espanha rumo ao México, mas que é forçadamente obrigado a cumprir uma trajetória mais longa em função de problemas no pouso. Com os ânimos um pouco exaltados, todos a bordo começam a revelar segredos íntimos envolvendo suas vidas e escapadas sexuais. Para acalmar a situação de pânico, três comissários de bordo tentam entreter os passageiros com números musicais e substâncias ilícitas, que acabam aflorando ainda mais as suas fantasias.
 
 
Como não poderia deixar de ser, afinal Almodóvar é um cineasta essencialmente autoral, todas as marcas estéticas, temáticas e narrativas de sua filmografia estão presentes em Os Amantes Passageiros, com a diferença que aqui elas não se encontram harmônicas. Há um descompasso entre o que se vê na tela e as pretensões de Almodóvar, que acaba realizando uma espécie de chanchada espanhola de grife, o que não combina, fato. Pontualmente, a comédia nos fornece elementos irresistíveis na filmografia do cineasta, como suas reviravoltas, o flerte com o melodrama, mas tudo muito pálido se compararmos esse longa com seus antecessores.
 
Há performances impagáveis do trio Javier Cámara, Carlos Areces e Raúl Arevalo, ótimos como o trio aloprado de comissários, representados, claro, com tintas muito fortes. A interessantíssima Lola Dueñas dá novamente o ar da graça em um filme do diretor, uma das mais interessantes do elenco na pele de uma virgem quarentona. Já Cecília Roth, outra antiga colaboradora de Almodóvar, vive uma atriz que já transou com meio mundo de personalidades influentes e chantageia todas elas afirmando que possui vídeos de todas as suas relações sexuais. Há participações afetivas de Penélope Cruz, Antônio Banderas e Paz Vega, mas nada que entusiasme.
 
 
Talvez depois da remexida nas estruturas proporcionada por A Pele que Habito, Almodóvar tenha cedido ao conforto e ao comodismo de Os Amantes Passageiros. Relevemos. Quer dizer, em partes. Não dá para ter uma avaliação condescendente neste que surge como um dos trabalhos mais fracos na carreira de um diretor que sempre que surge no circuito, surge com pertinência. No terreno em que naturalmente deveria contribuir com seu toque pessoal, a comédia, Pedro Almodóvar opta pela preguiça criativa de Os Amantes Passageiros. Humano, mas não dá para deixar passar batido.
 


Los Amantes Pasajeros, 2013. Dir.: Pedro Almodóvar. Roteiro: Pedro Almodóvar. Elenco: Javier Cámara, Cecilia Roth, Lola Dueñas, Carlos Areces, Raúl Arevalo, Antônio de la Torre, Hugo Silva, Paz Veja, Blanca Suárez, Guillermo Toledo, Miguel Angél Silvestre, Laya Martí, Carmen Machi, Antônio Banderas, Penélope Cruz. 90 min. Paris Filmes.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Drops: Guerra Mundial Z

Parece mentira, mas Guerra Mundial Z é um dos raros blockbusters na carreira daquele que hoje é um dos maiores astros dos nossos tempos, Brad Pitt. O astro engajado em causas sociais e políticas, o que quase sempre se reflete na temática dos seus filmes, se rendeu finalmente aos caça-níqueis! E que mal há nisso? Nenhum, Guerra Mundial Z rende um filme catástrofe divertido. A preocupação com o roteiro é praticamente nula, não se define personalidades aos seus protagonistas e, consequentemente, não há identificação alguma com a situação que estão vivendo. Em contrapartida, o filme se redime por dialogar despretensiosamente com os clichês de um gênero já desgastado e oco pelo excesso produtivo. Guerra Mundial Z é um game aloprado de caça a zumbis, uma troca justa já que tantos games têm utilizado o cinema como forma de se renovar e estabelecer novas formas de diálogo e interação com seu público. A sinopse envolve uma contaminação global, o que justifica racionalmente a existência de mortos vivos. Simples assim. Marc Foster finalmente se acerta com filmes desse porte no que diz respeito ao ritmo, mostrando que a desastrosa direção em 007 - Quantum of Solace não lhe rendeu traumas, e Brad Pitt eficiente ao extremo em sua nova função não deixa de fazer prevalecer sua mensagem de engajamento global no final do longa, como produtor politicamente correto que é. Eficiente, mas carece de personalidade e conexões emocionais, principalmente destas últimas, necessárias independente da proposta cinematográfica que se faça.
 

 World War Z, 2013. Dir.: Marc Foster. Roteiro: Damon Lindelof, Drew Goddard e Matthew Michael Carnahan. Elenco: Brad Pitt, Mireille Enos, James Badge Dale, David Morse, Daniella Kertész, Ludi Boeken, Fana Mokoena. 116 min. UIP

terça-feira, 25 de junho de 2013

Drops: Universidade Monstros

A Pixar já nos ofereceu obras-primas o suficiente para darmos um salvo conduto aos seus serviços e deixa-los ganhar um pouquinho mais em seus caixas, exercendo em plenitude as suas funções como estúdio cinematográfico. É a lógica de uma indústria: cada franquia bem-sucedida, possibilita a execução de outros tantos filmes autorais. No caso deles, longas como Ratatouille e Wall-e, por exemplo, não faturaram tanto quanto o esperado. Oportunidades da junção entre os dois mundos (arte e indústria) ocorreram isoladamente, na franquia Toy Story e em Procurando Nemo, por exemplo.  Justo que agora a Pixar queira faturar com alguns de seus personagens mais populares, e, ao menos, vemos essa proposta nas mãos sensíveis dos seus gênios criativos com filmes como Universidade Monstros e não na mão de produtores baratos como acontece usualmente. O filme é um  prequel que traz Sullivan e Wazowski, dupla impagável de Monstros S.A., nos seus tempos universitários. Temas germinais da condição humana, como de praxe em filmes da Pixar, permeiam um filme leve, delicioso na medida certa e com um equilíbrio narrativo ímpar. Quem dera todo filme de estúdio fosse assim...
 

 Monsters University, 2013. Dir.: Dan Scanlon. Roteiro: Dan Scanlon, Daniel Gerson e Robert L. Baird. Vozes de: Billy Crystal, John Goodman, Helen Mirren, Steve Buscemi, Alfred Molina, Nathan Fillion, Bonnie Hunt, Peter Sohn, Joel Murray, Sean Hayes, Dave Foley, Charles Day. 104 min. Buena Vista.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

O Lugar onde tudo Termina

Do mesmo realizador de Namorados para Sempre, filme aborda com sensibilidade a responsabilidade paterna, mas tem segundo ato sabotado por seu roteiro e pela interpretação pouco esforçada de Bradley Cooper
 

Derek Cianfrance fez muito barulho em 2010 com Namorados para Sempre, filme protagonizado por Ryan Gosling e Michelle Williams que pretendia contar a história de um jovem casal e como o cotidiano levava essa relação ao desgaste. A proposta foi muito bem sucedida, o diretor e roteirista estreitou o vínculo afetivo entre Williams e Gosling e procurou a naturalidade em suas atuações, um resultado superior ao esperado, sem dúvidas. Portanto parece justo que seu trabalho seguinte fosse aguardado com grandes expectativas. O Lugar onde tudo Termina seguiu uma carreira interessante, rendeu novos elogios ao realizador e conseguiu uma atenção considerável do público para um filme que mantém suas raízes independentes até mesmo em sua estratégia de distribuição. No entanto, apesar do êxito em aspectos isolados, O Lugar onde tudo Termina falha em dois pontos, o roteiro e a interpretação de um dos seus atores.
 
O Lugar onde tudo Termina centra sua narrativa em três eixos dramáticos. No primeiro, encontraremos Luke um jovem que abandona a vida nômade do circo, onde trabalha no globo da morte com sua moto, após descobrir que é pai de um menino, fruto de um relacionamento que teve um ano atrás. Sem saber como sustentar a criança, Luke passa a assaltar bancos e se torna um bandido procurado na região. No segundo eixo nos é apresentado o policial Avery, condecorado em seu departamento após o êxito em uma perseguição a Luke. Avery acaba tomando decisões eticamente questionáveis que o atormentam durante anos e afeta profundamente suas relações afetivas mais próximas. Em um terceiro momento, os filhos desses dois personagens acabam se encontrando e as consequências das decisões tomadas por seus pais começam a se manifestar em suas vidas. 


O Lugar onde tudo Termina é um filme que trata sobre a importância das nossas raízes, das nossas referências, sobretudo a paterna, associada diretamente à formação de um caráter. O roteiro de Cianfrance, em parceria com Bem Coccio e Darius Marder, nos oferece Luke e Avery como os personagens centrais no desenvolvimento deste conceito. No entanto, parece que seus roteiristas centraram seus esforços e talentos na construção do núcleo de Luke, personagem bem defendido por Ryan Gosling, enquanto que o Avery de Bradley Cooper acaba se tornando o aspecto mais frágil de todo o filme: o que norteia sua passividade? Um tropeço incômodo visto que é através de Avery que a redenção de seus personagens viriam no longa.
 
A falta de traquejo do roteiro nesse departamento se torna acentuada com a atuação pálida de Bradley Cooper que não consegue sustentar o drama vivido por Avery em função da culpa que carrega por suas ações. É como se Cianfrance exigisse de Cooper algo que ele ainda não consegue sustentar dramaticamente, apesar de sua ótima campanha na temporada de prêmios desse ano com O Lado bom da Vida. Fica muito a desejar. Por outro lado, Ryan Gosling, sempre competente, e aqui amparado por uma construção de personagem que o favorece (bem mais que Cooper, é verdade), é certeiro no tom da sua performance. Luke é retratado como um homem tentando reparar sua trajetória, fazer diferente com seu filho, estabelecer uma relação diferente daquela que seu pai estabeleceu com ele, mas que não consegue encontrar uma solução madura para a meta que se impõe. Gosling é sincero e terno em sua composição, sobretudo quando divide a cena com Eva Mendes, em uma das melhores interpretações do filme. Mendes confere dignidade a uma mulher que já perdeu qualquer expectativa romântica sobre a vida, mas que não consegue conter a emoção ao perceber que o sonho de ter o pai do seu filho presente pode enfim se concretizar e ela pode não estar só nessa pesada responsabilidade de criar uma criança. No entanto, todas as suas esperanças revelam-se falsas quando se dá conta do que Luke está sendo capaz de fazer em nome dessa tentativa de construir um modelo referencial.


Derek Cianfrance mantém a qualidade na direção em O Lugar onde tudo Termina através de opções nada óbvias, mas ao mesmo tempo pouco exibicionista, o que é muito bom para um cineasta. O filme tem seus percalços, tropeços que empalidecem suas pretensões. Mas ainda que não ofereça o final catártico que anuncia, O Lugar onde tudo Termina é um esforço interessante de um diretor que parece sempre oferecer um conforto emocional para seus espectadores e para seus personagens diante do pessimismo do universo que retrata e que impõe.

 
 
The Place Beyond the Pines, 2013. Dir.: Derek Cianfrance. Roteiro: Derek Cianfrance, Bem Coccio e Darius Marder. Elenco: Ryan Gosling, Bradley Cooper, Eva Mendes, Rose Byrne, Bruce Greenwood, Ray Liotta, Emory Cohen, Dane DeHaan, Mahershala Ali, Olga Merediz. 140 min. Paris Filmes.

domingo, 23 de junho de 2013

Behind the Candelabra

Telefilme da HBO eleva a qualidade, já satisfatória, da derradeira safra de Steven Soderbergh. Michael Douglas tem sua grande atuação em anos, mas é Matt Damon quem dá o tom ao projeto.
 
 
Existe uma razão oficial para Steven Soderbergh, um dos cineastas norte-americanos mais importantes de sua geração, sair de cena em um momento tão interessante de sua carreira. Todos sabem, Soderbergh cansou de dirigir e quer se dedicar às artes plásticas. No entanto, após Behind the Candelabra tenho desconfianças de que a origem dessa decisão esteja lá atrás. Por alguns anos, Soderbergh tentou levar para as telas O Homem que Mudou o Jogo, filme sobre o universo do beisebol com Brad Pitt no elenco. Por divergências criativas com a Paramount e pelas dificuldades financeiras de levar o filme que queria adiante, seu projeto acabou não vingando e outro diretor, Benett Miller, de Capote, assumiu a direção. Seus projetos posteriores eram filmes que carregavam as marcas de Soderbergh como realizador, mas inegavelmente eram longas comercialmente palatáveis (mais uma vez, não há mal nenhum nisso): ContágioA Toda Prova, Magic Mike e Terapia de Risco.
 
Era o que ele conseguia fazer naquele momento no sistema de financiamento e distribuição que encontrava a sua disposição. Behind the Candelabra, por sua vez, representa o ponto máximo dessa fase, um projeto muito mais ambicioso e inflamável que os quatro anterioremente citados juntos, muito mais "perigoso" e que, curiosamente, só encontrou guarida na rede de canais a cabo HBO. Resultado: o telefilme é um dos melhores trabalhos da carreira do diretor em anos. Contudo, como apaixonado confesso pelo cinema, não há como lamentar que não tenha sido abraçado por produtores com uma visão mais apurada da sétima arte, pois ganharia dimensões e repercussões muito mais interessantes, dimensionando corretamente o caráter desse filme, um dos mais emocionantes na carreira de um cineasta conhecido por priorizar a racionalidade e manter uma relação fria e distante com a sua própria criação, mesmo em projetos propícios às lágrimas como Erin Brokovitch. Aqui não, Soderbergh abraça-os, entende as dores e as personalidades cambiantes, humanamente contraditórias de seus personagens, e ainda contextualiza sua trama com um dos períodos mais emblemáticos da sociedade norte-americana: o momento em que homossexuais não assumidos começaram a compulsoriamente "sair do armário" em virtude da crescente divulgação dos casos de Aids no país. Claro que essa passagem não é aprofundada, até porque Soderbergh não pretende fazer um tratado social a esse respeito, seu interesse maior é na relação entre seus personagens, mas é emocionante ver diante de si tamanha consciência e conjugação de elementos bem aplicados em prol da narrativa como acontece em Behind the Candelabra.
 

Behind the Candelabra conta o romance "secreto" entre Walter Liberace, o showman de Las Vegas nas décadas de 1970 e 1980, e seu pupilo, o jovem aspirante a veterinário transformado em assistente pessoal e de palco do artista, Scott Thorson. Os dois viviam como um casal, mas o teor daquela relação não chegava ao público pelos veículos de comunicação pois Liberace não queria ser associado a sua óbvia condição sexual. A não publicização dessa relação e a obsessão de Liberace pela juventude levaram a união a uma crise que culminou no abandono emocional e financeiro de Thorson. O casal acabou se envolvendo, anos mais tarde, em uma disputa por bens que terminou de forma amigável, mas extremamente desfavorável a Thorson, completamente desamparado pela lei, já que sua relação com Liberace era inclassificável pelo arcabouço jurídico vigente.

Soderbergh propõe desvendar o que existia por trás das excentricidades de Liberace através de sua relação com Thorson e descobre um  homem "em paz" com a sua sexualidade , até mais bem resolvido que o parceiro, mas que por ser uma figura midiática evitava assumir sua união por razões profissionais. Em uma de suas falas nos bastidores do Oscar em que se apresentou, Liberace diz que a sua função na vida das pessoas é entreter e que não vê sentido em artistas que levantam bandeiras de causas sociais, como o fez Jane Fonda, por exemplo, evidenciando pontualmente sua perspectiva. No entanto, em diversos momentos, sobretudo por nutrir secretamente uma espécie de culpa cristã, põe-se em dúvida se é um discurso que o artista busca para justificar suas atitudes ou se esse pensamento é o que permeou suas decisões ao longo da carreira. Assim, Soderbergh é cuidadoso no tratamento da vida do seu biografado, sem fugir do retrato das suas próprias contradições, equilíbrio que poucas vezes é obtido por cineastas em sua posição.
 
Liberace também era fascinado pela juventude, se submetia a intervenções cirúrgicas e impôs esses procedimentos a seus parceiros para que nunca "enjoasse" deles ao perceber o decurso do tempo em suas feições. Thorson era prova viva disso, um rapaz inseguro, sem referenciais desde a infância, que se encanta pelo universo de possibilidades que Liberace lhe proporciona e que se submete a qualquer capricho do seu parceiro para não perde-lo, uma carência emocional e financeira. Com o tempo, Thorson acaba desenvolvendo um amor pelo seu companheiro, um sentimento que não consegue se harmonizar com a maneira objetiva e primordialmente sexual com que Liberace encarava um relacionamento. Todo esse caldeirão de tensões é administrado com primor por Soderbergh que opta por concentrar boa parte de sua mise-en-scène entre quatro paredes, a vida íntima de um casal que sempre priorizou mantê-la íntima, algo que me lembrou o projeto revelação do diretor, Sexo, Mentiras e Videotape em determinada instância.


Soderbergh e seu roteirista Richard LaGravenese deixam claro que a instabilidade emocional dos seus personagens está claramente vinculadas à tensão entre seus anseios amorosos e as expectativas e preconceitos da sociedade da época. Há até uma menção (discreta e brilhantemente inserida no filme) sobre o caso de Rock Hudson, um dos maiores atores da época de ouro do cinema que revelou sua homossexualidade quando veio os tabloides noticiaram que ele portava o vírus do HIV. Nos início dos anos 1980, a manutenção do latente preconceito e silêncio sobre a homossexualidade levou o grupo a uma instantânea marginalização. Os primeiros casos de Aids divulgados envolviam homossexuais (na verdade, critérios de noticiabilidade pautados no preconceito já inseridos na sociedade pois heterossexuais também eram contaminados), muitos deles, como Liberace, se arriscavam em suas fantasias sexuais em clubes secretos que não expusessem sua identidade e sua imagem ao crivo social. Assim, essa preferência pelo risco em detrimento da livre expressão sexual, ou seja vivenciar relações abertas sem receio de julgamentos de terceiros, fez surgir um problema ainda mais grave para o grupo: se o preconceito já era difícil quando todos, a exemplo de Liberace e Rock Hudson, se "escondiam no armário", tudo piorou quando alguns assumiram sua condição sexual em meio a proliferação dos casos de Aids. Um momento crítico e emblemático, mas necessário para que cheguemos a maneira com que o tema é tratado hoje: a compreensão maior sobre a homossexualidade, ainda que essa compreensão maior não signifique aceitação maior ou diminuição do preconceito.

Tudo isso é necessário dizer para dimensionar o nível de profissionalismo de Soderbergh no aprofundamento do tema proposto e do contexto que o cerca, sem mencionar o tratamento maduro na composição de seus personagens. Behind the Candelabra conta com a performance irretocável de Michael Douglas como o controverso Liberace. O ator é preciso no retrato do personagem, a ponto de assimilar entonações e maneirismos gestuais do showman com uma versossimilhança espantosa. Há anos não se via um trabalho tão interessante de Douglas, que parecia sempre surgir no piloto automático em cena (talvez reflexo do desestímulo causado pelos projetos que lhe apareciam). No entanto, Behind the Candelabra ganha nitidamente outros contornos - e talvez seja dai que Soderbergh tenha conseguido tornar esse projeto o mais emocional da sua carreira - com a evolução visível de Matt Damon como ator. Conhecido por ser uma figura simpática, engajada e vinculada a escolhas acertadas em sua carreira, poucas vezes Damon mergulhou tanto nos meandros de um personagem como aqui. Damon percorre com maestria as variações emocionais e o crescimento do personagem na linha de tempo do filme, desde a sua insegurança com a própria identidade no início, passando pelo descontrole emocional diante da constatação de um sentimento por Liberace e da possibilidade de perdê-lo, até a sua maturidade, quando consegue deixar de lado as mágoas, compreender as decisões tomadas por seu antigo parceiro e admirá-lo.
 
Já escrevi em outras oportunidades, precisamente Magic Mike e Terapia de Risco, que Steven Soderbergh, nos pretensos últimos filmes da sua carreira, parece ter encontrado o equilíbrio entre o entretenimento e suas marcas autorais, algo que lhe faltava em projetos como as continuações de Onze Homens e um Segredo e Confissões de uma Garota de Programa. O cineasta sempre se inclinava para um lado e equivocadamente não o assumia (o caso de Onze Homens e seus derivados) ou então era pretensioso demais em seus propósitos (Confissões de uma Garota de Programa). Behind the Candelabra representa o amadurecimento de um realizador que deixou de se dar rótulos e de dar rótulos aos seus filmes e esteve mais preocupado em deixar que sua própria criação o guiasse na concepção de um trabalho ímpar em sua carreira. Mais uma vez, e agora com mais certeza dessas palavras e das consequentes avaliações, escrevo: uma pena que Soderbergh saia de cena em um momento tão interessante. De qualquer forma, sai em grande estilo.

 
 
Behind the Candelabra, 2013. Dir.: Steven Soderbergh. Roteiro: Richard LaGravenese. Elenco: Michael Douglas, Matt Damon, Debbie Reynolds, Dan Aykroyd, Rob Lowe, Scott Bakula, Garrett M. Brown, Jane Morris, Cheyenne Jackson, Paul Reiser. 118 min. Em breve na HBO.
 

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Drops: País do Desejo

Paulo Caldas, de Baile Perfumado e Deserto Feliz, retorna com esse drama sobre o lugar da religião na contemporaneidade, intitulado País do Desejo. O filme conta uma história em dois eixos diferentes. De um lado, o sofrimento de uma pianista renomada  por  uma doença renal crônica. Do outro, uma família centrada em dois irmãos, um médico, casado e pai de dois filhos, o outro um jovem padre com ideias progressistas. O que acontecerá com esses dois núcleos é melhor manter em segredo. Em País do Desejo, Caldas pretende fazer uma crítica à gestão da Igreja Católica, cuja tendência apontada por muitos é a da permanência de uma ala conservadora que sufoca e incompatibiliza sua reformulação. O filme tem momentos inspirados, a ideia de Caldas é consistente, bem como sua condução ao longo da projeção. Há também interpretações honestas de Fábio Assunção, Maria Padilha e Gabriel Braga Nunes. No entanto, determinadas camadas dos personagens permanecem ocultas por falta de um maior aprofundamento do roteiro, uma necessidade latente que só é despertado quando já é tarde demais e o filme passa da primeira hora de projeção. Faltou timing.


País do Desejo, 2012. Dir.: Paulo Caldas. Roteiro: Paulo Caldas, Amin Stepple e Pedro Severien. Elenco: Fábio Assunção, Maria Padilha, Gabriel Braga Nunes, Germano Haiut, Nicolau Breyner, Fernanda Vianna, 87 min. Califórnia Filmes.

domingo, 16 de junho de 2013

Mal de família

Estreando em uma produção estrangeira com Segredos de Sangue, o sul-coreano Chan-wook Park questiona a natureza da violência. Predestinação ou escolha?
 
 
 Difícil enquadrar Segredos de Sangue em qualquer gênero cinematográfico. Terror? Não, passa longe. Drama? Talvez. Suspense? Possivelmente o que mais chega perto da proposta de Chan-wook Park, mas ainda assim seria reducionista sufoca-lo em "caixinhas". Em virtude dessa indefinição, o filme não encontrou seu público nos EUA. Uma verdadeira sina para projetos como esse, o público quer ter a segurança do que vai ver na tela, garantias, e Segredos de Sangue não dá garantia alguma a sua plateia, apenas a de que assistirá a um filme intrigante com a assinatura de um cineasta comprometido em desconstruir qualquer expectativa.
 
Roteirizado por Wentworth Miller (sim, o protagonista de Prison Break, que inicialmente enviou o roteiro aos estúdios com um codnome), Segredos de Sangue conta a história de India, uma adolescente que é surpreendida pela morte de seu pai quando está prestes a completar 18 anos. A transição para a vida adulta da protagonista colide com sua habitual introspecção e melancolia, características potencializadas pelo luto familiar e pela difícil relação que India mantém com sua mãe, Evelyn, a única pessoa a quem naturalmente poderia recorrer em um momento crítico como esse que está vivendo. Segredos de Sangue nos mostra uma família disfuncional cuja história cercada de mistérios começa a vir à tona com a chegada e Charlie, tio de India que interrompe sua vida nômade para ajudar a garota e sua mãe Evelyn a enfrentar a perda do patriarca, Richard Stoker.
 

Chan-wook Park não nega as origens e mantém-se preocupado em oferecer soluções visuais interessantes para os roteiros que dirige, conduzindo sua trama e a dinâmica entre os personagens através de camadas, interpretadas gradualmente pelo espectador. Park confere uma atmosfera hitchcockiana com diversos twists que pegam a plateia de sobressalto, até aqueles mais "espertinhos" (a referência a Hitchcock é mais direta em Sombra de uma Dúvida, que, por sinal tinha um plot que girava em torno de uma mulher às voltas com o retorno de um misterioso tio chamado Charlie, mesmo nome do personagem de Matthew Goode), e personagens neuróticos, sedutores e perigosos. Seus movimentos de câmera e a fotografia aplicada não são aleatórias, conferindo tom soturno, perigoso e uma tensão constante, sobretudo no intrigante triângulo incestuoso que tem como vértices India, Charlie e Evelyn.

Não que duvidasse do talento de Wentworth Miller - talvez sim, é humano questionar a capacidade das pessoas -, mas jamais poderia imaginar que ele pudesse criar um roteiro tão engenhoso, perturbador e envolvente quanto o de Segredos de Sangue. Seus diálogos são sugestivos e ditos na tela por um elenco afiado e harmônico. Mia Wasikowska compreende a complexidade da personalidade de India, sempre introspectiva e distante, como mecanismo de defesa e forma de expressão. A jovem está a procura de uma identidade e completamente perdida por não ter mais a referência de seu pai, a peça mais equilibrada da família. Inicialmente, a personagem conta apenas com a companhia de Evelyn, com quem não consegue estabelecer uma relação mais próxima em virtude da mãe estar sempre anestesiada por antidepressivos, algo apenas sugerido no longa. Existe uma tensão na relação mãe e filha, uma rivalidade feminina, que Wasikowska consegue criar muito bem em parceria com Nicole Kidman. A australiana (segunda do filme porque Mia também é de lá), por sinal, consegue fazer muito com uma personagem discreta, mas sempre presente. Evelyn é uma mulher carente, insegura e emocionalmente instável que não consegue lidar com as demandas de comandar a sua própria vida, casa e criar a sua filha. Nicole consegue encontrar o tom certo da personagem sem oferecer muito da sua natureza logo de cara e evitando tonalidades mais fortes em sua composição.
 
No entanto, a interpretação mais surpreendente do longa fica por conta de Matthew Goode, que substituiu de última hora Colin Firth no papel do tio Charlie. Sedutor e manipulador, Goode interpreta um sujeito que obviamente está escondendo algo de India e Evelyn, tendo pretensões muito mais obscuras do que diz ter desde o início do longa. O personagem utiliza artifícios de dissimulação para mostrar a Evelyn que pode ser o equilíbrio que ela tanto procura. Mais do que Evelyn, Charlie quer conquistar India, amenizar sua angústia de sentir-se deslocada socialmente, tudo o que uma adolescente procura. Imediatamente, o personagem instaura o caos e a rivalidade na relação entre mãe e filha. Dessa forma, Goode cria um tipo que gera calafrios, mas que causa um inegável fascínio, característica inerente aos melhores psicopatas do cinema.

 
Tentar desvendar a trama de Segredos de Sangue, contudo, implica adentrar nas reviravoltas do longa, portanto serei cauteloso. Em resumo, o filme expõe ao espectador sua teoria sobre o nascimento do mal ou o "desabrochar" das personalidades doentias, no caso de India, não por acaso, justamente na transição da adolescência para a fase adulta. Wentworth Miller e Chan-wook Park são claros, até mesmo na narração da protagonista no início do filme, certas características são alimentadas no seio familiar outras correm nas nossas veias e se manifestaram em nossos antepassados. No entanto, a própria decisão tomada pela protagonista no terceiro ato evidencia a relativização desse conceito pelos realizadores. A violência nasce em meios propícios a ela, uma espécie de vírus contagioso. Portanto, nem predestinação nem livre arbítrio, mas o meio. Violência gera violência. O mal é estancado pelo próprio mal.
 
E há quem diga que trata-se de um Chan-wook Park pasteurizado... Acusação óbvia para qualquer trabalho em língua inglesa de um diretor "estrangeiro". Park dirige um roteiro que não foi escrito por ele, natural que exista um estranhamento entre esse longa e o restante da sua filmografia até aqui. Mas Segredos de Sangue não é um filme de estúdio e certamente não contou com mandos e desmandos mais invasivos de empresários interessados em torná-lo mais palatável, mesmo porque se a intenção foi essa, o tiro saiu pela culatra. Mesmo que esteja distante da veemência de filmes como Oldboy, Lady Vingança, Mr. Vingança e Sede de Sangue, Segredos de Sangue tem inúmeras qualidades que merecem ser reforçadas. Entre elas, deixar que seu diretor conduza a história da maneira que bem entenda, dando sua interpretação para aquela trama e deixando bem claras suas marcas como realizador. Passa longe da padronização narrativa que os xiitas cansativamente costumam alegar para casos como o seu. Coisa de gente chata! Segredos de Sangue fala por si só.
 

 
Stoker, 2013. Dir.: Chan-Wook Park. Roteiro: Wentworth Miller. Elenco: Mia Wasikowska, Matthew Goode, Nicole Kidman, Jacki Weaver, Phyllis Somerville, Alden Ehrenreich, Lucas Till, Dermot Mulroney, Ralph Brown, Tyler von Tagen, Thomas A. Covert. 99 min. Fox.

sábado, 15 de junho de 2013

Drops: Adeus, Minha Rainha

Grande destaque no último Festival Varilux de Cinema Francês, a ponto da atriz Léa Seydoux, sua protagonista, quase ter aparecido por aqui para divulgá-lo, Adeus, Minha Rainha é um filme com propósitos frustrados pela própria execução do projeto. O longa de Benoít Jacquot mostra o romance entre Maria Antonieta e a duquesa Gabrielle de Polignac pela perspectiva de uma das empregadas de Versalhes, Sidonie Ladorbe, leitora da rainha da França, nos primeiros dias da Revolução Francesa. A proposta de Adeus, Minha Rainha, na verdade, não é contar esse episódio da vida de Maria Antonieta, mas mostrar como se estabeleciam as relações entre a corte de Luís XVI e os criados, uma relação perversa a ponto de criar expectativas e sonhos em pessoas que acabavam perdendo sua própria identidade para servir a aristocracia da época. No entanto, o desenvolvimento dessa proposta é atabalhoado e Benoit não consegue ser muito claro em seus objetivos. Apesar dos esforços de Léa Seydoux, muito bem na pele de Sidonie, Diane Kruger não convence como a icônica Maria Antonieta, tornando os esforços no estabelecimento da relação central do longa (vital para toda a compreensão do filme) unilaterais.
 
 
Les Adieux à la Reine, 2012. Dir.: Benoit Jacquot. Roteiro: Benoit Jacquot e Gilles Taurand. Elenco: Léa Seydoux, Diane Kruger, Virginie Ledoyen, Noémie Lvovsky, Xavier Beauvois, Michel Robin, Julie-Marie Permentier, Vladimir Consigny. 100 min. Europa Filmes.
 

Prova de fogo

Antes da Meia Noite testa os sentimentos de Jesse e Celine após dez anos de casamento e duas filhas no filme mais "pé no chão" da série e também o mais terno
 
 
Jesse e Celine alcançaram a maturidade, assim como Ethan Hawke e Julie Delpy em Antes da Meia Noite, filme que fecha um ciclo na vida dos personagens que se conheceram em Antes do Amanhecer e se reencontraram em Antes do Pôr-do-Sol. Dez anos após Antes do Pôr-do-Sol,  Jesse e Celine estão casados e são pais de gêmeas, Ella e Nina. Em Antes da Meia Noite acompanhamos o último dia de férias do casal no sul da Grécia, após Jesse deixar no aeroporto o seu filho, rumo aos EUA, onde retorna para a casa da sua ex-mulher. A proposta para os personagens aqui é avaliar se o amor consegue se sustentar em meio à rotina doméstica e o tempo.
 
Na sua busca por respostas, Antes da Meia Noite não chega a ser um filme cru e duro com seus protagonistas, como o foi Namorados para Sempre, por exemplo, filme de Derek Cianfrance com Ryan Gosling e Michelle Williams, só para fazermos um paralelo. A ternura e o encantamento dos dois filmes anteriores da série cedem lugar para a parceria de boa parte de uma vida. O amor em Antes da Meia Noite brota da identificação e da cumplicidade de Jesse e Celine, tornando-se o longa mais comprometido com a realidade (a sua maneira, os anteriores também o eram). Talvez por esse mesmo motivo e por mostrar a sublimação do sentimento que o casal nutre há dez anos, em meio a adversidades, a convivência e consequente necessidade de tolerância, que a série cinematográfica atinja o auge da sua maturidade nesse longa.
 
 
Mais uma vez, toda a narrativa é calcada nos diálogos travados por Jesse e Celine, boa parte deles acompanhados sem cortes por Richard Linklater que, como de praxe, interfere o mínimo possível na dinâmica do casal. A responsabilidade quase que total está novamente nas mãos de Hawke e Delpy, que demonstram a sinergia usual interpretando o roteiro que criaram junto com o diretor (o trio está na função desde Antes do Pôr-do-Sol e essa parceria só contribuiu para o crescimento da série). Uma das melhores transformações desse novo script é a "evolução" das neuroses de Celine, assumindo de vez sua porção Woody Allen na trama. E se a forma contestadora e irônica com que Celine via o mundo fazia Jesse se derreter nos longas anteriores, aqui surge como um defeito a ser tolerado por ele. Da mesma forma, o romantismo sem concessões de Jesse passa a ser encarado com certa irritabilidade por Celine.
 
Retomemos o trabalho da dupla central. Não dá para falar de Antes da Meia Noite, tampouco tecer elogios ao seu roteiro, sem mencionar a parceria entre Ethan Hawke e Julie Depy. Mais seguros dos seus personagens desde Antes do Pôr-do-Sol, e terem se tornado roteiristas foi fundamental para esse processo, os atores surgem confortáveis e seguros o suficiente em cena para explorar o que cada um tem de melhor a oferecer para as versões maduras de Jesse e Celine. Não há uma só linha desperdiçada do roteiro, nada que o excelente timing da dupla não dê conta do recado. É verdade que Delpy tem as melhores falas do longa, mas tudo é uma troca, um trabalho em conjunto. Um princípio básico para a história de Jesse e Celine ter dado tão certo dentro e fora da telona.
 
 
Antes da Meia Noite é provavelmente o filme mais agradável de se assistir da série. Romântico e irônico na medida exata, Richard Linklater, Ethan Hawke e Julie Delpy encerram um belíssimo ciclo de suas carreiras no cinema e também das suas vidas. Que não me falhe a lembrança, Antes da Meia Noite é um dos raros filmes sobre a maturidade amorosa que não possui uma percepção melancólica e pessimista sobre o amor. O longa encerra a passagem dos seus personagens no cinema com mais otimismo e doçura que Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-Sol juntos. Nossa vida é caótica, dura e muitas vezes ingrata. Os defeitos dos outros ganham proporções insuportáveis com a intimidade. Mas se no meio disso tudo existir um sentimento sincero, as chatices da vida adulta vão para debaixo do tapete sem maiores aborrecimentos e traumas.

 
 
Before Mifnight, 2013. Dir.: Richard Linklater. Roteiro: Richard Linklater, Ethan Hawke e Julie Delpy. Elenco: Ethan Hawke, Julie Delpy, Walter Lassally, Seamus Davey-Fitspatrick, Jennifer Prior, Charlotte Prior, Xenia Kalogeropoulou, Ariane Labed, Yiannis Papadopoulos, Athina Rachel Tsangari. 101 min, Diamonf Filmes.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Drops: Sem Proteção

Robert Redford é um incansável. O veterano pode não ser visto com tanta frequência na frente das telas, mas sua contribuição para o cinema é constante. Tal qual Clint Eastwood, Redford produz e dirige em série. No entanto, ainda que Eastwood se perca ocasionalmente no melodrama, mantém uma regularidade na qualidade de seus projetos. O mesmo não pode ser dito de Redford, cujo brilho parece ter estagnado em Gente como a Gente, filme pelo qual venceu o Oscar em 1980. Ano após ano, os longas dirigidos por Redford surgem como filmes mofados, burocráticos nas ideias e na condução narrativa. Sem Proteção, seu mais recente longa, que ficou no ostracismo como Conspiração Americana e Leões e Cordeiros, traz muito pouco de novo e tudo o que já sabemos sobre as ideologias e sobre o estilo do seu realizador.Sem Proteção é a história de um ex-ativista político acusado de cometer assassinato, uma trama acompanhada de perto por um jovem repórter que trabalha para um jornal em vias de encerrar suas atividades.   Mesmo com o elenco dos sonhos de qualquer cineasta (basta dar uma olhada nos nomes envolvidos no projeto abaixo), Redford continua perseguindo a mesma trajetória. Não se trata de um filme ruim, pelo contrário, mas bem aquém do que poderia ser.

 
The Company you Keep, 2012. Dir.: Robert Redford. Roteiro: Lem Dobbs. Elenco: Robert Redford, Shia LaBeouf, Julie Christie, Susan Sarandon, Nick Nolte, Chris Cooper, Terrence Howard, Stanley Tucci, Richard Jenkins, Anna Kendrick, Brendan Gleeson, Brit Marling, Sam Elliot. 121 min. Imagem Filmes.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Drops: Além da Escuridão - Star Trek

É de uma ignorância abismal a relutância de um grupo radicalmente acadêmico de cinéfilos em não enxergar os esforços de cineastas como Christopher Nolan e J.J. Abrams que, tal qual Steven Spielberg nas décadas de 1980 e 1990, com suas tentativas de conferir um mínimo de frescor em filmes inseridos no contexto industrial. Além da Escuridão - Star Trek segue essa tradição louvável de fazer entretenimento (sim, porque é entretenimento e não há vergonha nenhuma nisso, é preciso que deixemos de encarar a denominação como uma espécie de cólera no universo intocável da sétima arte). Um entretenimento que não ofende nossa inteligência, percepção e repertório cinematográfico. Personagens consistentes, trama cerebral, emoções bem desenvolvidas e ação de qualidade, ingredientes notáveis que Abrams sabe conduzir como ninguém aqui. Zachary Quinto, como Spok, e Chris Pine, o Capitão Kirk, competentíssimos, demonstram eficiência, domínio de seus personagens e sinergia em cena. Mas é claro que Benedict Cumberbatch é hipnótico com o intrigante Khan, vilão desse novo episódio da série. Elevando Star Trek a um outro patamar, Khan é daqueles psicopatas extremistas que colocam a vida dos protagonistas do avesso, testando seus limites emocionais e éticos (sobretudo o controlado Spok). Confesso que preferia o final trágico que Além da Escuridão chega a sugerir, mas acho que macularia um mito que os fãs da série cultivam, então que essa pontinha de desapontamento fique no meu singelo desejo de espectador que começa a simpatizar com esse universo somente agora. 
 
 
Star Trek into Darkness, 2013. Dir.: J.J. Abrams. Roteiro: Damon Lindelof, Alex Kurtzman e Roberto Orci. Elenco: Chris Pine, Zachary Quinto, Zoe Saldana, Benedict Cumberbatch, Karl Urban, Simon Pegg, Alice Eve, Bruce Greenwood, Peter Weller, Anton Yelchin, John Cho. 132 min. UIP.
 

Revisitando: Antes do Amanhecer (1995) e Antes do Pôr-do-Sol (2004)


Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-Sol estão sempre no topo das listas de romances preferidos do cinema. De produções independentes sem a menor pretensão, a história do norte-americano Jesse e da francesa Celine rendeu uma trilogia, que se encerra com a estreia nessa semana de Antes da Meia-Noite. Como narrativa, não há muito de inovador na série romântica. Manter como base para a sua trama apenas diálogos centrados somente em um casal de protagonistas, diálogos de cunho filosófico e existencialista, não é nada que predecessores já não tenham feito. O grande achado desses filmes, e que os fazem vencer a barreira do tempo, sendo tão queridos entre românticos das mais variadas gerações, são os sólidos conceitos que desenvolvem em seus roteiros: a perspectiva sobre o amor em diferentes fases da nossa vida. E por mais que amadureçamos e nos tornemos mais pragmáticos e frios no traquejo desse sentimento, ele sempre se faz presente, necessário, urgente. De diferentes formas, com nova roupagem e contexto, mas sempre está ali.
 
Antes do Amanhecer traz o encontro de Jesse e Celine, que, após se conhecerem em um vagão de trem em viagem pela Europa, decidem passar uma noite em Viena juntos. Lá eles se apaixonam e terminam o dia prometendo retornar aquele local 6 meses depois. Antes do Pôr-do-Sol, por sua vez, se passa cerca de dez anos após o episódio do primeiro filme, quando Jesse está de passagem por Paris para lançar um romance inspirado na noite que viveu em Viena com Celine. O casal, que não cumpriu a promessa de se reencontrar em Viena, faz um balanço das suas próprias vidas enquanto Jesse aguarda seu voo de volta para os EUA.
 
Sempre preferi Antes do Pôr-do-Sol a Antes do Amanhecer. Em Antes do Amanhecer, Jesse e Celine sucumbem às tolices juvenis, a ponto de preferirem a idealização de uma relação à concretização da mesma, com tudo de imperfeito e incômodo que qualquer relação pode trazer. Para não se quebrar, o amor deles permanece guardado no tempo e espaço, nas memórias. A noção de tempo para o casal é tão elástica que eles nem se preocupam em trocar contatos, um verdadeiro desleixo comum à juventude que sempre acredita que momentos e pessoas especiais se repetirão ou estarão sempre à sua disposição. Em Antes do Pôr-do-Sol já se passou quase uma década e Jesse e Celine vivenciaram desilusões o suficiente para perceber que não dá para ser tão displicente assim com o amor, chega a ser burrice deixá-lo escapar.
 
Enquanto Antes do Amanhecer representa a expectativa de jovens sobre o futuro, Antes do Pôr-do-Sol surge como um balanço de uma vida. E as reflexões sobre os erros e acertos rendem diálogos bem mais interessantes, claro. Curiosamente, Ethan Hawke e Julie Delpy, intérpretes de Jesse e Celine, assumiram o roteiro da série romântica a partir do segundo filme (receberam até uma indicação ao Oscar pelo trabalho), transferindo provavelmente vivências e teorias pessoais sobre a vida para Antes do Pôr-do-Sol. O mais interessante, e diria até esperançoso, de acompanhar Antes do Pôr-do-Sol é perceber como os personagens ganham uma ânsia de viver e de estarem juntos tão grande que nem perdem tempo com acusações acerca do fato de não terem se encontrado seis meses depois em Viena. As frustrações do cotidiano não transformaram Celine e Jesse em dois adultos amargurados, descrentes no amor e nas relações, mas um homem e uma mulher conscientes do seus respectivos erros e com vontade de repará-los. Até porque a vida é muito curta e pouco interessa se Jesse tem um voo marcado para a noite, o que interessa é aproveitar aquele momento, aquele encontro. Na maturidade percebemos que o tempo passa. Na juventude, há tempo para tudo, mesmo quando não há tempo.
 
Assim, enquanto Antes do Pôr-do-Sol centra-se mais no roteiro e no desempenho dos seus atores, sobretudo Delpy, Antes do Amanhecer é um trabalho aplicado e discreto de direção que torna o cenário parte da sua própria trama. E percebam como Paris torna-se praticamente fosca diante dos seus protagonistas em Antes do Pôr-do-Sol, enquanto que Viena é muito valorizada com seus cenários no primeiro filme, sendo um elemento tão forte quanto os personagens. Claro, afinal a cidade faz parte das idealizações românticas de Jesse e Celine. De qualquer forma, independente da preferência (e nesse aspecto, me refiro apenas a concepção de amor que cada um dos longas traz, porque cada um, de acordo com suas perspectivas propostas e como a desenvolvem, são muito bem executados), os responsáveis pelo projeto desenvolveram uma narrativa ascendente que torna seus elementos mais ricos e multifacetados com o tempo. Mágico e fascinante, mas ao mesmo tempo concreto e maduro

 
 

Before Sunrise, 1995. Dir.: Richard Linklater. Roteiro: Richard Linklater e Kim Krizan. Elenco: Ethan Hawke, Julie Delpy, Andrea Eckert,  Hanno Poschl, Karl Bruckschwaiger, Tex Rubinowitz, Erni Mangold, Dominik Castell. 105 min. Warner.

 
 
Before Sunset, 2004. Dir.: Richard Linklater. Roteiro: Richard Linklater, Ethan Hawke e Julie Delpy. Elenco: Ethan Hawke, Julie Delpy, Vernon Dobtcheff, Louise Lemoine Torres, Rodolphe Pauly, Diabolo, Mariane Plasteig, Denis Evrard. 80 min. Warner.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Notícias AdoroCinema: Trailers da biografia de Lady Di, Carrie - A Estranha e O Hobbit - A Desolação de Smaug; Babu Santana como Tim Maia; bilheteria de Gatsby no Brasil decepciona


Naomi Watts é o grande destaque no primeiro teaser da cinebiografia Diana
E o primeiro teaser de Diana, longa do alemão Olivier Hirschbiegel (A Queda! - As últimas horas de Hitler), foi divulgado essa semana e a comunidade cinéfila foi abaixo com as primeiras imagens da atriz Naomi Watts (O Impossível) na pele de Lady Di. O filme contará alguns anos após o divórcio de Diana e Charles, quando ela começou a se envolver com o cirurgião Hasnat Khan e passou a enfrentar problemas com a perseguição dos paparazzis dos tabloides ingleses. Particularmente, o teaser não diz muita coisa. Para ser sincero, Naomi causa uma estranheza na pele de Diana. Mas vamos esperar um pouco, é apenas uma prévia. Claro que já está começando a se falar em uma indicação ao Oscar para a atriz. Sabem como é... Filme inspirado em fatos reais, atriz que há anos merece um prêmio e realeza são pratos cheios para a Academia. No entanto, Watts enfrentará outra princesa no caminho, a Grace Kelly de Nicole Kidman em Grace of Monaco. Será interessante ver como será a trajetória dos dois trabalhos durante essa temporada...

Babu Santana aparece caracterizado como Tim Maia nos sets da cinebiografia do músico
Protagonista escolhido, as primeiras imagens oficiais do Tim Maia de Tim Maia foram divulgadas essa semana. Dirigido por Mauro Lima, que, a despeito de Reis e Ratos, tem um ótimo precedente em Meu Nome não é Johnny, o filme é baseado no livro Vale Tudo - Tim Maia, de Nelson Motta. Além de Babu, o elenco terá Alinne Moraes, Cauã Reymond e Laila Zaid. A estreia está prevista para 21 de março de 2014.
 
Bilheteria Brasil: Se Beber, Não Case - Parte 3, Depois da Terra e Velozes e Furiosos 6 no topo; O Grande Gatsby ficou na 6ª posição
Não consigo deixar de lamentar que o público brasileiro prestigie bombas como Se Beber, Não Case - Parte 3, Depois da Terra (desse desastre falarei em breve) e Velozes e Furiosos 6 (Deus, como eles têm fôlego para um sexto filme?) e deixe O Grande Gatsby em 6ª posição. Isso diz muito sobre a forma com que encaramos o cinema no Brasil, não? Quem não assistiu o novo filme de Baz Luhrmann, corra! Logo, logo será sugado por tantas outras besteiras que estão prestes a serem lançadas no Brasil.
 
Primeiro trailer de O Hobbit - A Desolação de Smaug é divulgado
Fora o espetáculo visual, O Hobbit - Uma Jornada Inesperada foi uma grande decepção. Ainda que a equivocada decisão de Peter Jackson em transformar o livro de Tolkien em três filmes seja irreversível, há quem ainda tenha alguma esperança que as continuações demonstrem um fôlego diferente do primeiro filme. Nesse primeiro trailer de A Desolação de Smaug, Legolas finalmente aparece e surge uma nova personagem, criada especialmente para o filme, vivida por Evangeline Lilly (saudações de Lost).

Julianne Moore maltrata Chloe Moretz em trailer do remake de Carrie, a Estranha
Esperava bem mais dos projetos de Julianne Moore após a enxurrada de prêmios que ganhou encarnando Sarah Palin em Virada do Jogo - sem falar que um remake  raríssimas vezes é animador -, mas vê-la ser cruel com Chloe Moretz no trailer espanhol de Carrie, a Estranha foi uma delícia! Sinal de que Moore promete mais do que se pensava nessa releitura da personagem.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Especial: Os eleitos em Cannes

A Vida de Adele, Berenice Bejo, Steven Soderbergh... O que a 66ª edição do festival trouxe como perspectiva para a temporada de prêmios do cinema em 2013?
 

Com a interrupção dos trabalhos do blog, não deu tempo nem de comentar o resultado e fazer uma cobertura sobre a última edição do Festival de Cannes. Mas vamos tentar preencher essa lacuna entendendo o que essa edição do festival representou para o ano de 2013 e quais são as perspectivas para o grande guilty pleasure de todo e qualquer cinéfilo que se preze, a temporada de prêmios.
 
A começar pela escolha da Palma de Ouro de melhor filme. O francês A Vida de Adele foi o escolhido pelo júri presidido por Steven Spielberg. Seu diretor, Abdellatif Kechiche (de Vênus Negra), nascido na Tunísia, recebeu o prêmio ao lado das suas protagonistas Léa Seydoux e Adele Exarchopoulos. Trata-se da história da descoberta da sexualidade pela jovem protagonista, Adele, interpretada por Exarchopoulos, a partir de seu relacionamento com Emma, personagem de Seydoux. Com aproximadamente três horas de duração, A Vida de Adele conta o início, o meio e o fim dessa história de amor.
 
Como não poderia deixar de ser (tradição em Cannes), a exibição do filme foi cercada de exclamações. Desde o espanto pela duração do longa, a comparações com o último vencedor do festival (Amor, de Michael Haneke), até depoimentos escandalizados com as cenas de sexo longas e explícitas de A Vida de Adele (Léa já esclareceu a todos que tudo no filme era simulação). Em inglês (espantem-se) recebeu um título muito mais interessante que o original, Blue is the Warmest Colour, uma referência à cor do cabelo da personagem de Seydoux.
 
Também falou-se muito sobre o fato da escolha sugerir uma manifestação política do festival acerca de relacionamentos homoafetivos sobretudo em um período no qual a França discute o casamento gay, como posições escancaradamente contra. Mas Spielberg e seu júri foram claros na coletiva de imprensa que encerrou o festival: a escolha do grupo não teve relação alguma com manifestações declaradamente políticas, mas sim com a qualidade artística de A Vida de Adele, classificada por todos como uma história de amor, cujo gênero das partes envolvidas é o que menos importa.
 
Sobre as chances do filme na temporada de prêmios... O Festival de Cannes, por dois anos consecutivos (A Árvore da Vida em 2011 e Amor em 2012), premiou com a Palma de Ouro filmes que chegaram a categoria principal do Oscar, melhor filme. Difícil saber se A Vida de Adele terá fôlego para tanto, tudo depende de como será sua campanha nos EUA. É um filme de língua estrangeira que, diferente de Amor, por exemplo, não conta com um diretor já tarimbado internacionalmente. Então, fica mais complicado. Já indicações nas categorias "filme em língua estrangeira" surgem como possibilidades mais concretas. Claro que para tanto é preciso que a França eleja o longa como o seu representante oficial na disputa por indicações na categoria, e, como sempre, a disputa entre os títulos franceses está acirrada este ano.

 
Le Passé, em tradução livre, "O Passado", do iraniano Asghar Farhadi (de A Separação), também é um filme francês e já surge como um concorrente direto de A Vida de Adele a essa indicação. O longa saiu do Festival de Cannes com o prêmio de melhor atriz para a "franco-argentina" Bérénice Bejo ( a eterna Peppy Miller de O Artista) e foi um dos filmes que mais arrancaram lágrimas dos jurados (em uma das imagens divulgadas pelos veículos que fizeram a cobertura, Nicole Kidman, membro do júri desse ano, saiu bastante emocionada da sessão).
 
O filme retoma uma temática que parece constante na carreira de Farhadi desde então: relações familiares e choques culturais entre o Ocidente e o Oriente. Le Passé conta a história de uma mulher cujo marido, um iraniano, a deixa só com seus dois filhos a França, país de origem dela, para resolver pendências em sua terra natal. Quando retorna, ele descobre que a esposa refez a vida e iniciou um relacionamento com outro homem.
 
Há a possibilidade de que, pelo fato de Farhadi já ser figura conhecida em Hollywood (A Separação conseguiu não apenas indicações em categorias de filme estrangeiro, mas de roteiro), Le Passé seja a escolha da França. O filme tem mais potencial, inclusive, de conseguir indicações em categorias chave, como filme, direção e atriz. Mas também, se forem estratégicos, podem nomear A Vida de Adele como representante oficial do país em filme estrangeiro, categoria que tem mais chances, e centrar os esforços da campanha de Le Passé em categorias mais ambiciosas. Berenice Bejo já chega bem para o segundo semestre...
 

 
Quem também surgiu como um dos grandes nomes do festival foi Oscar Isaac - conhecido por viver o marido de Carey Mulligan em Drive - na pele do personagem título de Inside Llewyn Davis, homenagem ao folk norte-americano dos irmãos Coen (de Bravura Indômita e Onde os Fracos não têm vez). Também muito comentado no festival, Inside Llewyn Davis recebeu o Grande Prêmio do Júri, segunda grande honraria do festival, chegando próximo da Palma de Ouro.
 
Oscar Isaac interpreta um músico de Nova York que, na década de 1960, dizem ter sido a inspiração de Bob Dylan, Dave Van Ronk. O ator recebeu elogios rasgados da crítica especializada, bem como sua parceira de cena (novamente), Carey Mulligan. John Goodman, Garret Hedlund e Justin Timberlake completam o elenco da produção que chega no circuito comercial no segundo semestre. É daqueles candidatos a clássico cult pelos próximos anos.
 
 
Mais uma vez forte na competição, o México trouxe para o festival Heli, que venceu o prêmio de melhor direção, concedido a Amat Escalante (ano passado, Carlos Reygadas, de Post Tenebras Lux, ficou com o prêmio na categoria). O longa conta a história de uma menina de 12 anos que se envolve amorosamente com um jovem policial de 17 anos. A relação é descoberta pelo irmão mais velho da garota, o "Heli" que dá título ao filme, que, para salvá-la desse relacionamento potencialmente perigoso, se envolve com cartéis de drogas e policiais corruptos. O filme causou desconforto pelas cenas de tortura mostradas com um olhar quase documental, que parece ser mantido pelo diretor Amat Escalante durante todo o filme.
 

O melhor ator do festival, para o júri, foi Bruce Dern em seu grande retorno ao cinema com Nebraska, novo filme de Alexander Payne (Os Descendentes). Provavelmente uma das decisões sem consenso, arrisco o palpite. Fora a interpretação de Dern, o filme não impressionou muito as plateias das suas sessões, muito menos os críticos. Ainda assim, Nebraska parece ser um amadurecimento de Payne como diretor e roteirista. Em preto e branco, o longa acompanha a história de um homem que convence seu filho a ir até o Nebraska buscar um prêmio em dinheiro que alega ter ganho por lá.
 




















Mais impactante que Nebraska, Behind the Candelabra, telefilme da HBO, anunciado como o último projeto em definitivo de Steven Soderbergh (o último para o cinema foi Terapia de Risco, em exibição nos cinemas brasileiros), gerou manifestações de lamento  da crítica presente. Todos desejaram que o filme fosse um projeto para o cinema e não para a televisão.Vacilo dos estúdios que, demonstrando a estupidez habitual, não conseguiram enxergar o potencial de Behind the Candelabra no Oscar do ano que vem. Bom, ao menos vimos esse projeto ver a luz do dia...
 
O longa conta a vida do showman norte-americano Liberace. O filme terá como foco a relação entre o extravagante artista e o modelo Scott Thorson, com quem viveu durante seis anos e entrou em uma violenta batalha judicial tempos depois de separados.O filme, Soderbergh (diretor), Michael Douglas (ator) e Matt Damon (coadjuvante) são figuras certas no Emmy e no Globo de Ouro, provavelmente vitoriosos nas categorias de televisão. Quem sabe não é um estímulo para Soderbergh repensar sua decisão?
 

Quem não mandou nada bem no festival foi o aguardado Only God Forgives, reunião do diretor Nicolas Winding Refn com o ator Ryan Gosling (ambos estiveram juntos em Drive). Por ter sido uma das revelações de Cannes em 2011 com Drive, filme pelo qual venceu de cara o prêmio de melhor diretor no festival, muito se esperava de Refn em seu novo longa, possivelmente um dos mais aguardados da seleção.
 
O filme conta a história de Julian, um lutador que vive há anos em Bangkok e é surpreendido por um pedido da sua extravagante mãe: ela deseja que ele vá atrás dos responsáveis pela morte do seu irmão nas organizações criminosas  mais sujas da cidade e dê fim a todos eles. Novamente, Refn mistura em seu filme a violência crua com características do cinema de arte.
 
Curiosamente, se a tentativa de prestar reverência a "escolas" cinematográficas em Drive funcionou, o mesmo recurso aplicado em Only God Forgives parece ter resultado em um longa não tão satisfatório. Para os veículos, de um modo geral, Only God Forgives foi uma decepção que vale a pena somente pela interpretação de Kristin Scott Thomas, que dizem estar surpreendente no papel da mãe de Ryan Gosling.


Tão decepcionante quanto Only God Forgives foi The Immigrant, mais recente longa de James Gray (Amantes). Junto com Blood Ties, de Guillaume Canet, foi provavelmente o filme que mais recebeu retornos negativos no festival. Curiosamente, ambos tinham a francesa Marion Cotillard como seu grande chamariz.
 
Em The Immigrant, Cotillard vive uma imigrante nos EUA que é forçada por um homem (Joaquin Phoenix) a se prostituir. A oportunidade de sair desse submundo vem por intermédio de um mágico, papel de Jeremy Renner, que oferece uma nova perspectiva de vida para a protagonista.
 
Os críticos chamaram The Immigrant de melodramático e frio, salvando-se do filme apenas a interpretação de Marion Cotillard. Ainda assim, como sempre aconteceu na carreira de Gray, as críticas negativas ficaram por conta de veículos norte-americanos, a imprensa francesa gostou muito do novo trabalho do diretor.