sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Crítica: Ninfomaníaca - Volume 1

 
Emitir qualquer avaliação sobre Ninfomaníaca - Volume 1, antes de mais nada, me parece um exercício precoce. Tecnicamente, Ninfomaníaca - Volume 1 é um filme incompleto, o primeiro ato e a metade do segundo ato de um longa metragem. O Volume 1 passa uma clara sensação de incompletude, de raciocínio e proposta interrompida. Ao final de Ninfomaníaca - Volume 1, não se tem uma ideia muito precisa sobre o que de fato o cineasta Lars Von Trier quer abordar no seu filme e que tom ou mensagem ele quer passar. Caso a sensação permaneça no Volume 2, podemos condenar essa nova empreitada do diretor como a mais redundante da sua carreira. Digo redundante porque todo o arsenal cinematográfico utilizado por Trier no Volume 1 de Ninfomaníaca parece uma ligeira reciclagem do que o diretor já utilizou com muito mais brilhantismo nos seus projetos anteriores, principalmente o mais repudiado filme da sua carreira, Anticristo.
 
Ninfomaníaca acompanha as experiências sexuais de Joe, que faz todos esses relatos a Seligman, um homem que a resgata após encontrá-la deitada na rua com alguns hematomas. Diagnosticada como ninfomaníaca, Joe conta a esse personagem sua descoberta da sexualidade na adolescência, sua relação com seu pai e o seu primeiro e único amor, Jerôme (Shia LaBeouf, menos relevante que o usual). Transformando o encontro de Joe e Seligman em uma espécie de divã filmado, trazendo as demais passagens em flashback, Ninfomaníaca é o filme de Lars Von Trier que mais abertamente utiliza a psicanálise como sua linha de raciocínio. No entanto, este uso não é tão eficiente quanto Anticristo, por exemplo, que também abordava a culpa através do sexo como uma espécie de ferida aberta na trajetória feminina. Em Anticristo, as conversas entre os personagens de Charlotte Gainsbourg e Willem Dafoe faziam todo sentido pois ele era um psicólogo e estava de fato submetendo sua esposa (Gainsbourg) a um tratamento. Em Ninfomaníaca, os diálogos entre Seligman e Joe fazem sentido, através de analogias muito interessantes, mas surgem como o aspecto mais inorgânico de todo o filme, soltos.
 
Vale ressaltar que não é somente sobre a culpa oriunda do sexo que Trier quer tratar em Ninfomaníaca. Pessimista convicto (e aqui ele nos prega uma peça no final do Volume 1, que quase nos faz acreditar que dará uma "redenção" para a sua protagonista através de uma relação sexual com Jerôme), Trier discute o lugar do amor em nossas vidas, mostrando que ele, um sentimento tido como nobre e puro, pode ser muito mais cruel do que que qualquer outro aspecto comumente filiado a construções negativas, como a sexualidade. Assim, Ninfomaníaca torna-se uma obra coerente com a visão do seu realizador sobre a humanidade, nada sai ileso, nada é passível de redenção, mas tem seus percalços nos detalhes.
 
Von Trier quebrou um pouco esta sua concepção pessimista sobre o homem em Melancolia, o antecessor de Ninfomaníaca, um filme essencialmente trágico, mas o mais esperançoso da sua carreira. No entanto, afirmar o que o Lars Von Trier de Ninfomaníaca nos revelará ainda é precoce pois sabemos que rumo a história de Joe só virá no Volume 2. O que se pode afirmar é que existe coerência em Ninfomaníaca, uma relação coesa entre realizador e obra que, apesar de carecer da ousadia que tanto foi anunciada - Anticristo é infinitamente mais chocante e sombrio, aqui até existe uma certa ironia na forma com que o diretor trata as situações que envolvem seus personagens - é um filme que vai muito além de propósitos fetichistas.
 
Charlotte Gainsbourg ainda não pode ser avaliada em seu trabalho na fita pois a sua Joe só surge em cena nas "sessões" de análise com Seligman, personagem de Stellan Skarsgard. Como o Volume 1 centra-se na juventude de Joe, a jovem Stacy Martin é a protagonista dessa parte e não faz feio. Martin compõe Joe como uma jovem distante, fria, uma mulher com uma evidente dificuldade, não de exteriorizar sentimentos, mas de sentir algo por alguém. Provavelmente, ou ao menos esperamos, a origem do comportamento de Joe poderá ser revelada no Volume 2, mas temos leves pistas aqui sobre sua vinculação com o casamento de seus pais. Interpretado com espantoso empenho por Christian Slater, o pai de Joe sofreu com a indiferença da mulher, esse dado parece atingir a jovem em cheio, tornando-a objetiva, mecânica e direta em suas relações pessoais. Encerrando o quadro de ótimas interpretações nesse primeiro capítulo está Uma Thurman. Impecável como a mulher de um dos amantes de Joe, ela surge no apartamento da personagem para protagonizar uma cena patética e constrangedora de desforra só que de uma forma nada convencional.
 
Ao menos a julgar por esse primeiro capítulo, há menos sexo explícito ou bizarro do que a publicidade de Ninfomaníaca prenunciava, um dado que pode apontar para a nossa necessidade de maximizar tudo que tem a mínima vinculação com a sexualidade ou uma estratégia esperta do seu realizador de atrair a audiência das plateias (mais polêmicas...). O fato é que o mais decepcionante em Ninfomaníaca, repito, a julgar por esse primeiro volume, é que o Lars Von Trier surpreendente e de estética e narrativa apuradas de filmes como Dogville e Melancolia dá lugar a um diretor morno e de ideias recicladas. O filme é coerente consigo e coerente com o que o realizador nos entregou até então, mas, ocasionalmente perdido e repetitivo e, normalmente, diretores buscam sempre um passo adiante em seus próprios universos. Ninfomaníaca parece um Lars Von Trier extremamente acomodado.
 
P.S.: Não fiz cotações para o longa pois esperarei o Volume 2 chegar aos cinemas para ter um julgamento mais preciso e justo com a obra.

 
Nymphomaniac - Volume 1, 2014. Dir.: Lars Von Trier. Roteiro: Lars Von Trier. Elenco: Charlotte Gainsbourg, Stellan Skarsgard, Stacy Martin, Shia LaBeouf, Uma Thurman, Christian Slater, Sophie Kennedy Clark, Mia Goth, Hugo Speer, Udo Kier, Connie Nielsen. 122 min. Califórnia Filmes. 

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