domingo, 28 de julho de 2013

Crítica: Amor Pleno

Novo filme de Terrence Malick mantém a tradição na filmografia do diretor para falar sobre o amor como estado de graça e como compromisso
 
 
 Assistir a um filme de Terrence Malick é praticamente uma experiência espiritual. Existencialista ao extremo, o filósofo e cineasta discute temas que vão ao âmago dos nossos principais questionamentos sobre a vida. No entanto, seu filme anterior, A Árvore da Vida, tinha englobado um universo tão vasto de temáticas que pareceu impossível para Malick voltar às telas sem parecer repetitivo, tornando seu cinema narrativamente único um repertório de maneirismos. O que se vê em Amor Pleno, por sua vez, a despeito do que a maioria afirma, é uma variação dos questionamentos de A Árvore da Vida. Malick se aprofunda sobre um dos temas levantados anteriormente e proporciona ao espectador uma diversidade de desdobramentos reflexivos já impostos, de maneira contundente, mas não particularizada em A Árvore da Vida. Não que, com isso, Amor Pleno se torne superior a A Árvore da Vida. O longa protagonizado por Brad Pitt e Jessica Chastain é certamente um trabalho definitivo na carreira do realizador. Mas Amor Pleno é mais um acerto de um diretor único que, se visto sem qualquer amarra ou preconceito acerca de modelos narrativos (ou falta de), pode render uma experiência cinematográfica única para o espectador.
 
Como aconteceu durante toda a carreira de Malick, Amor Pleno não tem uma sinopse definida, sendo filmado em diversas variantes narrativas. A definição do que viria a ser o filme se deu, como em todos os outros do diretor, no momento de sua pós-produção, deixando para trás segmentos de atores como Rachel Weisz, Jessica Chastain e Michael Sheen. O que ficou foi a história de Neil, um americano que conhece a ucrâniana Marina e com ela decide viver nos EUA. Mãe solteira, Marina se apega desesperadamente a Neil como sua última tábua de salvação, vivendo o amor em sua forma mais intensa, contraditória e cheia de receios. O mesmo acontece com Neil, que nutre um sentimento por Marina, mas tem dúvidas sobre a natureza do mesmo por ter vivido um relacionamento intenso com sua namorada de adolescência, Jane. O que ele sente por Marina é amor? É culpa, por não conseguir corresponder às expectativas de Marina? Medo? Seria amor o que viveu com Jane? Teria como superar o estado de graça do tempo vivido com a ex-namorada?
 
 
Os meandros desse triângulo amoroso é narrado, como de praxe na filmografia de Malick, através da fotografia e de narrações dos personagens que representam seus sentimentos mais secretos e humanos. O diretor insere o mundo externo nas reflexões mais introspectivas de seus personagens, tornando seus dilemas pessoais paradoxalmente pequenos diante do mundo, mas parte e passível de ser aplicado a todo tipo de matéria, à natureza e até mesmo ao que está além do nosso campo de visão. É dessa forma que o diretor compreende as relações, em sua manifestação mais pura, primitiva. E, logicamente, é dessa maneira que ele vai abordar as variantes de sua temática em Amor Pleno.
 
Ben Affleck utiliza, como fez em Argo, sua costumeira apatia em favor de um personagem que se sente constantemente encurralado. Incerto da própria natureza dos seus sentimentos, Neil se angustia com a dúvida: ele ama Marina ou apenas sente-se responsável pelo amor que ela nutre por ele? Seria esse segundo questionamento uma nova manifestação do amor, diferente da que ele conheceu com Jane? Em meio ao conflito amoroso de Neil está Marina, lindamente interpretada por Olga Kurylenko, melhorando consideravelmente as péssimas impressões deixadas em filmes como 007 - Quantum of Solace e Sete Psicopatas e um Shih Tzu. Além de conseguir externar da maneira menos óbvia possível a instabilidade emocional de Marina, Kurylenko, semelhante ao que aconteceu com Jessica Chastain ou Quorianka Kilcher em A Árvore da Vida e O Novo Mundo, respectivamente, parece ter nascido para o cinema de Terrence Malick, se confundindo em beleza com as paisagens naturais captada mais uma vez com poesia pelo diretor de fotografia Emmanuel Lubezki. Uma vantagem que Rachel McAdams parece não ter na pele de Jane pelo pouco tempo que tem em cena, apesar de "dar conta do recado", como sempre, nos momentos em que aparece.
 
 
 Destrinchar a diversidade de questionamentos inseridos ao longo do filme nesse pequeno espaço que temos aqui seria leviandade. Adotando estrutura semelhante a de nossos pensamentos, Malick joga para o público seus temas e reflexões de maneira não linear, mudando seus focos subitamente e retornando a tópicos antigos na medida em que a história de seus protagonistas é revelada na tela. Não há redes de segurança ou conclusões mastigadas pelo próprio diretor, que, como de praxe, deixa o espectador absorto em suas próprias interpretações.
 
O amor para Malick é um sentimento, antes de mais nada, o mais sublime e divino que pode ser vivenciado. A maturidade traz consigo suas diversas complicações, mutações. Os receios de ser enganado por sua própria percepção amorosa, levando os indivíduos a não vivenciarem de forma plena suas realizações amorosas é uma das principais questões que permeiam o filme. No entanto, a mais interessante reflexão de Malick sobre o amor em Amor Pleno diz respeito à transformação desse sentimento em responsabilidade, comprometimento com o bem-estar do outro, o auto-sacrifício. Isso é mostrado tanto na escolha que Neil faz entre Marina e Jane, quanto na inclusão de um quarto personagem nessa trama amorosa, o padre Quintana, vivido de maneira contida por Javier Bardem, que renuncia às suas próprias realizações para dedicar a sua vida ao próximo, não sem questionar-se constantemente a sua própria decisão. Mas as relações amorosas são assim mesmo. Fantasiamos a respeito da realização plena do sentimento e esquecemos toda a angústia, ira e sofrimento que ele pode trazer, ou melhor, não esquecemos, mas decidimos não vivenciar o amor em função do ônus inerente das relações. Poético e pouco preocupado com convenções narrativas, Terrence Malick debruça-se de maneira suave, contemplativa e pontual sobre tudo isso em Amor Pleno, dando continuidade ao seu projeto original de carreira cinematográfica.
 
 
 
To the Wonder, 2012. Dir.: Terrence Malick. Roteiro: Terrence Malick. Elenco: Bem Affleck, Olga Kurylenko, Rachel McAdams, Javier Bardem, Tatiana Chiline, Romina Mondello, Tony O'Gans, Marshall Bell, Charles Baker. 112 min. Paris Filmes.

sábado, 27 de julho de 2013

Crítica: Wolverine - Imortal

Segundo filme solo de Wolverine aprende com os erros do anterior e consegue alçar voo sem a muleta da série X-Men 
 
 
Encarnando Wolverine pela sexta vez no cinema (se contarmos sua participação afetiva em X-Men - Primeira Classe), Hugh Jackman chegou a um ponto da sua carreira em que sua imagem pública e a de seu personagem são praticamente indissociáveis, não só pela frequência, mas pela credibilidade que passa na pele do anti-herói preferido da Marvel. No entanto, por essa mesma razão, Jackman consegue ter sobrevida para além do território da Marvel, conferindo sempre uma densidade interessante a atuações em filmes como Truque de Mestre, Fonte da Vida e, recentemente, talvez a melhor interpretação da sua carreira, no musical Os Miseráveis. Sua história profissional está mais para seguir um caminho semelhante daquela seguida por Sean Connery, Harison Ford ou Anthony Hopkins (estigmatizados por 007, Indiana Jones/Han Solo e Dr. Hannibal Lecter, respectivamente), do que para o "esquecimento" no mundo exterior aos seus icônicos personagens, do qual foram vítimas Mark Hamil (Luke Skywalker), Elijah Wood (Frodo) e Christopher Reeve (Superman/Clark Kent)
 
Jackman aparece novamente como Wolverine em Wolverine - Imortal, filme baseado na HQ do personagem intitulada Dívida de Honra, de 1982. Nela, Wolverine reencontra um empresário milionário que foi salvo por ele anos atrás. O homem deseja a imortalidade de Logan e a proteção da sua única neta e herdeira. As coisas começam a tomar um rumo diferente quando ele morre e a segurança da jovem  fica vulnerável às investidas da Yakuza e da perigosa mutante Víper, que vulnerabiliza Wolverine de tal maneira que ele acaba perdendo gradualmente o seu poder de cura.
 
 
 Tomando o que não deu certo em Origens como uma lição a ser seguida, o que já demonstra os sinais da evolução dos envolvidos, Wolverine - Imortal inicia no ponto em que X-Men - O Confronto Final terminou, propiciando a evolução do seu protagonista a partir dos reflexos dos traumáticos eventos protagonizados pelos X-men e que envolveram a morte de Jean Grey no longa de 2006. Em Imortal, Logan tem que lidar com o luto e com o "castigo" de possivelmente viver com essa dor por toda a sua vida. Enlaçando esse argumento de maneira astuta com a trama do novo longa, o personagem é tentado a abrir mão do seu poder de cura, não sem antes descobrir que essa talvez não seja a melhor maneira de pôr um fim à melancólica lembrança da amada Jean Grey.
 
Wolverine - Imortal é um filme solo que faz jus a fama do personagem ao longo de mais de uma década e que cimenta em definitivo o nome de Hugh Jackman como um dos principais nomes do cinema de ação da geração atual. Jackman não demonstra empenho apenas na aquisição de um físico descomunal e na dedicação às sequências de ação do filme, mas também ao conferir um tom dramático, que flerta discretamente com o trágico, imerso na personalidade bestial e pouco afeita a demonstrações de sentimento de Logan. O ator tem ótimas companhias femininas no longa, a começar por Svetlana Khodchenkova, que interpreta a perigosa Viper, e Rila Fukushima, braço direito de Wolverine nessa jornada ao Japão.
 
 
James Mangold, realizador do projeto, é o tipo de diretor que consegue se adequar a qualquer empreitada - dirigindo filmes tão diferentes entre si como Garota Interrompida, Johnny e June e Os Indomáveis -, consegue estabelecer um formato próprio e autônomo para sua história, não tornando-se refém do trabalho iniciado por Bryan Singer em 2000 como o ficou Gavin Hood em Origens. Em compensação, cede a simplificações em seu desfecho que transforma o filme em um produto padrão, um formato mofado que já  não condiz com o nível de exigência do público atual, de certa maneira saturado pela banalização das adaptações de HQs no cinema e que obrigaram os estúdios a sacudirem os formatos com esses cross-overs anunciados recentemente (Os Vingadores, o primeiro deles, e mais recentemente, o encontro de Superman e Batman como continuação a O Homem de Aço e o encontro da nova geração com a velha geração dos X-Men em Dias de um Futuro Esquecido).
 
 

The Wolverine, 2013. Dir.: James Mangold. Roteiro: Mark Bomback e Scott Frank. Elenco: Hugh Jackman, Tao Okamoto, Rila Fukushima, Hiroyuki Sanada, Svetlana Khodchenkova, Brian Tee, Hal Yamanouchi, Will Yun Lee, Ken Yamamura, Famke Janssen. 126 min. Fox.

sábado, 20 de julho de 2013

Crítica: A Espuma dos Dias

Michel Gondry retorna, novamente onírico e lisérgico, com o estranho romance protagonizado por Audrey Tatou e Romain Duris
 

Michel Gondry nunca fez questão de compor seus filmes com o mínimo de referencial na realidade. De Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, passando por Rebobine, por favor, o pouco conhecido Sonhando Alto e até mesmo o escancaradamente comercial O Besouro Verde, o realizador sempre mostrou uma forte tendência em exteriorizar através de imagens o universo emocionalmente conturbado de seus personagens, gerando sequências que flertam com o sonho, a lógica cômica dos desenhos animados e, por esse mesmo motivo, completamente cientes das especificidades da linguagem cinematográfica. Em A Espuma dos Dias, Gondry volta a filmar na França e não nega suas origens como diretor de videoclipes, escancarando de vez que está longe de ser um diretor adepto de marcações ou orientações acadêmicas clássicas.
 
A Espuma dos Dias tem início quando Colin, personagem de Romain Duris, manifesta o desejo de encontrar uma namorado, ao perceber que todos os seus amigos começam a "se arranjar". O rapaz, que vive sozinho com a companhia eventual de seu cozinheiro Nicolas, encontra Chloe, interpretada por Audrey Tatou. Os dois se apaixonam, se casam e, no auge da felicidade, descobrem que ela está com uma grave doença nos pulmões. Enquanto Colin começa a trabalhar para arcar com o caro tratamento da amada - antes de conhecê-la o rapaz optou por viver sem emprego, sustentando sua vida com um dinheiro que guarda no cofre -, Chloe piora a cada dia e o mundo aprazível, colorido e repleto de alegria do casal começa a ruir, dando lugar à melancolia, opressão e toda sorte de sentimentos sombrios.


A ideia que permeia A Espuma dos Dias é a de que, diante de acontecimentos trágicos, o ser humano passa a ver o mundo ao ser redor de maneira pessimista, nebulosa, um beco sem saída. Em certo momento da projeção, um dos personagens - não lembro ao certo qual deles, acredito que Colin ou alguém que se dirija a ele - afirma que, diante da infelicidade e do desespero, não é o indivíduo que se transforma mas sim as coisas. Tudo começa a perder o viço, se deteriorar em seus sentidos... Essa é a ideia de A Espuma dos Dias que, baseado no livro homônimo de Boris Vian, livro referencial para a carreira do próprio Michel Gondry, cria um universo particular para seus personagens, com lógicas distorcidas da realidade, literalidade de ações (para se ter uma ideia, "retirar a mesa" significa passar um rodo nela, deixando cair no chão pratos e todos os alimentos que foram servidos)... Um ambiente retrô futurista que se descola do mundo que conhecemos para dotar sua narrativa de aspectos oníricos e ser passível de identificação com qualquer espectador no planeta apenas pelos temas que evoca, sendo perfeitamente possível de se metamorfosear ao longo da narrativa.
 
Saindo do colorido vivo inicial e partindo para o melancólico preto e branco, transformando a espaçosa e alegre residência de Colin em um mausoléu cada vez mais encolhido e corroído pela tristeza, A Espuma dos Dias é um trabalho meticuloso de Michel Gondry que o faz retornar a sua essência, ao lugar de onde, no seu caso, jamais deveria ter saído, o cinema arte. Audrey Tatou e Romain Duris estabelecem uma parceria interessante, uma cumplicidade e um envolvimento gradual em cena. Tatou  coloca sua adorável e carismática persona a favor de Chloe, trágica personagem que instantaneamente ganha a simpatia e o afeto da plateia. Já Romain Duris é o protagonista comprometido com a cumplicidade do espectador, garantindo o interesse por sua trajetória que trafega entre a simplicidade de seus sentimentos e as estranhas formas de manifestá-lo, comumente associadas a elementos externos, apoiados na criativa direção de arte do projeto.

 
Trata-se de um longa a ser digerido em seus mais singelos detalhes. Conceito simples, mas tenho cá minhas dúvidas se a maioria vai conseguir chegar até ele diante de tanta extravagância visual. No entanto, toda essa variedade de alternativas estéticas adotadas em A Espuma dos Dias condiz com a carreira do seu diretor e talvez seja a exteriorização mais madura das suas marcas como realizador. Estabelecendo uma parceria quase tão harmoniosa quanto aquela que estabeleceu com Kate Winslet e Jim Carrey em Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, Michel Gondry conduz a trama através da sinérgica dupla formada por Audrey Tatou e Romain Duris, em ótimas interpretações que encontram ressonância no arrojo visual de um dos diretores de cinema mais comprometidos em testar os limites da sua própria criatividade.
 
 
 
L'écume dez Jours, 2013. Dir.: Michel Gondry. Roteiro: Luc Bossi. Elenco: Romain Duris, Audrey Tatou, Omar Sy, Gad Elmaleh, Aissa Maiga, Charlotte LeBon, Sacha Bourdo, Phillppe Torreton, Vincento Rottiers. 125 min. Imovision.

domingo, 14 de julho de 2013

Crítica: O Homem de Aço

Distante da inocência predominante na década de 1980, o Superman de Zack Snyder evita o pessimismo dos herois contemporâneos para  preservar com elegância a retidão ética do maior ícone da história das HQs e do cinema
 

As HQs do Batman e dos X-Men são prediletas desde a infância, também foram as que mais acompanhei com regularidade, tendo uma noção mais abrangente sobre seus respectivos universos e cronologias. No entanto, nada me comove mais do que a história do Superman, que conheci de fato e passei a gostar já no início da minha fase adulta, através da série cinematográfica iniciada por Richard Donner, em 1978, com Superman - O Filme. Me comove porque o Superman guarda uma certa pureza que já não consigo enxergar no restante do universo DC e Marvel. Primeiro super-heroi a ter seu nome associado a uma publicação própria, o personagem traz em si valores que destoam dos tempos eminentemente cínicos que passamos a viver de uns anos para cá. Em Superman existe uma preocupação com a retidão de valores, caráter, família, sacrifício, que, a despeito de soar "careta", nada mais é do que a humanidade em sua manifestação mais nobre e eficaz diante de tanto pessimismo e individualismo das Metrópolis (cidade em que Clark passa a viver quando começa a trabalhar no jornal Planeta Diário) mundo afora. A mitologia do Superman resgata isso de forma tão simples e sincera que sempre acho bem-vinda qualquer releitura que mantenha esse espírito do heroi mais importante dos quadrinho - sim, contra fatos não há argumentos, ele definiu as linhas gerais e abriu espaço para os seus sucessores.

Seguindo a tradição da maioria das franquias, O Homem de Aço reconta a história do personagem, desde a destruição de Krypton, até a sua criação no Kansas, em meio ao paradoxal conservadorismo e aconchego de um lar católico, por Jonathan e Martha Kent. Aqui, o vilão é o General Zod. Assim como em Superman II, de 1980, Zod chega ao nosso planeta à caça de Kal-El/ Clark Kent, único sobrevivente de Krypton, com exceção do general e dos seus seguidores, para transformar a Terra em seu novo lar. No entanto, diferente de Superman -O Retorno, dirigido por Bryan Singer em 2006, O Homem de Aço não é uma cópia carbono da franquia da década de 1980. O Homem de Aço cria sua própria identidade, jamais renega a clássica franquia, mas não torna-se submissa a ela. E só por isso, o trabalho de Zack Snyder merece ser reverenciado.


A responsabilidade em torno da nova empreitada do Superman nos cinemas era intimidadora. O pífio desempenho de Superman - O Retorno e Lanterna Verde (bilheteria e crítica) fez a Warner agir com cautela nos próximos lançamentos baseados em HQs da DC Comics. Contratou a equipe da trilogia O Cavaleiro das Trevas para coordenar os trabalhos de um diretor que fez história no estúdio com fitas como 300 e Watchmen, ambas adaptações de HQs cultuadas, Zack Snyder. A ideia era manter-se fiel às bases do mito e atualizar esse conceito para uma audiência que já tem um repertório vasto de personagens de quadrinhos no cinema, mas que ainda é pouco familiarizada com o maior de todos eles, o Superman, não tendo nenhuma franquia cinematográfica contemporânea sobre ele.

Apesar de não ser tão impetuoso como esperava-se, O Homem de Aço consegue contornar as dificuldades usuais de tornar uma trama protagonizada por um personagem praticamente invencível com alternativas interessantes de expô-lo a fragilidades. Evitando "pisar o pé no acelerador" para não afugentar uma audiência que rejeitou em 2006 Superman -O Retorno por uma estratégia de marketing atabalhoada e pelo teor romântico da fita, O Homem de Aço opta por um equilíbrio interessante. Permanece fiel à retidão ética do personagem, um traço que o diferencia dos demais, mas procura contemporaneizar determinados aspectos desse universo para as gerações atuais.


Ao longo do filme, Snyder e cia. dão suas pistas de que não se intimidaram com a icônica série de filmes protagonizadas por Christopher Reeve, tornando O Homem de Aço um filme diametralmente oposto a Superman - O Retorno, de Bryan Singer, que, involuntariamente, acabou tendo essa proposta. O Homem de Aço deixa de lado a marcante trilha sonora de John Williams, praticamente um símbolo do personagem junto com o "S" do seu uniforme, e se aventura com uma composição do alemão Hans Zimmer, parceiro habitual de Nolan (um trabalho magistral, vale reforçar). Conceitos visuais como as paisagens e os animais de Krypton e o figurino dos personagens (sobretudo os uniformes de Superman, Zod, Faora) ganham uma releitura. Além, é claro, de sabiamente iniciar uma nova franquia com um vilão que é uma ameaça de fato para o Superman e cujos propósitos tornam-se pertinentes com a cronologia pretendida pela nova série de filmes: o General Zod. Singer, diferente de Snyder, hiper-reverenciou os filmes da década de 1980: manteve arranjos de John Williams na composição de John Ottman; escolheu Brandon Routh para viver o Superman pela sua semelhança física, ao invés de se preocupar-se em encontrar um ator tão eficiente quanto; estabeleceu uma dinâmica idêntica de acontecimentos aquela estabelecida pelo filme de 1978; e, claro, preservou, por razões de ser o vilão mais conhecido do Superman, Lex Luthor como a maior ameaça do heroi. Até o design de produção e os figurinos obedeceram uma tendência retrô.

Deixo claro que não quero fazer desse post uma crítica eminentemente negativa ao trabalho de Bryan Singer em Superman - O Retorno, filme que acho eficiente como homenagem à mitologia do personagem, mas falho na medida em que mostra um certo temor do seu realizador em mexer com um terreno praticamente sacro. Cinema é comprometimento, pertinência. Com O Homem de Aço, Zack Snyder  estabeleceu bases novas para o personagem, ainda que esse ímpeto seja pontualmente inibido pela cautela, marca de toda a fita. A regra era manter-se fiel ao passado e não se tornar refém dele, evitando os erros pontuais da tentativa frustrada de Bryan Singer. O resultado é um filme equilibrado que deixa a cargo do público a resposta por uma ousadia maior em suas continuações.


Tendo como norte o equilíbrio, O Homem de Aço conseguiu neutralizar o que existia de pior em Zack Snyder, típico realizador que deixa-se levar por uma plástica que não encontra correspondência com sua narrativa. A aptidão de Snyder é mantida aqui por uma fotografia que explora muito bem as possibilidades e sutilezas visuais, mas jamais aponta tendências para o exagero (como foi o caso de Sucker Punch e A Lenda dos Guardiões). Certos maneirismos de Snyder são deixados para trás, como é o caso do excessivo emprego de sequências em slow motion, recorrente na carreira do realizador desde Watchmen.

Como protagonista, Henry Cavill não é só o que se espera fisicamente do Superman, ele traz para seu personagem a hombridade e os dilemas decorrentes do conflito entre as aspirações pessoais de Clark Kent e a responsabilidade pelo destino de uma coletividade do Superman. Amy Adams, uma escolha certeira para viver a Lois Lane, sofre pela pouca dedicação dada nesse filme ao seu relacionamento com o protagonista. A esperança que fica, sobretudo com o desfecho da história, é de que um segundo filme aprofunde essa relação e aproveite o potencial inegável de Adams para o papel. Russell Crowe, Ayelet Zurer, Kevin Costner e Diane Lane se dividem na pele dos pais biológicos e adotivos do protagonista, rendendo cenas dramaticamente bem executadas. Já Michael Shanon reescreve a história de Zod nas telonas, tornando-o um vilão obsessivo, coerente e com muito mais camadas do que a versão de Terence Stamp em 1980.


É um recomeço.  Conflitante entre o anseio de atender a novas expectativas, sem esquecer de honrar a memória de um dos personagens mais importantes da cultura pop, o super-herói por excelência. O Homem de Aço traz em si toda a carga e a responsabilidade de fazer renascer das cinzas um personagem difícil de se adaptar pela sua falta de vulnerabilidade, fator fundamental para gerar empatia e identificação com o espectador. Com mais acertos do que erros, O Homem de Aço sofre com a instabilidade inerente ao primeiro filme de um reboot necessário e desacreditado após tantas tentativas fracassadas.
 
Antes de escrever esse post, ponderei as palavras e o posicionamento em uma tentativa de manter-me o mais imparcial possível, já que, é de ciência de todos, tenho grandes dificuldades para escrever sobre o que tem lugar especial na minha memória afetiva, e o Superman é um dos personagens que mais me comove pelo seu desprendimento e pelo aguçado senso moral e ético, valores que ainda considero fundamentais para o encaminhamento de um rumo melhor para a humanidade. Tão ponderado quanto O Homem de Aço, que procurou ir devagar no terreno sinuoso e passível de críticas corrosivas no qual adentrava, escrevo esse post procurando o devido equilíbrio entre a paixão por um universo e a percepção crítica de um filme que, se não correspondeu a todas as nossas expectativas, ao menos cumpriu parte delas e se mostrou disposto a aparar arestas em futuras empreitadas. Afinal, nem o Superman consegue sustentar, sem vacilo, o fardo tão pesado de ser o Superman.

 
 
Man of Steel, 2013. Dir.: Zack Snyder. Roteiro: David S. Goyer. Elenco: Henry Cavill, Amy Adams, Michael Shannon, Kevin Costner, Russell Crowe, Diane Lane, Laurence Fishburne, Ayelet Zurer, Antje Traue, Christopher Meloni, Dylan Sprayberry, Cooper Timberline. 143 min. Warner.  

Drops: O Cavaleiro Solitário


O Cavaleiro Solitário foi uma seriado que teve origem no rádio na década de 1930 e logo passou para a televisão, cuja versão brasileiro cometeu a gafe de se autobatizar "Zorro". Determinados elementos do universo são muito conhecidos, definindo inclusive clichês e marcas para todos as fitas do gênero que o sucederam. Mesmo que não tenha assistido, o leitor certamente lembra de alguns. Os mais evidentes? A música tema das cenas de ação do personagem ou então a expressão "Aiô, Silver!", dita pelo cavaleiro, ou então "Cara pálida!", do índio Tonto, são as referências mais óbvias. Gore Verbinski, diretor da trilogia Piratas do Caribe e da animação Rango, revive os clássicos personagens nesse western agradável e linear, que, não sei porque cargas d'água, foi "pego para Cristo" nessa temporada. Existem inúmeras lacunas, sobretudo na trama amorosa central entre o cavaleiro e sua cunhada, que sequer transmite o comprometimento emocional que sugere evocar, mas, de um modo geral, o filme é satisfatório e cumpre a principal meta de Verbinski: torna-lo uma matinê agradável. Rende ainda uma ótima parceria entre Johnny Depp, hipervalorizado e excêntrico, como de costume, mas mais consciente de que deve compor um personagem, e Armie Hammer, cada dia mais eficiente como leading man.


The Lone Ranger, 2013. Dir.: Gore Verbinski. Roteiro: Justin Haythe, Ted Elliott e Terry Rossio. Elenco: Armie Hammer, Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Tom Wilkinson, Ruth Wilson, William Fichtner, James Badge Dale, Bryant Prince, Barry Pepper, Mason Cook. 149 min. Buena Vista.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Drops: Truque de Mestre


Truque de Mestre é um dos poucos filmes dessa temporada que surge com um argumento original - bem, nem tão original assim - mas me refiro ao fato de não ter como garantia o escudo de  uma franquia de sucesso ou a veiculação prévia em outras plataformas (seriado de televisão, HQ etc.). O filme de Louis Leterrier joga o espectador em um universo com personagens desconhecidos, uma raridade em tempos nos quais a garantia, a zona de conforto, é o que é buscado por grandes estúdiosE deu muito certo, como atestam as recepções da crítica e o faturamento da bilheteria. 

Truque de Mestre traz a história de uma quarteto de mágicos chamado "Os 4 Cavaleiros", formado por Jesse Eisenberg (um dos casos bem sucedidos em que o ator busca em si elementos para a composição de seus personagens), Isla Fisher, Woody Harrelson e Dave Franco, que se apresentam em grandes casas de show, sempre com números em que retiram de grandes banqueiros fortunas e as distribuem para a plateia. Quando um banco francês é a "vítima", o FBI se junta a Interpol para capturar os ilusionistas e reaver o dinheiro roubado.

Como o policial no encalço do grupo temos o sempre competente Mark Ruffalo, em ótima parceria com a francesa Mélanie Laurent (linda, como sempre!). Há ainda o retorno da dupla da trilogia O Cavaleiro das Trevas, Michael Caine e Morgan Freeman, um deleite. Enfim, o elenco é um dos melhores recursos do filme para garantir o interesse da plateia em sua história. O "barato" aqui também é embarcar nos diversos twists  que a trama oferece, nenhum deles muito plausíveis, é verdade, e alguns são até irritantes em suas constantes necessidades de explicação, mas garantem uma diversão moderada e inofensiva, ao menos. E como o barato de um grande truque está em  manter o segredo até o final, pararei por aqui, antes que revele mais sobre a história do que deveria. Não é um grande filme, mas pelo menos é um entretenimento que mantém-se linear durante boa parte da projeção e traz um Louis Leterrier melhor do que a média dos trabalhos que o mesmo ofereceu até aqui.

Now You See Me, 2013. Dir.: Louis Leterrier. Roteiro: Ed Solomon, Boaz Yakin e Edward Ricourt. Elenco: Mark Ruffalo, Jesse Eisenberg, Melanie Laurent, Woody Harrelson, Isla Fisher, Morgan Freeman, Michael Caine, Dave Franco, Common, Michael Kelly. 115 min. Paris Filmes.

domingo, 7 de julho de 2013

Crítica: Branca de Neve

Longa espanhol mudo insere a história dos irmãos Grimm no universo das touradas de Sevilha no final da década de 1920. O resultado é um primor.
 
 
Frutos da nova tendência hollywoodiana pelos contos de fadas, as duas adaptações do conto Branca de Neve e os Sete Anões dos irmãos Grimm, Espelho, Espelho Meu e Branca de Neve e o Caçador, foram realizações visuais interessantes mas que deixaram muito a desejar no quesito narrativo, sobretudo o segundo, que se perdia em sua pretensa proposta original de transformar o conto de fadas em um épico medieval. Mas Branca de Neve, ou Blancanieves no original, do espanhol Pablo Berger, é outro "naipe", não pela sua nacionalidade (já perdi as contas de quantas vezes levantei a bandeira por aqui: filmes não devem ser julgados pela sua nacionalidade, panelinha cult!), mas pelo êxito em sua condução e por conseguir cumprir as metas da proposta que traçou para si.
 
Berger quis ambientar sua versão de Branca de Neve no universo das touradas de Sevilha, durante a passagem da década de 1920 para 1930, tornando o filme um autêntico exemplar do cinema mudo. Branca de Neve inicia sua trama com o grave acidente sofrido pelo famoso toureiro Antônio Villalta durante uma de suas apresentações. Villalta perde os movimentos do corpo e sua esposa, a dançarina de flamenco, Carmen de Triana, que acompanhou seu marido ser pisoteado e atingido pelos chifres do touro, acaba falecendo no parto da filha do casal. Manipulado pela bela enfermeira Encarna, com quem acaba se casando, Villalta não vê a sua filha crescer. O toureiro conhece a menina anos mais tarde quando ela é transformada em empregada por Encarna. Após a morte de Villalta, Encarna providencia o sumiço de Carmenzita, resgatada por um grupo de anões que se apresentam como toureiros pelo interior da Espanha. O paradeiro da herdeira de Villalta vem a tona quando a menina passa a se apresentar junto com seus novos amigos como toureira cujo nome é inspirado no conto dos irmãos Grimm, Branca de Neve. Mas claro que Encarna não deixará que as origens de Branca de Neve venham a tona.

 
 Berger confere o mesmo tom de fábula do conhecido conto, mas torna-o mais melancólico com um desfecho mais triste e "realista", mas inegavelmente belo, beirando o poético. Semelhante ao que aconteceu com Michel Hazanavicius em O Artista, Pablo Berger se apropria da gramática cinematográfica do cinema mudo e recria um universo particular, com uma excepcional fotografia, que sabe aproveitar a ausência de cores para criar planos interessantes apoiados em uma direção de arte e figurinos conscientes dessa condição peculiar para os nossos tempos. Branca de Neve detém uma lógica própria de desenvolvimento, ao mesmo tempo em que consegue ser pontual nas referências ao conto.
 
O diretor ainda arranca interpretações notáveis do seu elenco. A menina Sofía Oria e a jovem Macarena García se dividem no papel da protagonista com muita graciosidade e inteligência, na medida em que ambas têm noção de que dispõem apenas de suas expressões corporais e faciais para dar vida a suas personagens. Maribel Verdú também triunfa como a vilã Encarna, a madrasta da Branca de Neve, uma megera composta com maniqueísmo na medida certa. No entanto, encantador mesmo é o desempenho de Sergio Dorado na pele do anão Rafita, que se apaixona perdidamente por Branca de Neve, a versão do príncipe de Pablo Berger (uma das melhores "sacadas" da adaptação). Dorado constroi um personagem cheio de ternura e honestidade que faz de sua relação com a protagonista a mais doce e triste de todo o filme.
 
 
Branca de Neve mostra como os contos de fadas deveriam ser transpostos para o cinema, com criatividade e muita paixão. Enquanto seus contemporâneos norte-americanos são pálidos e amorfos - mais o Branca de Neve e o Caçador, é verdade, já que Espelho, Espelho Meu ainda guarda uma personalidade, apesar de se perder nela mesma no terceiro ato do filme -, Branca de Neve de Pablo Berger é uma recriação que prima pela inteligência, sensibilidade e pela assinatura do um realizador. Faz jus a uma história que, se for encarada do jeito que é encarada aqui, jamais será vítima de desgaste.
 
 

Blancanieves, 2012. Dir.: Pablo Berger. Roteiro: Pablo Berger. Elenco: Maribel Verdú, Macarena Garcia, Daniel Giménez Cacho, Sofía Oria, Ángela Molina, Pere Ponce, Sergio Dorado, Ramón Barea, Inma Cuesta, Emilio Gavira, Itziar Castro. 104 min. Imovision.

sábado, 6 de julho de 2013

Crítica: Dentro da Casa

François Ozon investiga a inconfessa curiosidade humana pela vida alheia em seu novo filme e, consequentemente, faz um estudo sobre a natureza do seu ofício
 

Em Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock, Jeff, personagem de James Stewart, é obrigado a ficar alguns dias em casa, "de molho", após um acidente que o deixa imobilizado por um gesso na perna. O ócio e a rotina doméstica entediante são desculpas para o personagem passar a se interessar mais pelos eventos que acontecem nas janelas de seus vizinhos, investigados por Jeff através de um binóculo. A curiosidade pela vida ou por histórias criadas com base nessas observações contagiam suas constantes companhias, a namorada Lisa, personagem de Grace Kelly, e a enfermeira Stella, Thelma Ritter. Não é o ócio que desperta o interesse pela vida dos outros e, consequentemente, pela ficção, mas a angústia sufocante e tediosa de ser o protagonista miserável e cheio de falhas das nossas próprias vidas.
 
A mesma motivação que faz o personagem de James Stewart em Janela Indiscreta se interessar pela rotina de seus vizinhos é a que impulsiona os dois protagonistas de Dentro da Casa, mais recente filme do realizador francês François Ozon. Germain é um professor de francês que já chega das férias vislumbrando o desinteresse de seus alunos pela matéria e a mediocridade do que eles irão produzir ao longo  do curso. No entanto, na primeira avaliação, é surpreendido pela redação de um talentoso estudante. Ele relata, de maneira envolvente, como um maduro romancista que Germain nunca conseguiu ser, sua visita a casa de um amigo e seu interesse pela matriarca dessa família. Instigado pela perspectiva do jovem sobre essa família e pelo desenrolar dessa dinâmica com um intruso com grande potencial de desestabilizar a harmonia aparente, Germain incentiva o garoto a estreitar os laços com os habitantes daquela casa. O interesse de Germain pela escrita do jovem Claude passa a ser perigoso não só para o relacionamento do professor com sua esposa, que também passa a ter interesse nas redações do menino mas vê seu casamento ser deixado em segundo plano pela maneira com que o marido se vê inebriado por aquela trama, como também para Claude, que julga ter um lugar naquela família maior do que o que ele realmente ocupa.


Dentro de Casa é o filme mais envolvente da carreira de François Ozon, aplicando com propriedade todos os recursos possíveis da linguagem cinematográfica em prol de uma narrativa envolvente e estimulante. O longa proporciona dúbias perspectivas sobre os eventos - a de Germain e de Claude -  e testa a capacidade dedutiva e interpretativa do espectador sobre a trama, tornando-nos um terceiro elemento, tão obcecado por aquela história quanto seus dois protagonistas-espectadores. Assim, Ozon comprova a tese levantada pelo trabalho: não há indivíduo imune à curiosidade pela vida alheia, até porque não há indivíduo que suporte as pressões da sua própria vida, do real. Para isso precisamos de ficção, ainda que ela seja impulsionada pelo real. O real é a inspiração, o que fazemos com ele é ficção, o que alguém como Claude faz. Todos os eventos se passam na cabeça de quem narra, trata-se da perspectiva do narrador, inebriado por suas próprias suposições/ criação sobre a vida de outrem, que pode, inclusive, ser ele mesmo, o que não vai deixar de ser uma criação descolada da realidade. O narrador cria para si uma persona que, invariavelmente, foge de quem ele é de fato.
 
Assim, Claude se insere no convívio familiar dos Artole e cria para si um romance com Esther, mãe do seu novo amigo. Os dramas e segredos daquela família e sua inserção como elemento intruso nela é mais estimulante que sua rotina desgastante com seu pai, fisicamente debilitado. O mesmo pode ser dito de Germain, ocupando o lugar do leitor, inebriado pela narrativa de Claude para evitar olhar para o desgaste do seu próprio casamento. Ambos precisam daquele universo paralelo para conseguir conviver ou esquecer o universo palpável. E não seria o mesmo conosco e nossa relação com a ficção, seja através da literatura, cinema, música, teatro, televisão?

Há problematizações pontuais ao longo do filme, como quando Germain começa a aparecer como uma espécie de consciência na mise em scène que traz como sujeitos Claude e os Artole, uma forma de mostrar como a necessidade de atender a anseios do público pode ser prejudicial a uma narrativa, fazendo com que seus personagens fujam por completo do eixo e das pretensões do narrador. O longa também procura refletir sobre a utilização da ficção como elemento de fuga descontrolada e inebriante, tirando daqueles que têm contato direto com ela, o autor e o leitor, por exemplo, o distanciamento entre o real e o que é imaginado. Uma situação limite que flerta com a loucura.


Adaptado da peça do espanhol Juan Mayorga, Dentro da Casa tem um roteiro primoroso e qualidades igualmente perceptíveis em outros departamentos, uma montagem fluida que acompanha a narrativa e que se harmoniza com a proposta do cineasta e uma trilha sonora impecável na proporção em que dimensiona as ansiedades dos dois protagonistas da trama. Os dois desempenhos dos atores centrais são igualmente interessantes. Fabrice Luchini consegue evitar que o tédio de Germain pela sua vida e o fascínio que ele passa a ter por Claude o transformem em um personagem deplorável e Ernst Umhauer traz para Claude a jovialidade, inexperiência e curiosidade necessárias a um jovem escritor e explorador. Há momentos pontualmente interessantes de Kristin Scott Thomas, que interpreta a mulher de Germain, e Emmanuelle Seigner, como a musa de Claude, Esther, tão bela aqui quanto em seus tempos de Lua de Fel.
 
Pela riqueza e elegância na exploração do tema, Dentro da Casa é um trabalho incomparável na carreira de François Ozon. Trata-se de um dos seus filmes mais bem construídos e engajados com a linguagem cinematográfica, fruto do amadurecimento de um realizador que soube tratar com objetividade e contundência uma narrativa sobre seu próprio ofício, no final das contas.

 
 
Dans la Maison, 2012. Dir.: François Ozon. Roteiro: François Ozon. Elenco: Fabrici Luchini, Ernst Umhauer, Kristin Scott Thomas, Emmanuelle Seigner, Denis Ménochet, Bastien Ughetto, Jean-François Balmer, Yolande Moreau, Catherine Davenier. 105 min. Califórnia Filmes.
 

terça-feira, 2 de julho de 2013

Especial: 5 questões para a próxima temporada de premiações

 
 
*Clique nos links em destaque nos títulos dos filmes para assistir a trailers ou ver as fichas técnicas dos longas em discussão 
 
1)Se fosse apostar em um favorito em potencial hoje, que filme seria?

Primeiro que, claro, ainda é muito cedo para se falar em favoritos. Boa parte dos lançamentos mais hypados do ano sequer foram exibidos em festivais mundo afora ou entraram em circuito comercial. Mas já existem títulos que pelos nomes envolvidos e pelos temas que trazem já surgem com grandes expectativas. A boa notícia para aqueles que gostam de twists nas temporadas de prêmios do cinema é que com muita frequência filmes que já chegam com cara de favorito acabam minguando na temporada, sendo ofuscado por sucessos inesperados.

Pode-se dizer que, até o momento, 12 Years a Slave (foto) é o filme com maiores expectativas de prêmios. Produção de época, ambientada anos antes da Guerra Civil norte-americana, o filme tem a direção de Steve McQueen (do esnobado Shame, o que já conta alguns pontos a favor) e traz uma trama que envolve um escravo liberto posto novamente à venda. Baseado no livro de Solomon Northup, personagem principal do filme, o longa conta com um duelo de interpretações entre Chiwetel Ejiofor, ator que há anos circula nas melhores rodas de Hollywood e que precisava de um protagonista como esse, e Michael Fassbender (protagonista de Shame incompreensivelmente esnobado pela Academia em 2012). O filme conta com Quvenzhané Wallis (garotinha sensação da última temporada com Indomável Sonhadora), Benedict Cumberbatch (vilão de Além da Escuridão - Star Trek e um dos nomes mais quentes do cinema atual), Paul Giamatti, Paul Dano e uma participação de Brad Pitt.

Como o filme promete cenas fortes, pode ser um material altamente inflamável para a Academia. Talvez rivalize as atenções com American Hustle, de David O. Russell, que há anos - é só ver o êxito de O Vencedor em 2011 e O Lado Bom da Vida na última temporada - tenta fechar um filme com a Academia.  O. Russell virá dessa vez com um longa sobre um agente do FBI que juntamente com um especialista em comunicação tenta desvendar um esquema de criminosos em New Jersey, na década de 1970. Para o elenco, O.Russell fechou com a "patota" que deu certo em seus dois últimos trabalhos: Christian Bale e Amy Adams, de O Vencedor, e Robert DeNiro, Bradley Cooper e Jennifer Lawrence, de O Lado Bom da Vida. Junto a esses atores, Jeremy Renner interpretará o agente do FBI que é o protagonista do longa. 

Mas são apenas especulações. Há outros títulos na jogada e que podem se dar bem, caso um dos dois falhe: O Lobo de Wall Street, do Martin Scorsese; The Monuments Men, do George Clooney ; Capitain Phillips, do Paul Greengrass; Rush, do Ron Howard; a biografia do Mandela, Mandela - A Long Walk to Freedom (que pode ganhar um buzz nesse momento crucial da vida do ex-líder da África do Sul); August - Osage County, que conta com o fator "elenco estelar" a seu favor; Gravidade, drama espacial de Alfonso Cuaron, que traz Sandra Bullock sozinha no espaço (um teste de fogo para a atriz que a despeito do sucesso de Um Sonho Possível ainda tem suas capacidades dramáticas postas em cheque); Blue Jasmine, de Woody Allen; The Counselor, de Ridley Scott; The Fifth Estate, de Bill Condon; The Butler, de Lee Daniels.

 
2) Que filmes do primeiro semestre podem ter chances nas premiações?

Talvez uma das apostas seguras desse primeiro semestre seja Antes da Meia-Noite, ao menos uma indicação em melhor roteiro adaptado deve sair (adaptado pois consideram-se que continuações são candidatos nessa categoria). Trata-se do desfecho de uma trilogia e uma série querida por muitos, apontado, inclusive como o melhor dos três filmes. Então, pode até ser que Antes da Meia-Noite angarie indicações afetivas em categorias como melhor filme (lembrando que com a expansão no número de indicados a categoria principal do Oscar, a entrada de títulos como esse ficou mais fácil).

Além de Antes da Meia-Noite, um longa independente (há sempre um que se destaca a cada ano) chamado Fruitvale Station sobre o assassinato de um jovem pobre e negro na Bay Area em 2008 deve chamar a atenção após a recepção calorosa em festivais como Sundance e Cannes. Do filme, o único nome conhecido é o de Octavia Spencer, vencedora do Oscar de atriz coadjuvante por Histórias Cruzadas em 2012. Outros indies que também chamaram a atenção em festivais no primeiro semestre foram: o soturno Ain't them bodies saints, mas nesse caso acredito que os atores tenham mais chance de se destacar do que o próprio filme (Rooney Mara, indicada por Millenium - Os Homens que não Amavam as Mulheres, e Casey Affleck, indicado por O Assassinato de Jesse James); e a dramédia com Steve Carell, Toni Collette e Sam Rockwell, The Way, Way Back, escrita e dirigida pela dupla que ajudou Alexander Payne a conceber Os Descendentes, Nat Faxon e Jim Rash (ganhadores do Oscar de melhor roteiro adaptado por esse trabalho, inclusive). Mas como melhor filme, entre os indies, sem dúvida a aposta é Fruitvale Station.

Em categorias técnicas e artísticas, podem apostar indicações em direção de arte e figurino para O Grande Gatsby, do Baz Luhrmann. Já dos lançamentos em Cannes, apostaria apenas em Inside Llewyn Davis, dos irmãos Coen, que a despeito de não terem ganho a Palma de Ouro saíram do festival com o Grande Prêmio do Júri e críticas favoráveis.


3) Meryl Streep, Julia Roberts, Nicole Kidman, Cate Blanchett, Kate Winslet, Emma Thompson, Naomi Watts, Sandra Bullock, Judi Dench... A categoria melhor atriz corre o risco de protagonizar grandes esnobadas por "superlotação"?

Sim, esse é um ano de medalhões na categoria melhor atriz, ao menos até a expectativa de êxito desses trabalhos não for frustrada. Os nomes de maior especulação são:
  • Meryl Streep e Julia Roberts por August - Osage County : Adaptação de uma peça do circuito off-Broadway do dramaturgo Tracy Letts (Killer Joe), que também assina o roteiro, o filme conta a história de uma família disfuncional que começa a fazer um balanço dessa convivência a partir do desaparecimento do patriarca, vivido por Chris Cooper (premiado como coadjuvante por Adaptação). A matriarca alcoólatra é interpretada por Meryl Streep, que tem o melhor papel do filme. No entanto, a trama parece girar em torno das motivações da personagem de Julia Roberts, filha de Streep na história. Streep seria coadjuvante e Roberts protagonista? Streep seria a protagonista e Roberts coadjuvante? Ou as duas seriam protagonistas? Essa definição será dada na campanha por Harvey Weinstein, que já fez coro para Winslet ser indicada a coadjuvante por O Leitor, o que não foi acatado pela Academia, e para Julianne Moore ser coadjuvante em As Horas, o que se concretizou com o anúncio dos indicados em 2003. Conhecendo Harvey Weinstein e suas campanhas agressivas e estratégicas para o Oscar, acredito que, caso o filme só se segure pelas atrizes, ele não vai arriscar perder indicações em um ano como esse fazendo campanha para ambas na categoria principal. O desenrolar dessa história será curioso... Prós: O filme tem a seu favor a produção de Harvey Weinstein, sempre esperta em temporada de prêmios, e com Streep que, independente da qualidade do trabalho em que tem seu nome estampado, sempre "vai para as cabeças" quando a interpretação é imbatível. Contra: a inexperiência de seu diretor John Wells e a pressão em torno de uma resposta positiva.
  • Nicole Kidman por Grace of Monaco: Dirigido pelo francês Olivier Dahan (Piaf - Um Hino ao Amor), contará alguns anos na vida da musa de Hitchcock Grace Kelly, quando ela já está afastada de Hollywood e recusa a proposta de protagonizar Marnie e repensa suas decisões no relacionamento com o marido Rainier, assumindo papel fundamental em um conflito envolvendo valores de impostos em Monaco. Prós: A Academia adora cinebiografias, principalmente quando são filmes que tratem sobre seus próprios personagens e sobre a realeza europeia. É como se Grace of Monaco reunisse o melhor de dois mundos. Além disso, Grace também será distribuído por Weinstein. Não há dúvidas de que as atenções todas estarão voltadas para o trabalho de Nicole, levando outras categorias para segundo plano na hora da votação, o que pode não acontecer com suas concorrentes. Contra: Kidman parece ser uma das grandes injustiçadas do seu tempo, poucos entendem a bravura de suas empreitadas, basta ver o caso de Obsessão (The Paperboy) no ano passado.
  • Cate Blanchett por Blue Jasmine: A australiana é a paranoica da vez no novo filme de Woody Allen, Blue Jasmine, chamando a atenção para a sua interpretação logo no trailer do filme. O longa estreará no final de julho e pela resposta nas sessões-teste, o nome de Blanchett parece vir forte esse ano. No longa a atriz interpreta Jasmine, uma dondoca que repensa sua própria vida quando visita sua irmã mais nova, Ginger, papel de Sally Hawkins. Prós: Woody Allen sempre capricha no tratamento dos seus personagens, e quando encontra uma atriz da grandeza de Cate Blanchett no caminho para dar vazão a essa complexidade então... Contra: O lançamento em julho pode fazer com que o filme caia no esquecimento e outros títulos mais frescos na memória dos votantes lhe passem uma rasteira.
  • Kate Winslet por Labor Day: A inglesa vencedora do Oscar por O Leitor interpreta uma dona de casa que, junto com seu filho, dá carona a um fugitivo da polícia e acaba conhecendo melhor a história desse homem, seu passado e suas escolhas na vida. O filme é dirigido por Jason Reitman (Amor sem Escalas e Juno), baseado no livro de Joyce Maynard. Quem leu, diz que é um prato cheio para Winslet, uma personagem que vai sendo descoberta em sua essência aos poucos pelo leitor. Prós: Kate Winslet é uma espécie de Meryl Streep mais nova, independente do projeto ela é indicada pois suas interpretações superam qualquer deficiência do filme. Contra: Há muito silêncio sobre esse projeto e sua estreia tardia (final de dezembro) pode acabar atrapalhando a campanha. Corre o risco também de seguir trajetória semelhante  do último trabalho do diretor, Jovens Adultos, com Charlize Theron, sendo esquecido por votantes.
  • Emma Thompson por Saving Mr. Banks: A Academia adora um come back! E Thompson promete protagonizar um daqueles em 2014. A inglesa, cuja última participação no Oscar foi em 1996, com a premiação de Razão e Sensibilidade, retorna como P.L.Travers, autora de Mary Poppins, na trama sobre a empreitada de Walt Disney (personagem de Tom Hanks) para convencer a escritora a ceder os direitos de adaptação do livro para o cinema. Prós: O come back de Emma Thompson e, semelhante, a Grace of Monaco, o fato de ser um filme que gira em torno dos bastidores de Hollywood. Contra: Será dirigido por John Lee Hancock, de Um Sonho Possível, que rendeu o Oscar a Sandra Bullock. Ou seja, um histórico não muito louvável.
  • Naomi Watts por Diana: Os últimos dois anos da vida de Lady Di serão contados pelo alemão Olivier Hirschbiegel (A Queda ! - As Últimas Horas de Hitler). Prós: Watts é a única dessa lista que ainda não ganhou um Oscar, sendo que é uma das atrizes mais queridas e talentosas da sua geração. A atriz está em uma cinebiografia de uma figura icônica da realeza inglesa, não sendo mais atraente para votantes do que Grace of Monaco somente por Diana não ter sido uma grande atriz de Hollywood. Além disso, Watts acaba de ser indicada por O Impossível. Contra: O filme demorou para acertar um plano de distribuição, que ainda parece incerto e tímido.
  • Sandra Bullock por Gravidade: Primeiro filme de Alfonso Cuáron desde Filhos da Esperança, Gravidade traz Bullock como uma astronauta sozinha no espaço após um acidente envolvendo ela e seu parceiro de trabalho, vivido por George Clooney. Prós: Como já dito, o filme será uma prova de fogo para a atriz já que na maior parte da projeção será ela sozinha em cena vivendo as tensões e o pânico da sua personagem. Contra: Pode não dar conta do recado. Além disso, o filme não tem um plot nem um contexto narrativo que tradicionalmente chama a atenção de prêmios.
  • Judi Dench por Philomena: Antecipado por Harvey Weinstein de última hora para um lançamento em 2013, Philomena é um filme de Stephen Frears (A Rainha) que traz a história de uma mulher à procura do filho que lhe foi tirado quando ela foi forçada a passar anos internada em um convento para freiras. Prós: É Judi Dench. E se comparei Kate Winslet a Meryl Streep, posso dizer que Dench é uma versão madura das duas juntas. Além disso, ela quase figurou nas listas do ano passado com O Exótico Hotel Marigold e 007 - Operação Skyfall (pelo qual foi surpreendentemente indicada a alguns prêmios). Contra: Stephen Frears é o diretor indicado a prêmios por Ligações Perigosas e A Rainha, mas também ignorado solenemente por  Cheri e O Dobro ou Nada. Philomena seguirá o destino de qual deles?
Além das veteranas, há outros nomes disputando as atenções, como Rooney Mara de Ain't them Bodies Saints; Berenice Bejo, recém premiada em Cannes por Le Passé; e Jennifer Lawrence pelo incerto Serena.  Ainda assim, arrisco dizer que a "papa prêmios" desse ano será uma veterana. Agora, qual delas, ainda é difícil dizer. Os arranjos e as possibilidades são inúmeras.


4) Cameron Diaz pode se tornar a favorita aos prêmios de melhor atriz coadjuvante por The Counselor?
 
Se é a favorita, novamente, ainda é difícil dizer, mas que ela causou uma ótima impressão no trailer de The Counselor, divulgado na semana passada, isso causou. O filme é dirigido por Ridley Scott (Prometheus e Gladiador) e será o primeiro trabalho diretamente escrito por Comarc McCarthy para o cinema (ele é o autor dos livros Onde os fracos não têm vez e A Estrada, ambos adaptados para o cinema). Trata-se da história de um advogado envolvido em uma trama sem saída de tráfico de drogas. O elenco é de cair o queixo: Michael Fassbender, como o protagonista, duelando com Penélope Cruz, Javier Bardem, Brad Pitt e Cameron Diaz.
 
Diaz ficou com uma personagem que chegou a ser disputada com afinco por Angelina Jolie. Cameron já tentou alguns anos atrás chamar a atenção de premiações com trabalhos sérios e relativamente interessantes em Quero ser John Malkovich e Gangues de Nova York, que lhe renderam indicações apenas ao Globo de Ouro. No entanto, parece ter cedido aos apelos daquilo que sempre julgou fazer melhor: comédias. Diaz parece comprometida em ser levada a sério como atriz, recentemente foi anunciada como a vilã do musical Annie. The Counselor parece ser o primeiro passo dessa mudança em sua carreira e a Academia adora reconhecer nomes desacreditados ou que estão há algum tempo na indústria, mas que nunca chegaram a ser reconhecidos por suas qualidades artísticas em premiações.
 
Claro que tudo dependerá de como The Counselor se apresentar como filme. Ridley Scott não faz um filme digno de elogios rasgados há anos e isso pode ameaçar qualquer potencial favoritismo de Diaz. Fora que ela pode encontrar pela frente Amy Adams como concorrente. A atriz está em American Hutsle e já foi indicada ao Oscar quatro vezes em pouquíssimos anos de carreira, sempre batendo na trave diante do apelo das suas concorrentes. Esse pode ser o ano de Adams... No entanto, caso Adams seja considerada protagonista ao lado de Jeremy Renner e Bradley Cooper, como alguns estão especulando, as coisas podem ficar mais fáceis.
 
Outros nomes que podem concorrer como coadjuvante esse ano: Margo Martindale, Juliette Lewis, Julia Roberts ou Meryl Streep de August - Osage County (as duas últimas ainda em suspenso pois não se sabe em que categoria se enquadram);  Carey Mulligan de Inside Llewyn Davies; Kristin Scott Thomas por Only God Forgives; Sally Hawkins de Blue Jasmine; Naomie Harris como Winnie Mandela em Mandela - Long Walk to Freedom; Oprah Winfrey em um retorno ao Oscar com The Butler; Lupita Nyong'o de 12 Years a Slave; Jennifer Lawrence de American Hustle; June Squibb de Nebraska.

 
5) Leonardo DiCaprio terá chances como melhor ator em O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese, ou será ofuscado pela carreira ascendente de Matthew McConaughey? 
 
Após esnobadas em Foi Apenas um Sonho, Ilha do Medo, A Origem, Django Livre e, possivelmente, O Grande Gatsby, DiCaprio pode ter mais chances com sua nova parceria com Martin Scorsese. Em O Lobo de Wall Street ele vive um jovem inconsequente deslumbrado pelo mundo de infinitas possibilidades de Wall Street. Especula-se que seria o Taxi Driver contemporâneo de Scorsese. No entanto, ainda não é um papel que empreenda esforços mais visíveis que é o que a Academia costuma valorizar, por exemplo. Nesse sentido, Matthew McConaughey parece uma escolha mais óbvia a se apostar na categoria de protagonista masculino com seu papel em Dallas Buyers Club, em que está irreconhecível após perder muitos quilos para viver um portador de HIV nos EUA da década de 1980.
 
Mas 2014 também pode ser o ano de quatro atores negros, o que pode render uma daquelas conjunções de fatores inéditos que o Oscar adora. Quatro trabalhos com hype esse ano: Chiwetel Ejiofor em 12 Years a Slave; Idris Elba e seu Mandela em Mandela - Long Walk to Freedom; o já vencedor do Oscar Forest Whitaker em The Butler; e Michael B. Jordan de Fruitvale Station.
 
Entre os nomes mais tradicionais, Tom Hanks de Capitain Phillips ou Saving Mr. Banks é o mais visado. Há ainda George Clooney de The Monuments Men, figurinha fácil; Robert Redford de All is Lost, muito bem quisto em Cannes e, caso indicado, seria outro come back; Jeremy Renner e Bradley Cooper de American Hustle; e Bruce Dern, vencedor da Palma de Ouro em Cannes por Nebraska. Além deles, os novatos na Academia Oscar Isaac de Inside Llewyn Davis, Michael Fassbender de The Counselor , Daniel Bruhl ou Chris Hemsworth de Rush,  e Bennedict Cumberbatch de The Fifth Estate são nomes a se considerar.
 
Comecem a bolsa de apostas, o ano promete!

Drops: Cinco Câmeras Quebradas



Indicado ao Oscar de melhor documentário na edição de 2013 do prêmio, Cinco Câmeras Quebradas tem como co-diretor um camponês palestino que resolve contar a saga do seu povo em um pequeno vilarejo da Cisjordânia ocupado pelo governo israelense por intermédio de um muro. Desde a ocupação indevida, ele e seus vizinhos fazem protestos no intuito de mostrar suas insatisfações com o tratamento na região e visando defender sua permanência no local. A câmera passa a ser uma das suas principais armas contra a truculência do exército. No caminho, cinco equipamentos que registraram a resistência da população local foram danificados. O documentário segue um tom pessoal, evitando ser preponderantemente político. Ainda que falte à perspectiva uma abordagem inusitada no que sobre as reflexões que produz, Cinco Câmeras Quebradas é um relato cortante de um cotidiano difícil, no qual a infância e a liberdade são usurpadas diariamente.


5 Broken Câmeras, 2012. Dir.: Emad Burnat e Guy Davidi. 90 min.