domingo, 14 de julho de 2013

Crítica: O Homem de Aço

Distante da inocência predominante na década de 1980, o Superman de Zack Snyder evita o pessimismo dos herois contemporâneos para  preservar com elegância a retidão ética do maior ícone da história das HQs e do cinema
 

As HQs do Batman e dos X-Men são prediletas desde a infância, também foram as que mais acompanhei com regularidade, tendo uma noção mais abrangente sobre seus respectivos universos e cronologias. No entanto, nada me comove mais do que a história do Superman, que conheci de fato e passei a gostar já no início da minha fase adulta, através da série cinematográfica iniciada por Richard Donner, em 1978, com Superman - O Filme. Me comove porque o Superman guarda uma certa pureza que já não consigo enxergar no restante do universo DC e Marvel. Primeiro super-heroi a ter seu nome associado a uma publicação própria, o personagem traz em si valores que destoam dos tempos eminentemente cínicos que passamos a viver de uns anos para cá. Em Superman existe uma preocupação com a retidão de valores, caráter, família, sacrifício, que, a despeito de soar "careta", nada mais é do que a humanidade em sua manifestação mais nobre e eficaz diante de tanto pessimismo e individualismo das Metrópolis (cidade em que Clark passa a viver quando começa a trabalhar no jornal Planeta Diário) mundo afora. A mitologia do Superman resgata isso de forma tão simples e sincera que sempre acho bem-vinda qualquer releitura que mantenha esse espírito do heroi mais importante dos quadrinho - sim, contra fatos não há argumentos, ele definiu as linhas gerais e abriu espaço para os seus sucessores.

Seguindo a tradição da maioria das franquias, O Homem de Aço reconta a história do personagem, desde a destruição de Krypton, até a sua criação no Kansas, em meio ao paradoxal conservadorismo e aconchego de um lar católico, por Jonathan e Martha Kent. Aqui, o vilão é o General Zod. Assim como em Superman II, de 1980, Zod chega ao nosso planeta à caça de Kal-El/ Clark Kent, único sobrevivente de Krypton, com exceção do general e dos seus seguidores, para transformar a Terra em seu novo lar. No entanto, diferente de Superman -O Retorno, dirigido por Bryan Singer em 2006, O Homem de Aço não é uma cópia carbono da franquia da década de 1980. O Homem de Aço cria sua própria identidade, jamais renega a clássica franquia, mas não torna-se submissa a ela. E só por isso, o trabalho de Zack Snyder merece ser reverenciado.


A responsabilidade em torno da nova empreitada do Superman nos cinemas era intimidadora. O pífio desempenho de Superman - O Retorno e Lanterna Verde (bilheteria e crítica) fez a Warner agir com cautela nos próximos lançamentos baseados em HQs da DC Comics. Contratou a equipe da trilogia O Cavaleiro das Trevas para coordenar os trabalhos de um diretor que fez história no estúdio com fitas como 300 e Watchmen, ambas adaptações de HQs cultuadas, Zack Snyder. A ideia era manter-se fiel às bases do mito e atualizar esse conceito para uma audiência que já tem um repertório vasto de personagens de quadrinhos no cinema, mas que ainda é pouco familiarizada com o maior de todos eles, o Superman, não tendo nenhuma franquia cinematográfica contemporânea sobre ele.

Apesar de não ser tão impetuoso como esperava-se, O Homem de Aço consegue contornar as dificuldades usuais de tornar uma trama protagonizada por um personagem praticamente invencível com alternativas interessantes de expô-lo a fragilidades. Evitando "pisar o pé no acelerador" para não afugentar uma audiência que rejeitou em 2006 Superman -O Retorno por uma estratégia de marketing atabalhoada e pelo teor romântico da fita, O Homem de Aço opta por um equilíbrio interessante. Permanece fiel à retidão ética do personagem, um traço que o diferencia dos demais, mas procura contemporaneizar determinados aspectos desse universo para as gerações atuais.


Ao longo do filme, Snyder e cia. dão suas pistas de que não se intimidaram com a icônica série de filmes protagonizadas por Christopher Reeve, tornando O Homem de Aço um filme diametralmente oposto a Superman - O Retorno, de Bryan Singer, que, involuntariamente, acabou tendo essa proposta. O Homem de Aço deixa de lado a marcante trilha sonora de John Williams, praticamente um símbolo do personagem junto com o "S" do seu uniforme, e se aventura com uma composição do alemão Hans Zimmer, parceiro habitual de Nolan (um trabalho magistral, vale reforçar). Conceitos visuais como as paisagens e os animais de Krypton e o figurino dos personagens (sobretudo os uniformes de Superman, Zod, Faora) ganham uma releitura. Além, é claro, de sabiamente iniciar uma nova franquia com um vilão que é uma ameaça de fato para o Superman e cujos propósitos tornam-se pertinentes com a cronologia pretendida pela nova série de filmes: o General Zod. Singer, diferente de Snyder, hiper-reverenciou os filmes da década de 1980: manteve arranjos de John Williams na composição de John Ottman; escolheu Brandon Routh para viver o Superman pela sua semelhança física, ao invés de se preocupar-se em encontrar um ator tão eficiente quanto; estabeleceu uma dinâmica idêntica de acontecimentos aquela estabelecida pelo filme de 1978; e, claro, preservou, por razões de ser o vilão mais conhecido do Superman, Lex Luthor como a maior ameaça do heroi. Até o design de produção e os figurinos obedeceram uma tendência retrô.

Deixo claro que não quero fazer desse post uma crítica eminentemente negativa ao trabalho de Bryan Singer em Superman - O Retorno, filme que acho eficiente como homenagem à mitologia do personagem, mas falho na medida em que mostra um certo temor do seu realizador em mexer com um terreno praticamente sacro. Cinema é comprometimento, pertinência. Com O Homem de Aço, Zack Snyder  estabeleceu bases novas para o personagem, ainda que esse ímpeto seja pontualmente inibido pela cautela, marca de toda a fita. A regra era manter-se fiel ao passado e não se tornar refém dele, evitando os erros pontuais da tentativa frustrada de Bryan Singer. O resultado é um filme equilibrado que deixa a cargo do público a resposta por uma ousadia maior em suas continuações.


Tendo como norte o equilíbrio, O Homem de Aço conseguiu neutralizar o que existia de pior em Zack Snyder, típico realizador que deixa-se levar por uma plástica que não encontra correspondência com sua narrativa. A aptidão de Snyder é mantida aqui por uma fotografia que explora muito bem as possibilidades e sutilezas visuais, mas jamais aponta tendências para o exagero (como foi o caso de Sucker Punch e A Lenda dos Guardiões). Certos maneirismos de Snyder são deixados para trás, como é o caso do excessivo emprego de sequências em slow motion, recorrente na carreira do realizador desde Watchmen.

Como protagonista, Henry Cavill não é só o que se espera fisicamente do Superman, ele traz para seu personagem a hombridade e os dilemas decorrentes do conflito entre as aspirações pessoais de Clark Kent e a responsabilidade pelo destino de uma coletividade do Superman. Amy Adams, uma escolha certeira para viver a Lois Lane, sofre pela pouca dedicação dada nesse filme ao seu relacionamento com o protagonista. A esperança que fica, sobretudo com o desfecho da história, é de que um segundo filme aprofunde essa relação e aproveite o potencial inegável de Adams para o papel. Russell Crowe, Ayelet Zurer, Kevin Costner e Diane Lane se dividem na pele dos pais biológicos e adotivos do protagonista, rendendo cenas dramaticamente bem executadas. Já Michael Shanon reescreve a história de Zod nas telonas, tornando-o um vilão obsessivo, coerente e com muito mais camadas do que a versão de Terence Stamp em 1980.


É um recomeço.  Conflitante entre o anseio de atender a novas expectativas, sem esquecer de honrar a memória de um dos personagens mais importantes da cultura pop, o super-herói por excelência. O Homem de Aço traz em si toda a carga e a responsabilidade de fazer renascer das cinzas um personagem difícil de se adaptar pela sua falta de vulnerabilidade, fator fundamental para gerar empatia e identificação com o espectador. Com mais acertos do que erros, O Homem de Aço sofre com a instabilidade inerente ao primeiro filme de um reboot necessário e desacreditado após tantas tentativas fracassadas.
 
Antes de escrever esse post, ponderei as palavras e o posicionamento em uma tentativa de manter-me o mais imparcial possível, já que, é de ciência de todos, tenho grandes dificuldades para escrever sobre o que tem lugar especial na minha memória afetiva, e o Superman é um dos personagens que mais me comove pelo seu desprendimento e pelo aguçado senso moral e ético, valores que ainda considero fundamentais para o encaminhamento de um rumo melhor para a humanidade. Tão ponderado quanto O Homem de Aço, que procurou ir devagar no terreno sinuoso e passível de críticas corrosivas no qual adentrava, escrevo esse post procurando o devido equilíbrio entre a paixão por um universo e a percepção crítica de um filme que, se não correspondeu a todas as nossas expectativas, ao menos cumpriu parte delas e se mostrou disposto a aparar arestas em futuras empreitadas. Afinal, nem o Superman consegue sustentar, sem vacilo, o fardo tão pesado de ser o Superman.

 
 
Man of Steel, 2013. Dir.: Zack Snyder. Roteiro: David S. Goyer. Elenco: Henry Cavill, Amy Adams, Michael Shannon, Kevin Costner, Russell Crowe, Diane Lane, Laurence Fishburne, Ayelet Zurer, Antje Traue, Christopher Meloni, Dylan Sprayberry, Cooper Timberline. 143 min. Warner.  

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