quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Crítica: Elena


Remexer nas memórias não é nada fácil, corta na alma. Mas talvez por isso mesmo seja necessário sempre trazê-las de volta, encará-las de frente com o que ela traz de melhor ou pior, no divã de um psicanalista, através da arte, enfim, de qualquer forma. Muito do que somos hoje se deve ao que guardamos do tempo em que éramos crianças.  É através do confronto com as emoções antigas, aquelas que a gente nem se atreve visitar, guardadas por vezes no sótão de nossa própria existência,  que a gente encontra forças para dar continuidade a nossas vidas, nos entender um pouco melhor. E não há nada no mundo que seja mais determinante do que a autoconsciência... É libertador! Boa parte dos problemas que temos vêm do fato de nos conhecermos tão pouco, de não termos coragem o suficiente para enfrentar esses demônios internos.  O passado tem um pouco disso, nos faz caminhar para frente por meio de dispositivos do afeto ou da dor. No caso de Petra Costa, diretora e uma das personagens centrais do documentário Elena, um pouco dos dois.
 
Desde criança, Petra acompanhou o sonho de sua irmã mais velha, Elena. Em busca do sonho de ser atriz, Elena decidiu morar em Nova York, fez alguns cursos e participou de uma dúzia de testes. Na medida em que se deparava com os obstáculos naturais da sua escolha, Elena começa a se deparar com os sinais da depressão. Petra, ainda pequena, e a mãe se mudam para Nova York, mas nem mesmo a presença das duas ajuda Elena a superar este momento. Num rompante, Elena escreve uma carta para as duas e decide se matar. O documentário é um relato poético das memórias de Petra Costa e dos anos que viveu ao lado da sua irmã, mas também daqueles em que conviveu com a sua ausência.
 
Em Elena, Petra Costa intenciona exorcizar o peso que o suicídio de Elena representou na sua vida e na vida da sua mãe. Adotando o relato poético como forma de narrar sua relação com Elena e a forma com que este trágico evento impactou a vida da sua família, Costa opta por um lirismo melancólico que transforma seu filme em uma carta endereçada triste, mas libertadora. Elena torna nebulosas as delimitações entre o documentário e a ficção através da utilização de recursos de ambas esferas de narração cinematográfica. O relato de Petra Costa surge como um terceiro formato, indefinido, mas inegavelmente tocante e repleto de significados para a sua realizadora e para o espectador.
 
A viga mestra deste filme é a noção de que somos muito do que nossa memória traz como relato, mas que podemos buscar formas de aprender com ele, não repetir estórias. No caso, a forma que Petra Costa encontrou de fazer isso foi realizando este filme de execução triunfante pelos sentimentos que convoca, transgredindo qualquer rito formal dos documentários. Na verdade, Elena não é um documentário, pertence a uma outra categoria, trata-se de um relato pessoal em filme, uma memória fílmica. Um filme sobre gente, sobre o amor, sobre como a vida pode ser dura com os sonhadores, no caso de Elena, mas também como ela pode oferecer mecanismos de resiliência, é o caso de Petra, que transformou sua dor e afeto em um relato fílmico comovente.

 

Elena, 2013. Dir.: Petra Costa. Roteiro: Petra Costa e Carolina Ziskind. Documentário.

Um comentário:

Stella Daudt disse...

Se já sua postagem é comovente, imagino o filme...