sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Crítica: Bling Ring - A Gangue de Hollywood

Elegante, original e pop, Sofia Coppola critica o culto às celebridades vazias alimentado pela falta de privacidade dos tempos de Facebook e Google
 


O que esperar de uma geração que nasceu com a valorização dos holofotes sobre celebridades vazias como Paris Hilton, Lindsay Lohan e Audrina Patridge? Que ela seja tão inconsequente e alienada quanto seus próprios ídolos, que são célebres não em virtude de um ofício, do reconhecimento de um trabalho, mas pelo simples fato de ser célebre. Los Angeles tornou-se praticamente um universo paralelo, observado com perspicácia pela lente de Sofia Coppola, que sabe, como ninguém (ou melhor, como estranha àquele ninho e ao mesmo tempo parte dele), retratar o culto às celebridades e a falta de rumos e sentido de uma juventude típica daquele lugar e que reconhecemos em um noticiário ou reality show qualquer do E! Entertainment Television. Bling Ring - A Gangue de Hollywood faz jus à carreira e aos temas que mais tocam Coppola: juventude, vazio, fama.

Em tempos nos quais as estrelas de cinema são substituídas pelas fashionistas e por protagonistas de reality show, Bling Ring foi o nome dado a um grupo de jovens que passaram a saquear casas de celebridades em Los Angeles. O caso virou manchete nos principais jornais do país e foi narrado pela repórter Nancy Jo Sales para a Vanity Fair em um artigo, recentemente transformado em grande reportagem através de um livro que já se encontra a venda no Brasil. O grupo, composto por cinco garotas e um rapaz, descobria através de sites de fofocas e das redes sociais que celebridade estaria fora de circulação da cidade e pesquisava a localização das suas casas através do Google Maps. Após visitarem o guarda-roupas  de suas "vítimas", eles levavam algumas de suas peças e desfilavam com elas pela cidade ou tiravam fotos de seus troféus para postar no Facebook e no Twitter.



Sofia Coppola oferece soluções interessantes para a narrativa, intercalando as ações de seu jovem elenco com narrações em off, imagens reais de paparazzis, red carpets e noticiários do entretenimento, estabelecendo uma fusão entre sua encenação do ocorrido e a realidade desse universo, reforçando o caráter voyer de seu cinema, que evita ao máximo aproximar-se emocionalmente de seus personagens e interferir em seus jogos de cena. Sem o menor indício de querer se antecipar ou subestimar o seu espectador, Sofia revela a natureza fria, distante, artificial, farsesca e vazia dos lares desses jovens através de sutilezas, não há didatismos (há uma cena emblemática na qual uma das garotas da gangue está no mesmo espaço que mãe, pai e empregada, porém sem estabelecer dinâmica alguma com os familiares; ou mesmo a ingenuidade da personagem de Leslie Mann em querer educar seus filhos com os ensinamentos do best-seller da autoajuda, O Segredo). Coppola mostra esses adolescentes como parte de um lar que é displicente e ignora a falta de rumos de suas crias, jovens que, na maior parte das vezes, são cínicos, materialistas e superficiais, mas que mascaram todos esses aspectos através de discursos hipócritas quando se veem diante de qualquer câmera.

Marcando as performances de seu elenco com o mesmo naturalismo que foi traço dos seus demais filmes, Coppola traz duas perspectivas sobre o fato. A primeira delas é a de Marc, único integrante masculino do grupo, um adolescente homossexual que nunca sentiu-se a vontade no meio em que vivia para expressar sua sexualidade. Ele conhece Rebecca e suas amigas e passa a fazer parte de um grupo, encontrando, assim, uma forma de ser quem realmente é. Para interpretá-lo, Sofia escalou o inexperiente Israel Broussard, uma estratégia sempre eficaz para personagens com esse perfil, já que a descoberta do próprio protagonista coincide com o próprio desabrochar profissional do seu intérprete. Nas garotas, a frieza com que lidam com as relações afetivas a sua volta e a alienação em função do culto às celebridades parecem ser mais fortes. No entanto, talvez o caso mais patológico seja o de Nikki, personagem vivido na medida por Emma Watson. Nikki é uma garota mimada pela mãe e que mente com a mesma naturalidade que respira. Incentivada desde pequena a ser uma celebridade, e não uma atriz ou modelo, por exemplo, Nikki cresce tendo aulas sobre carisma, caráter (grande ironia) e sucesso, características fundamentais para uma garota bonita como ela ascender no universo das estrelas, segundo a mãe. A jovem também é inconsequente e não consegue ter uma dimensão da gravidade dos seus atos, sabendo apenas tirar proveito deles para conseguir o que realmente quer: estar no mesmo patamar de Lindsay Lohan.


 Na última sequência do longa, Nikki é entrevistada  sobre o seu tempo na cadeia e, com a cara mais lavada possível, tirando proveito ainda da situação, a jovem afirma desejar ser uma líder humanitária e relata o tempo em que dividiu cela com Lohan. Momentos antes, Coppola nos mostra uma imagem de paparazzi na qual Lohan desfila com suas roupas e acessórios de marca em meio a fotógrafos rumo ao tribunal, um verdadeiro espetáculo. Um momento de completa vergonha para a própria envolvida e que poderia servir para sua própria redenção à partir da assimilação de que "para todo ato há uma consequência" é transformado em circo midiático cujo único serviço é retroalimentar o culto ao nada, o culto ao célebre. Ídolo e fã entram em processo de simbiose. A própria Lindsay que, de atriz promissora (sim, porque não podemos negar que desde cedo Lohan prometia no meio, diferente, por exemplo, de uma Paris Hilton, cujo única vocação é ser... Paris Hilton), foi tragada por um ambiente doentio e que se torna ainda mais sedutor em função das fragilidades do seu próprio ambiente familiar, marcado por pais que exploraram a todo custo a carreira da filha. Nesse mesmo ambiente nasceu Sofia Coppola, filha de um dos cineastas mais importantes dos EUA, mas que certamente vivia em um ambiente familiar cujos valores passados eram outros.

O resultado de todo esse processo é um ciclo vicioso, no qual as celebridades alimentam a idolatria de jovens como os integrantes do Bling Ring, que por sua vezes tornam-se outras celebridades dando continuidade a esse processo que sabe-se Deus lá onde vai parar. Ou melhor, sabemos. Nas páginas policiais ou em algum site ou programa de fofoca, quando um pitboy qualquer atropela um cidadão após uma madrugada de farra com os amigos ou quando uma estagiária de algum órgão público é envolvida em um escândalo com sexo e corrupção e de repente vira a capa da Playboy, enquanto artistas de verdade suplicam por uma nota de rodapé qualquer em algum jornal ou revista para divulgar o seu trabalho ou outra situação que mereça de fato nossa atenção, preocupação ou admiração vira fumaça, esquecimento. Esse é o mundo em que vivemos, em Hollywood, no Brasil... Mas ainda bem que, para cada Nikki, Paris Hilton ou Lindsay Lohan, que em nada nos acrescentam, existe, no mesmo lugar, uma Sofia Coppola, que viveu em Hollywood desde pequena e hoje tem muito a nos dizer!

 
 
The Bling Ring, 2013. Dir.: Sofia Coppola. Roteiro: Sofia Coppola. Elenco: Emma Watson, Israel Broussard, Katie Chang, Claire Julien, Taissa Farmiga, Georgia Rock, Leslie Mann, Gavin Rossdale, Carlos Miranda, Stacy Edwards. 90 min. Diamond Filmes 

Um comentário:

Stella Daudt disse...

Muito bem colocado, Wanderley! Sua crítica é certeira. Gosto muito dos filmes de Sofia Coppola e seus comentários aguçaram meu apetite. ;-) Um abraço, stella