quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Crítica: O Verão da minha Vida


No planejamento original do blog, O Verão da Minha Vida ocuparia uma singela Curtas  no mês de novembro. Este despretensioso indie arrebatou tanto o coração do autor deste espaço que resolvi destinar algumas linhas a mais a esta carinhosa fita sobre o amadurecimento e as incertezas da adolescência. O Verão da Minha Vida é uma daquelas fitas raras, que costuma aliar a leveza e a profundidade necessária que seus temas exigem, sem parecer cabeçudo, metafórico demais. O filme vai direto ao ponto, direto ao coração.

Imagine-se como um garoto tímido lá pelos seus quatorze anos de idade, cheio de conflitos e dúvidas sobre a sua própria personalidade, algo típico da fase em que não se é mais criança, tampouco pode ser considerado adulto. Seus pais se separam abruptamente e você tem que morar com sua mãe e o namorado dela. Seu padrasto não te suporta e te julga por parâmetros comportamentais considerados "normais" para garotos da sua idade. Junte todo este conflito interno e potencialize com o pesadelo de qualquer pré-adolescente: as férias de verão. Está feito o inferno na vida de Duncan, não fosse por um encontro inesperado que o transformaria.
A dupla responsável pela direção e pelo roteiro desta dramédia deliciosa é Nat Faxon e Jim Rash, que receberam em 2012 o Oscar de melhor roteiro adaptado por Os Descendentes, filme dirigido por Alexander Payne. Tanto a direção deste filme, a primeira que assumem, quanto o roteiro optam pela simplicidade, nada de maiores devaneios sobre a vida. Tudo é muito agridoce, suave, melancolicamente solar, ou seja, Faxon e Rash adotam em sua condução a perspectiva de Duncan, o protagonista do longa, um garoto cuja definição é sintetizada na primeira sequência do longa em uma conversa no carro com seu padrasto. Duncan é o adolescente que fica no bagageiro, ou seja, completamente à parte daquela dinâmica familiar e invariavelmente esquecido ou incompreendido.
O Verão da Minha Vida tem aquele clima de Sessão da Tarde, sempre dando seguimento a sua narrativa de forma agradável ainda que traga temas densos e abordados, em sua simplicidade, com sentimentos pulsantes que se reverberam na identificação e cumplicidade do espectador com seu protagonista. O querido Liam James, estrela absoluta da produção, e com todo mérito, é um verdadeiro achado, uma preciosidade. O menino consegue adentrar nas diversas camadas do seu personagem sem sair do tom, traçando sua trajetória com bastante coerência e sensibilidade, além de uma consciência corporal absurda, adotando para o tímido Duncan uma postura sempre curvada e uma inquietação no olhar e no gestual, coisa que só os patologicamente tímidos irão entender. O jovem está acompanhado por uma interpretação sincera de Toni Collette, sua mãe no filme, uma divorciada que fecha os olhos para as ações do seu atual parceiro por carência afetiva, o típico medo do "descarte" que acomete mulheres que se divorciam e se apegam ao parceiro, por mais "torto" que ele seja, com receio de nunca mais ter um relacionamento amoroso na vida.
Estes sentimentos de Pam, tão bem administrados pela sempre competente Toni Collette, se chocam com a sensação de inadequação vivida por Duncan, um típico sintoma da adolescência potencializada pela convivência com um padrasto sem o menor traquejo e respeito pela diferença. Além de James e Collette, há participações incríveis de Steve Carell, em uma função incomum em sua carreira já que vive o antipático Trent, namorado de Pam; Sam Rockwell, cada vez melhor, aqui interpretando um administrador de parque aquático que transforma a vida do protagonista; Maya Rudolph, sua namorada; e, talvez uma das melhores performances do filme, Allison Janney, como a impagável Betty, uma divorciada vizinha de Trent e Pam que procura esquecer sua vida solitária com bebida e eventos sociais.
Sem grandes firulas, O Verão da Minha Vida é um daqueles filmes universais, que tocam todo tipo de plateia, sem perder o apuro cinematográfico e o respeito com a inteligência e as emoções do seu espectador. A conexão que o jovem Liam James, ainda puro em seu olhar sobre a interpretação, sem maiores vícios ou tiques, leva o filme a outro nível e o faz atingir variadas ressonâncias de empatia com o público. Um encontro raro entre intérprete, obra e audiência que proporciona faíscas.

 
 

The Way Way Back, 2013. Dir.: Nat Faxon e Jim Rash. Roteiro: Nat Faxon e Jim Rash. Elenco: Liam James, Toni Collette, Steve Carell, Sam Rockwell, Allison Janney, Annasophia Robb, Maya Rudolph, Zoe Levin, Amanda Peet, Rob Corddry, River Alexander. 103 min. Diamond Filmes.

2 comentários:

Stella Daudt disse...

Fiquei curiosa para ver a participação da AnnaSophia Robb, costumo gostar das suas interpretações. Por tudo o que você escreveu, já estou amando esse filme!

Anônimo disse...

Eu acho que Amanda Peet é muito bom ator sempre trabalhando em projetos divertidos, como sua nova série Togetherness.