quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Crítica: Obsessão

 

 Ainda que não goste de Obsessão, ninguém pode acusar o cineasta Lee Daniels e a sua musa, Nicole Kidman, da falta de ousadia. Se existe uma característica que une os dois protagonistas absolutos desta produção e que merece reverência irrestrita é o ímpeto de arriscar-se, navegar por águas turbulentas e desconhecidas, que estes dois têm e que encontraram vazão juntos neste thriller aparentemente banal nas páginas do livro Paperboy, de Peter Dexter, também roteirista do longa.
 
 Kidman dispensa comentários. No auge de sua fama e fortuna em Hollywood, após os sucessos de Moulin Rouge! e Os Outros,  a australiana apostou alto com papeis arriscados em filmes difíceis e "marginais", dirigidos por cineastas com marcas autorais, como Lars Von Trier (Dogville), Jonathan Glazer (Reencarnação) e Noah Baumbach (Margot e o Casamento), isso sem contar seu passado marcado por parcerias com o gênio Stanley Kubrick (De Olhos bem Fechados) e o eclético Gus Van Sant (Um Sonho sem Limites). Enfim, não é a trajetória comum para uma estrela hollywoodiana.
 
Recém saído de uma indicação ao Oscar de melhor direção por Preciosa, Lee Daniels dirigiu Obsessão, um filme que está longe de conquistar a popularidade do seu longa mais conhecido. Todos os seus filmes são marcados por riscos, não necessariamente pelos temas que escolhe, mas pela forma com que ele conduz suas histórias. Por ai você pode imaginar o que rendeu o encontro destes dois "suicidas" em potencial. Pura explosão.
 
Obsessão se passa nos EUA da década de 1970, interior da Flórida. Jack (Zac Efron) é surpreendido pelo retorno do seu irmão mais velho, Ward (Matthew McConaughey), que aparece com um objetivo bem definido, tentar inocentar um homem preso por assassinato, chamado Hillary Van Wetter (John Cusack). A investigação do caso por Ward, acaba levando Jack a Charlotte Bless (Kidman), noiva do acusado, uma mulher de intenções sinuosas que coleciona namorados no "corredor da morte" e que espera que Hillary seja o grande e definitivo amor da sua vida.

Tudo em Obsessão é milimetricamente planejado, os cortes desajeitados, planos desenquadrados e a linguagem que flerta escancaradamente com o exploitation, filmes de baixo orçamento com inclinações para o sensacionalismo, o grotesco e o bizarro, um "gênero" típicos do período retratado. O formato reforça o ambiente sujo, úmido e as almas desencontradas, doentias e confusas dos personagens de Obsessão. Só por esta consciência, o longa deveria ser revisto por seus "detratores". Há controle e conceito de linguagem em cada fotograma de Obsessão. Lee Daniels, que poderia ter optado por um formato tradicional de thriller, utiliza um aparente amadorismo a favor da sua própria história, um exercício de estilo completamente consciente e pertinente para fazer com que o público mergulhe no universo interior e exterior dos personagens. Nada é por acaso, nem mesmo a crueza e as fragilidades morais dos seus personagens. Ainda que discussões como o preconceito racial e sexual passem somente pela superfície do filme, um leve escorregão da produção já que ela mesma sugere adentrar nestes temas, mas jamais consegue aprofundá-los, a equação entre proposta e realização é cumprida por Lee Daniels do início ao fim.

 Zac Efron merece, enfim, os créditos que tanto buscou desde que saiu do High School Musical. Será difícil se desvencilhar da fama de ídolo adolescente e não vai ser Obsessão que reverterá este quadro, mas aqui o ator mostra ter mais futuro que seus contemporâneos de Crepúsculo, por exemplo. Como protagonista da produção, Efron consegue transformar Jack em um herói ingênuo em sua paixão por Charlotte e contraditório por suas filiações ideológicas. Matthew McConaughey, em fase extremamente produtiva, entrega um desempenho cheio de detalhes através do conflitante Ward, que sufoca sua sexualidade em um ambiente de extrema luxúria. Macy Gray, novamente sob a batuta do realizador (antes de Obsessão ela havia participado de Matadores de Aluguel) , é outro destaque da produção, conduzindo a história com sutileza já que sua Anita é testemunha de todos os acontecimentos e consegue captar melhor que todos os demais personagens da história o subtexto das situações que são geradas.
 
Claro que com uma personagem como Charlotte Bless (um nome sugestivo, já que "bless" em inglês é benção), Nicole Kidman é a grande atração do elenco. Loira, vulgar, ninfomaníaca e emocionalmente dependente, Charlotte é uma mulher cuja via de expressão é o sexo, é o que ela entende que pode dar de melhor para as pessoas como demonstração de zelo, amor, raiva, pena etc. A personagem cria com Jack uma espécie de vínculo materno e nem assim consegue afastar esta relação da sua sexualidade. Afetivamente, Charlotte é carente, insegura, submissa... Seu estranho fetiche por homens condenados à morte por crimes, que encontra paralelo com casos conhecidos (quem não se recorda de casos como os do Maníaco do Parque no Brasil, que após ser preso por assassinar de maneira cruel muitas garotas, começou a receber inúmeras cartas de pretendentes a esposa?), dá indícios de uma personalidade tão perturbada quanto a de seu noivo, Hillary. A atriz conta com a parceria de um John Cusack igualmente irreconhecível na pele do assustador Hillary, nitroglicerina pura o encontro dos dois. Para a personagem, Kidman realizou uma daquelas composições radicais, desenvolveu um sotaque sulista irretocável, montou o figurino da personagem com peças baratas de lojas de departamento e protagoniza, sem nenhum pudor, duas cenas que, nas palavras do próprio Daniels, definiram o tom de Obsessão e da própria personagem (não se preocupem que não vou entrar em detalhes).
 
Alguns podem pensar: o que deu na cabeça de Lee Daniels que, após uma indicação ao Oscar por Preciosa, realizou um filme como Obsessão? Particularmente, não vejo com bons olhos Preciosa, o avalio como uma produção irregular no alinhamento entre forma e proposta. Já Obsessão é um projeto coerente do início ao fim com o que Daniels pretendia fazer, um exploitation, ou melhor, sexploitation (!!!!). Um exercício de gênero, um teste para a definição das suas próprias marcas como realizador. De quebra, o diretor ainda traz um elenco improvável (quem esperava boas interpretações de Zac Efron, Macy Gray e até Matthew McConaughey, aqui antes de Killer Joe, Mud e do recente Dallas Buyers Club ?) e uma interpretação arrasadora de uma Nicole Kidman do jeito que a gente gosta, exposta ao desafios, aos riscos, impecável. 



 
The Paperboy, 2012. Dir.: Lee Daniels. Roteiro: Lee Daniels e Peter Dexter. Elenco: Zac Efron, Matthew McConaughey, Nicole Kidman, John Cusack, Macy Gray, David Oyelowo, Scott Glenn, Ned Bellamy, Nealla Gordon, Peter Murnik. 107 min. Europa Filmes

domingo, 27 de outubro de 2013

Curtas: O Conselheiro do Crime


O Conselheiro do Crime evidencia o que, particularmente, era claro: cinema e literatura são plataformas diferentes, não dá para contar com a genialidade de um profissional em um dos meios para se obter o êxito em outro cujas demandas são completamente diferentes a não ser que este "gênio" entenda a necessidade da transição neste processo. Escrito por Cormac McCarthy, que fez as obras que deram origem a Onde os fracos não têm vez, dos Coen, A Estrada  e Espírito Selvagem, o novo filme de Ridley Scott, com um elenco cheio de realezas hollywoodianas, é um desarranjo charmoso, mas cheio de incômodos silenciosos que após um balanço crítico depois da sessão surgem como as marcas e as razões do fracasso. Apesar da direção sofisticada, um pouco clean, é verdade, de Ridley Scott, O Conselheiro do Crime sofre com a literalidade de seu roteiro, seu excesso de diálogos que parecem querer dizer mais do que realmente dizem, revelar mais dos seus personagens do que eles realmente propõem  e extrair significados de um filme que exige muito pouco de reflexão do espectador. Ou seja, tudo muito desencontrado. McCarthy, e, de quebra, Scott, parecem não dar vazão a um dos principais traços da linguagem cinematográfica, as palavras servindo a ação, que deve tomar o primeiro plano, sempre, afinal, para que o cinema? Neste thriller completamente desencontrado, o elenco tenta fazer o que pode. Apesar de ter Penélope Cruz (completamente anulada aqui), Javier Bardem, uma participação de Brad Pitt e o sempre equilibrado e competente Michael Fassbender, Cameron Diaz, irregular em sua filmografia, tem o melhor desempenho de sua carreira. Como Malkina, Diaz brilha em cada cena e mantém, ainda que em pontos isolados da trama, a atenção e o fascínio do espectador por uma vilã simplista, mas eficiente. Por Diaz, a gente até dá o braço a torcer sobre O Conselheiro do Crime, mas só um pouco.

 
The Counselor, 2013. Dir.: Ridley Scott. Roteiro: Comarc McCarthy. Elenco: Michael Fassbender, Penélope Cruz, Cameron Diaz, Javier Bardem, Brad Pitt, Rosie Perez, Bruno Ganz, Edgar Ramirez, Toby Kebbell, Rubén Blades. 117 min. Fox

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Blog comemora seu 7º ano!


São sete anos, minha gente! Sete anos que passaram depressa, sem sentir. Entre inúmeros erros e acertos, desânimos, estímulos, paradas, recomeços e reformulações, o Chovendo Sapos completa, neste dia 22 de outubro, sete anos no ar. Claro que talvez não da forma como este que vos escreve planejou, mas com muitas histórias boas já que cada destino do arquivo (motivo pelo qual ainda não me desfiz dele, apesar do embaraço que sinto por algumas opiniões) me transporta para um tempo, um estágio de uma vida...
Espero que a gente possa continuar por mais alguns anos, muito obrigado a todos! ;)
 
W.T.

domingo, 20 de outubro de 2013

Crítica: Os Suspeitos

 
 
Sabe aquela máxima de que quanto mais você chafurda na lama, mais ainda você se suja? A base narrativa de Os Suspeitos se sustenta nisso. Quanto mais Keller Dover (Hugh Jackman) era consumido pela raiva e adentrava no inferno para o qual a sua filha foi covardemente arrastada, mais o liame que o separava do universo dos raptores se dissolvia. Caminho irreversível...  Nesta intrincada e engenhosa trama que se deixa operacionalizar pelos distintos códigos de conduta dos seus vários personagens, a maior qualidade está no estabelecimento da fidelidade da atenção do espectador desde o primeiros segundo. Há atmosfera, dramaticidade e substância o suficiente para manter intensa a relação entre espectador e obra em suas jamais entediantes mais de duas horas de projeção.
 
Indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro há um ano atrás por Incêndios,  o franco-canadense Denis Villeneuve empreende uma interessante jornada em sua primeira produção norte-americana. Seguindo a tradição de obras-primas contemporâneas do suspense, como Seven, Los Angeles - Cidade Proibida Sobre Meninos e Lobos, Os Suspeitos traz a história de um casal de amigos cujas filhas mais novas desaparecem e o único suspeito de envolvimento no rapto é um rapaz com estranhos hábitos que vive com sua tia. O pai de uma das meninas é tomado pela fúria e decide investigar o caso por conta própria diante de decisões tomadas pela polícia local que julga ineficientes para a solução do crime.
 
Em Os Suspeitos, Denis Villeneuve mantém o pulso narrativo que apresentou em Incêndios. O diretor é cúmplice dos seus personagens e mantém um compromisso com as demandas do público, sem estabelecer nichos específicos para os quais suas histórias são direcionadas. Há uma tensão crescente sequência a sequência, o necessário atributo inerente a qualquer bom suspense. E tudo isso é administrado com discrição, sem exibicionismo fotográfico. O realizador e o diretor de fotografia Roger Deakins, que dispensa apresentações e necessita de um reconhecimento para "ontem", inserem a trama em uma sobriedade obscura e tensa, que auxilia ainda mais o espectador a adentrar nos meandros da trama. Mas é claro que em meio a tudo isso existe o trabalho impecável do roteirista Aaron Guzikowski, cujo único crédito anterior era pelo seu trabalho no roteiro de Contrabando, com Mark Wahlberg, ou seja, um salto e tanto. O roteiro de Guzikowski é uma pedra rara, há pouquíssimos furos e opera com vida própria, guiado por seus personagens, as vezes coerentes outras vezes não, em alguns momentos racionais ou movidos a impulsos, enfim de carne e osso, erros e acertos. 
 
O fio condutor de todo o projeto é o personagem de Hugh Jackman, Keller Dover, um pai de família que, sem perceber, vê sua estrutura emocional desabar a partir do desaparecimento de sua filha. Dover acessa uma zona obscura de sua própria personalidade, contactando as ranhuras do seu passado que estavam escondidas em um sótão qualquer de sua memória. A partir dele, o longa questiona os limites entre a justiça e a cegueira em vítimas e criminosos. Desde o ano passado, no qual colheu os louros por sua interpretação em Os Miseráveis, Jackman parece ter encontrado enfim os projetos certos para externar suas habilidades dramáticas (algo que conseguiu em filmes como O Grande Truque, Fonte da Vida e Austrália, mas que, em virtude da repercussão destas produções, não o levaram a lugar algum - em termos midiáticos, deixo bem claro). Em Os Suspeitos, o australiano está extraordinário, lidando com um personagem que é testado do início ao fim do filme e que, como já mencionado, carrega todo o mote da produção.
 
Paralelo ao desempenho do ator está o de Jake Gyllenhaal, o detetive que investiga o sequestro das garotas, o protótipo do policial absorto na própria profissão (tão obcecado que desenvolve um interessante tique nervoso), com dificuldades de construir uma vida social. Há ainda ótimas performances de Maria Bello e Viola Davis como as mães das crianças desaparecidas, cada uma reagindo de uma maneira diferente ao caso. Enquanto a personagem de Bello afunda-se em sua própria tristeza, entorpecendo-se de tranquilizantes, a de Davis tenta superar sua própria dor com inteligência emocional para perseverar a própria sanidade. Há ainda Melissa Leo, ótima e irreconhecível para aqueles que a viram em O Vencedor, filme que lhe rendeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante. Leo interpreta a tia do primeiro suspeito do crime, vivido por Paul Dano, também muito interessante, como de praxe. Um elenco de peso e orquestrado com equilíbrio, o que é mais importante.
 
Os Suspeitos é caracterizado por esta junção de elementos harmônicos que deram certo pela maneira simples e firme com que Denis Villeneuve lapida suas histórias. O diretor, que já tem para o próximo ano a adaptação de O Homem Duplicado, de José Saramago (também com Gylenhaal), junta-se a outros diretores estrangeiros que têm conseguido preservar sua essência em um sistema produtivo conhecido tempos atrás pela tendência em neutralizar os talentos de fora. Os Suspeitos é um suspense que mantém as marcas (ou ausência de) do diretor Denis Villeneuve e mantém as tradições de um gênero homogeneizado com muita frequência, o suspense. Não tem como pedir mais, na medida certa.
 
P.S.: O que deu na "cabeça" da Paris Filmes de lançar Prisoners como Os Suspeitos no Brasil, o mesmo título de um filme de semelhante impacto e valor lançado há quase vinte anos atrás, Os Suspeitos (1995), de Bryan Singer? Quão descartável é o consumo cinematográfico das pessoas hoje em dia... É muito mais fácil vender o filme como Os Suspeitos do que como Prisioneiros, por exemplo, afinal a cada ano que passa o público funciona mais pela lógica da "satisfação garantida", ou seja, arrisca-se menos e escolhe as produções pelo título entre outras razões. No entanto, esta decisão acaba criando um certo incômodo, como distinguir um filme do outro daqui para frente? Ainda mais levando em consideração a carreira que este Os Suspeitos pode fazer em prêmios no próximo ano. Deveriam ter pensado nisso, né?
 
 

Prisoners, 2013. Dir.: Denis Villeneuve. Roteiro: Aaron Guzikowski. Elenco: Hugh Jackman, Jake Gylenhaal, Maria Bello, Viola Davis, Terrence Howard, Melissa Leo, Paul Dano, Dylan Minnette, Zoe Borde, Erin Gerasimovich, Kyla Drew Simmons. 153 min. Paris Filmes

sábado, 19 de outubro de 2013

Curtas: Kick-Ass 2



Kick-Ass 2 é um tropeço sem freio ladeira abaixo. Caso fosse uma produção isolada, os efeitos das decisões Jeff Wallow, que assumiu a continuação, não seriam sentidos, já que o filme se apresenta como uma fita "certinha" de super-heróis. Só que "certinha" demais para ser uma continuação de Kick-Ass, cuja principal proposta é a de desconstrução das principais bases deste que já virou um gênero cinematográfico, o filme de super-herói, com muita violência, mas com doses igualmente cavalares de humor. O problema é que Kick-Ass 2 leva tudo muito a sério. Wallow não consegue encontrar a ironia que Matthew Vaughn conseguia como quem respirava no longa antecessor. Os personagens que eram despojados e sarcásticos se transformam em fontes de inúmeros diálogos sobre toda sorte de blá-blá-blá clichê de autoajuda. Tudo é desnaturalizado, por mais que seu trio central consiga preservar algumas marcas de seus personagens, mas tudo se dissolve, o roteiro não os deixa "brincar" como acontecia na primeira produção.
 
 
Kick-Ass 2, 2013. Dir.: Jeff Wallow. Roteiro: Jeff Wallow. Elenco: Aaron Taylor-Johnson, Chloe Grace Moretz, Christopher Mintz-Plasse, Jim Carrey, John Leguizamo, Garrett M. Brown, Amy Anzel, Clark Duke, Donald Faison. 103 min. UIP.
 

sábado, 12 de outubro de 2013

Crítica: Gravidade


Certas empreitadas cinematográficas valem a pena pelo percurso. Muitas histórias contadas no cinema ganham o espectador, pegam ele de jeito, mais pela forma com que são conduzidas do que por uma sucessão original de acontecimentos narrados de maneira linear. Nestes casos, a distância que separa um grande realizador cinematográfico, ciente da autonomia de sua linguagem artística, o cinema, daquele mero burocrata, que segue à risca as orientações de um papel, o roteiro, ainda que ele tenha seu valor, vêm à tona. Gravidade, portanto, evidencia as qualidades narrativas de um realizador mexicano que tem que ir aos EUA para alcançar a extratosfera da realização profissional. Em meio ao CGI aplicado com texturas críveis e uma platicidade inigualável - graças, em parte, ao usual e estupendo trabalho fotográfico de Emmanuel Lubezcki -, a tecnologia 3D de ponta e imersiva como nunca, Cuarón encontra o caminho da autenticidade cinematográfica e finca seu nome para o agora e a posteridade com uma realização ímpar através do seu novo filme.

A premissa de Gravidade, como já dito, é simples. Basicamente, o filme se sustenta através do mote dos "filmes de sobrevivência" ao narrar a história de uma engenheira hospitalar e um astronauta surpreendidos pela chuva de destroços de um satélite enquanto consertavam o telescópio Hubble. Após o incidente, ambos ficam à deriva na órbita da Terra, tentando encontrar uma forma de sobreviver e pedir resgate. Unidos por um cordão, os dois são repentinamente separados e deste momento em diante, o longa passa a acompanhar a tentativa de sobrevivência da Dra. Ryan Stone, vivida por Sandra Bullock.

Em meio a movimentos de câmera giratórios e desorganizados, os primeiros vinte minutos de Gravidade são contados sem corte e trilha por um Alfonso Cuarón que desde o primeiro segundo da produção deseja inserir o espectador no silêncio e na ambiência nauseante do espaço. Em situações pontuais, especialmente aquelas em que há uma tensão emergente e a aparente leveza do "estar em órbita" é interrompida pelo choque entre objetos e destroços ou entre estes e os personagens, o filme é conduzido por uma trilha igualmente nauseante e propositalmente desarranjada de Steven Price, que ainda tem a delicadeza de adicionar composições ternas em momentos dramáticos da personagem de Sandra Bullock. Ainda encontramos a consciência imagética  e a sensibilidade metafórica de Emmanuel Lubezcki que traz para a história conexões com o nascimento, o surgimento de um novo ser  a partir de uma situação de sobrevivência, de luta contra as adversidades naturais (no momento em que a personagem de Bullock entra em um dos compartimentos da estação espacial e fica em posição fetal em meio ao cordão que a unia ao personagem de Clooney - o corte do "cordão umbilical" que a protegia do universo desconhecido -, a metáfora fica mais evidente).

Para Cuarón e Lubezcki, a experiência da Dra. Ryan Stone se assemelha ao período de gestação e de nascimento da criança. Stone vai para a sua missão repleta de cicatrizes pessoais. Sua tentativa de sobrevivência, assemelha-se às descobertas e luta mês a mês de um feto. No desfecho, a personagem renasce para a sua própria vida após a experiência, aprende a caminhar novamente, cria algumas cascas, se desliga de outras. É uma associação simples e conduzida com delicadeza pelo realizador e por seu diretor de fotografia, mas que apresentam uma sinceridade latente mostrando que muitas vezes a simplicidade é mais certeira que subtextos pretensiosos. No fundo, Gravidade é sobre a resiliência, a transformação através da dor e sobre como somos impotentes em determinadas situações, aquelas que fogem ao nosso controle.
 
Tudo isto não seria tão eficiente caso não contasse com o eficaz desempenho de Sandra Bullock. A despeito de sempre ter suspeitado da capacidade da atriz de construir personagens, incluindo no seu trabalho vencedor do Oscar, Um Sonho Possível, Bullock cai como uma luva nos propósitos de Gravidade. Apesar de ser basicamente uma interpretação reativa, na qual a personagem basicamente responde às situações ao seu redor (algo que me lembrou bastante o recente desempenho de Naomi Watts em O Impossível, igualmente memorável), Bullock consegue dar consistência e propósitos à Dra. Ryan Stone, com muita sutileza e poquíssima afetação. Desta vez, não resta dúvidas, a atriz merece todos os elogios que vem colhendo. Igualmente interessante está George Clooney, sempre carismático e trabalhando em cima da sua própria persona, que acaba entrando em processo de simbiose com Matt Kowalski, seu personagem no filme.
 
Assim, Gravidade, como deveria caminhar naturalmente o cinema, reúne o melhor em seus esforços humanos e artísticos com tecnologia de ponta. O novo trabalho de Alfonso Cuarón evidencia a estupidez de intelectuais que insistem em separar o entretenimento da arte ou de tecnicistas frios que esquecem que antes dos efeitos em CGI, o melhor caminho para acessar o coração do espectador é através da alma, das histórias humanas. E Gravidade, antes de ser um grande feito tecnológico, um novo parâmetro visual para o que será feito de agora em diante na indústria cinematográfica, é uma história extremamente humana, tocante, edificante e inspiradora. Cuarón acessa novamente os nossos corações.
 
 

Gravity, 2013. Dir.: Alfonso Cuarón. Roteiro: Alfonso Cuarón e Jonás Cuarón. Elenco: Sandra Bullock, George Clooney, Ed Harris (voz), Paul Sharma (voz), Amy Warren (voz), Orto Ignatiussen (voz), Basher Savage (voz). 91 min. Warner.