domingo, 28 de julho de 2013

Crítica: Amor Pleno

Novo filme de Terrence Malick mantém a tradição na filmografia do diretor para falar sobre o amor como estado de graça e como compromisso
 
 
 Assistir a um filme de Terrence Malick é praticamente uma experiência espiritual. Existencialista ao extremo, o filósofo e cineasta discute temas que vão ao âmago dos nossos principais questionamentos sobre a vida. No entanto, seu filme anterior, A Árvore da Vida, tinha englobado um universo tão vasto de temáticas que pareceu impossível para Malick voltar às telas sem parecer repetitivo, tornando seu cinema narrativamente único um repertório de maneirismos. O que se vê em Amor Pleno, por sua vez, a despeito do que a maioria afirma, é uma variação dos questionamentos de A Árvore da Vida. Malick se aprofunda sobre um dos temas levantados anteriormente e proporciona ao espectador uma diversidade de desdobramentos reflexivos já impostos, de maneira contundente, mas não particularizada em A Árvore da Vida. Não que, com isso, Amor Pleno se torne superior a A Árvore da Vida. O longa protagonizado por Brad Pitt e Jessica Chastain é certamente um trabalho definitivo na carreira do realizador. Mas Amor Pleno é mais um acerto de um diretor único que, se visto sem qualquer amarra ou preconceito acerca de modelos narrativos (ou falta de), pode render uma experiência cinematográfica única para o espectador.
 
Como aconteceu durante toda a carreira de Malick, Amor Pleno não tem uma sinopse definida, sendo filmado em diversas variantes narrativas. A definição do que viria a ser o filme se deu, como em todos os outros do diretor, no momento de sua pós-produção, deixando para trás segmentos de atores como Rachel Weisz, Jessica Chastain e Michael Sheen. O que ficou foi a história de Neil, um americano que conhece a ucrâniana Marina e com ela decide viver nos EUA. Mãe solteira, Marina se apega desesperadamente a Neil como sua última tábua de salvação, vivendo o amor em sua forma mais intensa, contraditória e cheia de receios. O mesmo acontece com Neil, que nutre um sentimento por Marina, mas tem dúvidas sobre a natureza do mesmo por ter vivido um relacionamento intenso com sua namorada de adolescência, Jane. O que ele sente por Marina é amor? É culpa, por não conseguir corresponder às expectativas de Marina? Medo? Seria amor o que viveu com Jane? Teria como superar o estado de graça do tempo vivido com a ex-namorada?
 
 
Os meandros desse triângulo amoroso é narrado, como de praxe na filmografia de Malick, através da fotografia e de narrações dos personagens que representam seus sentimentos mais secretos e humanos. O diretor insere o mundo externo nas reflexões mais introspectivas de seus personagens, tornando seus dilemas pessoais paradoxalmente pequenos diante do mundo, mas parte e passível de ser aplicado a todo tipo de matéria, à natureza e até mesmo ao que está além do nosso campo de visão. É dessa forma que o diretor compreende as relações, em sua manifestação mais pura, primitiva. E, logicamente, é dessa maneira que ele vai abordar as variantes de sua temática em Amor Pleno.
 
Ben Affleck utiliza, como fez em Argo, sua costumeira apatia em favor de um personagem que se sente constantemente encurralado. Incerto da própria natureza dos seus sentimentos, Neil se angustia com a dúvida: ele ama Marina ou apenas sente-se responsável pelo amor que ela nutre por ele? Seria esse segundo questionamento uma nova manifestação do amor, diferente da que ele conheceu com Jane? Em meio ao conflito amoroso de Neil está Marina, lindamente interpretada por Olga Kurylenko, melhorando consideravelmente as péssimas impressões deixadas em filmes como 007 - Quantum of Solace e Sete Psicopatas e um Shih Tzu. Além de conseguir externar da maneira menos óbvia possível a instabilidade emocional de Marina, Kurylenko, semelhante ao que aconteceu com Jessica Chastain ou Quorianka Kilcher em A Árvore da Vida e O Novo Mundo, respectivamente, parece ter nascido para o cinema de Terrence Malick, se confundindo em beleza com as paisagens naturais captada mais uma vez com poesia pelo diretor de fotografia Emmanuel Lubezki. Uma vantagem que Rachel McAdams parece não ter na pele de Jane pelo pouco tempo que tem em cena, apesar de "dar conta do recado", como sempre, nos momentos em que aparece.
 
 
 Destrinchar a diversidade de questionamentos inseridos ao longo do filme nesse pequeno espaço que temos aqui seria leviandade. Adotando estrutura semelhante a de nossos pensamentos, Malick joga para o público seus temas e reflexões de maneira não linear, mudando seus focos subitamente e retornando a tópicos antigos na medida em que a história de seus protagonistas é revelada na tela. Não há redes de segurança ou conclusões mastigadas pelo próprio diretor, que, como de praxe, deixa o espectador absorto em suas próprias interpretações.
 
O amor para Malick é um sentimento, antes de mais nada, o mais sublime e divino que pode ser vivenciado. A maturidade traz consigo suas diversas complicações, mutações. Os receios de ser enganado por sua própria percepção amorosa, levando os indivíduos a não vivenciarem de forma plena suas realizações amorosas é uma das principais questões que permeiam o filme. No entanto, a mais interessante reflexão de Malick sobre o amor em Amor Pleno diz respeito à transformação desse sentimento em responsabilidade, comprometimento com o bem-estar do outro, o auto-sacrifício. Isso é mostrado tanto na escolha que Neil faz entre Marina e Jane, quanto na inclusão de um quarto personagem nessa trama amorosa, o padre Quintana, vivido de maneira contida por Javier Bardem, que renuncia às suas próprias realizações para dedicar a sua vida ao próximo, não sem questionar-se constantemente a sua própria decisão. Mas as relações amorosas são assim mesmo. Fantasiamos a respeito da realização plena do sentimento e esquecemos toda a angústia, ira e sofrimento que ele pode trazer, ou melhor, não esquecemos, mas decidimos não vivenciar o amor em função do ônus inerente das relações. Poético e pouco preocupado com convenções narrativas, Terrence Malick debruça-se de maneira suave, contemplativa e pontual sobre tudo isso em Amor Pleno, dando continuidade ao seu projeto original de carreira cinematográfica.
 
 
 
To the Wonder, 2012. Dir.: Terrence Malick. Roteiro: Terrence Malick. Elenco: Bem Affleck, Olga Kurylenko, Rachel McAdams, Javier Bardem, Tatiana Chiline, Romina Mondello, Tony O'Gans, Marshall Bell, Charles Baker. 112 min. Paris Filmes.

Um comentário:

mariangela Paiva Misurini disse...

Simplesmente chato....cansativo...opressor...não via a hora de terminar...