domingo, 25 de agosto de 2013

Curtas: Camille Claudel,1915

Ao ouvir ou ler o nome "Camille Claudel", certamente se recordará do filme homônimo de 1988, com Isabelle Adjani e Gerard Depardieu, sobre a escultora francesa que foi aluna de Auguste Rodin, tornando-se sua amante por algum tempo. Após o envolvimento e as trocas criativas entre os artistas, Camille sofreu com as ações do seu amante, que revelou-se um verdadeiro algoz. A artista não consegue mais esculpir de maneira autônoma e passou a apresentar sintomas de esquizofrênia. É nesse momento de sua vida que Camille Claudel, 1915 começa sua narrativa. O filme de Bruno Dumont acompanha um período em 1915, época do inferno na vida da escultora. Camille não consegue sequer tocar em um pedaço de argila sem lembrar-se da rejeição e da humilhação que passou anos antes, não consegue criar. Quer tortura maior que retirar de um artista a sua capacidade criativa? Dumont procura inserir o espectador na percepção de Claudel sobre o manicômio e seus internos. Fica claro que há um descompasso entre os casos dela e dos demais residentes. Camille torna-se então vítima de uma sociedade que sequer cogita julgar o adultério pela óptica feminina (como ainda é feito hoje, por sinal). Interagindo com residentes reais de instituições de tratamento mental ( e aqui talvez resida o componente diferencial de seu trabalho nesse filme), Juliette Binoche mais uma vez entrega um desempenho exemplar. Ela tem o filme em suas mãos e é praticamente a guia do seu próprio diretor, tamanho o pulso firme de sua performance como uma angustiada e traumatizada Camille Claudel.


Camille Claudel, 1915, 2013. Dir.: Bruno Dumont. Roteiro: Bruno Dumont. Elenco: Juliette Binoche, Jean-Luc Vincent, Emmanuel Kauffman, Marion Keller, Robert Leroy, Armelle Leroy-Roland. 95 min. Califórnia Filmes. 

domingo, 18 de agosto de 2013

Curta: Flores Raras

Bruno Barreto é um diretor irregular e na maioria dos seus deslizes o grande culpado é seu ímpeto de retratar um Brasil "para turistas". Flores Raras é um dos raros casos em que essa característica do diretor é freada em virtude da necessidade do próprio filme de estabelecer um foco no relacionamento das suas protagonistas. No caso, a escritora norte-americana Elizabeth Bishop e a arquiteta brasileira Lota de Macedo Soares. As duas se apaixonaram quando Bishop veio ao Rio de Janeiro para passar umas férias com uma antiga amiga de Universidade, que morava no Brasil, por sua vez, a então namorada de Lota. Ainda que contenha alguns diálogos nada inspirados e deixe algumas lacunas na evolução de suas personagens, os entraves da produção são superados pelas interpretações intensas e dedicadas de Glória Pires e, sobretudo, Miranda Otto, que retrata Bishop como uma artista cuja sensibilidade era pouco externada em função da sua própria introspecção.

 
Flores Raras, 2013. Dir.: Bruno Barreto. Roteiro: Matthew Chapman e Julie Sayres. Elenco: Glória Pires, Miranda Otto, Tracy Middendorf, Treat Williams, Marcello Airoldi, Tânia Costa, Lola Kirke, Marcio Ehrlich, Anna Bella. 118 min. Imagem Filmes.

Curta: Hannah Arendt

Apesar do título sugerir se tratar de uma cinebiografia, do tipo convencional (que narra nascimento, vida e morte do biografado), essa produção alemã trata da concepção do trabalho da filósofa Hannah Arendt para a The New Yorker na ocasião do julgamento de Adolf Heichmann em Jerusalém.  Judia, Arendt causou rebuliço quando tentou encontrar as razões para o ato de Heichmann, que nada mais era do que um burocrata que cumpria as ordens nazistas de extermínio de judeus como quem cumpre suas funções em um órgão público sem pensar. Acusada de ir contra o seu próprio povo em um momento importante de reparação histórica, Arendt foi incompreendida (como acontece com toda tentativa de reflexão): ela queria humanizar, e não perdoar, um carrasco, personificação do mal. Apesar da condução burocrática da diretora Margarethe von Trotta, Hannah Arendt traduz com a mesma precisão, clareza e profundidade analítica as ideias de sua protagonista. A interpretação firme de Barbara Sukowa também é um dos grandes méritos do filme que nada mais é, seguindo o legado da própria Arendt, uma ode ao pensamento, a única salvação da humanidade para evitar atrocidades como o holocausto, não há dúvidas.


Hannah Arendt, 2012. Dir.: Margarethe von Trotta. Roteiro: Margarethe von Trotta e Pam Katz. Elenco: Barbara Surkowa, Janet McTeer, Axel Milberg, Julia Jentsch, Ulrich Noethen, Maichael Degen, Klaus Pohl, Nicholas Woodeson. 113 min. Esfera Cultural. 

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Crítica: Bling Ring - A Gangue de Hollywood

Elegante, original e pop, Sofia Coppola critica o culto às celebridades vazias alimentado pela falta de privacidade dos tempos de Facebook e Google
 


O que esperar de uma geração que nasceu com a valorização dos holofotes sobre celebridades vazias como Paris Hilton, Lindsay Lohan e Audrina Patridge? Que ela seja tão inconsequente e alienada quanto seus próprios ídolos, que são célebres não em virtude de um ofício, do reconhecimento de um trabalho, mas pelo simples fato de ser célebre. Los Angeles tornou-se praticamente um universo paralelo, observado com perspicácia pela lente de Sofia Coppola, que sabe, como ninguém (ou melhor, como estranha àquele ninho e ao mesmo tempo parte dele), retratar o culto às celebridades e a falta de rumos e sentido de uma juventude típica daquele lugar e que reconhecemos em um noticiário ou reality show qualquer do E! Entertainment Television. Bling Ring - A Gangue de Hollywood faz jus à carreira e aos temas que mais tocam Coppola: juventude, vazio, fama.

Em tempos nos quais as estrelas de cinema são substituídas pelas fashionistas e por protagonistas de reality show, Bling Ring foi o nome dado a um grupo de jovens que passaram a saquear casas de celebridades em Los Angeles. O caso virou manchete nos principais jornais do país e foi narrado pela repórter Nancy Jo Sales para a Vanity Fair em um artigo, recentemente transformado em grande reportagem através de um livro que já se encontra a venda no Brasil. O grupo, composto por cinco garotas e um rapaz, descobria através de sites de fofocas e das redes sociais que celebridade estaria fora de circulação da cidade e pesquisava a localização das suas casas através do Google Maps. Após visitarem o guarda-roupas  de suas "vítimas", eles levavam algumas de suas peças e desfilavam com elas pela cidade ou tiravam fotos de seus troféus para postar no Facebook e no Twitter.



Sofia Coppola oferece soluções interessantes para a narrativa, intercalando as ações de seu jovem elenco com narrações em off, imagens reais de paparazzis, red carpets e noticiários do entretenimento, estabelecendo uma fusão entre sua encenação do ocorrido e a realidade desse universo, reforçando o caráter voyer de seu cinema, que evita ao máximo aproximar-se emocionalmente de seus personagens e interferir em seus jogos de cena. Sem o menor indício de querer se antecipar ou subestimar o seu espectador, Sofia revela a natureza fria, distante, artificial, farsesca e vazia dos lares desses jovens através de sutilezas, não há didatismos (há uma cena emblemática na qual uma das garotas da gangue está no mesmo espaço que mãe, pai e empregada, porém sem estabelecer dinâmica alguma com os familiares; ou mesmo a ingenuidade da personagem de Leslie Mann em querer educar seus filhos com os ensinamentos do best-seller da autoajuda, O Segredo). Coppola mostra esses adolescentes como parte de um lar que é displicente e ignora a falta de rumos de suas crias, jovens que, na maior parte das vezes, são cínicos, materialistas e superficiais, mas que mascaram todos esses aspectos através de discursos hipócritas quando se veem diante de qualquer câmera.

Marcando as performances de seu elenco com o mesmo naturalismo que foi traço dos seus demais filmes, Coppola traz duas perspectivas sobre o fato. A primeira delas é a de Marc, único integrante masculino do grupo, um adolescente homossexual que nunca sentiu-se a vontade no meio em que vivia para expressar sua sexualidade. Ele conhece Rebecca e suas amigas e passa a fazer parte de um grupo, encontrando, assim, uma forma de ser quem realmente é. Para interpretá-lo, Sofia escalou o inexperiente Israel Broussard, uma estratégia sempre eficaz para personagens com esse perfil, já que a descoberta do próprio protagonista coincide com o próprio desabrochar profissional do seu intérprete. Nas garotas, a frieza com que lidam com as relações afetivas a sua volta e a alienação em função do culto às celebridades parecem ser mais fortes. No entanto, talvez o caso mais patológico seja o de Nikki, personagem vivido na medida por Emma Watson. Nikki é uma garota mimada pela mãe e que mente com a mesma naturalidade que respira. Incentivada desde pequena a ser uma celebridade, e não uma atriz ou modelo, por exemplo, Nikki cresce tendo aulas sobre carisma, caráter (grande ironia) e sucesso, características fundamentais para uma garota bonita como ela ascender no universo das estrelas, segundo a mãe. A jovem também é inconsequente e não consegue ter uma dimensão da gravidade dos seus atos, sabendo apenas tirar proveito deles para conseguir o que realmente quer: estar no mesmo patamar de Lindsay Lohan.


 Na última sequência do longa, Nikki é entrevistada  sobre o seu tempo na cadeia e, com a cara mais lavada possível, tirando proveito ainda da situação, a jovem afirma desejar ser uma líder humanitária e relata o tempo em que dividiu cela com Lohan. Momentos antes, Coppola nos mostra uma imagem de paparazzi na qual Lohan desfila com suas roupas e acessórios de marca em meio a fotógrafos rumo ao tribunal, um verdadeiro espetáculo. Um momento de completa vergonha para a própria envolvida e que poderia servir para sua própria redenção à partir da assimilação de que "para todo ato há uma consequência" é transformado em circo midiático cujo único serviço é retroalimentar o culto ao nada, o culto ao célebre. Ídolo e fã entram em processo de simbiose. A própria Lindsay que, de atriz promissora (sim, porque não podemos negar que desde cedo Lohan prometia no meio, diferente, por exemplo, de uma Paris Hilton, cujo única vocação é ser... Paris Hilton), foi tragada por um ambiente doentio e que se torna ainda mais sedutor em função das fragilidades do seu próprio ambiente familiar, marcado por pais que exploraram a todo custo a carreira da filha. Nesse mesmo ambiente nasceu Sofia Coppola, filha de um dos cineastas mais importantes dos EUA, mas que certamente vivia em um ambiente familiar cujos valores passados eram outros.

O resultado de todo esse processo é um ciclo vicioso, no qual as celebridades alimentam a idolatria de jovens como os integrantes do Bling Ring, que por sua vezes tornam-se outras celebridades dando continuidade a esse processo que sabe-se Deus lá onde vai parar. Ou melhor, sabemos. Nas páginas policiais ou em algum site ou programa de fofoca, quando um pitboy qualquer atropela um cidadão após uma madrugada de farra com os amigos ou quando uma estagiária de algum órgão público é envolvida em um escândalo com sexo e corrupção e de repente vira a capa da Playboy, enquanto artistas de verdade suplicam por uma nota de rodapé qualquer em algum jornal ou revista para divulgar o seu trabalho ou outra situação que mereça de fato nossa atenção, preocupação ou admiração vira fumaça, esquecimento. Esse é o mundo em que vivemos, em Hollywood, no Brasil... Mas ainda bem que, para cada Nikki, Paris Hilton ou Lindsay Lohan, que em nada nos acrescentam, existe, no mesmo lugar, uma Sofia Coppola, que viveu em Hollywood desde pequena e hoje tem muito a nos dizer!

 
 
The Bling Ring, 2013. Dir.: Sofia Coppola. Roteiro: Sofia Coppola. Elenco: Emma Watson, Israel Broussard, Katie Chang, Claire Julien, Taissa Farmiga, Georgia Rock, Leslie Mann, Gavin Rossdale, Carlos Miranda, Stacy Edwards. 90 min. Diamond Filmes 

sábado, 10 de agosto de 2013

Curtas: Círculo de Fogo

Círculo de Fogo está mais para o Guillermo DelToro de Hellboy do que para o DelToro de O Labirinto do Fauno e A Espinha do Diabo, dois filmes excepcionais que nos apresentaram a um dos diretores mais interessantes da nova geração. Enfim, não é exatamente uma faceta do diretor que exerce fascínio por uma singularidade. É um diretor outsider imerso por completo no "cinemão hollywoodiano".  Círculo de Fogo é a materialização da "memória" nerd do diretor mexicano que retorna após um hiato de cinco anos (filmes como Mama ou Não tenha medo do Escuro são apenas produzidos por ele). DelToro manifesta desde o primeiro minuto de projeção seu fascínio pelo "filme de monstro", atualizando um subgênero que ganhou notoriedade com Godzilla. O resultado é uma fita de entretenimento que, se por um lado, incomoda em sua superficialidade, sem deixar claro sua manifestação de assim desejar ser desde o primeiro frame, por outro, insere o espectador em um espetáculo de cair o queixo e testar os nervos. O filme recupera Rinko Kikuchi, que desde sua indicação ao Oscar de melhor atriz coadjuvante por Babel, merecia um devido destaque, e ela é, disparado, o coração do filme, aquele "elemento" que quebra a frieza do tecnicismo ruidoso de um blockbuster.
 

Pacific Rim, 2013. Dir.: Guillermo DelToro. Roteiro: Guillermo DelToro e Travis Beachman. Elenco: Charlie Hunnam, Rinko Kikuchi, Idris Elba, Charlie Day, Ron Perlman, Burn Gorman, Max Martini, Robert Kazinsky, Clifton Collins Jr.. 131 min. Warner 
 

Drops: Meu Malvado Favorito 2

Um filme como Meu Malvado Favorito 2 costuma receber uma espécie de salvo conduto contra todo e qualquer tropeço narrativo pelo simples motivo de ser uma animação. Um equívoco, pois justamente por ser uma animação mereceria um tratamento mais refinado, seu público merece isso, é o mínimo que se possa esperar. Com uma trama dispersa que se divide entre o desejo de Gru de achar uma companheira, alguns conflitos pré-adolescentes da sua filha Margo e a missão de conter um novo vilão, Meu Malvado Favorito 2 é relativamente pálido se o compararmos com o seu antecessor, que nem era tão bom assim. O mais curioso de se perceber nessa série cinematográfica é que, assim como acontece com o Scratch de A Era do Gelo, um personagem periférico (na verdade, vários) acaba demonstrando um carisma superior às fragilidades da trama em que está inserido, no caso, os ajudantes do Gru, os Minions, que em breve terão um filme solo.


Despicable me 2, 2013. Dir.: Pierre Louis Pandang Coffin e Chris Renaud. Roteiro: Ken Daurio e Cinco Paul. Vozes de: Steve Carell, Kristen Wiig, Benjamin Bratt, Russell Brand, Ken Jeong, Steeve Coogan, Elsie Fisher, Miranda Cosgrove. 98 min. UIP

sábado, 3 de agosto de 2013

Drops: RED 2 - Aposentados e ainda mais Perigosos

RED - Aposentados e Perigosos não empolgava muito em seu resultado final. No entanto, a fita mantinha seu charme e interesse, novamente, na reunião de veteranos respeitados na arte dramática, como Helen Mirren, Morgan Freeman e John Malkovich, inseridos em um gênero incomum em suas respectivas carreiras, a comédia de ação (nem inclui Bruce Willis no grupo pois ele é figurinha fácil nesse tipo de longa). RED 2 - Aposentados e ainda mais Perigosos é uma continuação desnecessária. Cometem um erro comum nesse tipo de empreitada ao exagerar nas piadas envolvendo a personagem de Mary-Louise Parker (hilária e na dose certa no primeiro filme) e colocam Anthony Hopkins e Catherine Zeta-Jones como figurantes de luxo. Morgan Freeman foi o único que sabiamente saiu dessa roubada!


RED 2, 2013. Dir.: Dean Parisot. Elenco: Bruce Willis, Mary-Louise Parker, John Malkovich, Helen Mirren, Anthony Hopkins, Catherine Zeta-Jones, Byung-hun Lee, Brian Cox, David Thewlis, Neal McDonough, Garrick Hagon. 116 min. Paris Filmes.