sábado, 21 de dezembro de 2013

Listão 2013 - Nacional

Melhor Filme
O Som ao Redor
Dir.: Kleber Mendonça Filho
 
Apesar das dúzias de comédias televisivas produzidas pela Globo Filmes serem o grande filão atual do cinema nacional, 2013 mostrou-se como um ano marcado por grandes obras que deram um novo gás na cinematografia brasileira, a principal delas é O Som ao Redor, do pernambucano Klebber Mendonça Filho. O filme apresenta, como poucas vezes foi visto no cinema nacional, um olhar clínico para os principais tumores da classe média brasileira. O Som ao Redor transforma um condomínio recifense de casas e prédios em um verdadeiro laboratório que permite o espectador identificar as fragilidades e as tensões silenciadas das relações de classe que permeiam a vida nesses habitats urbanos. Nunca uma paisagem tão familiar e banal nos pareceu tão rica em nuances e camadas conflitivas. O Som ao Redor não é só uma amostra do quanto nosso cinema pode ser relevante e inventivo em termos narrativos, mas também um exemplar da nossa cinematografia que escancara a origem dos principais problemas de nossa sociedade sem assumir um tom panfletário ou distante demais do espectador com conjecturações metafóricas tão comuns no cinema independente nacional.
 

Melhor Atriz
Alessandra Negrini
O Abismo Prateado

"Olhos nos Olhos" de Chico Buarque inspirou o novo drama de Karim Aïnouz, O Abismo Prateado, e ganhou em Violeta, personagem composta belissimamente por Alessandra Negrini, uma interlocutora. O longa acompanha o inferno da personagem madrugada afora tentando assimilar a rejeição do marido, que subitamente saiu de casa deixando um seco e pouco elucidativo bilhete de despedida. Negrini vive todas as emoções da personagem com a alma virada do avesso até encontrar o seu ponto de virada na história. A decisão acertada de Aïnouz em concentrar todas as atenções da sua câmera na performance de Negrini a favorece e O Abismo Prateado não teria o mesmo resultado não fosse o empenho e o talento da atriz que consagra-se como uma das grandes musas do cinema brasileiro contemporâneo.

Melhor Ator
Fabrício Bolivera
Faroeste Caboclo

Fabrício Boliveira foi João de Santo Cristo. Olhando para trás não conseguimos imaginar outro ator para incorporar esse icônico personagem de "Faroeste Caboclo" de Renato Russo. A surpreendentemente bem sucedida adaptação de René Sampaio para a canção não seria a mesma caso contasse com um ator menos interessante que Boliveira no papel. Como Santo Cristo, Boliveira contornou as armadilhas do herói romântico e deu vida a um personagem cheio de camadas e de falhas, como qualquer ser humano, mas nobre em seus sentimentos por Maria Lúcia, o que não significa que em nome desse não seja capaz de flertar com a ilicitude. Assim, caminhando entre a retidão de caráter e certas decisões questionáveis, o ator compõe o clássico anti-herói brasileiro. Por oscilar tão bem nessas diversas facetas de Santo Cristo, Boliveira merece alguns dos principais créditos, que não são poucos, de Faroeste Caboclo.
 
Melhor Atriz Coadjuvante
Maeve Jinkings
O Som ao Redor

O desempenho mais marcante de O Som ao Redor é da brasiliense Maeve Jinkings. No filme de Klebber Mendonça Filho, Jinkings vive Bia, uma dona de casa que divide o seu dia entre os afazeres domésticos, os cuidados com seus filhos e as projeções que faz do mundo fora dos muros do condomínio em que vive. Bia é uma daquelas mulheres que vive a vida no automático e fica satisfeita com a rotina que leva por achar que não consegue nada melhor do que aquilo. Jinkings articula muito bem o mix de sentimentos e reações que permeiam essa personagem, entre eles a constante ausência, a inquietação e a voraz curiosidade com o que acontece fora da janela da sua própria casa. Não tem outra palavra para definir o desempenho de Jinkings em O Som ao Redor a não ser "brilhante".


Melhor Ator Coadjuvante
Lima Duarte
A Busca

Quando Theo, personagem de Wagner Moura em A Busca, encontra seu pai, vivido por Lima Duarte, isso acontece no terceiro e derradeiro ato do filme, mas é o suficiente para o veterano deixar a sua marca no longa e mostrar porque é um dos grandes atores desse país. O duelo que Duarte trava com Wagner Moura no desfecho de A Busca traz um dos diálogos mais comoventes do cinema em 2013 e define o grande propósito do filme ao abordar os meandros das relações entre pais e filhos em seus diversos componentes: a mágoa, o ódio, as expectativas, a admiração, o respeito, o carinho. Nenhum outro ator brasileiro consegue dar vida a personagens simples como este de A Busca trazendo ainda aquela típica sabedoria de muito chão percorrido como Lima Duarte.

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