domingo, 24 de novembro de 2013

Crítica: Frances Ha


No ano passado comentei por aqui no blog sobre Jovens Adultos, o último filme do Jason Reitman, que me impressionou muito não só pela embasbacante atuação de Charlize Theron, mas também pela maneira contundente e delicada com que abordou uma espécie de síndrome detectável entre jovens nas proximidades dos trinta anos de idade, a "adultescência". Sabe aquela fase em que a gente se vê diante de um dilema que não sabe resolver: manter os sonhos firmes como metas de vida ou render-se às pressões da vida prática? Por que aquela vida que sonhamos e planejamos quando ainda éramos adolescentes, tornar-se um rock star ou ganhar um Pullitzer antes dos trinta, se dissolveu tão rápido por entre nossos dedos?
 
O novo longa de Noah Baumbach, Frances Ha, trata justamente disso. No entanto, diferente do Jovens Adultos de Jason Reitman, a história conta com uma personagem bem mais simpática aos olhos do público. Frances tem 27 anos e ganha uns poucos trocados para sobreviver como professora de balé para crianças. Apesar de sempre ter sonhado em viver da sua arte, a dança, foi o máximo que conseguiu para aproximar-se dessa aspiração. Frances vive em um apartamento em Nova York com Sophie, a quem considera uma outra versão sua, só que com o cabelo diferente, almas gêmeas. Quando Sophie resolve levar a sério o relacionamento que tinha com seu namorado, o mundo de Frances começa a ruir. Tudo fica ainda pior para ela quando é dispensada de uma apresentação especial do grupo de dança no Natal. Frances começa a ter dificuldades para pagar as suas próprias contas, vê todos os seus amigos se transformarem em pessoas quadradas, casarem, ter filhos e se satisfazerem com empregos burocráticos. Enfim, Frances começa a ser esmagada belo pálido mundo dos "adultos".
 
Utilizando o preto e branco para o seu longa, Noah Baumbach, que já realizou verdadeiros experimentos narrativos com A Lula e a Baleia e Margot e o Casamento, se inspira na Nouvelle Vague para apresentar esse filme agridoce e singelo sobre a crise dos 20 e tantos, uma síndrome pouco retratada no cinema mas cada vez mais latente em tempos que parecem inspirar a liberdade, quando, na verdade, as tolhe de maneira avassaladora e sutil. Para tanto, o diretor e roteirista conta com uma protagonista encantadora, personificada por sua parceira no roteiro do filme, a atriz Greta Gerwig, que parece transformar Frances em uma extensão de si mesma.
 
Frances Ha é uma realização tão encantadora quanto sua protagonista, uma daquelas figuras que a gente queria ter como amiga para sempre, sabe? Daquelas que nos inspira o melhor, que nos faz entrar em contato com quem realmente somos por trás de vidas aparentemente insossas. Daquelas com a qual compartilhamos o que temos de melhor a oferecer. Frances é tão maravilhosa que o mundo, cheio de superficialidade e formado por indivíduos neuróticos, insatisfeitos com os rumos das suas próprias vidas e que só fazem perpetuar um sistema formador de frustrados e deprimidos em potencial, simplesmente não merece ela.

 

Frances Ha, 2013. Dir.: Noah Baumbach. Roteiro: Noah Baumbach e Greta Gerwig. Elenco: Greta Gerwig, Mickey Sumner, Michael Esper, Adam Driver, Michael Zegen, Grace Gummer, Patrick Heusinger, Justine Lupe, Christine Gerwig, Gordon Gerwig. 86 min. Vitrine Filmes.
 

Nenhum comentário: