terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Listão 2013 - Os 10 melhores filmes de 2013


# 01. Amor
Dir.: Michael Haneke
 
Amor é um dos filmes mais lindos exibidos no Brasil em 2013, mas também um dos mais brutais pela crueza com que mostra uma etapa indesejada e silenciada da nossa vida, a velhice. O longa de Michael Haneke, que conta a história de amor de um casal de idosos vivenciando a iminência da morte foi uma das experiências mais vivas do ano. Nos faz entrar em contato com nossos próprios medos, a invalidez, a morte, a solidão, mas também nos faz entender o verdadeiro sentido do amor, palavra tão banalizada pelas gerações mais novas e que, invariavelmente, só passa a ser compreendida em sua essência com a maturidade.


 

#02. O Mestre
Dir.: Paul Thomas Anderson

Ele fez mais uma vez. Paul Thomas Anderson é um dos autores cinematográficos mais relevantes e conscientes do potencial narrativo que tem a imagem em movimento da sua geração. Levemente inspirado nas bases da polêmica Cientologia, O Mestre é um dos filmes mais provocativos e enigmáticos do ano, uma obra a ser destrinchada com cuidado pelo espectador. Um longa sobre a fé, não necessariamente vinculada à religião, e sobre a liberdade. Trata-se de uma experiência digna de toda a filmografia de Paul Thomas Anderson, cinema pra gente grande.


 

#03. Gravidade
 Dir.: Alfonso Cuarón
 
Filhos da Esperança foi um dos longas mais injustiçados de 2006, uma comprovação do talento e da versatilidade do mexicano Alfonso Cuarón. Gravidade parece estar reparando essa injustiça com o reconhecimento popular e da crítica que vem recebendo, o que deve reverberar em alguns prêmios na próxima temporada do Oscar. A clássica história de perseverança de uma mulher tentando sobreviver sozinha no belo e assustador silêncio do espaço foi uma das experiências mais intensas do cinema em 2013. Gravidade é um longa que fascina os olhos pela complexidade da sua execução e atinge fundo o coração pela simplicidade e objetividade do seu ponto de partida, o clássico conto da resiliência.


 

#04. O Som ao Redor
Dir.: Klebber Mendonça Filho

Apesar da questionável qualidade das produções cinematográficas mais populares do nosso cinema, as comédias da Globo Filmes, o cinema autoral anda de vento em polpa no Brasil. O Som ao Redor, de Klebber Mendonça Filho, foi uma obra recompensadora. O olhar clínico do diretor para o comportamento da classe média garantiu um filme desafiador que faz o espectador refletir sobre a base dos principais problemas da nossa sociedade, problemas que se perpetuam por anos a fio. Trata-se de um filme necessário e impactante que deve delinear o tom da produção cinematográfica nacional que está por vir.


 

#05. Dentro da Casa
Dir.: François Ozon

François Ozon voltou a ser um cineasta relevante com essa história sobre um estudante que relata a vida de uma família para seu professor de Francês a partir de suas redações. O filme de Ozon tem conexões com o clássico de Alfred Hitchcock Janela Indiscreta, na medida em que investiga a curiosidade humana por histórias alheias. Na mesma proporção, Ozon busca compreender a natureza do seu próprio ofício, um exercício recompensador para o cineasta e certamente para o seu público. O jogo que o diretor realiza com seus personagens e consequentemente com o espectador, questionando o uso que fazemos dessa prática milenar, é desafiador.


 

#06. Os Suspeitos
 Dir.: Dennis Villeneuve

O canadense Dennis Villeneuve, em sua estreia nos Estados Unidos, fez um suspense que faz jus a um dos gêneros clássicos do cinema norte-americano, arrancando desempenhos convincentes de todos os integrantes do seu elenco, de Hugh Jackman a Jake Gyllenhaal, passando por Melissa Leo e Viola Davis. A história de dois casais em busca dos sequestradores de seus filhos, de certa maneira, nos faz lembrar do cinema de David Fincher em Seven ou Zodíaco, em que cada nova pista nos faz desenrolar uma trama contínua, como um novelo de lã. Os Suspeitos é entretenimento como este sempre deveria ser, cerebral, denso. 


 

#07. Anna Karenina
Dir.: Joe Wright

O clássico romance de Tolstoy, Anna Karenina, contava a história de uma jovem da sociedade que começa a ser execrada após cometer adultério. O julgamento sobre a infidelidade passa também a ser realizado pela própria protagonista, que acaba sendo tragicamente consumida pela culpa. Joe Wright adaptou com fidelidade o espírito crítico do clássico da literatura russa e ainda conferiu um ousado formato a sua narrativa, filmando toda a história em um palco londrino. Anna Karenina é um filme tão impecável em seu conceito e na sua execução que não poderia ficar de fora de qualquer lista restrospectiva de 2013.


 

#08. A Hora mais Escura
Dir.: Kathryn Bigelow

A Hora mais Escura traz a única diretora vencedora de um Oscar por Guerra ao Terror, Kathryn Bigelow, a um terreno que ela já conhecia, os conflitos no Oriente Médio. No entanto, o longa sobre a obstinada caçada promovida por uma mulher a Osama Bin Laden não é uma ode heroíca sobre os feitos norte-americanos desde o 11 de setembro, mas uma crítica pontual sobre o sentido de todas as ações empreendidas pelos envolvidos. Bigelow transformou uma temática recorrente pelo cinema nos últimos anos em um longa contundente, com nervos expostos.


 

#09. Bling Ring - A Gangue de Hollywood
Dir.: Sofia Coppola

Quando Sofia Coppola se debruça sobre seu próprio universo é sempre uma viagem fascinante e profunda por uma Los Angeles ainda desconhecida. Bling Ring - A Gangue de Hollywood, uma história sobre jovens inconsequentes que passavam o seu tempo invadindo casas de celebridades e subcelebridades hollywoodianas, colecionando bens das suas vítimas, é um filme sobre a falta de propósitos de uma geração alienada que não consegue sequer mensurar as consequências dos seus atos. A usual distância da cineasta, flerta com uma bem-vinda ironia em Bling Ring, um dos melhores exemplares da carreira de Coppola.


 

#10. O Verão da Minha Vida
Dir.: Nat Faxon e Jim Rash

Os roteiristas de Os Descendentes acertaram em cheio nesse filme despretensioso, simples em sua execução, mas repleto de significados e relevância. O Verão da Minha Vida foi, provavelmente, uma das maiores surpresas do ano pela forma com que conduziu a história de um pré-adolescente tímido, com problemas de relacionamento com seu padrasto, que se transforma a partir do momento em que passa a ser amigo do zelador de um parque aquático. O filme, transvestido como uma simples comédia familiar, é uma tocante obra sobre a auto-aceitação e sobre o amadurecimento, temas universais que explicam o porquê desse longa atingir em cheio tanta gente.


 
Saldo do Listão 2013:
Melhor Filme: Amor, de Michael Haneke
Melhor Direção: Michael Haneke, Amor
Melhor Roteiro Original: O Mestre, Paul Thomas Anderson
Melhor Roteiro Adaptado: Dentro da Casa, François Ozon
Melhor Atriz: Emmanuelle Riva, Amor
Melhor Ator: Joaquin Phoenix, O Mestre
Melhor Atriz Coadjuvante: Amy Adams, O Mestre
Melhor Ator Coadjuvante: Philip Seymour Hoffman, O Mestre
Melhor Montagem: A Hora mais Escura
Melhor Trilha Sonora Original: O Mestre, Jonny Greenwood
Melhor Fotografia: Branca de Neve
Melhor Direção de Arte: A Espuma dos Dias
Melhor Figurino: Anna Karenina
Melhor Maquiagem: O Grande Gatsby
Melhores Efeitos Visuais: Gravidade
Melhor Elenco: Os Suspeitos
Jovem ator ou atriz do ano: Elle Faning, Ginger e Rosa
Melhor Dupla em Cena: Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux, Azul é a Cor mais Quente
Melhor Canção Original: "Young and Beautiful", O Grande Gatsby
Melhor Documentário: Elena, de Petra Costa
Melhor Longa de Animação: Detona Ralph, de Rich Moore

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Listão 2013 - Atrizes


Melhor Atriz
Emmanuelle Riva
Amor

A Academia morreu de amores pela jovialidade de Jennifer Lawrence no auge da sua carreira com o morno O Lado bom da Vida e chegou a ser estranho que em um ano com um desempenho como o de Emmanuelle Riva em Amor no páreo a new babe de Hollywood tenha vencido. Melhor dizendo, estranho não foi, sabemos o motivo, mas que soou mal, soou. Lawrence é ótima, talvez uma das melhores atrizes de sua geração, mas não por O Lado bom da Vida, ok? O ano foi mesmo da Sra. Riva e sua corajosa interpretação em Amor na casa dos 80 anos de idade. Na pele de Anne, Riva desenvolveu com maestria toda a trajetória de uma mulher que se transforma ao longo do filme em decorrência de um derrame. A determinação e o ímpeto com que Riva aceitou viver uma personagem nessas condições com a idade que tem, encarando não apenas um desafio físico, mas psicológico, são admiráveis. Emmanuelle Riva nos comove em cada cena de Amor mostrando-nos o esplendor de uma maturidade artística inigualável e quitando uma dívida eterna que o cinema tem com os atores de sua geração, sempre preteridos por histórias protagonizadas por jovens, mostrando dilemas e preocupações de jovens. Nada contra os fãs de Jennifer Lawrence, mas Emmanuelle Riva é uma majestade que dispensa introduções ou justificativas em Amor.



Juliette Binoche
Camille Claudel, 1915

Juliette Binoche é o tipo de atriz que faz com dedicação qualquer papel que lhe é oferecido. Contracenando com internas reais de um sanatório, Binoche interpretou a artista plástica Camille Claudel, ex-amante de Auguste Rodin, nos anos em que esteve internada em uma casa psiquiátrica. A atriz mais uma vez entrega uma performance visceral que extrai as maiores qualidades de Binoche como intérprete, entre elas a capacidade de nos fazer entender a alma da sua personagem  com os gestos mais simples.

Cate Blanchett
Blue Jasmine

A australiana Cate Blanchett é um trator no novo filme de Woody Allen, Blue Jasmine. Blanchett está tão bem na produção que ofuscou o roteiro e a direção do próprio projeto, trazendo todas as atenções para sua personagem, uma perua que desaba em depressão após a crise financeira nos EUA em 2008. No limite da sanidade, entre um copo de uísque e um coquetel composto por Xanax e outros medicamentos, Jasmine é uma co-criação fascinante entre Blanchett e Allen. Caso ganhe o Oscar de melhor atriz na próxima premiação, como as bolsas de apostas apontam, será merecidíssimo.

Julie Delpy
Antes da Meia Noite

Delpy chega esplendorosa no último capítulo da trilogia romântica de Richard Linklater. Conferindo novas cores e neuroses à madura Céline, Delpy está ainda mais afiada em sua parceria com Ethan Hawke em Antes da Meia Noite. A forma com que Céline lida com o amadurecimento do seu relacionamento com Jesse e a maneira com que ela conduz as suas próprias frustrações e expectativas foram os combustíveis da interpretação de Julie Depy no desfecho da série iniciada com Antes do Amanhecer em 1995. Não poderia encerrar em melhor forma.

Adèle Exarchopoulos
Azul é a Cor mais Quente

Abdellatif Kechiche descobriu Adèle Exarchopoulos em Azul é a Cor mais Quente e não queremos mais perder essa garota de vista. A performance entregue e absolutamente encantadora e delicada de Exarchopoulos é um dos principais motivos para o êxito do longa. Em três atos, vemos Exarchopoulos amadurecer a olhos visíveis em cena, assim como sua personagem. A atriz traz para o longa uma interpretação cheia de vida, de sentimentos. Exarchopoulos mostra-se aqui uma atriz instintiva, sem pudores e extremamente sensível. Como querer mais?

Barbara Surkowa
Hannah Arendt

A austera e contundente filósofa Hannah Arendt encontra uma intérprete perfeita na alemã Barbara Surkowa. Tornando o denso roteiro de Margarethe von Trotta e Pam Katz para o filme fluido e ritmado, Barbara Surkowa conduz com destreza e uma aparente facilidade as rédeas de Hannah Arendt. Há uma secura e uma introspecção que condizem com a natureza da personagem e que desabrocham em um espetacular monólogo final que "quebra as pernas da plateia" e fazem todas as pistas dadas por Surkowa sutilmente ao longo do filme ganharem sentido.
 

Melhor Atriz Coadjuvante
Amy Adams 
O Mestre

Amy Adams é daquele tipo de atriz que é tão boa em cena que seus feitos parecem imperceptíveis diante dos esforços dos seus colegas. Adams é adepta das sutilezas, do lema de que, em muitos casos, mais vale uma composição repleta de nuances do que um único e grande momento de demonstração de habilidades dramáticas. Talvez por isso surja sempre nas listas de melhores do ano em diversos grupos e nunca ganhe. A presença de Adams em O Mestre é tão sutil quanto seus desempenhos anteriores, no entanto, iguala-se em força as melhores interpretações da atriz até então, na dramédia Retratos de Família, de 2005, e na subestimada fantasia infantil Encantada (oh, a sina dos filmes para crianças...), de 2007. Em O Mestre, Amy Adams interpreta Peggy Dodd, esposa do líder religioso de "A Causa", Lancaster Dodd, papel de Philip Seymour Hoffman. Tal qual seu marido, Peggy é uma mulher de pretensões nebulosas, mas não esconde seu fanatismo pelas ideias e crenças criadas pelo esposo. Adams faz questão de deixar no ar o real interesse de Peggy, tornando dúbia e misturadas sua crença e seu instinto de sobrevivência, já que o sustento da casa acaba tendo origem no êxito das pregações de Dodd. Mais uma vez, Adams fica atenta aos detalhes e concentra seus esforços na composição de uma personagem que torna-se interessante justamente por querer "passar batido". Só as grandes atrizes conseguem tamanha façanha.
 

 
Anne Hathaway
Os Miseráveis
 
Ok. Os Miseráveis não é tão bom assim quanto aparentava. O que não dá para negar é que Anne Hathaway foi primorosa na pele de Fantine. O melhor momento? A sequência musical "I dreamed a dream" já eternizada pela voz da atriz. A gente pode se queixar do despropósito de Tom Hooper filmar o musical prioritariamente em primeiro plano ou de exagerar nos takes inclinados, mas o que não dá para negar é a força desse elenco, sobretudo Hathaway, inesquecível mesmo estando em cena por menos de uma hora de projeção.

Nicole Kidman
Obsessão
 
A gente ama Nicole Kidman e num ano em que ela interpreta Charlotte Bless, a Barbie trash e vulgar de Obsessão, não poderíamos descartá-la da lista. Não é novidade que o filme é do tipo "ame-o ou deixe-o", a carreira de Nicole é repleta desses exemplares e por isso mesmo ela ainda é uma atriz relevante. Com Charlotte Bless, Kidman cuidou de cada detalhe em particular, o jeito de andar, falar, a peruca, os vestidos baratos, coloridos e exageradamente curtos. Trata-se de uma daquelas performances camaleônicas vindas de uma atriz que está sempre em busca de desafios.

Eva Mendes
O Lugar onde tudo Termina
 
O trabalho de Eva Mendes nesse drama de Derek Cianfrance é sólido e bastante delicado. A atriz contracena boa parte do tempo com o talentoso Ryan Gosling e consegue arrancar uma performance cheia de dignidade e sinceridade na pele de uma mãe solteira de vida difícil. O mais interessante é que parece que O Lugar onde tudo Termina representa o início de um novo movimento na carreira de Eva, que passa de "gostosona latina" a atriz séria e dedicada. O longa é um bom e discreto início para essa pequena revolução promovida por Mendes.

Léa Seydoux
Azul é a Cor mais Quente
 
Emma não é apaixonante só porque tem um interessante e exótico cabelo azul, mas porque Léa Seydoux transforma a personagem em uma pessoa absolutamente sedutora e encantadora. Quem não se apaixonaria por ela? A forma com que Emma surge em Azul é a Cor mais Quente e transforma a vida de Adèle só causa impacto porque Seydoux soube transformar a personagem em uma garota de espírito livre que é praticamente irresistível. Articulada, firme em suas ideias, desencanada... A personagem é avassaladora.

Emma Watson
Bling Ring - A Gangue de Hollywood

Emma Watson é um estouro em Bling Ring - A Gangue de Hollywood e prova que a garota que começou a carreira ainda jovem em Harry Potter e a Pedra Filosofal amadureceu e se tornou uma grande atriz. Sua Nicki no filme de Sofia Coppola é uma bitch dissimulada e alienada que sequer consegue ter a mínima dimensão da gravidade dos roubos que comete junto com o seu grupo nas casas das celebridades de Los Angeles no decorrer do longa. Watson tem momentos simplesmente brilhantes e sozinhas ao longo da produção. Calou a boca de muita gente.
 

Listão 2013 - Diretores

 
Melhor Direção
Michael Haneke
Amor

Michael Haneke é um cineasta pessimista, descrente na redenção dos seus personagens, em muitos casos. Podemos dizer que Amor foi uma nova faceta do realizador austríaco, uma que não conhecíamos. Ainda que o filme sobre um homem que cuida de sua esposa após esta passar por um derrame cerebral ser um longa melancólico e cru a respeito da própria condição humana, trata-se do trabalho mais terno do diretor. Amor é um Haneke terno, suave, sem deixar de lado a dureza do seu olhar sobre a vida. Conseguindo harmonizar tão bem essas duas características aparentemente dissonantes, Haneke filma Amor com muita delicadeza e consciência da linguagem cinematográfica, fazendo da câmera um narrador importante e presente que dialoga com os demais aspectos da produção, especialmente as belíssimas interpretações de Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva. Além disso, Haneke não deixa de lado algumas de suas marcas mais preciosas enquanto realizador, o seu ar provocativo, questionador e, em alguns momentos, sádico com o espectador. Nunca Haneke foi tão doce e nunca o cinema abordou com tanta crueza e dignidade o amor quanto em Amor.
  
Sofia Coppola
Bling Ring - A Gangue de Hollywood

Poucos diretores sabem mostrar Hollywood tão bem quanto Sofia Coppola, que é cria daquele universo. Mas a Hollywood que interessa Sofia é a Hollywood do vazio, da solidão. O grupo de jovens fúteis de Bling Ring então encontraram em Coppola a diretora ideal para contar a sua história, oferecendo sempre alternativas interessantes de captação de imagens e um olhar distante, porém irônico e mordaz a cada sequência. Sem dúvida, um dos melhores trabalhos da diretora em anos.

Alfonso Cuarón
Gravidade

Alfonso Cuarón foi o homem das grandes façanhas cinematográficas em 2013. Com Gravidade, Cuarón nos ofereceu a perspectiva real do espaço, lindo e assustador, com texturas, movimentos de câmera coerentes e sensoriais e ainda administrou a dinâmica de praticamente apenas um ator em cena, no caso, Sandra Bullock, se redimindo lindamente da gafe de ter ganho o Oscar por um desempenho capenga como o de Um Sonho Possível.
  
Klebber Mendonça Filho
O Som ao Redor

O Som ao Redor nos faz lembrar do cinema brasileiro que realmente importa e que é violentado por um sistema de produção, distribuição e exibição extremamente injusto. O olhar de Klebber Mendonça Filho para a classe média e para as relações entre patrões e empregados nos condomínios das grandes cidades é discreto, porém áspero, atento aos detalhes. O diretor encontrou um número formidável de possibilidades em um ambiente que representa o embrião dos principais problemas desse país. Político sem ser panfletário.

Paul Thomas Anderson
O Mestre

É admirável a capacidade que Paul Thomas Anderson tem de mostrar relevância e vigor a cada novo projeto sem perder as principais características de sua assinatura. O Mestre é mais um trabalho executado com bravura por um diretor que surge sempre renovado em seu olhar sobre o mundo e intenso em sua relação com seu elenco. Anderson ainda não tem o reconhecimento público que deveria, é incrível como as comunidades cinéfilas continuam presas a certas tradições, muitas vezes cultivadas por preguiça, por não quererem olhar para outros horizontes cinematográficos. No entanto, o tempo lhe dará o devido reconhecimento.

Joe Wright
Anna Karenina
 
Joe Wright é um dos realizadores britânicos com mais personalidade em atividade no cinema. Sabemos quando estamos diante de um de seus filmes não apenas por ele ser protagonizado por sua musa, a atriz Keira Knightley, mas por que o seu mise em scéne é conhecido por desconstruir expectativas. Em Anna Karenina, Wright administrou a dinâmica teatral com cenários e atores, transformando a sociedade russa do romance em um grande palco para dissimulações e julgamentos. Um trabalho extremamente difícil que o diretor conseguiu fazer com a naturalidade de quem sabe andar de bicicleta.

Listão 2013 - Atores


 
Melhor Ator
Joaquin Phoenix
O Mestre
 
Joaquin Phoenix nos entregou a interpretação definitiva de sua carreira em O Mestre. Dando vida a Freddie Quell, um veterano da Segunda Guerra Mundial transformado em "experimento" para "A Causa", religião fundada e conduzida por Lancaster Dodd, líder do movimento interpretado por Philip Seymour Hoffman, Phoenix se dedicou por completo ao filme de Paul Thomas Anderson. O ator estudou meticulosamente o seu personagem, trazendo para Freddie Quell a postura encurvada, os movimentos inquietos e a voz travada. Phoenix soube dimensionar a complexidade da natureza de um homem que trafega no limite entre a razão e a loucura, seus traumas de guerra e sua vocação para a liberdade, que ao mesmo tempo em que encontrava na "Causa" as ferramentas para usufruí-la, "domesticando" a sua condição psíquica, acabava esbarrando na própria limitação que a dedicação irrestrita aos ensinamentos de Dodd lhe impunha. A interpretação de Phoenix é impressionante em cada frame de O Mestre, fascinante pela riqueza de detalhes e camadas que o ator confere ao personagem. A gente fica com os olhos fixados em Freddie numa mistura de repulsa, incompreensão, tensão, compaixão e ternura por uma alma doentia mas que está sempre à procura da libertação de si própria.
 


Daniel Day-Lewis
Lincoln
 
Vencedor do seu terceiro Oscar por viver o 16º presidente dos Estados Unidos, Day-Lewis mais uma vez foi exemplar em sua dedicação e no êxito de sua performance. Dos pés à cabeça, de dentro para fora e de fora para dentro, o ator foi o pacifista Abraham Lincoln nesse drama de Steven Spielberg. Pode não ter sido surpresa o resultado do trabalho dele em Lincoln, mas não deixa de ser sempre admirável a capacidade de se entregar a um papel que o incomparável Day-Lewis tem.
 
John Hawkes
As Sessões

John Hawkes foi um dos injustiçados da temporada passada, o grande desempenho que ficou de fora do Oscar. Mesmo com a indicação da colega de cena Helen Hunt por esse filme, Hawkes era a grande razão para se assistir As Sessões, interpretando com grande humanidade um escritor e poeta vítima, desde a infância, da poliomielite. Hawkes teve que se desdobrar para expressar-se somente com o rosto, desafio que encarou e venceu com louvor.

Matthew McConaughey
Killer Joe - Matador de Aluguel

McConaughey tem feito por onde. Há cerca de uns dois  anos o ator tem demonstrado que está empenhado em ser encarado como um ator sério após tantas comédias românticas que só serviam de pretexto para ele exibir o seu tanquinho. Em Killer Joe - Matador de Aluguel, o texano interpreta um assustador psicopata e protagoniza uma das cenas mais surreais do cinema nos últimos anos, envolvendo sua parceira de cena Gina Gershon e uma coxa de frango empanado.
 
Mads Mikkelsen
A Caça

Ao contar a delicada história de um professor acusado de pedofilia, o último filme de Thomas Vinterberg trouxe uma interpretação cuidadosa de Mads Mikkelsen. Vencedor da Palma de Ouro em Cannes por esse papel, o ator trouxe muita sutileza e verdade em seu desempenho, jamais pendendo para o melodrama ou para o overacting. Pelo contrário, Mikkelsen soube utilizar a emoção no momento certo, permitindo que ela servisse ao personagem e não o contrário.

Matthias Schoenaertes
Ferrugem e Osso

Nove em cada dez cinéfilos foram ávidos ao cinema conferir Ferrugem e Osso com a expectativa de ver mais um retumbante desempenho de Marion Cotillard. E ela estava fabulosa no novo longa de Jacques Audiard, mas o belga Matthias Schoenaerts é quem deixa a gente desnorteado por sua presença no drama. O desempenho de Schoenaerts é físico e emocional e a transformação que ele promove com seu personagem é espetacular, o que nos faz aguardar com grande expectativa os próximos movimentos do ator.

 
Melhor Ator Coadjuvante
Philip Seymour Hoffman
O Mestre
 
Freddie Quell e Lancaster Dodd possuem uma relação imbricada em O Mestre. O carismático líder religioso inspirado em L. Ron Hubbard, fundador da Cientologia, é um personagem emblemático, enigmático. Philip Seymour Hoffman aproveitou cada momento do seu personagem, construindo uma figura chave para a compreensão do protagonista do longa de Paul Thomas Anderson. O Lancaster Dodd é um homem fascinante, sedutor e inteligente, tal qual Hubbard, mas também dúbio em seus propósitos. Os duelos entre Hoffman e Phoenix representaram alguns dos melhores momentos do cinema no ano. Como Lancaster Dodd, Hoffman provou que sabe aproveitar deliciosamente bem cada sequência, cada palavra, cada gesto de um personagem, especialmente um personagem tão delicado e sinuoso quanto este que ele vive em O Mestre. O ator soube conferir carisma e complexidade a um personagem que vive basicamente de subtextos, cujos palavras proferidas nem sempre condizem com suas reais pretensões. Acompanhar esse movimento de Philip Seymour Hoffman, ou seja, ver como ele lida com esse personagem difícil de conduzir e tentar decifrá-lo em suas intenções é fascinante.




Mikkel Boe Folsgaard
O Amante da Rainha

Vencedor do prêmio de melhor interpretação masculina no Festival de Berlim de 2012, Mikkel Boe Folsgaard, é a maior atração de O Amante da Rainha. Folsgaard vive o rei Christian VII, um monarca, como a maioria na época, voluntarioso e de gostos "excêntricos". Cada momento de Folsgaard nesse longa ofusca o pálido romance entre os personagens de Alicia Vikander e Mads Mikkelsen. Quando um ator consegue isso, com poucos anos de carreira no cinema...

Benedict Cumberbatch
Além da Escuridão - Star Trek

Faz alguns anos que Benedict Cumberbatch encabeça a lista das principais promessas de Hollywood. Em um ano repleto de bons papeis, o vilão do mais recente capítulo da franquia Star Trek brilha como o personagem mais importante e mais bem sucedido no cinema da carreira do ator até então. Khan é um daqueles vilões que a gente ama, frio, inteligente e sádico. Impossível ser indiferente a Cumberbatch no papel e ao personagem no longa.

 Matthew Goode
Segredos de Sangue

O primeiro longa em língua inglesa do sul coreano Park Chan-Wook merece ser descoberto com urgência pelo público. Entre a interpretação do trio principal de Segredos de Sangue (Mia Wasikowska e Nicole Kidman, ótimas), Matthew Goode surpreende com o sedutor e perigoso tio Charlie. Goode trafegou muito bem entre a natureza galanteadora, violenta e psicótica de um personagem, aliás, de um filme, que faz jus à carreira do diretor Park. Um thriller e um personagem que reverenciam Hitchcock em cada take.

Jude Law
Anna Karenina

Relegado a um certo ostracismo após sua superexposição em 2004, Jude Law surge mais maduro como ator nos últimos anos e Anna Karenina é o melhor exemplar dessa nova fase em sua carreira. Law abandona seus usuais e, algumas vezes, irritantes tiques, para se camuflar na pele do pacífico Karenin, um homem que, ao descobrir ter sido traído pela esposa, passa a mostrar um lado nada simpático da sua personalidade.

Christoph Waltz
Django Livre

O vencedor do Oscar mostrou que o cineasta Quentin Tarantino é mesmo a sua alma gêmea. Em um papel feito na sua medida, Christoph Waltz se esbalda em Django Livre. Na pele do safo Dr. King Schultz, Waltz tem alguns dos momentos mais memoráveis da fita, compondo um sujeito bem mais simpático do que o Hans Landa que o trouxe para os holofotes em 2009 com Bastardos Inglórios. Waltz aproveita cada linha do roteiro de Tarantino, se diverte e nos diverte, mais uma vez.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Listão 2013 - Trilhas

Melhor Trilha Sonora Original
O Mestre
 Jonny Greenwood
 
Jonny Greenwood já tinha estabelecido uma parceria interessante com Paul Thomas Anderson em Sangue Negro, compondo para o filme uma trilha tão soturna e indecifrável quanto a natureza de Daniel Plainview, personagem eternizado por Daniel Day-Lewis em 2007. Em O Mestre, Greenwood volta a trabalhar com o cineasta e realiza uma trilha formidável através de composições que também acompanham a natureza do protagonista do longa, o atormentado e perdido personagem de Joaquin Phoenix, Freddie Quell. A trilha criada por Greenwood para O Mestre é uma espécie de extensão do próprio protagonista do filme: inquieta, inconstante, sombria, melancólica, esperançosa... Enfim, Greenwood acompanha as diversas fases do personagem e confere o tom e a atmosfera obscura e ambígua que acompanha todo o filme. É difícil encontrar uma trilha que sirva aos propósitos de uma obra que não deseje se destacar na fita e que não queira provocar emoções inorgânicas, aquelas que nem mesmo os atores e o diretor conseguiram ou pretenderam no set. O Mestre é um trabalho exemplar nesse quesito, sua trilha é uma peça fundamental na engrenagem concebida por Paul Thomas Anderson, mas sabe ser generosa o suficiente para compreender que deve acompanhar a auxiliar a construção de sentidos e sensações do filme e não ser um componente por si só.
 

 
Outras trilhas do ano:
Dario Marianelli - Anna Karenina
Steven Price - Gravidade
Tom Tykwer, Reinhold Heil e Johnny Klimek - A Viagem
Benh Zeitlin e Dan Romer - Indomável Sonhadora
Hans Zimmer - O Homem de Aço
 

 

 

 

 

 
 
 
 
Melhor Canção Original
"Young and Beautiful"
Lana Del Rey
O Grande Gatsby
 
Escolher uma canção original é sempre difícil porque invariavelmente diretores e estúdios solicitam que grandes compositores e intérpretes participem de seus filmes com o objetivo de ganhar destaque na temporada de prêmios. Como resultado, o que vemos é aquela grande canção escondida nos créditos finais do filme, descolada da própria obra. "Young and Beautiful" de O Grande Gatsby não sofre desse mal, pelo contrário, a canção está presente em todo o filme e é o tema principal de Gatsby e Daisy, influenciando a trilha composta por Craig Armstrong e até mesmo o arranjo de outras canções ao longo da obra de Baz Luhrmann. A interpretação da canção por Lana Del Rey já eternizou "Young and Beautiful" e fará com que a gente lembre do filme de Luhrmann em cada detalhe a cada momento que a ouvirmos pelos próximos anos. A canção reflete as aspirações do protagonista da fita, sua necessidade de reviver o passado, trazer a beleza e a inocência de um tempo que não volta. Seu arranjo, por sua vez, traz com precisão o caráter melancólico da sua persistência na vida de Gatsby e a constatação de Nick Carraway (Tobey Maguire) de que não, as coisas não podem voltar a ser como eram porque nunca foram assim. Linda.
 

 
Outras canções do ano:
"Becomes the Color", Emily Wells - Segredos de Sangue
"Here it comes", Emeli Sande - Em Transe
"Last Mile Home", Kings of Leon - Álbum de Família
"No te puedo encontrar", Silvia Pérez Cruz - Branca de Neve
"Olha pra mim", Arnaldo Antunes - A Busca
 

 

 

 

 


Listão 2013 - Roteiros

 
Melhor Roteiro Original
O Mestre
Paul Thomas Anderson

A estrutura do roteiro de O Mestre é tão bem construída e os personagens são tão bem definidos por Paul Thomas Anderson que os propósitos do longa são alcançados pelo diretor. Ambiguidade e tensão acompanham toda a condução de um filme que questiona as bases da fé, independente da sua vinculação a uma religião. Claramente adotando a Cientologia como principal fonte para a concepção de sua história, Paul Thomas Anderson ainda preencheu O Mestre com alguns dos diálogos mais interessantes do ano, não necessariamente o atributo mais importante de roteiros, mas que aqui só engrandecem a construção das ações cena a cena. Com O Mestre, Anderson, mais uma vez, provocou o espectador, mexeu com as suas certezas, promoveu um jogo entre mestre e aprendiz, que se revezavam constantemente em suas funções, comprovando porque é um dos cineastas mais interessantes e definitivos da sua geração, e, como de praxe, não reconhecido em seu próprio tempo. A posteridade nos dará a resposta sobre os méritos de sua filmografia, quanto a isso, não resta dúvidas.  
 

Melhor Roteiro Adaptado
Dentro da Casa
François Ozon
adaptação da peça homônima de Juan Mayorga

Quando comentamos sobre Dentro de Casa, do cineasta François Ozon, falamos de seu paralelo com Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock. Assim como o longa estrelado por Grace Kelly e James Stewart, o longa francês investiga com muita perspicácia - realizando semelhante jogo feito por O Mestre com o espectador - a curiosidade humana pela vida alheia, e, consequentemente, o fascínio do homem pelos atos de contar e ouvir histórias como forma de buscar explicações para as suas próprias angústias ou mesmo fugir delas. O resultado é um roteiro que consegue mergulhar fundo com muita simplicidade em caminhos tortuosos e instigantes, tornando o espectador tão parte do processo quanto seus protagonistas. Trata-se de um dos trabalhos mais dedicados de Ozon, que há um certo tempo não demonstrava tamanho vigor no cinema.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Listão 2013 - Montagem e Efeitos Visuais ou Especiais

 
Melhor Montagem
A Hora mais Escura
William Goldenberg e Dylan Tichenor 
 
Os montadores de A Hora mais Escura não são os mesmos que trabalharam com Kathryn Bigelow em Guerra ao Terror (Bob Murawski e Chris Innis). No entanto, o novo longa da diretora possui uma estrutura narrativa tão enervante quanto o seu filme anterior. A caçada de Maya, personagem de Jessica Chastain, a Osama Bin Laden dura dez anos, apresentada em um filme com cerca de três horas de duração, e a história não perde o seu ritmo e traz nesse departamento soluções sempre interessantes e inteligentes que conferem não só fluidez, mas ajudam o espectador a encontrar interpretações, ou seja, significados próprios a cada nova reviravolta. O terceiro ato de A Hora mais Escura então é exemplar nesse quesito. Goldenberg e Tichenor mantiveram a temperatura do filme elevada e não perderam um movimento relevante sequer captado pela condução espetacular de Bigelow. Bravo!
 

Melhores Efeitos Especiais ou Visuais
Gravidade

Como superar Gravidade nesse departamento? A perfeição com que Alfonso Cuarón e sua equipe retrataram o espaço se iguala à revolução promovida por Stanley Kubrick em 2001 - Uma Odisseia no Espaço. Não me refiro à abordagem temática, até porque os dois filmes vão para caminhos relativamente opostos, mas como referências no departamento. As próximas fitas que trouxerem o espaço como elemento terão que correr atrás para acompanhar o trabalho impecável da equipe de Gravidade. Imaginar que quase a totalidade dos elementos mostrados no filme, incluindo parte das roupas dos personagens de Sandra Bullock e George Clooney, foram criadas por computação gráfica nos dá a dimensão da complexidade do trabalho do longa na área. O filme faz do espaço um lugar belíssimo, com tonalidades e texturas fascinantes, mas também apavorante, ameaçador em seu silêncio e vazio. É fato que os efeitos especiais de Gravidade já encontram-se na seara dos marcos, dos grandes feitos cinematográficos de 2013.

Listão 2013 - Fotografia, Direção de Arte, Figurino e Maquiagem

 
 
Melhor Fotografia
Branca de Neve
Kiko de la Rica
 
Branca de Neve e o Caçador e Espelho, Espelho Meu foram versões pífias do clássico "Branca de Neve" diante desse precioso longa espanhol Branca de Neve, de Pablo Berger. Esta recriação do conto dos irmãos Grimm, ambientada no universo das touradas e contada como um filme em preto e branco e mudo, tem em sua fotografia o ponto máximo do seu apuro estético e narrativo. O tratamento dado às tonalidades e à luz em cada quadro, bem como as composições criadas por Kiko de la Rica, tornam Branca de Neve imbatível mesmo em um ano de Gravidade, fotografado com inspiração por Emmanuel Lubezki. Tornando cada cena do filme de Pablo Berger memorável e eternizando a beleza gélida de Maribel Verdú como a cruel Encarna, Kiko de la Rica merece a menção nessa categoria apesar desse grande rival.
 

Melhor Direção de Arte
A Espuma dos Dias 
 Stéphane Rosenbaum
 
Meticuloso. Articulado. Estas são as melhores palavras para definir o trabalho de Stéphane Rosenbaum na concepção de cenários e objetos em A Espuma dos Dias. Rosenbaum aliou a fidelidade ao universo próprio narrado por Boris Vian em seu romance, que trazia, dentre outras excentricidades, uma série de objetos que só existem no mundo daqueles personagens, com uma forte capacidade de criação. Além desta concepção calcada na abstração, já que tudo em A Espuma dos Dias é completa invenção, Rosenbaum teve de lidar com as alternâncias nas dimensões dos espaços nos quais a história é ambientada, como a casa de Colin, na medida em que o estado de saúde de Chlóe, personagem de Audrey Tatou, começa a piorar. Além das dimensões, as cores dos ambientes também mudam, acompanhando o belo trabalho de fotografia de Christophe Beaucarne. Uma engrenagem mais do que bem articulada.
 
 
Melhor Figurino
Anna Karenina
 Jacqueline Durran
 
O figurino de O Grande Gatsby é lindo, enche os olhos. Contudo, o trabalho de Jacqueline Durran em Anna Karenina, vencedor do Oscar na categoria no ano passado, tem ampla vantagem por uma razão: Durran conseguiu compor um guarda roupa para a protagonista que acompanha os diversos estágios emocionais da sua trajetória ao longo do filme. Cada tonalidade de roupa e acessório que surge em cena serve e auxilia Keira Knightley na composição de sua personagem e conduz o público a compartilhar com Anna Karenina diversos sentimentos e sensações. Além desse componente, Durran, como já fez em outros trabalhos de sua carreira, entre eles Desejo e Reparação, criou peças que ficarão eternizadas nessa versão e que nos remeterão imediatamente ao trabalho do diretor Joe Wright nessa belíssima e desafiadora adaptação.
 

Melhor Maquiagem
O Grande Gatsby

O Grande Gatsby segue a tradição da filmografia de Baz Lurhmann no impecável tratamento visual que o diretor sempre confere à época que pretende retratar no seu filme. O trabalho da equipe de maquiagem procura trazer para o longa em penteados e tonalidades nos rostos o visual da juventude abastada dos anos de 1930, a pouca preocupação com a aparência dos trabalhadores do Vale das Cinzas e as cores vivas e exageradas no "inferninho" de Myrtle e suas amigas. O trabalho da equipe de Luhrmann nesse novo filme não destoa dos demais aspectos do longa, nem apresenta as estilizações interessantes que eles aplicaram em Moulin Rouge! - Amor em Vermelho, de 2001, trabalho que foi indicado ao Oscar na categoria naquele ano. No entanto, preferido nos sites de maquiagem em 2013, o trabalho do filme merece a menção pela fidelidade e pela "discreta" exuberância em um ano repetitivo ou pouco expressivo nesse quesito.