sábado, 30 de novembro de 2013

Curtas: Um Time Show de Bola

Alguém poderia imaginar que depois de vencer um Oscar de melhor filme estrangeiro por O Segredo dos seus Olhos o argentino Juan José Campanella fosse se aventurar no universo das animações? Pois foi isso que ele fez em Um Time Show de Bola e olhando para toda a carreira do cineasta não fica difícil entender este caminho. De lá para cá, Campanella acumula a direção de episódios de seriados como House, Law & Order e outras tantas séries argentinas, além de filmes diversificados em gêneros e propostas como O Filho da Noiva e Clube da Lua. Esta nova aventurança de Campanella conta a história de Amadeu, um jovem que cresceu apaixonado por uma mesa de totó e por uma garota. Após correr o risco de perder todas as peças do jogo, o garoto é surpreendido pelo fato de que elas começam pouco a pouco a ganhar vida. Um Time Show de Bola pode ser dividido em dois filmes, um irregular que corresponde ao "miolo" do longa e traz a tentativa do protagonista de recuperar os seus jogadores em um lixão e em um parque de diversões, esta vale pouco a pena pois segue uma cartilha previsível em gags. No entanto, a junção do primeiro ato com o último, que traz uma partida de futebol entre Amadeu e os habitantes de sua cidade contra um time de profissionais, é irretocável.
 
 
Metegol, 2013. Dir.: Juan José Campanella. Roteiro: Juan José Campanella, Gastón Gorali e Eduardo Sacheri. 106 min. Universal.
 

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Curtas: Lovelace

Quem nunca ouviu falar de Linda Lovelace, certamente já ouviu alguma referência a Garganta Profunda, filme que a transformou na estrela pornô mais famosa do mundo. Lovelace é uma cinebiografia que aborda este momento na vida de Linda, sobretudo o que acontecia com ela nos bastidores da indústria pornográfica dos anos de 1970. Linda entrou nesse universo graças ao marido Chuck Traynor, que a obrigava a se prostituir e controlava todos os lucros que obteve com Garganta Profunda, fita que tornou-se febre na indústria pornográfica quando ocupou o ranking das maiores bilheterias em seu ano de estreia. Infelizmente, o filme de Rob Epstein e Jeffrey Friedman, que demonstraram apuro estético em Howl, derrapa em diversos aspectos. A começar pela narrativa, Lovelace baseia-se em idas e vindas que não são nada produtivas para o espectador, flashbacks confusos e deslocados. Além disso, o filme sustenta-se na superficial relação "marido agressor - esposa submissa" para explicar as complexas personalidades de Lovelace e Traynor. Para completar, Amanda Seyfried até que tenta, mas não consegue sustentar o peso de uma personagem tão delicada quanto esta, e ainda conta com uma Sharon Stone de dar vergonha por carregar tanto nos trejeitos e nas feições que evocam severidade como a mãe de Lovelace. Quem se salva na produção é Peter Sarsgaard, mais uma vez demonstrando que precisa de um projeto que proporcione uma guinada em sua carreira. Como Chuck Traynor, Sarsgaard insere todas as camadas necessárias ao personagem que o roteiro e os cineastas não foram capazes de dar. Definitivamente não foram os mesmos diretores inventivos de Howl que dirigiram Lovelace. Não foram mesmo!
 

Lovelace, 2013. Dir.: Rob Epstein e Jeffrey Friedman. Roteiro: Andy Bellin. Elenco: Amanda Seyfried, Peter Sarsgaard, Sharon Stone, James Franco, Chris Noth, Hank Azaria, Adam Brody, Chloe Sevigny, Eric Roberts, Juno Temple, Wes Bentley, Robert Patrick. 93 min. Paris Filmes.

domingo, 24 de novembro de 2013

Crítica: Frances Ha


No ano passado comentei por aqui no blog sobre Jovens Adultos, o último filme do Jason Reitman, que me impressionou muito não só pela embasbacante atuação de Charlize Theron, mas também pela maneira contundente e delicada com que abordou uma espécie de síndrome detectável entre jovens nas proximidades dos trinta anos de idade, a "adultescência". Sabe aquela fase em que a gente se vê diante de um dilema que não sabe resolver: manter os sonhos firmes como metas de vida ou render-se às pressões da vida prática? Por que aquela vida que sonhamos e planejamos quando ainda éramos adolescentes, tornar-se um rock star ou ganhar um Pullitzer antes dos trinta, se dissolveu tão rápido por entre nossos dedos?
 
O novo longa de Noah Baumbach, Frances Ha, trata justamente disso. No entanto, diferente do Jovens Adultos de Jason Reitman, a história conta com uma personagem bem mais simpática aos olhos do público. Frances tem 27 anos e ganha uns poucos trocados para sobreviver como professora de balé para crianças. Apesar de sempre ter sonhado em viver da sua arte, a dança, foi o máximo que conseguiu para aproximar-se dessa aspiração. Frances vive em um apartamento em Nova York com Sophie, a quem considera uma outra versão sua, só que com o cabelo diferente, almas gêmeas. Quando Sophie resolve levar a sério o relacionamento que tinha com seu namorado, o mundo de Frances começa a ruir. Tudo fica ainda pior para ela quando é dispensada de uma apresentação especial do grupo de dança no Natal. Frances começa a ter dificuldades para pagar as suas próprias contas, vê todos os seus amigos se transformarem em pessoas quadradas, casarem, ter filhos e se satisfazerem com empregos burocráticos. Enfim, Frances começa a ser esmagada belo pálido mundo dos "adultos".
 
Utilizando o preto e branco para o seu longa, Noah Baumbach, que já realizou verdadeiros experimentos narrativos com A Lula e a Baleia e Margot e o Casamento, se inspira na Nouvelle Vague para apresentar esse filme agridoce e singelo sobre a crise dos 20 e tantos, uma síndrome pouco retratada no cinema mas cada vez mais latente em tempos que parecem inspirar a liberdade, quando, na verdade, as tolhe de maneira avassaladora e sutil. Para tanto, o diretor e roteirista conta com uma protagonista encantadora, personificada por sua parceira no roteiro do filme, a atriz Greta Gerwig, que parece transformar Frances em uma extensão de si mesma.
 
Frances Ha é uma realização tão encantadora quanto sua protagonista, uma daquelas figuras que a gente queria ter como amiga para sempre, sabe? Daquelas que nos inspira o melhor, que nos faz entrar em contato com quem realmente somos por trás de vidas aparentemente insossas. Daquelas com a qual compartilhamos o que temos de melhor a oferecer. Frances é tão maravilhosa que o mundo, cheio de superficialidade e formado por indivíduos neuróticos, insatisfeitos com os rumos das suas próprias vidas e que só fazem perpetuar um sistema formador de frustrados e deprimidos em potencial, simplesmente não merece ela.

 

Frances Ha, 2013. Dir.: Noah Baumbach. Roteiro: Noah Baumbach e Greta Gerwig. Elenco: Greta Gerwig, Mickey Sumner, Michael Esper, Adam Driver, Michael Zegen, Grace Gummer, Patrick Heusinger, Justine Lupe, Christine Gerwig, Gordon Gerwig. 86 min. Vitrine Filmes.
 

sábado, 23 de novembro de 2013

Oscar 2014: Gravidade, 12 Years a Slave, Cate Blanchett e Chiwetel Ejiofor dominam as apostas


Jantares especiais, festas com homenagens, festivais e sessões para comissões votantes... Enquanto para nós o Oscar 2014 é algo ainda muito distante, nos EUA os principais estúdios e distribuidoras correm para seduzir membros da academia de Hollywood e  associações de críticos e profissionais da sétima arte e, quem sabe, abocanhar uma indicação nas listas das principais premiações do ano, que devem começar a sair pelos próximos dias.
 
Este post é dedicado a quem é apaixonado pelo "prazer culposo" de especular sobre o Oscar e as demais premiações do cinema com meses de antecedência.
 
MELHOR FILME
 
Montagem: Variety
 Parece um consenso que a batalha do ano pelos principais prêmios será entre Gravidade, de Alfonso Cuarón (Filhos da Esperança), e 12 Years a Slave, de Steve McQueen (Shame), com uma ligeira vantagem para o segundo.  Quer dizer, isso é o que podemos afirmar até o momento.

Gravidade, além de contar com uma das maiores bilheterias do ano, foi abraçado pela crítica e representa, tal qual Avatar, em 2009, um avanço para o cinema no quesito técnico. Para benefício do longa estrelado por Sandra Bullock, ele conta com o fator emocional a seu favor, o que o faz levar uma grande vantagem. No entanto, Gravidade tem contra si a ausência de um roteiro mais elaborado, o que conta no filme de Cuarón, como trouxemos na crítica do blog, é a forma com que ele foi contado. Por este motivo, 12 Years a Slave toma a dianteira. O novo longa de Steve McQueen conta a história de um escravo liberto que é sequestrado e forçado a tornar-se escravo novamente na propriedade de um cruel fazendeiro, vivido por Michael Fassbender. Após passar nos festivais de cinema de Telluride e Toronto, 12 Years a Slave rapidamente tornou-se o filme com as melhores resenhas do ano.
 
O que torna Gravidade e 12 Years a Slave candidatos instantâneos aos prêmios de melhor filme da temporada é que ambas produções trazem em si características que as definem como grandes realizações artísticas, seja o perfeccionismo técnico (Gravidade), sejam as reverberações temáticas (12 Years a Slave, um filme sobre a escravidão, dirigido por um negro - que pode ser o primeiro a conquistar um prêmio de melhor direção pela Academia -, em um ano dominado por outras produções com o mesmo tema).



Montagem: FacciadiBronzo
A disputa entre Gravidade e 12 Years a Slave só pode ser abalada por dois outros títulos que, até o momento, não foram vistos pela crítica ou pelo público: American Hustle, de David O. Russell (O Lado Bom da Vida e O Vencedor), ou O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese (A Invenção de Hugo Cabret e Os Infiltrados).

O. Russell dominou as recentes premiações com filmes que acertaram em cheio o "gosto" da Academia. O Vencedor e O Lado Bom da Vida encontraram eco entre os votantes do Oscar, com indicações sobretudo para boa parte dos integrantes de seu elenco (o segundo, por exemplo, rendeu indicações para as quatro categorias de interpretação do Oscar no ano passado). American Hustle será a terceira tentativa de O. Russell com a Academia, será que dessa vez ele conseguirá? O filme, que será chamado Trapaça no Brasil, conta a história de um golpista (Christian Bale) que, junto com sua amante (Amy Adams), resolve colaborar com um agente do FBI (Bradley Cooper) infiltrado em um grupo de mafiosos comandado por um político (Jeremy Renner). Todo o esquema do grupo começa a ruir quando a jovem esposa do golpista (Jennifer Lawrence) descobre o caso do marido e seu envolvimento com o crime.

Já O Lobo de Wall Street será a quinta colaboração de Leonardo DiCaprio e o cineasta Martin Scorsese ( eles já trabalharam juntos em Gangues de Nova York, O Aviador, Os Infiltrados e Ilha do Medo). O filme traz a história de um jovem investidor da bolsa de valores que conheceu a decadência nos anos de 1990, não sem antes se envolver em escândalos com drogas, festas, mulheres e alguns crimes fiscais. DiCaprio é o protagonista do longa que conta com participações de Matthew McConaughey, Jonah Hill e Jean Dujardin (vencedor do Oscar por O Artista). Aqui, a mesma lógica aplicada a American Hustle: é praticamente difícil a Academia resistir a Scorsese, resta saber se o filme terá o mesmo impacto na audiência que Gravidade e 12 Years a Slave tiveram.
 
ATRIZES
 

Todas as possíveis candidatas deste ano já venceram um Oscar em suas carreiras. Temos Cate Blanchett de Blue Jasmine (vencedora como coadjuvante em O Aviador), Sandra Bullock de Gravidade (vencedora como atriz em Um Sonho Possível), Emma Thompson de Walt nos bastidores de Mary Poppins (vencedora como melhor atriz Retorno a Howard Ends e do prêmio de melhor roteiro adaptado por Razão e Sensibilidade), Meryl Streep de Álbum de Família (vencedora como atriz em A Dama de Ferro e A Escolha de Sofia e como coadjuvante em Kramer vs. Kramer) e Judi Dench de Philomena (vencedora como coadjuvante por Shakespeare Apaixonado). Correndo por fora ainda temos Kate Winslet de Labor Day (vencedora como atriz por O Leitor). As únicas prováveis concorrentes do ano que nunca ganharam uma estatueta do Oscar são Amy Adams de American Hustle, que já foi indicada quatro vezes ao prêmio como coadjuvante (Retratos de Família, Dúvida, O Vencedor e O Mestre), e a francesa Adele Exarchopoulos do longa vencedor da Palma de Ouro em Cannes, Azul é a Cor mais Quente.

O fato é que, até o momento, a disputa favorece Cate Blanchett, que praticamente tomou o filme de Woody Allen para si com sua interpretação e é a única da lista que detém um prêmio como coadjuvante. As maiores concorrentes de Blanchett são Sandra Bullock e Emma Thompson pelas reações emotivas da audiência à trajetória de seus personagens nos filmes que protagonizam. O que valerá aqui é o que a Academia deseja premiar este ano, uma personagem desagradável como Jasmine (Blanchett) ou protagonistas detentoras do que os norte-americanos chamam de "likability", ou seja, mulheres que provoquem a empatia do público com trajetórias admiráveis e edificantes ao longo de uma história? Na maior parte dos casos o triunfo vem para as concorrentes com a segunda característica, mas há casos excepcionais, como o de Natalie Portman em 2011, por Cisne Negro. Apostaria minhas fichas em Blanchett, a exceção.

No entanto, assim como acontece com os candidatos a melhor filme, Amy Adams de American Hustle pode surpreender e conseguir destaque na disputa pelos prêmios de melhor atriz. Nenhuma intérprete consegue quatro indicações ao Oscar com menos de quarenta anos de idade à toa, certo? O fato de Adams nunca ter vencido um Oscar pode contar pontos a seu favor na disputa com estas veteranas. Resta o filme ser visto e termos as primeiras reações ao desempenho da atriz.
 
As coadjuvantes
 

Oprah Winfrey foi o primeiro nome a surgir na temporada. O Mordomo da Casa Branca estreou em agosto nos EUA e logo todos estavam falando quão maravilhoso era o desempenho de Winfrey como a esposa do mordomo do título. E realmente é! Winfrey é um dos melhores aspectos do filme, já foi indicada como coadjuvante por A Cor Púrpura em 1987 e é um ícone nos EUA. Quer coisa mais sedutora para a Academia do que premiar uma das figuras mais populares do país?

No entanto, a popularidade de 12 Years a Slave na comunidade cinematográfica trouxe com força o nome da estreante Lupita N'Yongo, intérprete da esposa do protagonista desta outra história marcante sobre a conquista dos direitos civis dos negros nos EUA. A premiação de N'Yongo também inspira uma sedutora estratégia publicitária da Academia: dar a vitória a uma promessa. O Oscar adora incentivar a carreira de jovens atrizes.

A batalha das duas promete prosseguir até o último momento. Tudo depende de como a Academia abraçará 12 Years a Slave. Se for "o" filme do ano, é bem provável que Lupita ganhe o Oscar e outros prêmios dessa categoria.
 
ATORES
 

Até termos uma resposta sobre os desempenhos de Leonardo DiCaprio em O Lobo de Wall Street e Christian Bale em American Hustle, os principais nomes da próxima corrida aos prêmios de melhor ator são Chiwetel Ejiofor, do possível candidato a melhor filme 12 Years a Slave, Matthew McConaughey, que emagreceu 22 quilos para viver um portador de HIV em Dallas Buyers Club, e o veterano, mas nunca ganhador de um Oscar como ator, Robert Redford por All is Lost.
 
Apesar do esforço e da transformação de McConaughey, algo que sempre conta a favor, os nomes mais celebrados até o momento são os de Ejiofor e Redford. O que se comenta é que será um dos anos mais difíceis nesta categoria e que é bem provável que, ao longo da temporada de prêmios, as vitórias sejam distribuídas até chegarmos ao Oscar.
 
Outros nomes especulados como prováveis indicados são os de Bruce Dern em Nebraska, Tom Hanks em Capitão Phillips e Forest Whitaker de O Mordomo da Casa Branca.
 
Os coadjuvantes
 
 Se Matthew McConaughey emagreceu 22 quilos em Dallas Buyer Club, seu parceiro de cena, Jared Leto, perdeu 18 para viver um transformista também vítima da Aids. Leto, que se afastou por alguns anos do cinema, um pouco desiludido, e dedicou-se à música com o 30 Seconds to Mars, viu sua carreira de ator renascer com os comentários elogiosos a seu trabalho neste drama. 
 
No entanto, Leto tem como ameaça o Walt Disney de Tom Hanks em Walt nos bastidores de Mary Poppins, que, apesar do título brasileiro, disputa como coadjuvante pois a história é centrada na personagem de Emma Thompson. Todos voltaram a falar de Hanks, de repente, por este papel, desde a sua detalhada caracterização como Disney até seu emocionante diálogo com a personagem de Thompson no final do longa. Dizem que um vencedor do Oscar como protagonista (Hanks venceu como melhor ator por Filadélfia e Forest Gump) raramente vence uma estatueta anos depois como coadjuvante. Ingrid Bergman está ai para comprovar que, em se tratando de Oscar ou da temporada de prêmios em geral, não há regra que não possa ser quebrada (após vencer dois Oscars como melhor atriz, ela venceu como coadjuvante por Assassinato no Expresso Oriente em 1975).
 


domingo, 17 de novembro de 2013

Crítica: Blue Jasmine


 Na extensa carreira de Woody Allen são raros os casos em que a obra em si é menos importante do que o desempenho de um ator. No caso de Blue Jasmine, o filme segue a linhagem do que de melhor o cineasta norte-americano sabe fazer, expor com refino intelectual e muita ironia a contraditória e problemática natureza humana. Contudo, neste trabalho, torna-se mais urgente discutir o desempenho espetacular da australiana Cate Blanchett, prestes a abocanhar seu segundo Oscar (ao menos, é o que as listas de apostas, ainda precoces, apontam). A questão é que não são raras as performances memoráveis em filmes de Woody Allen, o cineasta fornece um vasto e rico material de composição de personagens para qualquer ator. Mas são raros sim os exemplares da carreira de Allen que permitem a um ator, no caso, uma força da natureza como Cate Blanchett, ser maior do que as próprias linhas do seu roteiro, sempre cheios de insights.
 
Blue Jasmine tem início quando Jasmine (Blanchett) muda-se para a casa da irmã Ginger (Sally Hawkins) em São Francisco. Jasmine, cujo nome verdadeiro é Jeanette, acaba de sair de uma grande turbulência em sua vida: seu marido, Hal (Alec Baldwin), um especulador da bolsa de valores, foi preso por enriquecimento ilícito e simplesmente a deixa sem um tostão para sustentar sua vida de ostentações. Com Ginger, Jasmine, que se mantém de pé graças a comprimidos de Xanax e muito uísque, se depara com uma vida bem diferente da que levava em Nova York, mais simples, sem grandes confortos. A oportunidade de sair do "buraco" em que fora jogada surge quando ela conhece Dwight (Peter Sarsgaard), um diplomata viúvo à procura de uma decoradora para a sua nova casa.
 
Jasmine é o típico alter ego de Woody Allen. Sofisticada, neurótica e venenosa compulsiva, a protagonista do novo filme do diretor é "vítima" da bolha e do crash financeiro de 2008. Ainda que este contexto seja incluído nas linhas narrativas do filme, não é bem nesse universo que Allen deseja adentrar quando coloca os mundos de Jasmine e Ginger em colisão. Para o diretor, não há nada mais deprimente e patético do que a derrocada financeira, assim como o é para Jasmine. Com Blue Jasmine, Allen questiona o espectador se dinheiro não traz mesmo felicidade, ainda que de maneira torta, anestesiante e alienada como acontece com Jasmine. Ainda que falte ao filme a veemência e corrosividade alleniana - o diretor aqui se permite mais à observação passiva, sobretudo diante do desempenho arrasa quarteirão de Blanchett -, o filme mantém as qualidades dos melhores trabalhos do cineasta.
 
Sobre Blanchett, não há muito o que comentar. Ou melhor, há sim, afinal (esqueceram?) ela é quem dá tônus a Blue Jasmine. Com uma carreira composta mais de acertos do que erros, a australiana é um daqueles talentos natos das artes dramáticas. A voz grave e o olhar expressivo nos faz associar seu estilo ao trabalho de Bette Davis, que, com suas interpretações, não deixava pedra sobre pedra em qualquer projeto para o qual era escalada. Por estas características, ocasionalmente, Blanchett pode passar a sensação do over acted, mas não é o que acontece aqui. A atriz compõe Jasmine como uma mulher que parece se equilibrar na linha divisória entre a razão e a loucura, ou ainda, entre a dissimulação e a sinceridade. Jasmine é fascinada pelas roupas de grifes, viagens internacionais e pelos badalados eventos sociais. Quando perde tudo, substitui todos esses mimos entorpecentes por tranquilizantes, álcool e começa a demonstrar sinais de completo desequilíbrio. O contraponto a Jasmine é sua irmã Ginger, interpretada pela igualmente interessante Sally Hawkins, sempre muito boa, que se contenta com muito pouco para ser feliz, como um final de semana deitada no sofá com o namorado, compartilhando uma última fatia de pizza.
 
A verdade é que poucos cineastas conseguem ser tão sinceros assim com suas inquietações sobre a vida. Talvez Woody Allen consiga ser tão aberto assim quanto aos seus próprios sentimentos por expô-los através do humor, da ironia. Certeiro na escolha dos seus porta-vozes, em Blue Jasmine, o diretor encontra na composição de Cate Blanchett uma forma de abordar as relações que estabelecemos entre o estado de felicidade bruto e o prazer material. Ainda que falte um maior comprometimento acerca das conclusões para os problemas que ele mesmo tenta procurar solucionar com o filme, o diretor encontra salvação na sua atriz, que como poucas na sua carreira, conseguiu ficar à frente do criador da sua personagem, através de uma interpretação certamente definitiva em sua carreira. Woody Allen tem muitas musas: Scarlett Johansson, Mia Farrow, Dianne Wiest, Penélope Cruz... Mas em nenhuma destas relações criativas esteve tentado a deixar a sua obra nas mãos de uma delas como aconteceu com Cate Blanchett em Blue Jasmine.
 

 
 
Blue Jasmine, 2013. Dir.: Woody Allen. Roteiro: Woody Allen. Elenco: Cate Blanchett, Alec Baldwin, Sally Hawkins, Peter Sarsgaard, Andrew Dice Clay, Bobby Cannavale, Michael Stuhlbarg, Alden Ehrenreich, Louis C.K., Tammy Banchard. 98 min. Imagem Filmes.

Curtas: Jogos Vorazes - Em Chamas

É comum às continuações serem melhores ou piores que seus antecessores. Normalmente, em segundos ou terceiros filmes de uma franquia, um orçamento mais robusto é embutido e diretores saem de cena para ceder a cadeira a outros. Este movimento, comumente, leva a produção ou ao fiasco absoluto ou ao nirvana da realização cinematográfica. No caso de Jogos Vorazes - Em Chamas, o filme não segue nenhum destes dois caminhos. O segundo filme da franquia protagonizado por Jennifer Lawrence, a golden girl de Hollywood, é tão bom quanto o primeiro, ou seja, administra muito bem todos os elementos que fizeram do longa anterior uma bem-vinda chama de criatividade narrativa e contundência temática em meio a blockbusters e franquias cada vez mais descartáveis. Francis Lawrence (de Eu sou a Lenda, Constantine e Água para Elefantes) assume a direção que antes fora de Gary Ross (Pleacantville - A Vida em Preto e Branco e Seabiscuit) e dois vencedores do Oscar cuidam do roteiro, Simon Beaufoy (Quem quer ser um Milionário?) e Michael Arndt (Pequena Miss Sunshine e Toy Story 3). O resultado é tão honesto quanto o primeiro com o adendo de que as sequências de ação dos jogos, um "calcanhar de Aquiles" do filme anterior, são bem melhores aqui. No elenco, Jennifer Lawrence segura as pontas como uma protagonista feminina que deveria ser cada vez mais retratada nas telas - bem diferente das Belas ou Anastasias da vida. Além dela, Josh Hutcherson mantém a preferência do público por Peeta, carisma em estado bruto o garoto. As participações interessantes de Elizabeth Banks, Woody Harrelson, Stanley Tucci e Donald Sutherland são mantidas, com o adendo da presença de Philip Seymour Hoffman.
 
 
The Hunger Games - Catching Fire, 2013. Dir.: Francis Lawrence. Roteiro: Simon Beaufoy e Michael Arndt. Elenco: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Philip Seymour Hoffman, Donald Sutherland, Woody Harrelson, Elizabeth Banks, Stanley Tucci, Lenny Kravitz, Jeffrey Wright, Sam Claflin, Jena Malone, Toby Jones.
 

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Crítica: Elena


Remexer nas memórias não é nada fácil, corta na alma. Mas talvez por isso mesmo seja necessário sempre trazê-las de volta, encará-las de frente com o que ela traz de melhor ou pior, no divã de um psicanalista, através da arte, enfim, de qualquer forma. Muito do que somos hoje se deve ao que guardamos do tempo em que éramos crianças.  É através do confronto com as emoções antigas, aquelas que a gente nem se atreve visitar, guardadas por vezes no sótão de nossa própria existência,  que a gente encontra forças para dar continuidade a nossas vidas, nos entender um pouco melhor. E não há nada no mundo que seja mais determinante do que a autoconsciência... É libertador! Boa parte dos problemas que temos vêm do fato de nos conhecermos tão pouco, de não termos coragem o suficiente para enfrentar esses demônios internos.  O passado tem um pouco disso, nos faz caminhar para frente por meio de dispositivos do afeto ou da dor. No caso de Petra Costa, diretora e uma das personagens centrais do documentário Elena, um pouco dos dois.
 
Desde criança, Petra acompanhou o sonho de sua irmã mais velha, Elena. Em busca do sonho de ser atriz, Elena decidiu morar em Nova York, fez alguns cursos e participou de uma dúzia de testes. Na medida em que se deparava com os obstáculos naturais da sua escolha, Elena começa a se deparar com os sinais da depressão. Petra, ainda pequena, e a mãe se mudam para Nova York, mas nem mesmo a presença das duas ajuda Elena a superar este momento. Num rompante, Elena escreve uma carta para as duas e decide se matar. O documentário é um relato poético das memórias de Petra Costa e dos anos que viveu ao lado da sua irmã, mas também daqueles em que conviveu com a sua ausência.
 
Em Elena, Petra Costa intenciona exorcizar o peso que o suicídio de Elena representou na sua vida e na vida da sua mãe. Adotando o relato poético como forma de narrar sua relação com Elena e a forma com que este trágico evento impactou a vida da sua família, Costa opta por um lirismo melancólico que transforma seu filme em uma carta endereçada triste, mas libertadora. Elena torna nebulosas as delimitações entre o documentário e a ficção através da utilização de recursos de ambas esferas de narração cinematográfica. O relato de Petra Costa surge como um terceiro formato, indefinido, mas inegavelmente tocante e repleto de significados para a sua realizadora e para o espectador.
 
A viga mestra deste filme é a noção de que somos muito do que nossa memória traz como relato, mas que podemos buscar formas de aprender com ele, não repetir estórias. No caso, a forma que Petra Costa encontrou de fazer isso foi realizando este filme de execução triunfante pelos sentimentos que convoca, transgredindo qualquer rito formal dos documentários. Na verdade, Elena não é um documentário, pertence a uma outra categoria, trata-se de um relato pessoal em filme, uma memória fílmica. Um filme sobre gente, sobre o amor, sobre como a vida pode ser dura com os sonhadores, no caso de Elena, mas também como ela pode oferecer mecanismos de resiliência, é o caso de Petra, que transformou sua dor e afeto em um relato fílmico comovente.

 

Elena, 2013. Dir.: Petra Costa. Roteiro: Petra Costa e Carolina Ziskind. Documentário.

sábado, 9 de novembro de 2013

Curtas: Thor - O Mundo Sombrio

Continuo enxergando com olhos duvidosos o caminho que a Marvel optou seguir desde que decidiu dar início ao projeto Os Vingadores. Os filmes se tornaram cada vez mais parecidos, barulhentos e rasos, mas tão rasos que chegam a dar sono. Thor - O Mundo Sombrio, apesar de ser ligeiramente superior ao antecessor, segue o mesmo caminho. Novamente, evoca-se uma urgência, um perigo iminente que não se concretiza e que talvez satisfaça espectadores mais desatentos, mas que certamente entediarão qualquer espectador mais exigente (como todos deveriam ser, diga-se de passagem). A presença de Natalie Portman na produção enfim justifica-se, ainda que o romance entre sua Jane Foster e Thor não saia do "lugar nenhum" que se encontrava no primeiro longa. Há um excesso de gags, que tomam conta do filme e retiram toda a dramaticidade e tensão que ele pretende passar. Por outro lado, saído de Game of Thrones, Alan Taylor adequa-se mais à história que Kenneth Branagh, que sempre me pareceu um peixe fora d'água para este tipo de proposta. É fato que a intenção da Marvel é fazer mesmo de seus filmes produtos em série, padronizados, mas não deixa de ser legítima uma frustração advinda da sensação de que se eles deixassem seus diretores terem um pulso mais firme em suas produções, trazendo uma personalidade mais definida a cada um daqueles universos tão particulares e nada homogêneos, os destinos das franquias seriam bem mais interessantes.
 

Thor - The Dark World, 2013. Dir.: Alan Taylor. Roteiro: Christopher Yots, Christopher Markus e Stephen McFeely. Elenco: Chris Hemsworth, Natalie Portman, Anthony Hopkins, Tom Hiddleston, Christopher Eccleston, Idris Elba, Rene Russo, Kat Dennings, Stellan Skarsgard, Jonathan Howard, Chris O'Dowd. 112 min. Buena Vista. 
 

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Crítica: O Verão da minha Vida


No planejamento original do blog, O Verão da Minha Vida ocuparia uma singela Curtas  no mês de novembro. Este despretensioso indie arrebatou tanto o coração do autor deste espaço que resolvi destinar algumas linhas a mais a esta carinhosa fita sobre o amadurecimento e as incertezas da adolescência. O Verão da Minha Vida é uma daquelas fitas raras, que costuma aliar a leveza e a profundidade necessária que seus temas exigem, sem parecer cabeçudo, metafórico demais. O filme vai direto ao ponto, direto ao coração.

Imagine-se como um garoto tímido lá pelos seus quatorze anos de idade, cheio de conflitos e dúvidas sobre a sua própria personalidade, algo típico da fase em que não se é mais criança, tampouco pode ser considerado adulto. Seus pais se separam abruptamente e você tem que morar com sua mãe e o namorado dela. Seu padrasto não te suporta e te julga por parâmetros comportamentais considerados "normais" para garotos da sua idade. Junte todo este conflito interno e potencialize com o pesadelo de qualquer pré-adolescente: as férias de verão. Está feito o inferno na vida de Duncan, não fosse por um encontro inesperado que o transformaria.
A dupla responsável pela direção e pelo roteiro desta dramédia deliciosa é Nat Faxon e Jim Rash, que receberam em 2012 o Oscar de melhor roteiro adaptado por Os Descendentes, filme dirigido por Alexander Payne. Tanto a direção deste filme, a primeira que assumem, quanto o roteiro optam pela simplicidade, nada de maiores devaneios sobre a vida. Tudo é muito agridoce, suave, melancolicamente solar, ou seja, Faxon e Rash adotam em sua condução a perspectiva de Duncan, o protagonista do longa, um garoto cuja definição é sintetizada na primeira sequência do longa em uma conversa no carro com seu padrasto. Duncan é o adolescente que fica no bagageiro, ou seja, completamente à parte daquela dinâmica familiar e invariavelmente esquecido ou incompreendido.
O Verão da Minha Vida tem aquele clima de Sessão da Tarde, sempre dando seguimento a sua narrativa de forma agradável ainda que traga temas densos e abordados, em sua simplicidade, com sentimentos pulsantes que se reverberam na identificação e cumplicidade do espectador com seu protagonista. O querido Liam James, estrela absoluta da produção, e com todo mérito, é um verdadeiro achado, uma preciosidade. O menino consegue adentrar nas diversas camadas do seu personagem sem sair do tom, traçando sua trajetória com bastante coerência e sensibilidade, além de uma consciência corporal absurda, adotando para o tímido Duncan uma postura sempre curvada e uma inquietação no olhar e no gestual, coisa que só os patologicamente tímidos irão entender. O jovem está acompanhado por uma interpretação sincera de Toni Collette, sua mãe no filme, uma divorciada que fecha os olhos para as ações do seu atual parceiro por carência afetiva, o típico medo do "descarte" que acomete mulheres que se divorciam e se apegam ao parceiro, por mais "torto" que ele seja, com receio de nunca mais ter um relacionamento amoroso na vida.
Estes sentimentos de Pam, tão bem administrados pela sempre competente Toni Collette, se chocam com a sensação de inadequação vivida por Duncan, um típico sintoma da adolescência potencializada pela convivência com um padrasto sem o menor traquejo e respeito pela diferença. Além de James e Collette, há participações incríveis de Steve Carell, em uma função incomum em sua carreira já que vive o antipático Trent, namorado de Pam; Sam Rockwell, cada vez melhor, aqui interpretando um administrador de parque aquático que transforma a vida do protagonista; Maya Rudolph, sua namorada; e, talvez uma das melhores performances do filme, Allison Janney, como a impagável Betty, uma divorciada vizinha de Trent e Pam que procura esquecer sua vida solitária com bebida e eventos sociais.
Sem grandes firulas, O Verão da Minha Vida é um daqueles filmes universais, que tocam todo tipo de plateia, sem perder o apuro cinematográfico e o respeito com a inteligência e as emoções do seu espectador. A conexão que o jovem Liam James, ainda puro em seu olhar sobre a interpretação, sem maiores vícios ou tiques, leva o filme a outro nível e o faz atingir variadas ressonâncias de empatia com o público. Um encontro raro entre intérprete, obra e audiência que proporciona faíscas.

 
 

The Way Way Back, 2013. Dir.: Nat Faxon e Jim Rash. Roteiro: Nat Faxon e Jim Rash. Elenco: Liam James, Toni Collette, Steve Carell, Sam Rockwell, Allison Janney, Annasophia Robb, Maya Rudolph, Zoe Levin, Amanda Peet, Rob Corddry, River Alexander. 103 min. Diamond Filmes.

Curtas: Capitão Phillips


A forma com que Paul Greengrass conduziu Voo United 93, dialogando a linguagem documental observativa com a dinâmica de um elenco formado por atores pouco conhecidos, se encaixava com a proposta do filme, a de nos inserir como espectadores passivos de um evento marcante na recente história da humanidade, o 11 de setembro. Em A Supremacia Bourne e O Ultimado Bourne, o cineasta até que utilizou uma abordagem parecida, porém mais comedida, apropriada ao projeto, foi certeiro. O incômodo do formato veio mesmo com Zona Verde, um filme que, particularmente, não diz a que veio, e agora em Capitão Phillips, filme que deve abocanhar um bom número de indicações a prêmios no ano que vem, entre eles o Oscar. Como aconteceu nas demais produções do cineasta, a câmera na mão, alternando sequências desfocadas e desenquadradas com uma montagem enérgica e ritmada, é o principal ingrediente. O longa basicamente acompanha a invasão de um navio cargueiro por um grupo de piratas da Somália. As tensões sociais entre os piratas e o capitão da embarcação, mantido refém, estão ali, mas não parece o principal objetivo da produção. Entre os tiques estilísticos de Greengrass, Tom Hanks se sobressai em uma atuação interessante, contida, mas emocionalmente catártica. Ainda que as emoções permaneçam na superfície, a tensão é constante e digna de um thriller mediano.
 
 
Captain Phillips, 2013. Dir.: Paul Greengrass. Roteiro: Billy Ray. Elenco: Tom Hanks, Barkhad Abdi, Barkhad Abdirahman, Faysal Ahmed, Mahat M. Ali, Michael Chernus, Catherine Keener, Corey Johnson, Omar Berdouni. 134 min. UIP.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Crítica: O Mordomo da Casa Branca


Por alguns breves meses, quando ainda estava em fase de pré-produção, duvidava que O Mordomo da Casa Branca fosse render um filme de peso em algum nível. A trama evocava toda sorte de indicações a prêmios e existia muita estrela em seu cast, o suficiente para causar muitos problemas no set. Para completar, no comando, Lee Daniels, um diretor conhecido por seu estilo de extremos, com inclinações a decisões desarmônicas, que transformaram um drama heavy como Preciosa, em um longa ocasionalmente divertido. Este estilo de Daniels pode até ter funcionado em Obsessão, por exemplo, filme que comentamos semana passada, já que ali era evidente que tudo fazia parte da proposta. O Mordomo da Casa Branca, por sua vez, inspira sobriedade, um tom que sempre duvidei que o diretor conseguisse sustentar. O fato é que o filme tem alguns traços característicos de Daniels e derrapa ocasionalmente, sobretudo quando flerta com o melodrama, mas mantém-se firme sobretudo pela capacidade ímpar que o diretor tem de conduzir seu sempre inusitado elenco. Há performances que colocam o longa em outro nível e nos faz esquecer de qualquer tique do realizador.
 
O Mordomo da Casa Branca traz para as telas os anos de serviço de Cecil Gaines como mordomo na Casa Branca. Somando todos os governos e suas reeleições, Gaines trabalhou para oito diferentes presidentes, entre eles Dwight Eisenhower, Richard Nixon, John Kennedy, Lyndon Johnson e Ronald Reagan. A dedicação de Gaines ao seu trabalho o torna uma figura ausente em sua própria casa e cria conflitos com o filho mais velho do mordomo, que acaba envolvendo-se com a luta pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos.
 
O filme de Lee Daniels é mais interessante quando ambienta seu drama na família Gaines, bem mais do que quando nos apresenta as sucessões presidenciais na Casa Branca e aproveita o momento para realizar seu desfile suntuoso de grandes nomes interpretando... grandes nomes. O fato é que as tensões ocasionadas pelos posicionamentos ideológicos de Gaines e seu filho ocupam o cerne de discussão mais interessante do longa, fazendo-os lutarem por uma mesma causa, mas de maneiras diferentes, o que não é entendido por nenhuma das partes envolvidas. Louis questiona a "passividade" do pai e considera seu trabalho uma subserviência ao grupo opressor da comunidade negra, os brancos, Gaines, por sua vez, acredita que só o fato de ser um negro trabalhando na Casa Branca já contribui para transformações, que, em sua percepção, são pequenas e, por vezes imperceptíveis. Nesta batalha familiar, Gloria surge como o elo mais frágil e neutro tentando lidar com a ausência do marido e com a distância e as incertezas sobre o paradeiro do filho, sempre envolvido com a causa. Este núcleo dramático me parece o mais precioso em O Mordomo da Casa Branca e ainda bem que Daniels não perdeu-se no meio de tantas distrações que os demais personagens acabam representando ocasionalmente no filme (difícil não olhar para Jane Fonda como Nancy Reagan e não pensar em Jane Fonda se passando por Nancy Reagan, entendem?).
 
Assim, o trio formado por Forest Whitaker, Oprah Winfrey e David Oyelowo sustenta o longa durante toda a projeção. Forest Whitaker está extraordinário no retrato do protagonista ao longo de décadas, uma interpretação repleta de consciência corporal e, ao mesmo tempo, singela em pequenos sinais que revelam por completo a personalidade de um homem cheio de dignidade e com um senso de responsabilidade incomensurável. Whitaker é a grande razão do filme existir e faz por onde através de um desempenho cortante e profundamente dedicado, sem soar over em momentos cruciais, como nas passagens em que o personagem alcança uma certa idade ou nas discussões que trava com o filho Louis. Igualmente marcante é a interpretação de Oprah Winfrey, mostrando que os anos longe do cinema não enferrujaram seu talento para as artes dramáticas. Como Gloria, Oprah nos apresenta uma mulher dedicada à família, ao casamento e que passa a desenvolver uma carência afetiva a partir do momento em que Gaines começa a trabalhar na Casa Branca. A solidão de Gloria é compensada com muito cigarro e, principalmente, bebida. O mais exitoso na performance de Winfrey é que ela administra com muita sutileza o drama da sua personagem, evitando o estereótipo da mulher alcoólatra e queixosa com o marido. Por fim, David Oyelowo tem algumas das melhores cenas do longa com Whitaker, carregando em sua expressão uma revolta crescente à discriminação e estado de segregação racial no país. Louis é pura ideologia, tendo muito pouco tempo para preocupar-se com os sentimentos dos seus pais, algo que lhe vêm à consciência momentaneamente.
 
Perto dos três, um grupo de grandes atores que vai de Vanessa Redgrave a Jane Fonda, chegando ainda a Robin Williams, Alan Rickman e John Cusack, passam praticamente despercebidos na tela. O Mordomo da Casa Branca pode até inclinar-se momentaneamente para o melodrama, abordagem que Lee Daniels parece perseguir trabalho após trabalho, mas a força de seu grupo de atores, principalmente o trio central, fala mais alto. Com este filme, o realizador e seu elenco conseguem trazer para o público um trabalho tão edificante e representativo que qualquer nota fora de tom, uma rotina na carreira do diretor, é esquecida. Assim, O Mordomo da Casa Branca passa longe do tom panfletário a favor da causa negra, o filme tem uma causa naturalmente humanitária, sobretudo por lembrar-nos do valor da batalha diária, tijolo a tijolo.

 
 
The Butler, 2013. Dir.: Lee Daniels. Roteiro: Danny Strong. Elenco: Forest Whitaker, Oprah Winfrey, David Oyelowo, Cuba Gooding Jr. Lenny Kravitz, Clarence Williams III, Terrence Howard, Robin Williams, John Cusack, James Marsden, Alex Pettyfer, Mariah Carey, Alan Rickman, Liev Schreiber, Vanessa Redgrave, Jane Fonda. 132 min, Diamond Filmes.