domingo, 7 de julho de 2013

Crítica: Branca de Neve

Longa espanhol mudo insere a história dos irmãos Grimm no universo das touradas de Sevilha no final da década de 1920. O resultado é um primor.
 
 
Frutos da nova tendência hollywoodiana pelos contos de fadas, as duas adaptações do conto Branca de Neve e os Sete Anões dos irmãos Grimm, Espelho, Espelho Meu e Branca de Neve e o Caçador, foram realizações visuais interessantes mas que deixaram muito a desejar no quesito narrativo, sobretudo o segundo, que se perdia em sua pretensa proposta original de transformar o conto de fadas em um épico medieval. Mas Branca de Neve, ou Blancanieves no original, do espanhol Pablo Berger, é outro "naipe", não pela sua nacionalidade (já perdi as contas de quantas vezes levantei a bandeira por aqui: filmes não devem ser julgados pela sua nacionalidade, panelinha cult!), mas pelo êxito em sua condução e por conseguir cumprir as metas da proposta que traçou para si.
 
Berger quis ambientar sua versão de Branca de Neve no universo das touradas de Sevilha, durante a passagem da década de 1920 para 1930, tornando o filme um autêntico exemplar do cinema mudo. Branca de Neve inicia sua trama com o grave acidente sofrido pelo famoso toureiro Antônio Villalta durante uma de suas apresentações. Villalta perde os movimentos do corpo e sua esposa, a dançarina de flamenco, Carmen de Triana, que acompanhou seu marido ser pisoteado e atingido pelos chifres do touro, acaba falecendo no parto da filha do casal. Manipulado pela bela enfermeira Encarna, com quem acaba se casando, Villalta não vê a sua filha crescer. O toureiro conhece a menina anos mais tarde quando ela é transformada em empregada por Encarna. Após a morte de Villalta, Encarna providencia o sumiço de Carmenzita, resgatada por um grupo de anões que se apresentam como toureiros pelo interior da Espanha. O paradeiro da herdeira de Villalta vem a tona quando a menina passa a se apresentar junto com seus novos amigos como toureira cujo nome é inspirado no conto dos irmãos Grimm, Branca de Neve. Mas claro que Encarna não deixará que as origens de Branca de Neve venham a tona.

 
 Berger confere o mesmo tom de fábula do conhecido conto, mas torna-o mais melancólico com um desfecho mais triste e "realista", mas inegavelmente belo, beirando o poético. Semelhante ao que aconteceu com Michel Hazanavicius em O Artista, Pablo Berger se apropria da gramática cinematográfica do cinema mudo e recria um universo particular, com uma excepcional fotografia, que sabe aproveitar a ausência de cores para criar planos interessantes apoiados em uma direção de arte e figurinos conscientes dessa condição peculiar para os nossos tempos. Branca de Neve detém uma lógica própria de desenvolvimento, ao mesmo tempo em que consegue ser pontual nas referências ao conto.
 
O diretor ainda arranca interpretações notáveis do seu elenco. A menina Sofía Oria e a jovem Macarena García se dividem no papel da protagonista com muita graciosidade e inteligência, na medida em que ambas têm noção de que dispõem apenas de suas expressões corporais e faciais para dar vida a suas personagens. Maribel Verdú também triunfa como a vilã Encarna, a madrasta da Branca de Neve, uma megera composta com maniqueísmo na medida certa. No entanto, encantador mesmo é o desempenho de Sergio Dorado na pele do anão Rafita, que se apaixona perdidamente por Branca de Neve, a versão do príncipe de Pablo Berger (uma das melhores "sacadas" da adaptação). Dorado constroi um personagem cheio de ternura e honestidade que faz de sua relação com a protagonista a mais doce e triste de todo o filme.
 
 
Branca de Neve mostra como os contos de fadas deveriam ser transpostos para o cinema, com criatividade e muita paixão. Enquanto seus contemporâneos norte-americanos são pálidos e amorfos - mais o Branca de Neve e o Caçador, é verdade, já que Espelho, Espelho Meu ainda guarda uma personalidade, apesar de se perder nela mesma no terceiro ato do filme -, Branca de Neve de Pablo Berger é uma recriação que prima pela inteligência, sensibilidade e pela assinatura do um realizador. Faz jus a uma história que, se for encarada do jeito que é encarada aqui, jamais será vítima de desgaste.
 
 

Blancanieves, 2012. Dir.: Pablo Berger. Roteiro: Pablo Berger. Elenco: Maribel Verdú, Macarena Garcia, Daniel Giménez Cacho, Sofía Oria, Ángela Molina, Pere Ponce, Sergio Dorado, Ramón Barea, Inma Cuesta, Emilio Gavira, Itziar Castro. 104 min. Imovision.

Um comentário:

maira disse...

O filme BRANCA DE NEVE é uma obra-prima. Embora a inspiração seja um dos contos de fadas mais conhecidos de todos os tempos, é extremamente original, ousado e calcado no que há de melhor na existência do cinema até hoje. Existem filmes que não existem para fazerem um enorme sucesso por um ano, mas para serem lembrados pela eternidade. Este é o caso.