sexta-feira, 28 de junho de 2013

Os Amantes Passageiros

Pedro Almodóvar cede ao apelo popular e cria uma comédia que não consegue encontrar um objetivo claro em sua execução
 
 
A Pele que Habito, filme de 2011, representou um interessante movimento na carreira de Pedro Almodóvar. O realizador se aventurava no terreno obscuro de um suspense que, apesar de flertar pontualmente com o irresistível melodrama, trazia elementos novos a serem trabalhados pelo diretor, uma trama hitchcockiana, com um protagonista masculino soturno... Eis que Os Amantes Passageiros, filme que seguiu o longa de 2011 na filmografia do cineasta, representa um retorno ao passado do diretor, uma comédia rasgada, com todas as tonalidades almodovarianas: sexualmente sugestiva (com alguns momentos explícitos até), mas que não representa nem um terço das possibilidades que um filme com a assinatura do espanhol costuma trazer. Os Amantes Passageiros é um dos seus filmes mais tímidos, evocando uma irreverência e uma subversão que só ficam na promessa, no meio do caminho.
 
Os Amantes Passageiros traz como protagonistas a tripulação e os passageiros de um voo da companhia aérea Península, que sai da Espanha rumo ao México, mas que é forçadamente obrigado a cumprir uma trajetória mais longa em função de problemas no pouso. Com os ânimos um pouco exaltados, todos a bordo começam a revelar segredos íntimos envolvendo suas vidas e escapadas sexuais. Para acalmar a situação de pânico, três comissários de bordo tentam entreter os passageiros com números musicais e substâncias ilícitas, que acabam aflorando ainda mais as suas fantasias.
 
 
Como não poderia deixar de ser, afinal Almodóvar é um cineasta essencialmente autoral, todas as marcas estéticas, temáticas e narrativas de sua filmografia estão presentes em Os Amantes Passageiros, com a diferença que aqui elas não se encontram harmônicas. Há um descompasso entre o que se vê na tela e as pretensões de Almodóvar, que acaba realizando uma espécie de chanchada espanhola de grife, o que não combina, fato. Pontualmente, a comédia nos fornece elementos irresistíveis na filmografia do cineasta, como suas reviravoltas, o flerte com o melodrama, mas tudo muito pálido se compararmos esse longa com seus antecessores.
 
Há performances impagáveis do trio Javier Cámara, Carlos Areces e Raúl Arevalo, ótimos como o trio aloprado de comissários, representados, claro, com tintas muito fortes. A interessantíssima Lola Dueñas dá novamente o ar da graça em um filme do diretor, uma das mais interessantes do elenco na pele de uma virgem quarentona. Já Cecília Roth, outra antiga colaboradora de Almodóvar, vive uma atriz que já transou com meio mundo de personalidades influentes e chantageia todas elas afirmando que possui vídeos de todas as suas relações sexuais. Há participações afetivas de Penélope Cruz, Antônio Banderas e Paz Vega, mas nada que entusiasme.
 
 
Talvez depois da remexida nas estruturas proporcionada por A Pele que Habito, Almodóvar tenha cedido ao conforto e ao comodismo de Os Amantes Passageiros. Relevemos. Quer dizer, em partes. Não dá para ter uma avaliação condescendente neste que surge como um dos trabalhos mais fracos na carreira de um diretor que sempre que surge no circuito, surge com pertinência. No terreno em que naturalmente deveria contribuir com seu toque pessoal, a comédia, Pedro Almodóvar opta pela preguiça criativa de Os Amantes Passageiros. Humano, mas não dá para deixar passar batido.
 


Los Amantes Pasajeros, 2013. Dir.: Pedro Almodóvar. Roteiro: Pedro Almodóvar. Elenco: Javier Cámara, Cecilia Roth, Lola Dueñas, Carlos Areces, Raúl Arevalo, Antônio de la Torre, Hugo Silva, Paz Veja, Blanca Suárez, Guillermo Toledo, Miguel Angél Silvestre, Laya Martí, Carmen Machi, Antônio Banderas, Penélope Cruz. 90 min. Paris Filmes.

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