domingo, 20 de outubro de 2013

Crítica: Os Suspeitos

 
 
Sabe aquela máxima de que quanto mais você chafurda na lama, mais ainda você se suja? A base narrativa de Os Suspeitos se sustenta nisso. Quanto mais Keller Dover (Hugh Jackman) era consumido pela raiva e adentrava no inferno para o qual a sua filha foi covardemente arrastada, mais o liame que o separava do universo dos raptores se dissolvia. Caminho irreversível...  Nesta intrincada e engenhosa trama que se deixa operacionalizar pelos distintos códigos de conduta dos seus vários personagens, a maior qualidade está no estabelecimento da fidelidade da atenção do espectador desde o primeiros segundo. Há atmosfera, dramaticidade e substância o suficiente para manter intensa a relação entre espectador e obra em suas jamais entediantes mais de duas horas de projeção.
 
Indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro há um ano atrás por Incêndios,  o franco-canadense Denis Villeneuve empreende uma interessante jornada em sua primeira produção norte-americana. Seguindo a tradição de obras-primas contemporâneas do suspense, como Seven, Los Angeles - Cidade Proibida Sobre Meninos e Lobos, Os Suspeitos traz a história de um casal de amigos cujas filhas mais novas desaparecem e o único suspeito de envolvimento no rapto é um rapaz com estranhos hábitos que vive com sua tia. O pai de uma das meninas é tomado pela fúria e decide investigar o caso por conta própria diante de decisões tomadas pela polícia local que julga ineficientes para a solução do crime.
 
Em Os Suspeitos, Denis Villeneuve mantém o pulso narrativo que apresentou em Incêndios. O diretor é cúmplice dos seus personagens e mantém um compromisso com as demandas do público, sem estabelecer nichos específicos para os quais suas histórias são direcionadas. Há uma tensão crescente sequência a sequência, o necessário atributo inerente a qualquer bom suspense. E tudo isso é administrado com discrição, sem exibicionismo fotográfico. O realizador e o diretor de fotografia Roger Deakins, que dispensa apresentações e necessita de um reconhecimento para "ontem", inserem a trama em uma sobriedade obscura e tensa, que auxilia ainda mais o espectador a adentrar nos meandros da trama. Mas é claro que em meio a tudo isso existe o trabalho impecável do roteirista Aaron Guzikowski, cujo único crédito anterior era pelo seu trabalho no roteiro de Contrabando, com Mark Wahlberg, ou seja, um salto e tanto. O roteiro de Guzikowski é uma pedra rara, há pouquíssimos furos e opera com vida própria, guiado por seus personagens, as vezes coerentes outras vezes não, em alguns momentos racionais ou movidos a impulsos, enfim de carne e osso, erros e acertos. 
 
O fio condutor de todo o projeto é o personagem de Hugh Jackman, Keller Dover, um pai de família que, sem perceber, vê sua estrutura emocional desabar a partir do desaparecimento de sua filha. Dover acessa uma zona obscura de sua própria personalidade, contactando as ranhuras do seu passado que estavam escondidas em um sótão qualquer de sua memória. A partir dele, o longa questiona os limites entre a justiça e a cegueira em vítimas e criminosos. Desde o ano passado, no qual colheu os louros por sua interpretação em Os Miseráveis, Jackman parece ter encontrado enfim os projetos certos para externar suas habilidades dramáticas (algo que conseguiu em filmes como O Grande Truque, Fonte da Vida e Austrália, mas que, em virtude da repercussão destas produções, não o levaram a lugar algum - em termos midiáticos, deixo bem claro). Em Os Suspeitos, o australiano está extraordinário, lidando com um personagem que é testado do início ao fim do filme e que, como já mencionado, carrega todo o mote da produção.
 
Paralelo ao desempenho do ator está o de Jake Gyllenhaal, o detetive que investiga o sequestro das garotas, o protótipo do policial absorto na própria profissão (tão obcecado que desenvolve um interessante tique nervoso), com dificuldades de construir uma vida social. Há ainda ótimas performances de Maria Bello e Viola Davis como as mães das crianças desaparecidas, cada uma reagindo de uma maneira diferente ao caso. Enquanto a personagem de Bello afunda-se em sua própria tristeza, entorpecendo-se de tranquilizantes, a de Davis tenta superar sua própria dor com inteligência emocional para perseverar a própria sanidade. Há ainda Melissa Leo, ótima e irreconhecível para aqueles que a viram em O Vencedor, filme que lhe rendeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante. Leo interpreta a tia do primeiro suspeito do crime, vivido por Paul Dano, também muito interessante, como de praxe. Um elenco de peso e orquestrado com equilíbrio, o que é mais importante.
 
Os Suspeitos é caracterizado por esta junção de elementos harmônicos que deram certo pela maneira simples e firme com que Denis Villeneuve lapida suas histórias. O diretor, que já tem para o próximo ano a adaptação de O Homem Duplicado, de José Saramago (também com Gylenhaal), junta-se a outros diretores estrangeiros que têm conseguido preservar sua essência em um sistema produtivo conhecido tempos atrás pela tendência em neutralizar os talentos de fora. Os Suspeitos é um suspense que mantém as marcas (ou ausência de) do diretor Denis Villeneuve e mantém as tradições de um gênero homogeneizado com muita frequência, o suspense. Não tem como pedir mais, na medida certa.
 
P.S.: O que deu na "cabeça" da Paris Filmes de lançar Prisoners como Os Suspeitos no Brasil, o mesmo título de um filme de semelhante impacto e valor lançado há quase vinte anos atrás, Os Suspeitos (1995), de Bryan Singer? Quão descartável é o consumo cinematográfico das pessoas hoje em dia... É muito mais fácil vender o filme como Os Suspeitos do que como Prisioneiros, por exemplo, afinal a cada ano que passa o público funciona mais pela lógica da "satisfação garantida", ou seja, arrisca-se menos e escolhe as produções pelo título entre outras razões. No entanto, esta decisão acaba criando um certo incômodo, como distinguir um filme do outro daqui para frente? Ainda mais levando em consideração a carreira que este Os Suspeitos pode fazer em prêmios no próximo ano. Deveriam ter pensado nisso, né?
 
 

Prisoners, 2013. Dir.: Denis Villeneuve. Roteiro: Aaron Guzikowski. Elenco: Hugh Jackman, Jake Gylenhaal, Maria Bello, Viola Davis, Terrence Howard, Melissa Leo, Paul Dano, Dylan Minnette, Zoe Borde, Erin Gerasimovich, Kyla Drew Simmons. 153 min. Paris Filmes

Um comentário:

Stella Daudt disse...

As distribuidoras precisam melhorar URGENTEMENTE a tradução dos títulos. Além das coincidências, como no caso dos Suspeitos, há os nomes inexpressivos, que não ficam.