quinta-feira, 13 de junho de 2013

Revisitando: Antes do Amanhecer (1995) e Antes do Pôr-do-Sol (2004)


Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-Sol estão sempre no topo das listas de romances preferidos do cinema. De produções independentes sem a menor pretensão, a história do norte-americano Jesse e da francesa Celine rendeu uma trilogia, que se encerra com a estreia nessa semana de Antes da Meia-Noite. Como narrativa, não há muito de inovador na série romântica. Manter como base para a sua trama apenas diálogos centrados somente em um casal de protagonistas, diálogos de cunho filosófico e existencialista, não é nada que predecessores já não tenham feito. O grande achado desses filmes, e que os fazem vencer a barreira do tempo, sendo tão queridos entre românticos das mais variadas gerações, são os sólidos conceitos que desenvolvem em seus roteiros: a perspectiva sobre o amor em diferentes fases da nossa vida. E por mais que amadureçamos e nos tornemos mais pragmáticos e frios no traquejo desse sentimento, ele sempre se faz presente, necessário, urgente. De diferentes formas, com nova roupagem e contexto, mas sempre está ali.
 
Antes do Amanhecer traz o encontro de Jesse e Celine, que, após se conhecerem em um vagão de trem em viagem pela Europa, decidem passar uma noite em Viena juntos. Lá eles se apaixonam e terminam o dia prometendo retornar aquele local 6 meses depois. Antes do Pôr-do-Sol, por sua vez, se passa cerca de dez anos após o episódio do primeiro filme, quando Jesse está de passagem por Paris para lançar um romance inspirado na noite que viveu em Viena com Celine. O casal, que não cumpriu a promessa de se reencontrar em Viena, faz um balanço das suas próprias vidas enquanto Jesse aguarda seu voo de volta para os EUA.
 
Sempre preferi Antes do Pôr-do-Sol a Antes do Amanhecer. Em Antes do Amanhecer, Jesse e Celine sucumbem às tolices juvenis, a ponto de preferirem a idealização de uma relação à concretização da mesma, com tudo de imperfeito e incômodo que qualquer relação pode trazer. Para não se quebrar, o amor deles permanece guardado no tempo e espaço, nas memórias. A noção de tempo para o casal é tão elástica que eles nem se preocupam em trocar contatos, um verdadeiro desleixo comum à juventude que sempre acredita que momentos e pessoas especiais se repetirão ou estarão sempre à sua disposição. Em Antes do Pôr-do-Sol já se passou quase uma década e Jesse e Celine vivenciaram desilusões o suficiente para perceber que não dá para ser tão displicente assim com o amor, chega a ser burrice deixá-lo escapar.
 
Enquanto Antes do Amanhecer representa a expectativa de jovens sobre o futuro, Antes do Pôr-do-Sol surge como um balanço de uma vida. E as reflexões sobre os erros e acertos rendem diálogos bem mais interessantes, claro. Curiosamente, Ethan Hawke e Julie Delpy, intérpretes de Jesse e Celine, assumiram o roteiro da série romântica a partir do segundo filme (receberam até uma indicação ao Oscar pelo trabalho), transferindo provavelmente vivências e teorias pessoais sobre a vida para Antes do Pôr-do-Sol. O mais interessante, e diria até esperançoso, de acompanhar Antes do Pôr-do-Sol é perceber como os personagens ganham uma ânsia de viver e de estarem juntos tão grande que nem perdem tempo com acusações acerca do fato de não terem se encontrado seis meses depois em Viena. As frustrações do cotidiano não transformaram Celine e Jesse em dois adultos amargurados, descrentes no amor e nas relações, mas um homem e uma mulher conscientes do seus respectivos erros e com vontade de repará-los. Até porque a vida é muito curta e pouco interessa se Jesse tem um voo marcado para a noite, o que interessa é aproveitar aquele momento, aquele encontro. Na maturidade percebemos que o tempo passa. Na juventude, há tempo para tudo, mesmo quando não há tempo.
 
Assim, enquanto Antes do Pôr-do-Sol centra-se mais no roteiro e no desempenho dos seus atores, sobretudo Delpy, Antes do Amanhecer é um trabalho aplicado e discreto de direção que torna o cenário parte da sua própria trama. E percebam como Paris torna-se praticamente fosca diante dos seus protagonistas em Antes do Pôr-do-Sol, enquanto que Viena é muito valorizada com seus cenários no primeiro filme, sendo um elemento tão forte quanto os personagens. Claro, afinal a cidade faz parte das idealizações românticas de Jesse e Celine. De qualquer forma, independente da preferência (e nesse aspecto, me refiro apenas a concepção de amor que cada um dos longas traz, porque cada um, de acordo com suas perspectivas propostas e como a desenvolvem, são muito bem executados), os responsáveis pelo projeto desenvolveram uma narrativa ascendente que torna seus elementos mais ricos e multifacetados com o tempo. Mágico e fascinante, mas ao mesmo tempo concreto e maduro

 
 

Before Sunrise, 1995. Dir.: Richard Linklater. Roteiro: Richard Linklater e Kim Krizan. Elenco: Ethan Hawke, Julie Delpy, Andrea Eckert,  Hanno Poschl, Karl Bruckschwaiger, Tex Rubinowitz, Erni Mangold, Dominik Castell. 105 min. Warner.

 
 
Before Sunset, 2004. Dir.: Richard Linklater. Roteiro: Richard Linklater, Ethan Hawke e Julie Delpy. Elenco: Ethan Hawke, Julie Delpy, Vernon Dobtcheff, Louise Lemoine Torres, Rodolphe Pauly, Diabolo, Mariane Plasteig, Denis Evrard. 80 min. Warner.

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